Capitulo 3: A mão que segura a faca (de bolo)

Capitulo 3: A mão que segura a faca (de bolo)

Agora, já acomodado em uma poltrona azul clara, Raito tentou dar início a uma conversa com L.

"ME DESCULPE, RAITOOOOOOOOOOOOOOO!" Gritava Misa do lado de fora do apartamento.

"Já terminou de ler, Ryuzaki?" Raito perguntou. E, se estava incomodado, não demonstrava.

"Sim, Raito-kun, mas..." O fantasma respondeu. Bem, L não se importava muito com a garota, mas ela estava atrapalhando a conversa dos dois desde que fora expulsa – sem muita roupa, diga-se de passagem – com seu agente publicitário da casa do policial. "Normalmente, eu consigo me concentrar em lugares barulhentos, mas Amane-san realmente é um caso à parte."

"Sim, ela realmente consegue tirar qualquer um do sério..." Raito concordou, já desenvolvendo uma dor de cabeça devido aos berros constantes da garota.

"EU SÓ QUERIA TE DEIXAR COM CIÚMES!!"

"Você sabia disso, não é?"

"Você já se lembra de tudo, Ryuzaki? Onde você foi morto?"

"Sim, lembrou-me de se L, o detetive... Mas, apenas me recordo vagamente da minha morte. Sei que ela ocorreu porque... Bem, eu estou morto."

"RAITO, POR FAVOR ME DESCULPAAAAA"

"Bem, do que você se lembra?" Raito perguntou realmente incomodado.

"Apenas lembro-me de perseguir..." Ele checou o nome em uma página da pasta. "... Teru-san. Então, tivemos uma breve discussão, o que resultou em minha morte."

"RAITO, ME DEIXA ENTRAAAAAAAAAAAAAAAR!"

"Pode parar com o barulho?!" Gritava um dos vizinhos.

O jovem gênio desistiu. Não haveria modo algum de um dos dois se concentrar com o barulho que Misa fazia. E, aparentemente, os vizinhos sentiam o mesmo.

"Raito-kun." L o chamou. "Bem, eu estou com fome. Você tem algum doce em sua casa?" Implorou.

O outro balançou a cabeça negativamente. Ele não gostava muito de doces. Aqueles que, por ventura, encontravam-se no apartamento haviam sido comprados por Misa. E que Ryuzaki, muito provavelmente, já devia ter devorado.

"Vamos sair daqui." O policial anunciou, por fim, levantando-se.

"Como? Ah, a saída de incêndio. Mas, e quanto a Amane-san...?" Perguntou o fantasma.

"Não se preocupe. Ela não seria capaz de pensar que eu faria isso." Raito deu de ombros, enquanto pegava seu casaco e a carteira. "Vamos checar a dica anônima."

L não se deu ao trabalho de se aprontar. No caso dele, nem faria sentido preocupar-se com sua aparência a esta altura. Apenas resignou-se a seguir o jovem Yagami.

Mas, não antes de perguntar. "Podemos parar em uma confeitaria primeiro?"

XxxX

Um forte sentimento de horror apoderava-se de Raito. Não podia evitar, era algo inerente a ele. A raiva e a incredulidade o faziam ter vontade de socar a pessoa à sua frente. Espancá-la e matá-la, para em seguida jogar o corpo em algum rio.

Isso mostrava o quanto ele odiava médiuns.

Bem, não exatamente médiuns em si, mas pessoas que se passavam por eles.

A casa de onde viera a dica anônima era fora do distrito da cidade, perto do campo. Era um lugar agradável e fresco. Raito gostava dali. Conseguia sentir o cheiro forte da chuva que caíra recentemente, como se fosse ontem. Era um local perfeito para viver depois de se aposentar. Ela, propriamente falando, era uma casa de dois andares com bastante espaço. O jardim que lhe pertencia era grande, e ambos podiam ver o morro atrás da casa, no qual estava plantada uma jovem macieira.

Raito não percebeu o brilho de reconhecimento no olhar de L.

Assim que chegaram à casa do suposto médium, quem os recebeu foi um rapaz de quase vinte anos usando estranhas roupas que poderiam ser usadas em concertos de rock. Além disso, usava óculos de mergulho e jogava tetris em seu Game Boy Advanced prateado.

Demorou alguns minutos até que Raito conseguisse a atenção daquela pessoa tão excêntrica.

"Boa tarde. O senhor 'N' está?" Perguntou o policial.

­

"Sim, vou chamá-lo para você." O garoto saiu da entrada, dessa forma, cedendo passagem para o jovem Yagami e o fantasma de L, embora o garoto não pudesse vê-lo. Pelo menos, era o que Raito esperava. "Entrem. Ele já deve estar vindo."

O detetive ajeitou-se em uma cadeira, enquanto o fantasma ficou em pé, ao seu lado. Não sabia o que pensar sobre esses jovens. Mas, caso fossem médiuns, ele sairia dali mais rápido do que alguém poderia dizer 'teletransporte'.

"MATT, seu filho da mãe!" Alguém gritou do andar de cima, e logo os dois ouviram a escada reboar apressadamente. Surpreenderam-se quando uma figura loira abriu a porta de supetão e perguntou com raiva. "Onde você escondeu os meus- Ah, quem é você, maldito?"

"Eu sou-" Raito tentou responder, mesmo contrariado ante aquela (ou seria um homem?)... uhm, pessoa tão mal educada.

"Esqueça, não quero saber." Ele interrompeu. "Você viu o Matt?"

"Quem?" Raito perguntou desconcertado. Ryuzaki riu diante da cena, o que fez com que o outro lhe lançasse um olhar de reprovação.

"Um cara mais ou menos dessa altura." Ele colocou a mão uns dois dedos acima da própria cabeça. "Cabelos castanhos, usando óculos de mergulho, provavelmente jogando um videogame de bolso."

"Sim. Deve ter sido ele quem abriu a porta para nós – quero dizer – para mim. Bom, se eu não me engano, ele foi para o segundo andar." Respondeu o policial rapidamente.

"Certo." Mello pareceu satisfeito com a resposta. Tão logo, deixou o cômodo, sorrindo de uma forma maliciosa.

A atenção deles foi tomada pela chegada de outro garoto que abriu timidamente a outra porta. Em suas mãos, ele carregava um boneco de brinquedo do Homem Aranha. Embora não parecesse ter mais de treze anos, seu olhar era cheio de escárnio e autoridade.

"Finalmente vieram. Achei que iriam demorar mais." Disse, sentando-se ao lado da mesa e brincando com a figura de ação. Raito começou a sentir-se um pouco humilhado. Essa... Criança o chamava para um lugar como aquele e achava que poderia mandar nele? Não, Yagami era o policial em comando da situação. Era ele quem fazia as perguntas.

"Então... err... senhor 'N'". Respondeu, receoso de chamar alguém tão mais jovem que ele próprio de senhor.

"Podem me chamar de Near, Yagami-san. Eu apenas dei um nome falso para que o chefe do departamento de polícia não desconfiasse de minhas ações." Ele encontrou um boneco do Batman embaixo da mesa e encenou uma luta entre os dois famosos heróis de histórias em quadrinhos.

"E qual seriam elas, Near...?"

"Soubemos que Mikami-san está relutante em partir dessa vida em troca dos crimes que cometeu. E que ele barganhava a localização do corpo do falecido L."

"Sim, é verdade." Raito se inclinou para frente na cadeira, interessado.

"Bem, apenas digamos que não é necessário que ele seja encontrado, uma vez que já está em nossa posse."

"Como assim?"

Nate River apenas levantou-se, o sorriso de deboche ainda mais evidenciado em sua face.

"Uma imagem vale por mil palavras, Yagami-san." E os conduziu pela porta, mesmo que não soubesse desse fato.

Seguiram pela cozinha e pela porta dos fundos, em direção a um belíssimo jardim.

"Watari adquiriu um certo... gosto por paisagismo após... você sabe, a morte de Ryuzaki." Raito não respondeu a essa afirmativa. Apenas fez um sinal que tinha ouvido, embora o garoto não houvesse olhado para ele.

Logo chegaram a seu objetivo: a macieira. Era óbvio e um tanto clichê. Mas, de certa forma, muito apropriado.

Na lápide lia-se apenas 'Aqui jaz L.' Simples. E o único segredo que ele sempre tentara esconder fora com ele para o túmulo. Literalmente.

Uma tristeza enorme se abateu sobre o Yagami filho. Ele nunca tinha sentido isso, mas era avassalador. Ao menos ele tinha a certeza de que não gostaria de sentir-se da mesma maneira novamente.

Decidiu observar, para distrair seus pensamentos, então a reação de Ryuzaki, Se surpreendeu ao perceber que o detetive estava translúcido. A descoloração devia ter ocorrido na caminhada pelo jardim, o único momento em que tinha tirado os olhos dele.

"Near. Pode nos deixar a sós?"

"... Certo." Ele percebeu a menção à 'nós', mas nada disse enquanto se retirava.

"Curioso, Raito-kun." L observava a mão e obviamente decidiu testá-la, já que tentou tocar no túmulo. Falhou miseravelmente, sua mão o atravessou direto. "Acho que já devo ir."

"Assim? Sem motivos?"

"Meu... 'negócio inacabado' obviamente era a chance de escapamento da pena de morte de meu assassino. Como isso já foi garantido... Receio não ter nenhum motivos para ficar."

"Nem... por mim?"

"Somos conhecidos pelo acaso, Raito-kun. Nem deveríamos ter nos encontrarmos."

"Mas... nós nos encontramos!"

"E isso não muda o fato de que eu estou morto."

Raito socou a árvore, em frustração.

"Mas...!"

"Não adianta reclamar a essa altura, Raito. Não há volta." Para provar, o fantasma atravessou o ombro do rapaz, que se afastou em seguida.

"Eu gostaria de conhecê-lo melhor..."

"Faremos o seguinte trato, então. Eu irei buscá-lo."

"Quando?"

"Quando chegar a sua hora."

Ele se virou para Raito, e pronunciou uma única palavra.

"Obrigado."

E ele se foi.

Deixando apenas um leve odor que empesteava o ar.

Um leve aroma de morangos.

Raito Yagami deixou apenas cair uma única lágrima.

Ele deixou a casa sem falar com os outros, mas talvez não houvesse a necessidade de responder a nenhuma pergunta.

XXX

Raito arrumou os documentos na pasta, e em seguida a colocou na mesa do comissário adjunto. O sentimento de abandono se intensificou ao ver que a pasta seria apenas arquivada e concluída, Mikami Teru seria morto pelo Estado e tudo continuaria como se nada tivesse ocorrido.

Como se não tivesse nenhum significado.

Nesse momento, Raito não sabia qual era o sentimento mais forte presente nele: se era a raiva ou a tristeza.

Ele deixou a sala, deixando a pasta solitária se destacar entre os papéis de seu pai, como uma prova de aquilo foi especial. De que Ryuzaki existira.

XxxX

Alguns anos depois.

Era apenas mais um dia normal de trabalho.

Deveria ser apenas mais um dia normal de trabalho.

Mas, não seria.

Não para Yagami Raito.

Já fazia algum tempo que não pensava mais em Ryuzaki.

Na verdade, já havia algum tempo que evitava pensar nele.

Apesar de todo o tempo que havia transcorrido após tal acontecimento, aquela angústia não deixara de acompanhá-lo sequer por um minuto. Como se o encontro com Ryuzaki tivesse deixado uma marca indelével em sua mente. De uma forma tão simples, mas também... Indescritível.

Naquela manhã, Raito havia esquecido a pasta em casa. E, ao retornar para sua residência, não pôde evitar parar e começar a observar a mesa. De imediato, lembrou-se da torta de morango que Ryuzaki havia comido. Não o fato de a torta ser de um sabor intragável, e sim porque Ryuzaki estava lá.

Ele estava ali.

Apesar de sua tristeza inconsolável, Raito sorriu.

­

Ao menos, ele não esquecera daquilo.

Agora, Raito rumava em direção à delegacia.

Mas, ele nunca chegaria a concretizar aquela ação.

Enquanto caminhava, o jovem Yagami apreciou a paisagem pela primeira vez.

Como ele nunca havia notado as coisas ao seu redor?

Não simplesmente o fato de todos estarem seguindo suas respectivas rotinas, mas como tudo parecia normal.

Nada havia mudado.

Ou, pelo menos, nada parecia fora do lugar.

Foi então que o viu.

Já não sabia mais se era apenas sua imaginação ou se era a realidade.

Talvez, ele estivesse delirando, o que também não lhe interessava mais.

Tinha certeza de que vira Ryuzaki e isso era o que lhe importava.

Por esse motivo, não se importou em tentar atravessar a rua.

Também não se importou em olhar o movimento dos carros ou as sinalizações de trânsito.

Tudo no que pensava era alcançar Ryuzaki.

Porém, ele não previra que um carro viria em sua direção.

Ele não previu o que aconteceria em seguida.

Não era necessário.

Então, era assim que era morrer...?

Enquanto as pessoas gritavam ou tentavam conseguir ajuda para o rapaz caído no chão, tudo o que Raito conseguia ouvir era aquela já conhecida voz.

E, os sussurros de uma promessa feita anteriormente.

"Há quanto tempo, Raito-kun."

"Finalmente veio me buscar, Ryuzaki?"

"Assim você quis." Sorriu para ele, pela primeira e única vez.

"Você demorou."

The end