Capítulo Dois

Sentiu mãos macias passando em seu rosto. Começava a recobrar a consciência aos poucos. E a dor foi voltando lentamente com ela. Ele fez uma careta e foi abrindo os olhos vagarosamente. Lelahel o encarava com aqueles grandes olhos verdes, contendo certa pena dele. Passava água em seu rosto, tentando amenizar a ardência.

Sabia que Zacharias não deixaria ninguém curá-lo. Não queria que lhe tirassem a dor. Mas seus irmãos não permitiram que a ferida ficasse aberta e sangrando. Ele olhou bem dentro dos olhos do outro anjo, questionando. Lela virou o rosto, constrangida. Ela jamais iria contra uma ordem de Zacharias. Não depois de ele ter lhe salvado a vida uma vez. Era um caso perdido.

- Eu posso não fazer nada, mas não quer dizer que eu concorde. – a voz macia e cantada deu certo prazer a Castiel. Pelo menos ele não era o único por ali que pensava do jeito certo. – Eu gosto dos humanos. Eles são estranhos, mas são felizes e gentis, quando querem. Zacharias não vê isso porque está muito mergulhado em rancor, assim como os anjos mais velhos.

Castiel tentou sorrir, mas a fisgada do lado esquerdo de seu rosto o fez paralisar de dor. Anjos tinham uma força descomunal. Do tipo que ninguém quer sentir em si mesmo. E é por isso que o tapa raivoso que Zacharias tinha lhe dado o machucara tanto ou mais do que os outros ferimentos.

- Por que não deixa isso pra lá, Castiel? – ela olhava fundo em seus olhos – Por que não volta obedecer a Zacharias?

- Porque ele está errado, Lela. E agora que me dei conta de que tenho escolhas, não vou abandoná-las assim.

Ela encarou-o, analisando sua expressão. Ele estava determinado. Nunca vira aquele brilho decidido em seus olhos antes. Sempre obediência, nunca hesitação. Ligeira confusão quando pensava em humanos e suas ações. Mas nunca aquela determinação petulante e desafiadora.

- Você mudou, irmão.

- Sim, eu mudei. – ele piscou – Graças a humanos, que Zacharias tanto quer destruir.

- Como ele é? – ela sentou-se em seus joelhos, pousando as mãos neles, olhando com uma curiosidade sem tamanho. – Dean Winchester?

- Por que quer saber dele? – Castiel ficou imediatamente na defensiva. Ela podia estar ali para arrancar coisas dele, para usarem contra si nas torturas. Para jogarem na sua cara.

- Por quem você me toma, Castiel? – ela parecia indignada. Levantou-se, levando a bacia de água e o pano úmido. Atravessou a porta a passos ligeiros e silenciosos.

Castiel ouviu o trinco da porta fechar-se, acusadora. Perfeito! Tinha se livrado da única potencial aliada que arranjara por ali. Lela não era rancorosa... Mas ainda assim... Sentou-se, sua face ainda ardendo pelo forte tapa. Passou as mãos nos cabelos negros. A luz clara da janela indicava que ainda era dia.

Ele pensou no que Dean deveria estar fazendo a uma hora dessas. Provavelmente já acharam Jimmy. Será que ele tinha voltado para sua família? Será que os demônios tinham-no achado e aprisionado? Será que ele sofria como o próprio Castiel?

Esperava que não. Torcia para que os Winchesters o achassem e o protegessem. Jimmy era um bom homem, devoto e gentil, a quem Castiel queria o bem. Ele não merecia sofrer por um erro seu. Exclusivamente seu. Rezaria por ele. Rezaria para que Deus o protegesse, onde quer que estivesse.

A porta rangeu, abrindo-se devagar. O tormento começaria novamente, era o que denunciava a expressão sádica e maliciosa de Omael. Elemiah adentrou no quarto, parando em frente ao anjo que continuava sentado. Olhou-o no fundo dos olhos.

- Castiel, você se rende?

- Não. – a voz saiu forte, intimidadora.

Omael seguiu os passos do outro, sorrindo, contente por ter alguém em quem bater. Seu forte era a tortura, o espancamento. Sua arte, fazer outros sofrerem. E Castiel se dera de presente, acabando com a rotina tediosa que era ficar ali sem ter o que fazer. Aquele sorriso lhe deu certeza de uma coisa: estivera rezando pela pessoa errada.



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