18 – POSTUMAMENTE
O mês de fevereiro foi ainda marcado por uma excursão à Hogsmeade, da qual não participei. Eu geralmente evitava o lugar, para, então, evitar lembranças boas transfiguradas em dor. Visto que praticamente todos os alunos a partir do terceiro ano fossem à vila, a escola estava relativamente vazia, e aproveitei a solidão dos jardins para refletir sobre as novidades. Malfoy, então, divorciara-se realmente de Astoria, e possivelmente por culpa minha. Não que eu desejasse Draco, mas um amargor recôndito fazia com que me sentisse feliz ao presenciar ou saber da dissolução de um relacionamento. Quando Teddy Lupin deixou Victoire Weasley por mim, eu não consegui assumir à hora, mas o tempo me fez aceitar que a situação não me desagradava. Não por orgulho feminino, era só o amargor. O puro amargor.
Por se tratar do mês de fevereiro, o frio ainda era intenso, mas já não nevava. Eu adorava aquele tempo, aquela névoa... Gostava mais, entretanto, quando a chuva começava a cair em plena tarde de verão. Porque ela vinha inesperada, trazendo refrescância para as longas horas de calor intenso. Fugaz como os poucos minutos em sua presença, mas necessária pelo alívio imediato daquele desconforto… Tal qual estar diante de você. Era bom sentir o vento, as gotas grossas contra o meu rosto. E o melhor de tudo era esperar que aquelas palavras se repetissem um dia. Algum dia. "Parkinson, se continuar na chuva vai adoecer". Não havia exatamente preocupação, mas um quê de advertência. De qualquer forma, era a sua voz. E direcionada a mim. Mas era essa uma reminiscência como qualquer outra. Sua voz nunca me tornaria a chamar e a chuva nunca mais cairia tão suave. Era se conformar com a névoa que, de qualquer forma, se assemelhava mais ao meu estado de espírito.
Eu já viajava no passado quando os meus olhos turvos encontraram uma figura pequena e conhecida, constantemente envolta em névoa, mas que a bruma física acentuava ainda mais o seu mistério. Ao acercar-se de mim, sorriu.
— Por que não foi a Hogsmeade? — indagou-me.
— Não sei se ainda gosto de lá.
— Você está triste hoje.
— Acho que estou triste sempre.
— Por causa de sua família?
— Não exatamente.
O silêncio de Emily não durou mais que um minuto, não porque tornasse ao assunto, mas porque surgiu um terceiro membro à nossa entrevista. Albus Potter veio com um belo sorriso e seus costumeiros cumprimentos gentis.
— Como vão os seus pais, Albus? — indaguei, sem saber por quê. Creio que buscava um assunto menos denso.
— Vão bem — respondeu-me de prontidão — vivem envolvidos em tarefas perigosas porque são aurores, mas sempre se saem bem. Quero ser como eles.
— Você daria um ótimo auror.
— Eu também acho — concordou a garota.
— E você já sabe o que quer ser, Emily? — perguntei.
— Não. Eu ainda estou muito deslumbrada com tudo e não conseguiria escolher algo se tivesse de fazer a opção agora.
— Emily deveria trabalhar no Departamento de Mistérios do Ministério da Magia — afirmou Albus com veemência.
— É mesmo? — indaguei curiosa.
— Para intérprete de profecias. Nunca vi ninguém desmistificar palavras tão bem, nem resolver charadas em tempo recorde.
— Que interessante, Emily.
Ao contrário, a conversa não me parecia nada interessante, mas cansativa. Apenas fui ligar importância a ela horas depois, à mesa do meu escritório, quando, ao olhar com mais cuidado para o armário, lembrei-me que lá havia uma caixinha. E quase corri até o salão comunal, agradecendo, em seguida, por Emily não estar acompanhada por Albus e Scorpius.
— Emily, eu posso lhe falar?
— É claro que sim.
— Vamos ao meu escritório.
Emily não parecia assustada ou curiosa quando se sentou à minha frente. Aguardaria pacientemente que eu falasse, mas não a fiz esperar.
— Emily, Albus disse que você tem habilidade com enigmas, sabe desmistificar palavras.
— Certo.
— Talvez você pudesse me ajudar...
— Com o maior prazer.
— Alguém me deixou uma caixinha com conteúdo que desconheço, porque ainda não consegui abri-la. Alguém muito importante para mim, Emily, que já não vive entre nós.
E, por palavras resumidas, contei a forma de como ganhara a caixinha, a minha ida ao cemitério e à sua casa, o anagrama e as frases, de modo que ela pudesse entender sem que conhecesse a história inteira. Por fim, suspirei, como se discorrer tal assunto me causasse um cansaço quase físico.
— Posso ver a caixinha? — indagou-me por fim.
— Claro.
Coloquei a caixinha diante de Emily e ela a estudou cuidadosamente. Leu e releu a frase impressa em voz baixa: "Por um pequeno feixe de luz, a escuridão deixa de ser absoluta." Calou-se por quase um minuto inteiro, pensativa, depois levantou a cabeça com a luz do esclarecimento nos olhos negros.
— Você disse que foi levada, por uma frase, ao cemitério onde ele está sepultado, e lá encontrou outra, certo?
— Certo.
— Você acha que ele teria o sangue frio o suficiente para deixar tudo pronto, supondo que morreria, uma vez que ele obviamente pôs aquela inscrição no túmulo ainda em vida?
— Positivamente.
— Pois bem... Você voltou à casa dele, certo? Ao "calor da morada gentil".
— Sim.
— E você me disse, muito por cima, que aquele lugar guardava lembranças muito fortes. Imagino que lembranças boas, ou estou errada?
— Você está certa.
— Então acho que desvendamos o mistério. Veja essa frase: "Por um pequeno feixe de luz, a escuridão deixa de ser absoluta". Em relação a ele, qual é a única fonte de felicidade? O presente é que não, suponho. Então...
Fez-se a luz. Com um esgar de assombro, tentei articular algumas palavras, mas perdi-as no meio do caminho. E só consegui dizer esta: "Lembranças".
— Lembranças — repetiu — lembranças boas. Eu não, mas você, eu tenho certeza de que é capaz de extraí-las. Como se fosse vê-las em uma penseira.
Assenti e fechei os olhos, relembrando cada momento especial entre nós, principalmente os que passamos em sua casa, em férias tão remotas, ou o meu aniversário no parque. Emily permanecia tão silenciosa que poderia ter sumido magicamente, como fruto de minha imaginação. Mas ela ainda estava no mesmo lugar — sentada sobre a cadeira à minha frente — quando abri os olhos e extraí de minha cabeça a substância prateada, nem líquido nem gás, e despejei-a sobre a caixinha. Durante alguns segundos nada aconteceu, Emily e eu praticamente prendemos a respiração enquanto observávamos a névoa alva que envolvia o invólucro daquele segredo indecifrável.
— Ele gostava de mistérios — Emily comentou, sem tirar os olhos da caixinha.
— Você nem imagina o quanto — respondi, olhando para a mesma direção que a pequena, com um sorriso que previa o sucesso — sempre tive de decifrar tudo o que ele me dizia.
— Coisas assim têm mais valor do que aquelas ditas de uma vez, com simplicidade.
— Eu concordo com você.
— Olhe, Pansy!
Com um breve estampido a pequena arca abriu, como se a tampa descolasse da base. Tremi, tremi veementemente, sem poder estender as minhas mãos e puxá-la.
— Você é um gênio, Emily — eu falei com a voz entrecortada pela emoção — um gênio. Eu nunca lhe poderei ser grata.
— Não precisa agradecer. Eu gosto muito de você, é uma satisfação poder ajudá-la — ergueu-se — mas acho que você deve ver o conteúdo sozinha. Estarei no salão comunal.
Assenti, incapaz de articular palavras. Quando Emily fechou a porta atrás de si, puxei a caixinha, mas ainda não a abri. Pensei na genialidade da menina, como decifrara tão rapidamente um segredo que eu, com toda a experiência que adquiri com o passar daqueles trinta e poucos anos, não fui capaz de decodificar. Eu ansiava e tremia, temendo o que encontraria ao levantar a tampa da caixinha. Fechei os olhos e inspirei o ar tépido do meu escritório, controlando mentalmente as minhas emoções.
— Calma, Pansy — murmurei comigo mesma.
E finalmente ergui a tampa da caixinha. Não havia lá qualquer coisa de extraordinária, apenas um pergaminho, que tomei e desenrolei, os olhos lacrimejando por reconhecer nele a sua letra. Afastei a caixinha, sequei os olhos com o dorso da mão direita e me pus a ler calmamente, para não perder nenhuma palavra daquele documento tão almejado. Ei-lo:
"À minha cara Pansy Parkinson, que conhece como ninguém a dificuldade que possuo em demonstrar os meus sentimentos.
É por esse motivo que deixo este documento, esperando que nele esteja impresso tudo aquilo que jamais tive coragem de dizer ou fazer, não por orgulho, mas por medo. É triste e quase desesperador o motivo que me põe a pena na mão: Estou morto. De outra forma, a caixa de carvalho e o seu conteúdo jamais chegariam até você. Eu sempre tentaria, de uma forma ou de outra, dizer-lhe ou demonstrar-lhe o que temos aqui, mas a minha vida se esgota a cada segundo. Você estava certa, sempre esteve... Descobri que o Lord das Trevas procura uma varinha imbatível, e logo saberá que ela foi de Dumbledore. É questão de ligar os pontos e vir a mim. Mas não sinto medo de morrer, minha cara, nunca senti. Por alguns momentos essa ideia até me foi reconfortante, mas não agora. Meu medo é deixá-la, não porque a julgue fraca, mas porque me julgo fraco. Se existe o mundo póstumo para onde vai a nossa alma, como você acredita, sentirei a sua falta nesse lugar. Mas vamos ao desabafo...
Eu lhe disse certa vez que a amei quando você era ainda uma criança, mas não podia e jamais desejava corromper-lhe a infância, por isso me recolhi à minha autorrepugnância, sentindo-me o ser mais vil de uma espécie inteiramente suja. Odiei o destino que sempre me fora cruel, primeiro por dar-me e tirar-me Lily Evans, mas você conhece a história e não é sobre esse fantasma que desejo discorrer — digo fantasma não porque esteja morta, mas porque esteja morta para mim. Devo admitir que por diversas vezes te repeli, tentando me afastar de você, mas foi inútil, a própria Guerra serviu para nos unir. E não tentei mais. Deve se lembrar que nossos lábios se tocaram certa vez, frente à lareira, e algumas outras, não muitas. Deve se lembrar de detalhes que eu já não seria capaz de lhe dizer, mas que ainda sinto cegamente. Outrossim, certamente se recorda do dia de seus dezesseis anos, quando fomos ao parque e ao teatro, e pudemos esquecer que estávamos em meio a uma guerra de tão grande porte. Era exatamente isso que você me oferecia, Pansy, refúgio. Guerra alguma é capaz de competir com a doçura dos seus olhos ou da sua voz. A paz não é abstrata, minha preciosidade, ela tem a sua face. E é essa paz que eu espero ter comigo no momento da partida.
Por outro lado, se me dou o direito de me autoconceder um último desejo, é esse o de sua felicidade. Você é fantástica, Pansy, e um futuro prodigioso a espera. Não deixe de vivê-lo por mim nem por coisa alguma. Seria um desperdício descartar um destino tão brilhante. Você será realizada e feliz, e terá, como Sherazade1, infinitas histórias para contar aos seus filhos. Sim, filhos. Ainda persisto na ideia de que você deve se casar com Draco Malfoy. Não jure fidelidade a mim, não desejo o seu luto, mas a felicidade. Guarde-me na memória, com afeto, mas jamais prenda a sua felicidade a mim, que não lhe poderei dá-la postumamente. Viva, Pansy, que tal dádiva possui um valor inestimável. É só agora, no fim da vida, que consigo enxergar o sentido de tudo isso, talvez porque antes me sentisse seguro a ponto de pensar que mal nenhum me atingiria. Ao menos não tão diretamente. E veja como sempre estive errado! Contradigo o que disse há pouco: Estou com medo. Fico me perguntando infantilmente se a morte é dolorosa ou se é como dormir, apenas com o acréscimo da certeza de não acordar. Mas sinto medo e queria poder abraçá-la. Gostaria de chorar um pouco, como há muito não faço. Olhe no que me tornei, Pansy! Veja que fraqueza! Quão decepcionada você possivelmente está agora, ao descobrir que o seu ídolo tem pés de barro2. Aproveito para pedir desculpas por não ter sido exatamente o que você esperava de mim. Asseguro que fui tudo o que poderia ter sido, mas admito que não me esforcei para ser mais. E me arrependo, mas agora não há mais tempo.
Concluo este escrito uma hora após tê-lo começado, e por todos esses longos minutos procurei uma forma rebuscada de lhe falar acerca do que sempre senti, mas não encontrei. Não me acodem mais as palavras a essa altura, então lhe direi de forma simples, mas concisa, o que você provavelmente sabe, e se não sabe, fica sabendo agora. Se por todo o tempo — sejam dias ou anos — que a afastou de mim e deste escrito você supôs que o seu amor por mim não fosse correspondido, fique sabendo agora que o é. E continuará dessa forma pelos próximos séculos.
Severus Prince Snape
p.s.: Conte a nossa história."
E fiquei ainda por alguns minutos a fitar o pergaminho sem ver coisa alguma. As lágrimas caíam de meus olhos sem nenhum esforço, tão veementes que me estremeciam os lábios, as mãos, todo o corpo. Quando despenquei sobre a mesa, um som rouco irrompeu de minha garganta. Tentara ser um grito, mas careceu de forças. Mãos de aço me apertaram o coração, pressionando todas as artérias, até finalmente estourar e cegar-me de dor.
INTERLÚDIO
As palavras de Dave Murray, o desconhecido do bar, acerca da Varinha das Varinhas, ainda ecoavam em minha mente ao final daquelas intermináveis férias. Em um compartimento vazio que a muito custo encontrei, pensava na minha certeza acerca da desgraça. Via os campos passarem depressa ao lado de fora e me perguntava quando te veria novamente. A palavra "nunca" me ocorrera várias vezes, mas eu a repeli como quem repele as palavras incômodas, mas verdadeiras de um inimigo.
Estranhei a ausência de Dumbledore ao banquete, mas conhecia o motivo, que, aliás, de certa forma decretava toda a sua desgraça. A minha desgraça. Ninguém discursou naquele ano, e a cerimônia de seleção dos primeiranistas nunca foi tão desanimada. Mas nada disso me interessava, e fui me deitar mais cedo que os outros.
No dia seguinte, porém, ao me encaminhar para uma aula de Poções, ouvi rumores que me interessaram e fui ter com os autores, que eram ninguém menos que Crabbe e Goyle.
— Você não acredita? — indagou Crabbe — Estamos falando sério.
— Como assim? — perguntei sentindo a ansiedade me invadir de uma vez — Vocês estão me dizendo que Snape voltou como diretor de Hogwarts?
— Não é ótimo? — falou Goyle sorrindo — Snape é absolutamente mais competente que o idiota do Dumbledore, embora eu ache...
Mas eu não ouvia mais as palavras dos meus colegas. Girei nos calcanhares.
— Aonde você vai, Pansy? — perguntou a voz distante de Crabbe.
— Entro na próxima aula.
— E Draco?
— Sei de Draco tanto quanto vocês.
Saí a passos largos, sem me importar com o que os rapazes pensariam. Tanto fazia a mim a opinião de dois biltres por quem eu não tinha a menor consideração. Venci rapidamente todos os lances de escadas e me vi, como no ano anterior, frente às gárgulas de pedra.
— Dumbledore — disse sem pensar em qualquer outra senha, e, para o meu maior espanto, as gárgulas se mexeram e a porta abriu, dando-me a passagem.
Irrompi no antigo escritório de Dumbledore, desta feita sem me importar com os objetos estranhos ou a fênix, uma vez que não via sinal nem de um nem de outro. Se estavam lá ou não, não sei dizer. Recordo-me apenas de seu rosto surpreso quando parei à sua frente sem ideia alguma do que dizer.
— Pansy Parkinson — você falou, após me estudar por alguns segundos — como foi de férias?
Não conseguia precisar, àquele momento, se amei ou odiei a sua ironia. Hoje asseguro a primeira hipótese.
— Fez-se diretor — falei, sentindo um sorriso se formar nos meus lábios.
— Fiz-me — você concordou, sorrindo também.
— E como estão as coisas no...
Você ergueu a mão pedindo silêncio e me indicou o saguão que vinha antes do escritório em si. Uma vez lá, você fechou as portas que separavam os dois ambientes.
— Não gosto de conversar perante os retratos dos diretores — você disse — não que eles possam fazer muita coisa, mas...
— Parecem vivos — observei — tenho medo.
— É uma magia realmente assombrosa essa dos retratos, mas não vem ao caso. Pansy, a Guerra estourou.
Meu estômago pareceu despencar.
— Como é? E você me diz isso com essa calma? Onde está o Potter?
— Foragido, é o que dizem, mas acredito que esteja trabalhando em alguma tarefa deixada por Dumbledore. Junto a ele os dois amigos, Ron Weasley e Hermione Granger.
— Então estão todos correndo riscos. Nós precisamos fazer alguma coisa.
— Admira-me a sua benevolência, mas não podemos fazer nada. Absolutamente nada. O Lord me mandou para cá, como diretor, para governar Hogwarts. Aceitei de prontidão, porque assim posso controlar as coisas por aqui. Temos Aleto e Amico Carrow como professores, e eles não são Comensais inexperientes.
— Temos Comensais como professores?
— Essa escola é do Lord agora, Pansy, bem como o Ministério e todo o mundo mágico. Você não lê o Profeta Diário?
— Há muito já me abstive daquela porcaria ufanista. Ufanista, é claro, para o lado daquele infeliz do...
— Não diga o nome, que se tornou tabu.
— Ora, eu não tenho medo dele nem de seu nome amaldiçoado. Mas, bom, não importa...
— Como estão as coisas em minha casa?
— Iguais, apenas um pouco mais poeirentas.
Percebi um breve sorriso, que me animou, mas em seguida lembrei-me de um assunto desagradável, mas relevante.
— Severus, eu conversei com um estranho perto de sua casa...
— Conversou com um estranho? O que foi que eu lhe recomendei?
— Calma, não aconteceu nada.
— Mas poderia ter acontecido.
— Pode escutar até o fim?
— Pois bem.
— O estranho em questão era um bruxo competente, ao menos quando se trata de varinhas. Ele confirmou a minha suspeita, a Varinha das Varinhas existe sobre o signo de Varinha do Destino. Uma varinha capaz de derrotar qualquer outra, desejo de qualquer estudante desse ramo ou dos ambiciosos que conhecem a sua existência.
— Talvez você esteja certa. Procurei sobre essa varinha em alguns livros, aqui na biblioteca de Hogwarts mesmo, e encontrei exatamente o que você acaba de me dizer.
— Então ele certamente virá até você.
— Continuo achando que ele não possui o conhecimento acerca dessa varinha, ou pelo menos de que ela tenha sido de Dumbledore. Ou já teria tentado colocar as mãos nela.
— Esquece que Você-Sabe-Quem temia Dumbledore? Mas agora ele está morto, não está? Não representa nenhuma ameaça, a menos que Você-Sabe-Quem tenha medo de fantasmas.
Você ensaiou outro sorriso, mas não o articulou. E, sem aviso prévio, abraçou-me. Meus sentidos, que não estavam preparados para aquele jorro de emoção, protestaram, e meu coração ribombou com ferocidade, em seguida enchendo-se de júbilo. Eu não deveria me sentir feliz perante aquelas circunstâncias, mas não era absolutamente capaz de impedir a paz que envolvia o meu coração como as mãos de um anjo.
Saí daquela entrevista com o coração absolutamente mais leve e me encaminhei ao segundo tempo da aula de Poções com um sorriso bobo no rosto. Pensei, por um momento, se Slughorn me deixaria ou não entrar, mas se não deixasse, bem, não faria mal. Entretanto, fui ainda mais atrasada pelo que me pareceu um obstáculo desagradável: Astoria Greengrass me abordou quando eu fazia uma volta no corredor do segundo andar.
— Podemos conversar, Parkinson?
— É claro. Algum problema?
— Não, nenhum. Eu apenas quero que saiba que não tenho nada contra você.
Estranhei a conversa. Astoria não me abordaria daquela forma para apenas dizer que "não tinha nada contra mim". Decidi, porém, entrar no jogo da garota.
— Eu não pensei o contrário, até porque não há motivo. Há?
— Não, quero dizer, é por causa do Draco, e tudo...
— Não se preocupe com isso, Astoria, que somos apenas amigos. Grandes amigos.
— Eu imaginei isso. Você é bem próxima dele, não?
— Aonde você quer chegar?
Astoria respirou fundo, depois seus ombros caíram um pouco, como se tirasse um grande peso das costas. Por fim, desabafou:
— Onde é que ele está? Por que não voltou para a escola? Pansy, ele está vivo?
— Com toda a minha sinceridade, Astoria, eu não sei. A última vez em que vi o Draco foi no dia da morte de Dumbledore, quando ele deixou a escola. Nunca mais conversamos, nem soube nada a seu respeito.
E então me dei conta de que realmente me esquecera de perguntar a você sobre Malfoy. De repente o meu amigo parecia um assunto irrelevante.
— Tudo bem, então.
O rosto da jovem Astoria, ao se retirar, era de luto. Percebi que suas mãos tremiam e os olhos marejavam, mas ela não me permitiu ver mais, virando as costas e me deixando. Dei de ombros e fiz o percurso interrompido.
- x -
A angústia de Greengrass acabaria pouco mais de uma semana após a nossa entrevista ao corredor, mas não cabe a mim — e mesmo não saberia — descrever o que ela sentiu ao reencontrar Malfoy. Vamos ao que se deu em nosso encontro.
Eu decidi passar aquele sábado na biblioteca, uma vez que as aulas dos Carrow possuíam muita violência e nenhum ensino verdadeiro. Foi preciso estudar por fora. Pois bem, eu ia concentrada em um livro intitulado O Mal Supremo, se não me engano, cujo autor não me recordo. Sei que completava a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, que se tornara apenas Arte das Trevas. Era um livro bem carregado, com textos e figuras macabros. Parecia claramente um livro de magia negra, não fosse pelo fato de que ensinava a combater tal prática. Mas eu estava positivamente assustada com as ilustrações, e não ajudou em nada que alguém assoprasse na minha orelha. Praticamente pulei da cadeira e protestei ruidosamente, o que provocou uma advertência verbal de Madame Pince.
— Seu idiota!
Contrariando a ofensa, meu rosto não demonstrava nenhum rastro de aversão. Senti-me feliz e mal pude acreditar ter o rosto de Draco Malfoy à minha frente, mesmo que fosse cansado e doentio.
— É assim que você me recebe? — disse a sua voz igualmente fatigada.
Não pude controlar a comoção e o abracei. Apesar dos meus desejos pela morte de Draco em momentos de desespero, eu o adorava, sempre o adorei.
— O que deu em você? Onde é que você estava? O que você esteve fazendo? Você enlouqueceu? Deixou um monte de gente morrendo de preocupação, sabia?
— Uma pergunta de cada vez, pode ser?
— Onde você estava?
— Não posso lhe dizer.
— Aposto que essa será a sua resposta constante. Você está acabado, Draco.
— Obrigado, você também está linda.
— O que é que está fazendo de sua vida? Draco, você está trilhando a estrada que vai lhe levar à morte...
— Isso eu já sei. Calemo-nos.
E me beijou antes que eu pudesse sequer pensar em protestar. Com a mesma rapidez, eu me esquivei.
— Olhe que conto para Astoria! — ameacei.
— Conta — ele desdenhou — não me importo.
Dei de ombros com um sorriso que julguei impertinente, guardei o material e entreguei o livro à Madame Pince, que me direcionou alguma bronca da qual não me recordo. Percebi que Malfoy me olhava com curiosidade, mas o contornei sem me dirigir a ele. Levantou-se, então, da cadeira que ocupara ao meu lado, e me alcançou já no corredor.
— Aonde é que você vai? — indagou alarmado.
— Conversar com Astoria, não é óbvio?
— Você não vai fazer isso.
— Por que não? Você disse que não se importa.
— É claro que eu me importo.
— Ah, o frio e cruel Malfoy está realmente apaixonado!
— Talvez — falou com um sorriso afetado, passando-me pelos ombros o braço esquerdo.
— Ela ficará feliz em vê-lo.
— E quanto a você, está feliz agora que ele voltou? E voltou como diretor, diga-se de passagem.
— Sim, eu estou feliz, Draco. Apesar de tudo.
— Logo essa Guerra acaba, favorecendo o nosso lado.
— O seu lado. Você acredita que vai mesmo se dar bem se Você-Sabe-Quem vencer?
— Ele saberá recompensar a minha família, certamente.
— Você é ingênuo, Draco.
— E você está ao lado do Potter.
— Eu não estou exatamente ao lado do Potter, mas não hei de discutir minha posição agora. Vá se entender com a doce Astoria, que lhe espera com os seus castos afetos.
Malfoy bateu carinhosamente na minha face direita.
— Irônica — sussurrou.
- x -
Aquele ano, que representaria o meu último em Hogwarts, foi melhor do que eu esperava. É certo que o caos reinava na escola, mas você me pareceu próximo como nunca. Não há que citar as nossas longas conversas ou os olhares que dispensavam palavras, mas foram estes numerosos e inesquecíveis, cada qual à sua maneira.
Outrossim, abster-me-ei de discorrer acerca de meus estudos, férias e relação com os amigos no referido ano. Nada saiu do normal, embora Hogwarts estivesse totalmente modificada. É realmente inútil citar. Quanto a Guerra, julguei que perduraria ainda por muito tempo, mas me enganei.
Maio acabara de começar. As noites primaveris conservavam um céu aberto, apto para o estudo de Astronomia, de modo que escapei do salão comunal para estudar as estrelas. Lembro que me deslumbrava com os astros, fazia anotações e cálculos, e tão imersa estava que só percebi a sua presença quando ouvi a tão conhecida voz. Teria sorrido se ela não me soasse tão ansiosa.
— Está tudo bem? — indaguei preocupada, afastando-me do telescópio.
— Vim me despedir — você respondeu em tom oscilante — por ora.
As mãos de aço, que depois se tornaram tão assíduas companheiras, apertaram-me o coração.
— Despedir? — indaguei a esmo.
— Há pessoas contra mim, Pansy, uma delas McGonagall. Eu já deveria estar bem distante agora, mas vi ao longe a torre de Astronomia iluminada por archotes e imaginei que você estivesse aqui. Foi o que me disse pela manhã, não? Que se a noite hoje estivesse boa, usá-la-ia para estudar o céu. Não importa, vim me despedir e é tudo.
Meus olhos já lacrimejavam com veemência.
— Por favor — implorei — por favor, não saia daqui. Não agora. Não hoje.
— Eu não quero lutar contra pessoas boas, Pansy, não desejo machucá-las.
— Hogwarts é enorme, podemos nos esconder.
— Não é uma atitude digna de mim.
— Então faça por mim, que estou lhe implorando. Vamos, arrumo um bom esconderijo, e podemos usar feitiços de desilusão, e...
— Não, Pansy! Hogwarts provavelmente sofrerá uma batalha. Comensais virão, estou certo que apenas esperam uma ordem dele. Eu não posso me esconder do Lord, uma vez que possuo a Marca Negra.
Meu coração acelerou desconfortavelmente, e por milésimos de segundo pude jurar que meu sangue se transformara em gelo. As suas palavras chegavam atrasadas ao meu raciocínio, como se as repelisse.
— Comensais? — indaguei, mal podendo ouvir a minha própria voz — Aqui em Hogwarts?
— Aleto Carrow os convocou, talvez tenha prendido algum intruso. Desconfio do próprio Harry Potter, mas não vem ao caso. Essa batalha será iminente e fatal, pela quantidade de pessoas envolvidas.
— Então fujo com você.
— Pansy, de uma vez por todas, não vou fugir. Talvez me una a eles, e...
— Unir-se aos Comensais?
— Tecnicamente sou um deles, não? Mas não há tempo para discussões, preciso ir. Olhe, que esta guerra me parece próxima do fim, e talvez quando voltar, já possa levá-la comigo.
Eu queria acreditar, positivamente queria, mas não pude. As mãos de aço me apertavam o coração cada vez mais forte, e meu choro já era contínuo, a ponto de embargar-me a voz.
— Você não volta, Severus — balbuciei — sei que não volta.
— É claro que volto. Se estou lhe prometendo...
— Não volta! Eu tenho certeza.
Com um gesto de impaciência, você fez menção de me dar as costas, mas não chegou a fazê-lo. Voltou-se e me olhou profundamente dentro dos olhos, mais intensamente que em qualquer momento anterior, e leu toda a angústia desconexa em minha mente. Seus olhos se encheram de pesar e você tentou fugir, mas eu o impedi, colocando-me à sua frente. E sem articular mais palavras, acerquei-me de você e uni os nossos lábios. Você não recuou, como presumi, mas me beijou aflito e tentou por mais de uma vez se desvencilhar, mas apenas o fez quando eu recuei, para lhe implorar novamente que não fosse. Tudo em vão. Você sussurrou o meu nome e desviou o rosto, depois o corpo inteiro. E saiu pela torre, usando a magia avançada que Voldemort lhe ensinara. Levou consigo a luz dos meus dias e de todas as estrelas que eu dantes observara. Levou-as nos seus olhos negros, que eu jamais tornaria a ver.
Sherazade1 – Personagem de As Mil e Uma Noites, cujo objetivo principal era contar uma infinidade de histórias, visando salvar a própria vida.
"ao descobrir que o seu ídolo tem pés de barro2" – Expressão bíblica, intitulada "O Sonho de Nabucodonosor", que teria sido imperador da Babilônia. Significa ter uma fraqueza, forte o suficiente para provocar uma queda iminente pela base, ou seja, os pés.
