Quando amo você – 02
"To hear you stumble when you speak
or see you walk, with two left feet
That's when I love you
I love you... endlessly"
O ensaio já tinha acabado por hoje, todos estavam juntando rapidamente seus pertences e indo embora, alguns até tinham marcado de sair para comer juntos. Eu disfarcei o fato de estar te esperando enquanto arrumava vagarosamente minha bolsa.
"Não vai agora, Nagayan?"
Olhei para Kimeru, que me lançava um olhar questionador.
"Agora não." Apontei para a bolsa ainda aberta. "Preciso terminar de organizar isso antes."
"Seei..." Claro que não conseguiria enganar justo o Kime, mas ao menos tinha que tentar. Afinal, quão constrangedor seria declarar que eu só pretendia ir quando conseguisse me despedir do você? "Então, posso te ligar mais tarde? Podemos fazer algo juntos. O que acha?"
"Claro! É uma ótima idéia." Sorri lhe dando minha aprovação sincera e ele sorriu de volta, acenando sua despedida antes de correr ao encontro a Sota e Naoya, que o esperavam mais à frente.
Logo o salão estava vazio e eu não conseguia parar de pensar que talvez fosse melhor ir embora. Estava sendo óbvio demais, não? Mas existe uma grande diferença entre saber o que é certo e fazê-lo. Eu não tinha a mínima vontade de sair dali sem te ver uma última vez.
Lembrei que tinha visto você havia mais ou menos meia hora na sala onde guardávamos nossos objetos pessoais, estava conversando calorosamente com alguns de nossos colegas. Mas a maioria das pessoas já tinha ido embora e me perguntava o que ainda estaria te prendendo. Já cansado de tanto esperar, comecei a caminhar pelos corredores silenciosos, abrindo algumas portas aqui e ali para me certificar de que você não estivera por lá. Não encontrei nenhum vestígio de sua presença nas salas, isso até o momento em que me encontrei de frente para a porta do mesmo salão onde havia te visto mais cedo. Sua risada alta e extravagante não deixou dúvidas de que você estava de fato naquele lugar.
Coloquei a mão na maçaneta da porta, mas não cheguei a girá-la. A clara menção de meu nome me fez congelar onde estava. Agucei o máximo que consegui minha audição, esforçando-me para ouvir com nitidez o diálogo que ocorria naquele cômodo. A voz regada de malícia que veio em seguida era do Eiji-san, disso tinha certeza.
Pelos poucos comentários que consegui ouvir depois disso, pude deduzir que a conversa girava em torno da possibilidade de você me chamar para sair. E teria sido coisa de minha cabeça ou você realmente tinha acabado de dizer que não poderia sair com Eiji-san justamente porque tinha feito planos de sair comigo hoje?
Não pude conter o sorriso que se formou em meu rosto. Ouvir Moriyama rir dizendo tinha certeza de que você não teria coragem suficiente para fazer tal coisa e que provavelmente acabaria ficando em casa sozinho outra vez foi quase demais para mim. Imaginar que você já tinha programado encontros comigo e tinha desistido da idéia por falta de coragem era algo no mínimo interessante ao meu ver.
Talvez fosse melhor sair dali agora, já tinha ouvido o suficiente para me sentir satisfeito e feliz. Poderia te esperar por quantas horas você quisesse agora que tinha me encantado mais uma vez com suas atitudes. E se você voltasse a vacilar no momento crucial, eu daria um jeitinho de arrancar o convite de você. Sairíamos juntos hoje.
Retirei a mão da maçaneta, um sorriso enorme nos lábios, mas antes mesmo que pudesse me virar, a porta se abriu. Isso fez meu sorriso ser substituído por uma expressão de surpresa, quase medo, em uma velocidade notável.
As risadas de vocês cessaram assim que fui visto.
"T... Takashi..." Você foi o primeiro a falar.
Apenas engoli em seco e assenti.
A expressão de choque de Eiji-san logo se tornou uma mistura de malícia e maldade.
"Chegou bem na hora certa!" Apertou meu ombro com mais força do que talvez pretendia, parecia estranhamente empolgado com a situação. "Tsuchiya estava mesmo querendo falar com você, né?" Foi sua vez de receber um apertão no ombro.
"Eu... bem..." Respirou fundo. "É verdade, queria falar com você."
Eiji-san sequer se preocupou em ser discreto na hora de rir.
"Então, vocês vão me dando licença que tenho umas coisinhas pra resolver. " Ele passava o olhar de você para mim de forma cínica. "Boa conversa. E divirtam-se vocês dois."
Um aceno e nada mais que isso. Ele realmente deve ter apressado o passo, porque não demorou mais que alguns segundos até estarmos a sós.
O silêncio me incomodava ainda mais que seu olhar apreensivo.
"Bem..." Percebi o esforço necessário para que você conseguisse começar a falar. "Estive pensando..." Limpou a garganta, querendo disfarçar sua falta de palavras. "Na verdade não é nada demais, sabe? Estava me perguntando se... talvez..." Engoliu fortemente e passou a mão pelos cabelos. Eu deveria estar me sentindo sufocado por sua confusão e talvez até estivesse se a situação fosse outra, mas no momento estava achando cada tropeço seu, ao tentar formular frases coerentes, adorável. "Será que hoje você não gostaria, sei lá... nem sei se você está ocupado mas eu-"
"Prefere jantar ou ir ao cinema?" Cortei sua fala com minha pergunta quando achei que você já tinha sofrido o suficiente para pagar por sua falta de coragem.
Você riu e moveu a cabeça negativamente ante minha ousadia, mas pude ver em seu rosto o alívio e a gratidão por eu ter tomado a atitude de aceitar um chamado que sequer chegou a ser feito. E isso me fez rir também.
"O que acha de boliche, depois jantar e então cinema?"
Óbvio. Já deveria ter considerado a possibilidade de você ter tudo programado. Afinal, era sobre esses planos que você estava discutindo com Moriyama.
"Por mim está ótimo." Respondi com voz calma, apesar de estar sentindo uma ansiedade enorme percorrer todo o meu corpo. "De que horas nos encontramos no boliche?"
"Posso escolher o horário?" Questionou-me em tom forçado de surpresa. Sua pergunta me fez rir.
"Deve!" Declarei com ar de comando, um indicador apontado em sua direção.
"Se é uma ordem sua, vou me certificar de cumprir." E lá estava seu sorriso bobo que tanto me encantava. "O que acha de... hm..." Adquiriu um ar pensativo. "O que me diz de nos encontrarmos daqui à uma hora?"
"Já disse que a escolha do horário é sua." Cruzei os braços, querendo interpretar bem meu papel de Nagayama indignado. "Então você não tem que estar me perguntando nada, só precisa decidir quando quer me ver."
Sua gargalhada não me surpreendeu. "Está bem, está bem." Respirou fundo para segurar o riso. "Não preciso de mais do que uma hora para passar em casa e tomar um banho." Olhou para mim parecendo sem jeito. "Você acha que consegue se arrumar em tão pouco tempo?" Salvou-se com o comentário maldoso.
"Eu não sou tão lento assim para me arrumar!" Protestei.
"Ah... não é?" Fingiu surpresa. "Então desculpe, devo ter te confundido com outra pessoa, né?" O sarcasmo camuflado nessa simples frase era por demais perceptível.
Um sorriso torto e mal contido, acompanhado por um olhar que estava cheio de felicidade demais para realmente ser bravo, foi a minha resposta.
"Então nos vemos daqui à uma hora e meia? Sabe como é, esses metrôs sempre atrasam e acho que vou acabar precisando de meia hora extra para chegar ao local."
"Mas claro!" Exclamei já rindo. "Tsuchiya nunca está atrasado, é tudo culpa dos metrôs."
"Claro."
"Certo." Comecei e me certifiquei para ver se estava com uma expressão pomposa o suficiente antes de continuar. "Se você está assim tão desesperado para sair comigo," Apontei para meu próprio rosto e senti-me orgulhoso por estar conseguindo te fazer sorrir daquela maneira. "Podemos nos encontrar daqui à uma hora e meia, mas tenho que lembrar que o boliche não vai abrir nem tão cedo..."
"Colocamos uma passada na sorveteria no topo da lista de afazeres de hoje e está tudo resolvido!" Anunciou antes mesmo que eu concluísse meu pensamento. "Ou..." Voltou a ficar pensativo, como se algo lhe tivesse ocorrido naquele momento. "Podemos esperar até o horário do boliche abrir para nos encontrarmos..."
Fiquei te olhando, vendo claramente que a última opção não te agradava, mas que você estava disposto a aceitá-la caso eu achasse que ela era melhor.
"Nos vemos daqui a duas horas." Declarei sério, ignorando totalmente sua colocação anterior. E nada jamais poderia substituir o que senti quando vi um sorriso genuíno curvar seus lábios.
"E de onde saiu essa meia hora a mais?" Sua pergunta veio quando começamos a caminhar pelo corredor em busca da saída.
"Créditos." Olhei de soslaio em sua direção e sorri com maldade. "Sei que você vai precisar de cada minuto dessa outra meia hora para conseguir chegar na hora certa."
Sua cara de ofendido me fez rir. E logo você se juntou a mim, rindo não apenas por meu comentário, mas pelo simples fato de estar feliz por dessa vez tudo ter dado certo. Era muito aparente sua satisfação por seus planos finalmente terem passado de simples pensamentos. Eu não tinha como deixar de estar feliz por ter contribuído para essa sua felicidade.
