Fechou os olhos e deu por si a rezar.
Como feiticeiro não tinha religião, mas numa noite de desespero, pouco depois da guerra, acordou aos gritos de um pesadelo.
Os braços de Hermione acalmaram-no, com beijos doces, foi nessa noite que lhe ensinou uma pequena reza, algo que ela garantira que a ajudava nos momentos difíceis.
Ingénua, como é que uma reza parva poderia ajudar?
"Acreditando.." ela tinha-lhe murmurado, abanara a cabeça com um sorriso trocista, mas quando dava pela situação, ouvia-se a repetir a pequena reza.
Levantou-se da beira da cama, parou em frente a janela.
Estava a amanhecer, uma fria manha típica de Londres.
Dirigiu-se a casa de banho e lavou o rosto.
Tinha de sair dali, não podia ficar por muito tempo, de certeza que mais cedo ou mais tarde iria ter os Aurores na sua cola e não os queria perto daquela casa.
Deveria ser mais tarde do que planeado, afinal Harry Potter tinha sido destituído do cargo, se não tivesse sido, Ron apostava que naquele instante estaria numa cela de Azkaban a ser interrogado.
Foi um bom imprevisto, tinha mais umas horas.
Fitou-se ao espelho.
Mal se conhecia.
Os circulos negros debaixo dos olhos azuis quase chegavam aos cantos da boca, mas também com o que andava a dormir, era normal.
Odiava o que se tinha tornado.
Sabia que tinha descido muito baixo.
Sabia que não havia volta, que iria acabar mal e pensar que só queria voltar aquele dia em que acordara de um pesadelo, e ouvir a voz doce dela murmurar que estava tudo bem, para voltarem a dormir que o dia seguinte iria correr bem, muito melhor que o anterior...
Passou as mãos pelo cabelo rebelde, tinha de o mudar de cor para não ser tão chamativo.
Maldito cabelo Weasley.
Vestiu a t-shirt que estava pendurada na borda da banheira decrepita.
Tinha de ir ao ministério antes de Harry Potter se envolver mais no assunto, conhecia-o bem, ele era teimoso o suficiente para tentar resolver as coisas por si próprio. Tinha de achar Malfoy e acabar com tudo.
Mesmo sabendo o triste final que o aguardava.
Tirou a varinha de cima do lavatório e meteu-a no bolso de traz das calças, hesitou.
Desde quando se tornara naquilo?
Desde quando não tinha escrúpulos?
Cerrou os punhos.
Malfoy.
Os Malfoy, tudo o que eles fizeram a sua família, com o ódio de Lucius pelo seu pai, o maldito diário de Riddle que ele metera no caldeirão de Ginny...
Todos os insultos...
Todos aqueles anos...
Aquele inferno.
Hermione... enrolada com o furão albino!
Como era possível?
Como ela pudera mudar tanto? Ninguem no seu perfeito juízo, depois de tudo o que ela vivera, se apaixonaria pelo mau da fita.
Porque era isso que ele era, o mau da fita.
O ultimo dos Devoradores da Morte vivo.
Apoiou-se ao lavatório de rosto baixo e teve vontade de chorar.
Tinha entrado no caminho errado.
Tinha feito merda.
*Flashback*
Sua vida podia ser quase perfeita.
Quase.
A guerra tinha sido um marco na vida de todos e na história da magia.
Muitas vidas se haviam perdido…
Alastor Moody "Olho-louco" .
Nimphadora Thonks.
Remmus Lupin.
Fred e Arthur Weasley...
Poderia ter uma vida quase perfeita mas não o era, dois elementos essenciais de sua família tinha desaparecido para sempre, arruinando a felicidade dos tempos calmos que estavam para vir.
A Toca nunca mais iria ser a mesma.
Sem a figura paternal e sem um dos gémeos.
No mesmo dia fizeram o funeral de ambos.
Num dia chuvoso, de forte neblina.
A matriarca Weasley deixava cair lagrimas silenciosas, Ginny segurava-lhe a mão com força tentando dar suporte para algo que não pode ser suportado.
Uma mae nao deveria ver um filho morrer.
Não havia consolo possivel por ter perdido marido e filho no mesmo dia.
Harry potter parecia ter perdido toda a cor do rosto, parecia um fantasma de olhar enevoado, estava ao lado de Ginny, fitando o padre durante o discurso triste.
Sentiu um aperto no braço, olhou para o lado, Hermione Granger estava agarrada a si, de olhos vermelhos de tanto chorar, "estou aqui..." disse com os lábios. Ron acenou levemente, enlaçou os dedos nos dela.
Sabia que sim.
Sabia que ela era sua, sabia que estava consigo para o que desse e viesse.
Mas isso não fechava o buraco em seu peito.
Não fechava.
Nunca.
Levantou o rosto, olhando-se de novo ao espelho.
Não ia ter duvidas depois de tudo o que tinha feito, deu meia volta e entrou de novo no quarto.
Deitou-se na sua velha cama.
Olhou o tecto de onde um poster antigo dos Chudley Cannons pendia. Voltou a cola-lo com um toque da varinha.
Aquele quarto dava-lhe memórias tão boas do passado.
Como tanta coisa tinha mudado?
Como podia ser possivel que tanta coisa tivesse corrido mal?
Descalçou as botas e ajeitou a almofada.
Não ia dormir.
O rosto de Crabbe surgiu-lhe mente, nunca pensara chegar a tal.
Sim.
O fim estava próximo.
O dele era certo.
*Flashback*
- Hermione! Mete esse traseiro aqui e já! - gritou Ginny histérica da porta de seu quarto, o dia estava uma loucura. Só pessoas para traz e para a frente numa azáfama terrivel. Entre organização de comes e bebes e recepção de convidados.
Ginny a noiva estava uma pilha de nervos, já era a quarta vez que gritava histericamente por Hermione que finalmente atendeu o chamado. Ela subiu as escadas agarrando nas bainhas do vestido azul de dama de honor.
Estava mesmo linda.
Olhou na sua direção e mandou-lhe um beijo pelo ar antes de revirar os olhos e entrar no quarto da noiva histérica.
Desceu as escadas calmamente, passou pela cozinha onde a matriarca Weasley reclamava por entre tachos sujos, pratos de salgadinhos e doces enfeitiçando-os para irem para a rua.
Um dos pratos rasou-me a cabeça.
- Ron querido… desculpa… não te vi… olha vai ter com o Harry… senão acho que ele bebe a garrafa toda de Firewhisky antes de Ginny descer... -disse preocupada. Ron riu-se e saiu para o jardim.
Realmente encontrou-o diante de uma garrafa do liquido ambar, mas ele ainda não lhe tinha tocado.
Fitou-o, ele estava com um ar estranho, meio esverdeado.
- 'Tas bem?... pareces doente…
- Eh… pois… tou nervoso… - disse numa voz estrangulada.
Não se conteve de rir.
- Eu também estaria… a casar com a minha irmã… preferia um Explogento do Hagrid!
Harry sorriu.
- Vou finamente fazer parte oficial da tua familia…
Pousou a mão esquerda em cima do ombro dele.
- Desde que me sentei a tua frente na mesma cabine no Expresso de Hogwarts que fazes parte dela… não tens de casar com a Ginny so por isso… sempre tens o Percy…
Cairam na gargalhada, e Harry perdeu o ar esverdeado.
- Que bela conversa para se ter no dia do casamento meninos… - disse Hermione aproximando-se fingindo um ar ríspido.
- Ó querida… bricadeirinha… o Harry tava nervoso… tava a ver se o fazia rir… - e passou a mão pela cintura dela aproximando-a de si.
- P'ro altar Sr. Harry Potter… ela vai descer… e duvido que estejas mais nervoso que ela…
- Olha que não sei… - murmurei ao ouvido dela – Nem quando ele teve de enfrentar o Quem-nos-sabemos estava tão mal.. – Hermione deu um risinho, agarrando-o pela gravata beijando-o com amor.
- Mas porque é que a Ginny esta assim tão histerica? Ela fartou-se de gritar por ti…
- Oh.. ela trocou o feitiço de encaracolar pelo de frizar… e…e… esquece coisas de mulheres!Vamos para os nossos lugares!
Ginny estava lindíssima.
Mas o facto de ela entrar de braço dado com Charlie,o irmão mais velho dos Weasley, foi duro.
Não deveria ser Charlie ali… deveria ser Arthur.
Arthur Weasley…
O Pai.
O Pai de Ginny…
O seu Pai.
Teve de respirar fundo para se controlar.
Injusto.
Terrível.
- Estas bem? – murmurou Hermione, que deve ter notado.
- Tou… não te preocupes…
Hogsmead:
O ar frio entregelava Hermione que passou as mãos pelos braços numa vã tentativa de os aquecer.
- Ja me tinha esquecido do gelo que faz aqui... brrrrrrr - murmurou estremecendo.
Harry caminhava ao lado dela, tinham acabado de se materializar em Hogsmead, estava uma manha clara, os raios de sol não compensavam o gelo.
A vista do castelo era de cortar a respiração, olhar para aquele belo sitio era sempre uma coisa boa. Tanto Harry como Hermione sentiam-se bem ali, apesar de tudo o que passaram.
As boas recordaçoes tinham de ultrapassar as más, mesmo que tal não fosse verdade.
Cruzaram os portões de Hogwarts.
Neville Logbottom esperava por eles, com um sorriso de orelha a orelha, tinha recebido a coruja, felizmente.
Harry não se conteve sorriu para o amigo que lhe deu um rapido abraço.
Neville dirijiu-se a Hermione.
- Tas gelada! - tirou a sua capa para lha passar por cima dos ombros. Harry fitou a amiga com um ar atrapalhado, não se tinha apercebido do frio dela.
Hermione fitou Neville, que sempre tinha sido o mais baixo, o mais gordinho da turma. Hoje era dos mais altos, e o único que leccionava em Hogwarts.
Sorriu orgulhosa do amigo, lembrando-se do pequeno e triste rapazito que andava sempre a procura do sapo gordo e que tentara impedi-los de fazer asneira no primeiro ano.
- Visitas madrugadoras! – exclamou ele de bom humor – Venham… que tal tomarem um pequeno almoço reforçado? – convidou.
- Não temos muito tempo Neville – interrompeu Hermione.
- Imagino… o que se passa? – disse calmo com ar inquiridor.
- Hum... - murmurou Harry trocando um olhar culpado com Hermione.
- Por Merlin... vocês estão com aquele ar... aquele ar de que não vem dai coisa boa... - Neville suspirou.
- Neville ainda tens o livro? - a voz de Hermione estava nervosa.
- Tenho vários… - disse coçando a orelha esquerda com ar distraído, estranhando os amigos.
- O do Príncipe… - murmurou Harry.
Fez-se luz no rosto de Neville.
- Ah!... quer dizer… Harry… hum…
- Tens o livro ou não? – disse Hermione impaciente.
Neville mordeu o lábio inferior. Fitou Harry com ar atrapalhado. Harry demorou uns momentos a compreender.
- Neville… é importante… - a voz dele era seria.
Neville acenou afirmativamente com a cabeça.
- Não tou a compreender nada… - Hermione estava prestes de petrifica-lo pela segunda vez na sua vida.
- Simples… eu disse a ele para negar sempre a existência do livro pelo mais sagrado… e ate hoje…
- Mas o que se passa? - Neville estava curioso e preocupado, sabia bem que aqueles dois eram malucos e que tinham talento para se meter em situações inesperadas.
- Questão de vida ou morte…
Neville ficou palido.
- Por merlin.. o que aconteceu? e o Ron? onde ele esta? - estranhou a ausência do terceiro elemento do grupo.
Hermione estava com um ar impaciente, Harry Potter hesitou e encolheu os ombros.
- Historia longa neville… desculpa…
- Vamos entrar… andem… - deu meia volta nervoso e bateu nas portas de carvalho, fazendo lembrar Cormac Mclaggen quando Hermione o enfeitiçou para que Ron ganhasse as provas de Quidditch. Harry Potter parou, hesitou.
Algo lhe ocorreu.
Era improvável!
Não... era completamente louco.
Sera que… sera?
Seria possível que...
- Hermione, ficas bem?... eu lembrei-me de algo... -ele disse em voz baixa com tom de urgência.
- O que foi?
- Não te preocupes... vê o livro e vai para a tua casa ter com a Ginny eu vou la ter... tenho de ir ao ministério... urgente!
- Eu fico bem...
Hermione não perdeu tempo olhando para as costas de Harry que se afastava quase a correr.
Neville hesitou.
- O livro… ne?
- Sim por favor…
Acompanhou Neville pelo castelo, sentindo aquele cheiro característico, e o leve aroma de torradas, sentiu o estômago revoltar-se de fome, mas não tinha tempo.
Seguiu Neville ate aos antigos aposentos de Lupin.
- Pensava que só os professores de defesa de magia negra ficavam neste quarto.
- Eu pedi a Mcgonagal… tenho… um carinho especial por ele… - sorriu. Começou a mexer nos seus livros. Viu-o a desfazer um feitiço de protecção. Finalmente estendeu o livro velho a Hermione.
Que o olhou nos olhos antes de aceitar.
Hermione estranhou.
Aquele era um feitiço bem básico, era de esperar que algo que se protege quase com a vida tivesse algo mais elaborado.
Neville sorriu atrapalhado, percebendo a admiração dela.
- Tu sabes que nunca fui genial...
- Es genial, Neville... - disse ela com um sorriso terno aceitando o livro, que tal como ela se lembrava, tinha uma capa recente, mas por dentro era bem velho, todo escrito a mão ao lado da tinta original. Deu uma vista de olhos as paginas.
- Que se passa Herms?... que se passou de tão grave... -murmurou.
- Tens seguido os jornais?
- Achas?... a Lavander transformou o Profeta numa anedota... parece uma novela mexicana...-revirou os olhos.
- Sim o jornal dela não ajuda... mas sabes... o Draco...
Os olhos claros de Neville fitaram-na, sem perceber nada na mesma.
- Acredita em mim... é por uma boa causa... -disse respirando fundo, não tinha tempo para entrar em pormenores
- Claro que sim... tu não das ponto sem nó Senhorita Granger... - Neville sorriu ameno.
- Obrigado Neville… tenho de me desmaterializar bem rápido...
- Fora daqui... Hermione… nunca leste a Historia da Magia? …. Não é possível desmaterializares te dentro deste recinto… - repreendeu divertido.
Hermione revirou os olhos.
Sorriu atrapalhada.
Que tola!
- Feitiço contra a feiticeira... - disse ela.
- Nem imaginas o prazer que me deu dizer isto...!- Neville gargalhou.
- Eu volto... para te contar tudo... prometo Neville...
- Eu sei que sim...
Saiu rapidamente do castelo, assim que estava longe dos feitiços protectores, desmaterializou-se para a porta de sua casa.
Desejando arduamente que o maldito livro tivesse a cura.
Senão seria o fim de Draco Malfoy.
