Quando amo você – 01

"When you have to look away

When you don't have much to say

That's when I love you

I love you

Just that way"

Pousei a mão sobre a base de meu pescoço, meus músculos estavam tão tensos depois de uma rigorosa sessão de ensaios que podia sentir sua rigidez sem sequer tocá-los.

Tive um sobressalto quando senti alguém tocar minhas costas. Virei e me deparei com seu sorriso.

"Suas costas estão doendo?" A pergunta veio seguida por uma discreta carícia em meu ombro esquerdo.

Assenti com um suspiro. Não apenas as costas, meu corpo inteiro estava dolorido.

"Falei pro Moriyama-san que ele estava pegando pesado com você hoje, mas ele não quis me ouvir."

Sorri. "Tudo bem, Eiji-san só está tentando me ajudar. Preciso mesmo treinar mais aquelas acrobacias, se não conseguir me aperfeiçoar vou ser um péssimo Kikumaru."

"Ah, mas Kikumaru não é apenas acrobacias. Acho que você já o representa muito bem. De certa forma, você já tem muito dele."

Ergui uma sobrancelha em descrença. "Tenho?"

"Tem sim. Quando você o interpreta, consegue mostrar através dos olhos o quanto o personagem é cheio de vida. Além disso, esse seu sorriso de moleque te ajuda a parecer ter a idade do Eiji."

Ri de seu comentário. As formas discretas que você encontrava para elogiar e incentivar meu trabalho sempre me surpreendiam.

"Mas vamos deixar de conversa! Temos pouco tempo antes que o intervalo acabe." Observei curioso enquanto você sentava no chão, com as costas escoradas na parede, e me estendia a mão. "Vem. Senta aqui que faço uma massagem."

Por alguns segundos fiquei apenas o olhando espantado, realmente não estava esperando por esse tipo de reação. Como sempre, você conseguia ser imprevisível. E você percebeu minha surpresa, claro, logo continuou a falar:

"Não se preocupe, não vou te machucar, sou bom nisso." Um sorriso orgulhoso curvou seus lábios. "Se quiser, pode ir perguntar ao Moriyama-san, ele pode comprovar."

Movi a cabeça de forma negativa, como se quisesse dizer que não precisava de confirmação alguma, pois não precisava mesmo, já tinha aprendido a perceber quando você estava apenas brincando e quando estava falando a sério.

Sentei-me de costa para você, no espaço entre suas pernas, tomando o devido cuidado para manter uma distância respeitosa. E não demorou até que eu sentisse suas mãos espalmadas em minhas costas. Um longo tempo pareceu passar enquanto ficamos apenas assim. Era como se você estivesse avaliando tudo e pensando na melhor maneira para começar.

Ouvi quando você respirou fundo antes de iniciar a massagem. Suas mãos percorriam a extensão de minhas costas lentamente, pareciam até um pouco vacilantes, seus dedos aparentavam procurar os pontos certos para explorar. Aos poucos os toques se tornaram mais precisos, a pressão era aplicada de forma quase sutil em meus músculos doloridos. Incrível perceber como a dor realmente ia se esvaindo, como se seus dedos habilidosos soubessem a forma correta para desatar nós feitos pela tensão.

Fechei os olhos quase que involuntariamente, queria sentir a plenitude daquele alívio prazeroso. Como algo tão simples podia causar sensações tão intensas?

"Hmm... Tuti..." Murmurei sem sequer perceber o que estava fazendo ao certo. Embriagado demais pela inebriante sensação.

Percebi que você se deteve por alguns instantes nesse momento. Era como se a tensão que estivera em minhas costas tivesse passado para suas mãos. Mas foi algo breve, logo a massagem tinha sido retomada. Curiosamente, sua insistência e empenho passaram a ser maiores no momento em que seus longos dedos chegavam à base de meu pescoço, local de onde, aparentemente, havia sido arrancado de mim aquele murmúrio de aprovação.

Um sorriso malicioso curvou meus lábios quando tentei imaginar o que estaria se passando em sua mente.

Prosseguimos dessa forma por um tempo considerável, até que você decidiu acariciar meus ombros, pressionando com os polegares uma pequena parte de pele que dava para alcançar através da gola de minha camisa. Foi então que finalmente desisti da teimosia e resolvi lhe dar o que você queria. Inclinei a cabeça um pouco para trás e permiti que pequenos sons de aprovação me escapassem.

Avidamente, você insistiu em tocar aquela parte, um pequeno sorriso satisfeito dançava em meus lábios e, percebendo que minhas costas há algum tempo não mais incomodavam, reclinei-me até ter o apoio de seu peito. Por um instante, senti-o prender a respiração, mas logo suas mãos estavam acariciando meus braços.

Esperei qualquer outra reação de sua parte, quando ela não veio meneei a cabeça até encontrar uma posição confortável que me permitisse olhar pra você, diretamente em seus olhos. Você retribuiu meu olhar, mas continuou sem nada dizer.

Sorri e fui presenteado com outro sorriso, tão feliz e satisfeito quanto o meu.

Dentro de mim, uma sensação engraçada esquentava meu peito ao mesmo tempo em que esfriava a base de minha barriga. Tinha vontade de rir de forma histérica sem sequer ter um motivo concreto para isso.

"Você é mesmo muito bom nisso." Declarei sem deixar de te fitar, sentia sua respiração tocar levemente os fios desgrenhados de minha franja.

Tive uma vontade súbita de beijá-lo quando vi suas bochechas adquirirem um leve rubor e percebi seus olhos se desviarem por breves segundos dos meus. Mas ainda não era a hora para algo assim. De alguma forma eu sabia, tinha a plena idéia do que estava acontecendo entre nós e acho que já podia supor o que podia vir a acontecer daqui a algum tempo. Mas por enquanto era só isso, uma suposição, não queria apressar as coisas, não quando tinha o risco de estragar tudo e especialmente não justo agora que tudo estava indo tão bem.

Ri. Tive que rir, aquilo tudo era adorável e engraçado ao mesmo tempo. Você me olhou com estranheza, mas riu mesmo assim.

"Sabe..." Comecei com uma voz preguiçosa, me esforçando para erguer-me de onde estava. Notei que você me observava enquanto eu esticava os braços lentamente quando já estava de pé, me curvando para tocar o chão logo em seguida. Fingi não notar que você estava esperando pela conclusão de minha frase por mais algum tempo, só pelo prazer de ter os seus olhos fixos em mim. Por fim, ergui o corpo e voltei a te encarar. "Você fica muito bonitinho quando está assim sem graça." Me certifiquei de exibir dos sorrisos o mais cheio de dualidade antes de virar de costas e começar a seguir pelo corredor.

Claro que tive o cuidado de não perder o momento em que seu rosto se tornou uma máscara de puro espanto enquanto você abria a boca várias vezes sem que som algum fosse emitido. Estava claro que você queria retrucar, fazer qualquer comentário cheio de esperteza como lhe era de costume, mas mais óbvio ainda era o fato de que eu tinha deixado Tsuchiya Yuuichi sem palavras. Naquele momento, você não tinha nada para dizer e talvez até seus pensamentos estivessem confusos demais para serem entendidos, e quão gratificante não era saber que eu era o causador daquilo tudo?

"Oi!" Seu grito ecoou pelo corredor e ouvi seus passos apressados em minha direção.

Olhei para trás e lhe ofereci meu sorriso mais inocente antes de começar a correr o mais rápido que consegui. "Não vale ficar irritado só porque fui sincero!" Gritei sem parar de correr para fazer isso.

"Takashi! Espere!" Você tentava me alcançar, mas eu estava com a vantagem, tinha começado a caminhar bem antes de você se recuperar do choque.

Mal conseguia controlar meu riso. Você também já tinha caído na gargalhada e isso parecia estar agravando sua desvantagem. Logo chegaríamos ao salão de ensaios e mostraríamos para nossos colegas de trabalho, mais uma vez, o quão bobos éramos. Existia uma lista enorme de pessoas sonhadoras e apaixonadas que também haviam sido consideradas bobas ao longo da história. Por quê eu tinha que me preocupar, afinal? Alguma vez em minha vida já tinha me sentido assim tão vivo? Não tinha problema ser bobo se eu podia continuar assim, rindo junto de você, te fazendo desviar o olhar pelo embaraço que minhas palavras te causaram, te fazendo perder a fala com um simples comentário.

Antes de abrir a porta do salão, olhei para você, ofegante pelo esforço, o sorriso ainda estava lá, enfeitando seu semblante quando você parou ao meu lado e deu um leve tapa em meu ombro. Tinha certeza de que eu estava sorrindo tanto quanto você.

"Queria me deixar pra trás, é?" Questionou-me com ar fingido de mágoa.

"Jamais." Respondi em tom de brincadeira algo que era a pura verdade. Não tinha a menor vontade de te deixar quando tudo o que queria era ter mais tempo junto a você.

Revirou os olhos em descrença e abriu a porta. "Chega de brincadeiras, já é hora de trabalhar. E se nos atrasarmos outra vez, tenho certeza de que Ueshima-sensei vai querer diminuir nosso salário."

"Isso é verdade." Falei em meio ao riso enquanto seguíamos para nos unirmos aos outros.

Dizem que sabemos muito bem quando amamos alguém. Estou prestes a declarar como correta essa teoria, pois tenho a impressão que sinto cada vez que passo a te amar mais. E garanto, esse aumento acontece com uma freqüência maior do que você poderia imaginar. Gestos tão simples, como o pequeno sorriso que você está me direcionando enquanto deveríamos estar assistindo ao ensaio dos outros, representam tanto para mim que jamais conseguiria explicar em palavras.

"Preste atenção!" Falei em tom fingido de rispidez enquanto apontava para nossos amigos que se encontravam de pé no centro do salão, pronunciando suas devidas falas, e esforcei-me o máximo que pude para manter a expressão séria e resistir à tentação de te olhar até quando ouvi sua exclamação de surpresa ante minha reação.

Mas não demorou até que olhasse novamente pra você. Como resistir? E não me surpreendi ao ver sua expressão mais que exagerada de mágoa. Sorri e logo você estava, mais uma vez, retribuindo meu sorriso.

Percebi que é fácil de se responder quando estamos amando. O problema mesmo é se a pergunta for quanto.