Capítulo Quatro
A porta abriu-se, e novamente Zacharias entrou. Parecia mais composto agora, mais controlado. Sentou-se em frente à Castiel e o encarou firmemente. Os hematomas ainda estavam lá, denunciando que não existia misericórdia nas mãos de Omael e Elemiah.
- Divertindo-se? – ele perguntou, sorrindo de lado.
- Não tanto quanto Omael.
Zacharias soltou um risinho. Sabia que Omael seria impetuoso, por isso mesmo o escolhera para a tarefa. Ele sempre arrancava qualquer confissão, qualquer obediência. Era o seu instrumento para conseguir o que quisesse, de quem quisesse.
- Não vai funcionar. – Castiel disse; os olhos azuis calmos e frios.
- É, eu tenho reparado nisso. – ele observou o anjo, cauteloso – Acho que tortura física não é a saída. Vou ter de persuadi-lo de outra maneira.
Castiel ficou imaginando que outras maneiras Zacharias teria para convencê-lo a voltar a obedecer a ele.
- Por que esse protecionismo desenfreado com os humanos? Eles não são dignos de sua compaixão.
- Por que diz isso? – Castiel levantou a sobrancelha, desconfiado.
- Você não aprendeu nada nesses anos todos de vigília? – Zacharias começou a numerar com os dedos. – Guerras, mortes desnecessárias, seqüestros, roubos, chacinas... Corrupção, prostituição... Pura maldade, pra onde se olhe.
- São exceções. O bem ainda prevalece.
- Checou o mundo ultimamente, Cass? – Zacharias lançou-lhe um olhar incrédulo. – Já viu quanta porcaria anda acontecendo por aí? Ou anda muito ocupado, olhando exclusivamente os Winchester, vinte e quatro horas por dia?
- Não sou tão tapado, Zacharias. Sei que existem coisas erradas no mundo. E sei também que boa parte é culpa dos demônios, sempre sussurrando aos ouvidos deles...
- O que prova que são criaturas fracas, Castiel. – ele cruzou as pernas, encostando-se à cadeira – Não são obrigados a fazer nada, os demônios só os empurram na direção certa, e eles caem feito patos.
- Não importa. – Castiel balançou a cabeça – Eles ainda têm muita coisa boa dentro de si. E isso se sobrepõe ao mal.
- Você realmente acredita nisso?
- Sim.
Zacharias ficou encarando-o durante um tempo. Depois, sem dizer mais nada, saiu pela porta, trancando-a assim que passou. Castiel ficou imaginando o que aquilo significava. Teria Zacharias se rendido? Deixaria-o ir embora?
Não. Tinha certeza de que outra coisa viria daquela porta. Talvez os torturadores novamente, para dar-lhe uma lição por ser tão ingênuo. Tinha certeza que Omael estava ansioso por ficar com ele naquela sala branca e sinistra novamente. Mais ansioso ainda se ficasse completamente a sós com ele, sem Elemiah para controlar suas ações.
Por quanto tempo aguentaria aquela agressão física? Castiel podia não envelhecer, mas um anjo sabia como matar outro anjo. Facadas, feitiços... Tinham toda uma gama de armas para escolher. Uriel mesmo escolhera uma espada sagrada para tal fim. Qualquer coisa afiada e abençoada podia dar cabo deles. Era só uma questão de oportunidade...
E tinha medo de morrer. Não por simplesmente deixar de existir. Mas por não ter tido tempo de avisar a Dean. Ele precisava dar um jeito de contar a ele os planos de Zacharias. Sair dali, ou mandar alguém. Queria tanto poder fazê-lo durante um sonho dele ou de Sam... Mas seria impossível ali, com toda aquela vigilância.
Deixou-se cair deitado no chão. Sentia-se cansado. Muito cansado. Cansado de sentir-se impotente, de não poder fazer nada. De estar preso ali, e não ter a mínima chance de escapar. Não sozinho. Ficou imaginando se poderia coagir Lela de agir em seu lugar. Não, não havia nenhuma chance.
Fechou os olhos, esperando por sua próxima visita. Que não demorou tanto quanto ele pensou. Em questão de minutos, Zacharias entrava novamente pela porta, um maço de papéis na mão. Cass sentou-se, observando o superior sentar-se na cadeira e abrir uma das páginas que tinha nas mãos. Aquilo era um jornal. Um jornal humano.
- Bem, vejamos... – ele começou a passar os olhos acinzentados pela página. – Ah, aqui está! "Casal de Indianápolis voltava do hospital, onde levaram o filho Matheus, de três anos, para uma consulta pediátrica, quando a mãe, Rebecca, puxou a criança para o banco da frente e o jogou pela janela." Os advogados da ré defendem a tese de depressão pós-parto. A acusação tem absoluta certeza de que juiz nenhum no mundo inocentaria uma pessoa como essa. – Zacharias lançou-lhe um sorriso por cima do jornal – Muito má para ficar à solta.
Ele virou a página, procurando outra manchete rapidamente. Os olhos não-humanos passando a uma velocidade incrível, absorvendo todo o conteúdo do jornal em questão de segundos.
- Ah, aqui tem outra! – Castiel o ouviu, indignado com a alegria que lhe enfeitava a voz ao contar-lhe aquelas coisas horríveis. – Guerra de gangues. No parque da cidade de Wisconsin. Dez feridos, cinco mortos. Três deles crianças. – ele encarou Castiel, sorridente. – Não é adorável?
- Pare com isso!
- Ah, mais uma! Essa aqui é espetacular! Uma guerra em um país árabe qualquer. Cento e cinquenta feridos, só no último fim de semana. Quer apostar quanto, que metade dessas pessoas vai morrer?
- Por que está fazendo isso?
- Pra mostrar o que seus amados humanos realmente são! – ele fechou o jornal, pegando outros papéis, com fotografias de paisagens. Algumas completamente devastadas por fogo. – Isso sem falar com o que eles fazem ao planeta. A Amazônia diminuiu drasticamente com plantações, criação de gado e madeireiras ilegais. Imagina como o "pulmão do mundo" já não está hoje.
- São uma minoria.
- Jura? – ele passou os olhos pelo jornal e pelas fotos, novamente rápido como uma flecha – Não é o que está parecendo. – ele fechou a expressão – Admita, Cass, os humanos que você tanto ama não servem para habitar esse planeta. Eles acabam com tudo. Inclusive a si próprios. – ele levantou-se, jogando as fotos e o jornal no chão perto do anjo – Pense na raça que está protegendo, preferindo-os a seus irmãos.
Castiel olhou a fotografia de um esqueleto animal, já completamente decomposto. Um abutre pousado nos ossos olhava fixamente para Castiel, como se esperasse ele sucumbir para que se alimentasse de sua carne. Castiel sentiu o corpo estremecer de uma maneira aterrorizante, antes de virar a foto de ponta cabeça e a esconder embaixo do rolo de jornal.
