17 - ACIDENTE

Emily White passou a ser temida e evitada por seus colegas. Após o incidente da noite de Natal, tentei conversar com a garota, mas ela se esquivou mais de uma vez. Resolvi respeitar o seu espaço e não insisti mais em nossa conversação, estava certa de que Emily, cedo ou tarde, procurar-me-ia. Mas ela não o fez.

Esquecendo o incidente — ou ao menos fingindo esquecer — eu procurei me tornar amiga de Emily e consegui. Dessa forma, andaria perto dela e descobriria o que pudesse acerca de sua vida misteriosa. Mas o acontecimento que relato aqui não foi presenciado apenas por mim porque estivesse junto a Emily, mas pela escola inteira. Deu-se que foi decidido abrir um Clube de Duelos, como acontecera em meu segundo ano de Hogwarts, mas com estrutura e regras diferentes. Entre outros alunos, Emily foi sorteada para duelar com o filho de Potter.

Seguiu-se um duelo tranquilo e justo. Embora Albus fosse mais velho e experiente, os feitiços de Emily não ficavam para trás. Como eu tivesse os olhos grudados nas duas crianças, pude notar quando o jovem Potter sorriu para a pequena White, que retribuiu. Foi nesse momento que feitiços perigosíssimos e maldições irromperam da varinha da garota, e Albus tentou desviar-se, mas teve o braço atingido, que começou a sangrar. Um feitiço estuporante muito forte atingiu uma terceiranista, que foi lançada ao longe. Irromperam os gritos, iniciou-se a correria desenfreada. Segurei Emily pelos ombros e tentei impedi-la, mas o braço permanecia firme como o de uma estátua de pedra e a varinha ainda disparava feitiços, que arrasavam as paredes e o que encontrassem pela frente. Gritei o nome da garota, pedi que parasse, mas ela, com os olhos vidrados, parecia fora de si. Potter, então, esquivando-se da multidão, com o braço esquerdo sangrando, arremessou-se sobre Emily, tapando-lhe os olhos. Quis repreendê-lo, porque ela caíra de costas ao chão, mas não o fiz, pois que no mesmo instante a varinha parou de expelir feitiços e o braço rígido cedeu.

— Vamos levá-la ao salão comunal — falou Albus ofegante, enquanto eu erguia a pequena nos braços.

— Vocês precisam da Ala Hospitalar — discordei.

— Não, professora, confie em mim. Vamos levá-la ao salão comunal.

Cedi, sem contestar. A balbúrdia ainda era intensa no Salão Principal e ninguém nos seguiu, embora o salão comunal estivesse relativamente cheio das pessoas que para lá correram. Albus gritou que se afastassem, deixando o sofá desocupado para que deitássemos a garota desacordada. Os curiosos nos cercaram, apesar dos meus protestos, vindos de uma voz totalmente desesperada.

— Precisamos levá-la à Ala Hospitalar — repeti —é loucura mantê-la aqui.

Albus não parecia menos desesperado.

— Se a levarmos para lá, mandam-na ao Saint Mungus.

— E se ficar aqui, vai morrer. E VOCÊS CALEM A BOCA!

Os sonserinos nos cercavam cada vez mais, alguns fazendo comentários maldosos e bastante audíveis. Perdi o controle que me restava e bradei-lhes uma infinidade de moralidades, aproveitando da autoridade que possuía. Quase todos os alunos me estimavam, o que os levou a se calarem. Os mais rebeldes — não eram mais que três ou quatro — foram arrastados do salão comunal pelos amigos.

— Ela está acordando! — exclamou Albus.

Emily ergueu-se lentamente, ajudada por mim e pelo jovem Potter. Os alunos que permaneceram no salão comunal já não faziam pilhérias, mas olhavam curiosos e alguns amedrontados.

— Tudo bem? — indaguei.

A garota assentiu e se entregou aos meus braços, num choro desesperado. Revi a cena imaginada em King's Cross e dupliquei o meu afeto. Disse a Albus que a levaria para o dormitório, e ele assentiu com o semblante claramente triste.

— Por que eu fiz aquilo? — indagou-me quando a coloquei sobre a cama.

— Não sei, minha flor, juro que não sei.

— É castigo de Deus por eu ser uma bruxa?

— É claro que não, Emily. Os bruxos não são necessariamente ruins, e você sabe disso. Há bruxos maus como há cristãos maus. Você só tem um dom muito forte e desconhecido, que estudaremos e descobriremos como controlar. Mas não se preocupe, que você tem à sua volta pessoas que a amam. Albus e eu, por exemplo, faremos de tudo para que se sinta confortável e feliz.

Abraçou-me novamente.

— Gosto de vocês também, e gosto muito.

Esperei que a pequena adormecesse e então a deixei. Bastou que ganhasse o salão comunal para que fosse abordada pelo jovem Scorpius. Estava praticamente vazia a sala, uma vez que a grande maioria dos alunos voltara para as suas atividades, já que apenas começava a anoitecer.

— Como ela está? — indagou.

— Está bem. Acaba de adormecer.

— A senhora tem ideia do que aconteceu?

— Ainda não tenho, Scorpius, mas investigaremos.

— Não quero que nada de ruim aconteça a ela.

— Eu não deixarei que aconteça.

Afaguei os cabelos do garoto e lhe dei as costas, mas me chamou de volta.

— Sim?

— A minha mãe foi embora para a Suíça. Papai me mandou uma coruja contando.

Voltei minha atenção a Scorpius, sem poder crer naquilo que ouvia.

— Eu sinto muito — falei por fim — muito mesmo.

— Eu não.

Estranhei aquele comportamento, mesmo vindo de um garoto tão frio quanto o pai.

— Mamãe não gostava de mim — continuou — nem de papai. Casou-se com ele porque a família a pressionou, mas abominava a ideia.

— Pensei que houvessem namorado durante os últimos anos de Hogwarts.

— Namoraram, mas não creio que quisessem realmente se casar.

— Que seja, mas isso não quer dizer que a sua mãe não o ame. A mãe sempre ama o filho, incondicionalmente.

— Pessoas boas como você pensam assim, mas não é regra geral.

Senti-me um tanto desconcertada por ouvir aquelas palavras de um garoto tão jovem, e não pude deixar de admitir que estivesse certo.

— De qualquer forma — prosseguiu — papai gosta muito de você.

É possível que eu tenha enrubescido, mas sorri para disfarçar o constrangimento.

— Ora, Scorpius...

— Eu não ligaria de ganhar uma madrasta. Uma boa madrasta.

E se retirou com o mesmo sorriso torto do pai, deixando-me enraizada ao chão. Eu demoraria ainda algumas horas para absorver totalmente aquela história e todo o seu significado. Era possível que Malfoy realmente gostasse de mim, e tal certeza me causava desconforto. Era algo a que eu nunca poderia corresponder. Ninguém ocuparia jamais um lugar que você perpetuara.

INTERLÚDIO

Uma vez que ainda faltavam alguns dias para que atingisse a maioridade, cheguei de trem ao bairro onde outrora aparatara com você. Apesar da aproximação do verão, o tempo estava frio e eu ia encolhida, arrastando o malão pelas ruas sombrias, já que a noite ia caindo depressa.

O interior da sua casa parecia mais frio que qualquer rua pela qual passara. Praticamente inóspito. Levei o malão até o andar de cima, onde nas outras férias costumava ser meu quarto e limpei muito mal a casa. Não ousei adentrar o seu quarto, não exatamente por respeito, mas porque seria invadida por uma torrente de lembranças.

Eu estava absolutamente fatigada quando sentei em frente à lareira. Fazer o serviço doméstico sem utilizar magia não era algo fácil. Amaldiçoei a minha menoridade, posteriormente as leis. Ri delas, desdenhei-as, depois me ergui e busquei uma garrafa de vinho. Bebi-a inteira frente à lareira, deixando que o calor da bebida aquecesse-me o corpo e turvasse-me os pensamentos. Ainda assim, chorei, porque o torpor do álcool não me fazia esquecer os tempos de outrora, o seu calor, a plenitude de um ano atrás. Pensava em onde você estaria, se estaria bem, se estaria vivo. E por fim adormeci, vindo a acordar apenas na manhã seguinte.

Os dias se tornaram mais longos e as noites eram eternas vigílias. Ao terceiro não suportei mais o marasmo e a solidão, cogitei o suicídio e fui salva pela sua vasta quantidade de livros. A maioria continha assuntos mágicos, mas uma boa parte era de autores trouxas de várias nacionalidades, traduzidos para a língua inglesa.

Enfastiada dos livros parti para a rua, ignorando a sua recomendação por segurança. Caminhava todas as tardes pelas proximidades, observando cada pessoa que passava por ali. Ao fim de alguns dias eu já conhecia alguns rostos, e não me admirei quando certo senhor, que já há dias me observava à porta de um bar, abordou-me. Em outra época eu o temeria e até correria de lá, mas absolutamente não me preocupava mais com a minha segurança. Qualquer promessa de assassinato me seria um favor.

— Que quer o senhor? — indaguei.

Ele me observou por alguns segundos e não me respondeu à pergunta, mas aplicou outra.

— Você é uma bruxa?

Pensei em negar, por segurança, mas não o fiz.

— Sim, sou.

— De Hogwarts?

— Estou passando as férias em casa.

— Percebi que era bruxa, farejo a magia ao longe. Sonserina também?

Estreitei os olhos, estranhando deveras.

— Como sabe?

— Apenas arrisquei. Sou Dave Murray — estendeu-me a mão, que apertei.

— Pansy Parkinson.

— Sua família é de Comensais da Morte — afirmou.

— Não tenho nada a ver com isso — retruquei, incomodada.

— Não pense que acho ruim, menina. Só não entrei para o exército do Lord porque não sou qualificado, mas invejo aqueles que lá estão. Ah, mas os tempos mudaram e o Lord ascendeu. A magia comandará tudo!

— Se a venera tanto, o que faz em uma rua trouxa?

— É a pobreza, querida, a maldita pobreza. Mas quando os trouxas forem exterminados...

— Muito bem, continue esperando.

Fiz menção de lhe dar as costas, mas ele correu e se pôs à minha frente.

— Você não parece concordar com os ideais do Lord.

— Não lhe diz respeito com o que concordo ou de que discordo. Agora, com licença...

— Não, por favor, fique — implorou, tentando deixar dócil um semblante malicioso — há muito não tenho contato direto com bruxos. Contato progressivo. Ah, não parece, querida, mas tenho vasto conhecimento em magia. Fui o melhor sonserino de minha época, sim.

— Sério? Parabéns.

— Não desdenhe, menininha, não desdenhe. Venha, sente comigo a uma mesa e aceite uma bebida. Um suco, que seja, porque é ainda criança, não?

Assenti. Eu não deveria andar sozinha na rua, conversar com estranhos, tampouco sentar-me à mesa de um bar com um aspirante frustrado à Comensal da Morte. Mas eu desejava correr riscos. Era adolescente e era infeliz.

— Já pode utilizar magia fora da escola? — ele indagou quando chegaram nossos sucos.

— Não.

— Mas deve ter uma varinha...

— Naturalmente.

— Pela sua estrutura frágil, mas imponente, é uma varinha de cedro, não?

Desta feita, vi-me assombrada. Ele não poderia adivinhar tantas coisas.

— Você é Legilimens, não? — indaguei.

Ele riu, com uma expressão que mostrava o puro desgosto.

— Ah, não, não absolutamente, lindinha. Fosse isso, teria sido aceito pelo Lord. Apenas os grandes bruxos são capazes da Legilimência. Os mais inteligentes. Fui contemporâneo a um, Severus Snape. Ah, que garoto brilhante!

Foi inevitável que meu coração disparasse, mas por dentro me ri do acaso. Você sempre seria lembrando, ainda que ausente. Até por um estranho.

— Morava aqui perto — continuou — além da escola, eu o via às vezes por aqui durante as férias, mas depois que terminou, nunca mais apareceu.

— Ah — fingi o desinteresse pensando em sua segurança e mudei de assunto — mas o senhor adivinhou o material de minha varinha. Se não é um Legilimens...

— É claro, fui fabricante de varinhas por pouco tempo. Estudei tanto o assunto e de nada me valeu. Quem é que pode competir com Olivaras?

Então uma ideia me ocorreu, e agradeci por ter voltado sem querer ao assunto das varinhas. Não hesitei em falar, uma vez que o Sr. Murray não me parecia uma pessoa exatamente normal.

— Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?

— É claro que sim, menina.

— Sobre a Varinha das Varinhas...

— Aquela do conto de Beedle?

— Exatamente. Sabe, às vezes penso que a existência dela não é só uma lenda.

O homem me estudou com admiração.

— Olha que garotinha exótica e inteligente! É claro que não é só uma lenda.

No fundo, eu queria que ele dissesse o contrário, queria que risse, que me garantisse que eu estava variando. Mas, ao contrário, a convicção em seus olhos era tão absoluta quanto o encantamento.

— Mas a Morte... A Morte realmente entregou a Varinha das Varinhas na mão do terceiro irmão?

— Ah, isso não. Aí é que entra a lenda, o conto de moralização. Mas a essência é real, e a varinha realmente existe. Uma varinha poderosa, capaz de derrotar qualquer outra no mundo. Uma varinha que muda de dono apenas pela derrota de tal em um duelo. Mas não, querida, não foi entregue pela Morte. Alguns estudiosos de varinhas chegaram à conclusão que os irmãos Peverell criaram as relíquias, as três.

— Então a Pedra da Ressurreição e a Capa de Invisibilidade existem? Eu digo, a capa imbatível, que não se danifica com o tempo?

— Eu acredito que sim, embora a minha especialidade seja a varinha. Ah, minha querida, a varinha existe com certeza, e chama-se Varinha do Destino. Agora ligar a realidade à lenda é uma questão de estudo e crença. Eu, particularmente, acredito.

— E quanto ao rastro sangrento?

— É algo menos místico do que se possa imaginar. A maldade e a ganância por poder são as bases dessa história, e isso é absolutamente real.

— E muita gente tem conhecimento dessa Varinha do Destino?

— Não, pouquíssimos. Mais quem se aprofunda no estudo de varinhas. Olha, se você se interessa pelo assunto, posso te ensinar tudo o que eu sei sobre varinhas, e não cobro caro.

— Não, obrigada. É só curiosidade, porque sempre gostei d'O Conto dos Três Irmãos. Bom, estou satisfeita, e creio que não me cobrará por esta conversa.

— Mas de forma alguma, menina. Podemos conversar muito mais.

— Eu preciso voltar para casa, meu noivo me aguarda.

— Você tem noivo? Mas tão novinha! Ele é bruxo?

— Um bruxo extremamente competente, diga-se de passagem. Tenha uma boa tarde, Sr. Murray.

Caminhei de volta para a sua casa pensando na história da Varinha, na qual não queria acreditar. E eu desejava de todo o coração que a mentira que pregara ao estranho fosse a mais pura verdade. A única verdade, que fosse.