19 - Reencontro
Ainda que me olhasse com curiosidade por todas as vezes em que nos encontrávamos, Emily não me fez pergunta alguma acerca do conteúdo da caixinha. Sabia que seria justo contar a ela ao menos de que se tratava, mas não me sentia preparada para tanto.
De fato, após ler a sua carta, as coisas tornaram-se mais difíceis, ao contrário do que talvez fosse a sua intenção. Eu me sentia constantemente sufocada e infeliz, cada vez mais desesperada por não poder reverter a situação. Dessa forma, decidi ceder ao desejo que me espreitava há mais de duas décadas. Nenhuma pendência eu deixaria, nem ninguém a chorar por mim. Malfoy, talvez, mas ele esqueceria rápido. E, afinal de contas, eu já vivera tudo, não? Que me esperaria pela frente, senão anos tão idênticos e vazios? E, principalmente, tendo ciência da veracidade de seus sentimentos, senti como nunca vontade de me unir a você. Decidi, enfim, optar pelo suicídio, mas não me agradava a ideia de deixar o corpo para ser velado, de causar infortúnios às pessoas que teriam de cuidar do funeral. Ocorreu-me, então, uma ideia que a princípio abominei, mas que analisando melhor me parecia bem aceitável. Matar-me-ia na Floresta Proibida, e as terríveis criaturas que a habitavam dariam cabo de meu cadáver. A decisão me excitou, e, por ansiedade ou medo de perder a coragem, quis executá-la o quanto antes. Naquela mesma noite, ao final de um fevereiro muito frio, esperei que a hora avançasse e lancei-me aos jardins. Olhei para toda a sua extensão, fui invadida por recordações e talvez desistisse de meu intento se aquele lugar estivesse banhado pela luz do sol, mas à noite me lembrava sugestivamente um vasto cemitério. Prossegui, então, e me acerquei da Floresta.
Tendo levado comigo a varinha que executaria o plano, iluminei o caminho à minha frente, que parecia vazio, salvo a frondosa vegetação. Os sons não eram tão ameaçadores, mas até serenos, como o ciciar de grilos e o pio de algumas aves noturnas. Um cenário pacífico e perfeito para ser o derradeiro. Caminhei por entre as folhagens tentando manter a mente vazia, e ao término de mais ou menos meia hora decidi parar. Lancei o feixe de luz da varinha à minha volta, observando o lugar que eu escolhera como túmulo. Mesmo à penumbra, parecia bonito. Respirei fundo e despi a capa para sentir o ar frio sob o tecido fino do meu vestido. Descalcei as botas porque queria sentir nos pés o chão de terra. Eu desejava todas as impressões sensoriais que meu tato pudesse alcançar naquele último momento. E foi por descalçar os sapatos, só por esse simples gesto, que fui salva, ou seja, ele desencadeou os demais. Ao sentir que o meu pé esquerdo tocara algo frio, estranhei e cogitei que pisasse em um floco de neve, mas me dei conta de que era sólido demais pare sê-lo. Desci a luz da varinha e me deparei com uma pedra curiosa, então a apanhei e estudei a sua superfície. Nesse momento o meu coração deu mostras de parar, depois acelerou violentamente. Aquele aspecto, aqueles desenhos... Eu estava positivamente enlouquecendo ou aquela era a Pedra da Ressurreição, mais uma das relíquias dos Peverell? A mais almejada por mim, diga-se de passagem. Só havia um jeito de descobrir: Testando-a. Era virar a pedra na mão três vezes, como diziam as instruções do livro. Mas e a coragem para tanto? E se aquela realmente fosse a pedra, como receberia você à minha frente? Não seria egoísmo, uma vez que, ainda segundo a fábula, os mortos sofriam ao retornar? Mas eu simplesmente varri todos esses pensamentos de minha cabeça e deixei que apenas o coração me guiasse.
Cada volta me pareceu equivalente a um século, e, ao fim das três, eu paralisei qualquer movimento, e teria parado de respirar, se fosse possível. Poucos segundos depois ouvi um farfalhar, que sugeria um corpo frágil pisando as folhas secas. A um primeiro momento recuei, ao ver o vulto que de mim se acercava, depois, tendo consciência de que estivera certa e aquela que segurava firme em minha mão esquerda era realmente a Pedra da Ressurreição, murmurei:
— Lumus maxima.
E toda a parte da floresta que me cercava foi iluminada pela luz azulada da varinha. À princípio senti que me estatelaria ao chão, perante a crescente vertigem, mas isso não aconteceu. Apenas os meus olhos se moviam, num pestanejar frenético, que não dava conta das lágrimas contínuas e espessas. A minha respiração acompanhava o ritmo do corpo, que tremia com veemência. Após tantos anos, vinha você em minha direção, e foi como se o tempo não houvesse passado, como se você nunca ficasse realmente longe de mim. O seu rosto era exatamente da forma que eu me lembrava, nenhum traço ou detalhe fugia às minhas reminiscências, como se eu o visse há apenas alguns dias. Você me parecia menos substancial do que um corpo vivente, mas muito mais que um fantasma. Trazia as vestes negras, de que eu também me recordava, e os cabelos igualmente escuros a caírem sobre os ombros. Parecia envolto por um véu quase invisível, afora isso, era como se estivesse à minha frente.
Perguntei-me se era possível tocá-lo e não hesitei para obter uma resposta. A sua pele me parecia mais sólida do que eu teria imaginado, entretanto, gélida como a de um cadáver. Você segurou a minha mão direita, que tocava o seu rosto e segurava a Pedra, e colocou-a entre as suas, observando com um ar triste a relíquia.
— Isso o faz sofrer — balbuciei, julgando quase ininteligíveis as minhas palavras — desculpe.
— Não faz mal — você respondeu num tom de sussurro, a voz distante, mas ainda era aquela de minhas recordações — eu a fiz sofrer por tantos anos, não?
E, nesse instante, com as minhas mãos entre as suas, várias perguntas diferentes me ocorreram. Demorei a articular a primeira, uma vez que a fala me parecia ter abandonado.
— Você pode me ver? — indaguei finalmente, a insegurança a emanar de cada poro — Pode me ver de onde está? Saber o quanto tenho sofrido?
— Não vejo, mas posso sentir.
— Sabia que ia morrer quando me escreveu a carta, por isso esquematizou todo o plano de colocar a inscrição no túmulo e entregar a caixa a Slughorn? Sabia que ia morrer quando se despediu de mim à Torre de Astronomia, prometendo voltar?
— Sabia.
— Então por que não fugiu?
— Você se lembra, não? Eu possuía a Marca Negra, e Voldemort me encontraria em qualquer lugar do mundo. Mas através do retrato eu pude saber que o mundo bruxo se reconstruiu e você está segura. Isso é o suficiente.
— Não, não é. Eu estou incompleta.
— É isso que você não entende, Pansy. Diz que me ama, mas não me permite a paz.
— Não permito?
— Não, porque a sua dor repercute em mim.
— Eu não tenho culpa se...
— Tem, Pansy, porque está muito presa à minha memória e não consegue viver. Por que não se casou com Malfoy? Por que não teve filhos? Sinto como se ceifasse a sua vida aos poucos.
— Não se pode dividir ao meio duas partes idênticas sem alterar a simetria. Como espera que eu fique perfeita sem você?
Não obtive resposta, porque você se absteve dela. Caímos no silêncio e não foi constrangedor, mas sagrado. Aproveitei para lhe observar melhor o rosto, absorver a imagem divina que me deixaria assim que a Pedra escorregasse pelos meus dedos. E você também olhava para a minha face, em resposta. Ficamos nesse mútuo contemplar por um tempo que os relógios do céu e da terra jamais poderiam cronometrar. Todas as nossas lembranças me invadiram, como um filme que passasse rápido diante dos meus olhos. E eu sabia que, mesmo tendo-o à minha frente, com as mãos entre as suas, jamais tornaríamos a existir, como fora em cada fragmento desse filme. Era soltar a pedra que você evaporaria feito fumaça, porque era só uma lembrança. Uma lembrança vívida, mas, ainda assim, uma lembrança. Não obstante, lancei-me ao abraço com que há tantos anos sonhava. Não foi quente como os de outrora, mas igualmente confortante. Escuso-me de demonstrar através de palavras o que eu senti àquele momento. Ainda que eu falasse a língua de todos os homens e de todos os anjos, seria incapaz de definir a sensação tal a que me entreguei, mas asseguro que nenhuma outra foi similar. Talvez porque eu tenha me esquecido da existência de um passado e de um futuro, como se toda a minha essência se concentrasse naquele momento, sem que existisse tempo ou espaço exatos. Qual um sonho.
— Você continua linda — você sussurrou ao me afastar delicadamente, segurando-me o rosto entre as suas mãos — e será assim para sempre. A minha Pansy de dezesseis anos.
As lágrimas que me lavavam o rosto não eram desconfortáveis nem amargas, mas da mais pura e sincera felicidade.
— Mas agora precisamos nos separar. Perca a Pedra da Ressurreição e não torne a procurá-la, que é prejudicial a você e doloroso a mim. Mas siga com a sua vida e seja feliz.
Eu queria protestar, dizer que ficaria ali para sempre, mas não o fiz. Sabia que seria irracional e infantil de minha parte assumir tal ideia impossível.
— Nós voltaremos a nos encontrar um dia — você prosseguiu — ainda que não seja com este mesmo corpo. Mas quem é que liga para um invólucro? Não sou mais um corpo, Pansy, você me vê assim porque é a forma como se recorda. E você me ama, não ama? Você ama a alguém que substancialmente não existe mais. E ainda amará quando os corpos não forem os mesmos. Eu digo que amanhã, após deixar esta existência, quando acordar em um novo corpo, aqui ou do outro lado do mundo, você perderá todas as memórias desta vida, todas as memórias de mim. Mas não se surpreenderá ao se pegar sentindo saudades de alguém que nunca conheceu, porque a alma guarda todas as memórias que a mente desfaz. Você tem razão quando diz que não se pode dividir ao meio duas partes idênticas sem alterar a simetria. Realmente, isso nunca acontecerá e jamais seremos assimétricos. Porque a Guerra, a morte, o tempo... Nada, absolutamente nada pode separar aquilo que é feito da mesma base e possui laços indeléveis. É uma questão de esperar, meu amor. Aja como se eu viajasse e você precisasse ficar e concluir algum trabalho, mas com a certeza que irá em seguida se unir a mim. Tenha essa certeza, porque ela é real. Nós nunca estivemos separados.
Impossibilitada de falar, eu o abracei novamente. Mesmo entendendo e acreditando em cada palavra, eu ainda queria roubar de Chronos todos os segundos que pudesse. Mas você me afastou, novamente com muita cautela.
— Agora vá e se lembre do que conversamos — você disse decidido, mas a dor assolava mesmo um rosto póstumo — e da carta. Eu não lhe disse adeus uma vez e não lhe direi outra, porque essa palavra não existe entre nós. Viva, Pansy, lute para concluir com sucesso essa passagem. Eu estarei com você o tempo todo, como sempre estive. Mas dê um rumo à sua vida e me permita descansar em paz.
Assenti, reunindo todos os resquícios de coragem, e toquei-lhe os lábios frios com os meus, muito brevemente. Afastei-me, então, olhando-o pela última vez. Fechei os olhos e me lembrei de suas palavras: "Mas quem é que liga para um invólucro?" ou "Você ama a alguém que substancialmente não existe mais. E ainda amará quando os corpos não forem os mesmos" E deixei que a pedra escorregasse por entre meus dedos. Naquele momento eu sabia que me libertara das pesadas correntes que me prendiam há mais de duas décadas.
INTERLÚDIO
Havia duas opções bem claras: Uma era ensaiar um voo fatal da Torre de Astronomia, a outra era ficar e enfrentar a possível batalha. Escolhi a segunda, porque queria me obrigar a acreditar que sobreviveríamos, embora a minha intuição dissesse o contrário. Olhei mais uma vez para o céu, desta feita a olho nu, e amassei o pergaminho com os cálculos que há pouco fizera. Desci as escadas.
Percebi a agitação ao atingir o corredor do sétimo andar. Grifinórios e corvinais deixavam, em massa, os respectivos salões comunais, colidindo com estátuas e armaduras animadas por feitiços. Você estava certo, e aqueles eram os primeiros sinais da batalha. Notei que os alunos desciam as escadas e tentei fazer o mesmo, embora fosse impossibilitada pela multidão. Alguém me tocou o ombro, e por um milésimo de segundo cogitei que você me chamava para fugirmos do terror iminente. Mas esse pensamento feliz durou apenas o tempo de me virar e deparar com um rapaz alto, entre os corvinais.
— Ei, sonserina — ele falou com a voz ansiosa— venha conosco para o Salão Principal, e lá você encontra os colegas de sua casa. Vai ocorrer uma batalha aqui.
Assenti e acompanhei o corvinal, visto que estivesse absolutamente sem rumo. Encontrei os meus colegas à mesa da Sonserina, alguns ansiosos, outros com uma expressão que desdenhava o perigo da Guerra. Sentei-me entre dois garotos e me deixei ficar, queria apenas que tudo acabasse depressa.
McGonagall começou o discurso, explicando-nos rapidamente sobre a necessidade de deixarmos a escola o mais depressa possível. Uma garota por quem nunca me interessei em descobrir o nome, separada de mim por três ou quatro sonserinos, perguntou sobre você, e eu desejei ardentemente ouvir uma boa notícia, que obviamente não viria. E McGonagall prosseguiu com suas recomendações, mas foi interrompida por uma voz clara e absolutamente fria, que não vinha de nenhum ser vivente no Salão Comunal, mas parecia sair de dentro das paredes.
"Sei que estão se preparando para lutar."
Era a voz de Lord Voldemort, que transformou a tensão do ambiente no mais tangível pânico. O meu sangue congelou, e, embora seja essa uma metáfora, tremi veementemente, o que atraiu os olhares curiosos de meus colegas sonserinos, que pareciam tranquilos, e alguns até satisfeitos.
"Seus esforços são inúteis. Não podem lutar comigo. Não quero matar vocês. Tenho grande respeito pelos professores de Hogwarts. Não quero derramar sangue mágico."
O silêncio reinou. Eram audíveis apenas as respirações ansiosas, que, ainda assim, as pessoas tentavam conter.
"Entreguem-me Harry Potter e ninguém sairá ferido. Entreguem-me Harry Potter e não tocarei na escola. Entreguem-me Harry Potter e serão recompensados. Terão até meia-noite"
Em meio àquele silêncio compressor, o meu coração disparou com a força de um animal enjaulado. Pensei em você, no fato de não saber onde estaria, se estaria vivo. Se Harry Potter fosse entregue a Voldemort... E de repente o meu cérebro trabalhou com uma velocidade sobre humana, e juntei todas as peças do quebra-cabeça. Veio-me a imagem de Malfoy desarmando Dumbledore na Torre de Astronomia, e entendi que se alguém tirara a posse da Varinha das Varinhas do falecido diretor, esse alguém era o meu amigo. Lembrei-me também de uma conversa que tivera com Draco há quase dois dias, em que ele me confessou ter lutado contra Potter e perdido a batalha, o que tornava o inimigo de Voldemort, senhor da Varinha das Varinhas.
Abri os olhos espantada, principalmente porque tais conclusões me ocorreram no curto período de apenas alguns segundos. E fiquei cega a tudo o que havia à minha frente, a todos os rostos temerosos e ansiosos. Via apenas Harry Potter, postado em frente à mesa da Grifinória. A solução para tudo. Ergui-me sem consciência de fazê-lo, como se fosse manipulada por uma força maior.
— Mas ele está ali! — gritei a plenos pulmões, apontando para o rapaz — Potter está ali! Agarrem-no!
Houve um movimento massivo, e em pouco tempo varinhas de todos os lados apontavam para mim, mas ninguém ameaçava com palavras. As primeiras foram de McGonagall.
— Obrigada, Srta. Parkinson — ela disse em tom seco — será a primeira a deixar o salão com o Sr. Filch. Se os demais alunos de sua casa puderem acompanhá-la...
Fui levada para fora do Salão Principal junto a todos os meus colegas sonserinos, enquanto a consciência aos poucos me ia voltando. Aquela atitude não era digna de mim, mas de Voldemort. E eu não desejava que o mundo bruxo fosse governado por ele, afinal, mas o instinto de sobrevivência, da sua sobrevivência me falou mais alto. Eu deveria e queria acreditar que Voldemort, sim, seria derrotado por Potter, e então não haveria mais o que temer. A Guerra acabaria para sempre. Estes eram os meus ideais, não aqueles. Era isto que eu pregava a Malfoy, não? Abominei-me pelos pensamentos anteriores, e acabei por entender — e agradecer — aos que me apontaram a varinha, em defesa da justiça. Eu não era vil como os meus colegas que atravessavam a passagem secreta às carreiras, deixando Hogwarts sem se importar com o massacre que aconteceria a seguir. Eu não seria covarde a ponto de fugir à luta.
— Sua vez, menina — ordenou a voz azeda de Filch.
Ignorei-o e fiz, correndo, o caminho oposto. Ouvi o bedel me chamar de volta, mas não tentou me alcançar. Passei pelos corvinais que tomariam o mesmo rumo que os sonserinos e ganhei o Salão Principal. McGonagall, em meio à confusão dos alunos menores de idade que não podiam, mas queriam ficar para lutar, enfureceu-se ao dar por minha presença.
— Mas o que você ainda está fazendo aqui? — indagou aos gritos — Quer pegar Harry Potter? Sinto muito, Parkinson, mas terá de passar por todos nós, incluindo aurores.
— Não — respondi timidamente — sou maior de idade e quero lutar. Perdoe-me as palavras anteriores, foi o mais puro desespero. Quando fui capaz de pensar melhor, senti vergonha de mim.
— Eu não vou confiar nas suas palavras vãs, Parkinson. Vá embora.
Eu ia abrir a boca para discutir, mas Slughorn intercedeu por mim, com seu rosto largo e suado, que não continha a jovialidade de antes, mas uma expressão absolutamente séria.
— Ela fica, Minerva — falou, postando-se ao meu lado e me abraçando pelos ombros — é uma boa garota, acredite quando ela diz que foi movida pelo desespero. Nem todos conseguem ter força o tempo todo.
McGonagall assentiu de má vontade, certamente duvidando do meu caráter, e com toda a razão. Mas não havia tempo para convencê-la do contrário, apenas poderia provar lutando, o que fez com que me esgueirasse para o lado dela e a seguisse, junto ao seu grupo de combatentes, para a torre da Grifinória.
— Você está em território inimigo — disse um grifinório ao meu lado, que, junto a mim, talvez fosse o único a trajar as vestes de sua casa.
Ergui o rosto para encará-lo, esperando desdém ou ameaça, mas ele apenas sorria docemente. Apesar de possivelmente ter a minha idade, seu rosto era infantil.
— Daniel Owen — falou, estendendo-me a mão, que não hesitei em apertar.
— Pansy Parkinson.
— Você está com medo? — indagou-me, como se tratasse de um assunto sem importância ou gravidade.
— Estou — admiti.
— Nós somos mais fortes e mais unidos do que eles. Não há que temer.
E com um segundo sorriso voltou-se a McGonagall, que começava a nos distribuir ordens e instruções. Em pouco tempo estávamos a postos na torre, todos quietos, esperando o primeiro sinal da batalha. Não sei precisar que horas marcavam os relógios, mas a meia-noite não tardou a chegar, e os estampidos romperam o silêncio da noite. A batalha começou.
Lutamos, lançando feitiços do alto da torre, mas ela logo foi invadida por outros Comensais que já tomavam todo o castelo. Disparei enorme quantidade de azarações, derrubei e fui derrubada. McGonagall não tirava os olhos de mim, buscando qualquer rastro de traição, e quando a olhei diretamente no rosto, parecia satisfeita com o meu desempenho. Por conta dessa distração, quase fui acertada por um feitiço talvez fatal, do qual o meu recém-conhecido me salvara. Dirigi-lhe um leve sorriso e continuei a disparar feitiços. Era bom lutar, e se antes eu tivera medo, a coragem o levava para longe aos poucos, a cada feitiço certeiro que eu lançava. Eram cerca de meia dúzia e dizimamos todos.
Daquele momento em diante, a ordem estabelecida entre os combatentes se rompeu e todos se misturaram. Havia sinais de luta para todos os lados, bem como estátuas e armaduras a correrem como pessoas. E escuso-me de dizer os maiores e mais horríveis detalhes, que jamais me deixarão a memória. Vi pessoas caírem mortas aos meus pés e escorreguei no sangue delas ao me desvencilhar. Matei uns e quase fui morta por outros. Os gritos e súplicas que me entravam pelos ouvidos seriam assíduos em pesadelos pelo resto de minha vida. E eu descia as escadas, sempre disparando feitiços, deixando-me levar pela batalha, sem um rumo certo. E tudo ia relativamente bem para mim, até ser surpreendida por Comensais no corredor do segundo andar. Um mascarado me agarrou.
— Por quem você está lutando? — indagou aos berros.
— Pela justiça! — gritei em resposta.
— Está ao lado de Potter — desdenhou o outro, com o rosto igualmente coberto.
O desafio e o ódio se apoderaram de mim, e não tendo mais que esconder os meus verdadeiros ideais, gritei a plenos pulmões.
— ESTOU, E DAÍ? NUNCA PRETENDI SER VIL COMO VOCÊS, SEUS ASNOS IMUNDOS! VOCÊS SÃO MARIONETES DE VOLDEMORT, É ISSO O QUE SÃO!
O Comensal que me segurava, atirou-me ao chão e a minha varinha rolou para longe. Eu estava certa que aquele seria o meu fim, e fechei os olhos para não ver a luz verde em minha direção, mas ouvi claramente "Avada Kedavra", e estranhei que ainda estivesse em sã consciência após a menção do feitiço. Ao abrir os olhos, dei-me conta de que as palavras eram para o Comensal que me antes me ameaçara, e agora se encontrava estatelado ao chão, os dois olhos muito abertos. Com a varinha ainda em riste, Daniel Owen ameaçava o outro Comensal já desarmado.
— Obrigada — balbuciei.
— A sua amiguinha é filha de Comensais, garoto — falou a voz fria por trás da máscara — você sabia disso? Vadia traidora! Se eu coloco as mãos nessa vagabundinha...
— Você não vai colocar as mãos em ninguém — disse o meu novo amigo, com sua voz absolutamente calma.
E foi com a mesma tranquilidade que ordenou outro feitiço de morte, e o Comensal tombou inanimado.
— Vamos sair daqui — ele falou, puxando-me pela mão — outros virão.
Ao contornar o corredor, tive a infelicidade de olhar para o chão e reconhecer os cadáveres de meus pais, separados apenas por alguns escombros. Não me desesperou a visão, uma vez que eu já esperava aquilo há muito tempo, mas não vou esconder que chorei por eles. Daniel entendeu e me abraçou pelos ombros, levando-me adiante.
A batalha estava pior no Salão Principal, onde os feitiços e os gritos nunca cessavam. Daniel segurava firme a minha mão, e agradeci por ter uma fonte de segurança, que não durou muito. Enquanto lutava com dois Comensais, senti que se afrouxara o aperto em minha mão, mas não liguei importância, pensando que o rapaz soltara-a apenas para lutar melhor. Mas depois que estuporei um Comensal e o outro me deixou para lutar contra aurores, voltei a atenção ao Daniel, e encontrei-o ao chão. Sacudi-o embalde, pois aquela expressão só poderia significar a maldição de morte. O Comensal que o acertara ainda ria, sem máscara, um rosto bonito e malicioso. Belo e maldito.
— Crucio! — berrei.
A fúria foi tamanha que, por um momento, achei que a maldição da tortura seria suficiente, mas usei a da morte. A minha dor não era exatamente por causa de Daniel, mas de todos os inocentes que morriam aos montes. Quis afastar o corpo do rapaz, para que não fosse pisoteado, mas careci de forças e fui ajudada por McGonagall.
— Talvez eu tenha errado com você — ela disse rapidamente, porque não havia tempo para conversas — peço que me perdoe.
— Não faz mal.
Não quero prosseguir contando todos os detalhes da batalha, embora me lembre perfeitamente de cada um. Basta saber que consegui chegar aos jardins e respirei aliviada por me livrar do calor da batalha, embora fosse envolvida pelo frio intenso dos dementadores. As minhas últimas forças, reuni para conjurar o patrono, e caí ao chão, cansada demais para voltar a lutar. Senti-me covarde por fugir, mas conhecia os meus limites, e sabia que se entrasse novamente no castelo, seria o equivalente ao suicídio.
Sentada ao lado do Salgueiro Lutador, onde eu me largara, fechei os olhos e avaliei mentalmente todas as baixas que sofrera. Meus pais haviam morrido, bem como o grifinório que me salvara e tantos outros inocentes. O caos reinava em Hogwarts, que outrora fora o meu paraíso na Terra. E o pior de tudo: Não fazia ideia de onde você estaria. E foi por lembrar de você naquele exato momento, que pensei ser vítima de uma ilusão traiçoeira, ao ver você seguir para o Salgueiro Lutador. Ergui-me com a velocidade de um raio, gritando o seu nome, mas tudo o que vi no seu rosto foi o transtorno, e a sua voz saiu extremamente fraca:
— Desculpe-me por isso, meu amor.
Vi a luz gerada pela sua varinha, e no instante seguinte tudo ficou escuro.
Acordei sentindo a cabeça latejar e demorei ainda alguns segundos para coordenar todos os pensamentos e lembranças. Você me desacordara com um feitiço, mas eu não entendia por quê. E entendia menos ainda o motivo pelo qual estava prestes a entrar pela passagem secreta do Salgueiro Lutador, que, sabia eu, dava na Casa dos Gritos. As conjecturas findaram quando Harry Potter, Ronald Weasley e Hermione Granger saíram pelo lugar onde você havia entrado. Acerquei-me deles.
— Potter — chamei-o suplicante, e não me intimidei com sua aversão — perdoe-me a atitude mais cedo. Eu estou ao seu lado.
— Você? — indagou Weasley com desdém — Ao que eu saiba, é amiga íntima de Draco Malfoy.
— Isso não significa que eu pense como ele — rebati.
— Nós entendemos — interveio Granger — mas estamos com pressa.
— Eu também. Olhe, só preciso de uma informação. Vocês vieram da Casa dos Gritos, não?
— Viemos — respondeu Potter, que sempre fora de sinceridade inquestionável.
— Vamos, Harry! — gritou Weasley — Se perdermos tempo por causa de Parkinson...
— Potter — prossegui, ignorando Ronald — Snape esteve lá? Vocês o encontraram? Eu o vi entrar, mas por algum motivo desmaiei em seguida.
Os três grifinórios se entreolharam, e senti mau agouro nessa atitude, mas desfiz-me da maldita certeza que começava a tomar forma. Weasley sacudiu a cabeça e puxou o amigo, mas Granger os deteve.
— Ela tem direito de saber — sussurrou, e eu quis pensar que entendera errado.
— Não temos tempo — repetiu Weasley a sua eterna ladainha.
— Eu falo — decidiu Potter, massageando a cicatriz em forma de raio que levava na testa.
Quis recuar quando o rapaz se aproximou de mim, mas não o fiz. Cri que ele nem precisaria falar, eu já era capaz de adivinhar perfeitamente o que me diria.
— Parkinson — começou, com uma voz que tentava ser calma — ele... Snape... Nós não pudemos fazer nada. A cobra de Voldemort, Nagini... Eu sinto muito.
Não consegui executar nenhuma palavra, porque um turbilhão delas se formava em minha mente, fazendo algazarra, como se as vozes do mundo inteiro me gritassem. Vi os três amigos se afastarem e o mundo cair à minha volta, como se o céu despencasse, tornando o ar denso e frio. Demoraria ainda um minuto inteiro para recobrar os sentidos, e, então, correria à Casa dos Gritos.
Mesmo tendo passado tantos anos, não encontro forças e nem mesmo palavras para descrever o que senti ao vê-lo morto. Escuso-me. Escuso-me em absoluto. O desespero, ainda o sinto ao relembrar, e os gritos que emiti ainda ecoam na minha memória. Tampouco desejo discorrer acerca do que aconteceu depois. Fica apenas dito que desmaiei, e alguém, de quem nunca tive conhecimento, levou-me de volta ao castelo. Acordei em meio ao momento de trégua, e tudo parecia silencioso, o que absolutamente não duraria.
Fica também dito que, quando a trégua terminou, voltei à luta com a força de Marte, e atirei feitiços para todos os lados, cega pelo ódio.
E bem, e o resto? Também é escusado dizer o que aconteceu depois. O mundo bruxo inteiro sabe que Harry Potter venceu a Guerra e tudo acabou relativamente bem, excetuando-se as perdas. É certo que o mundo bruxo salvou-se, reconstruiu-se e prosperou, mas eu não quis ficar para ver.
E todo o resto já está escrito.
Não encontrei, por nenhum momento em As Relíquias da Morte, uma passagem que dissesse se a Pedra da Ressurreição permite ou não que se toque nos mortos que através dela retornam. Se houver tal passagem, entretanto, encara-se como licença poética xD
Vamos ao epílogo!
