Capítulo Cinco
Elemiah entrou uma vez para pendurar mais fotos horripilantes de cenas de crimes. Corpos estraçalhados, sangue escorrendo por todos os lados, faces tomadas pelo terror. Cenas grotescas, que faziam o estômago de Castiel embrulhar.
Outras mostravam o desespero dos familiares e amigos deixados para trás, inconformados com o descaso da polícia com os falecidos e a crueldade dos assassinos. Notícias de jornais mostravam criminosos poderosos que aguardavam julgamento em liberdade, arrastando o caos por onde passavam. Serial killers não capturados, cidadãos vivendo sob a sombra do medo de eles voltarem a aterrorizarem suas cidades.
A face mais feia do mundo. A parte dos humanos que Zacharias queria fazer prevalecer no julgamento de Cass. Mostrava-lhe a crueldade, para que ele virasse um instrumento da sua própria.
Castiel não se renderia. Tão logo o anjo saiu, levantou-se e foi à parede, para arrancar tudo aquilo dela. Não conseguiu. Elemiah tinha feito algo para que elas ficassem permanentemente grudadas. Castiel suspirou, voltando ao canto em que estava, virando o rosto à parede oposta às fotografias.
Essa tática não funcionou por muito tempo. Quando menos percebeu, o cubículo perdia o tom cinzento para dar lugar a um misto de cores horrendas. O Vermelho reinava, absoluto. Ninguém o podia destronar naquela sala enfeitada pelo terror.
Castiel resolveu apenas fechar os olhos, fingir que nada daquilo existia. Mas era tarde demais para seu pobre coração, já vira muito. Sentia-se doente, derrotado. Começou a questionar se realmente valia a pena aquele sacrifício todo.
Lela entrou silenciosamente, sentando-se a seu lado, sem dizer nada. Esticou a mão delicada, envolvendo a de Cass, apertando-a levemente. Cass abriu os olhos e encarou Lela. Ela balançou a cabeça negativamente várias vezes.
- Não se deixe abater por essas fotos, Cass. – ela olhou em volta, aborrecida – Nós sabemos que há muito mais lá fora do que isso.
Cass concordou com a cabeça. Mas não pôde deixar de pensar nas jovens vidas arruinadas, nas famílias sem rumo, nas conseqüências desastrosas que tudo aquilo desencadearia.
- É horrível. Mas não é tudo. – Ela puxou o rosto dele, fazendo-o olhar dentro de seus olhos verdes. – Lembre-se das coisas boas. Das crianças, das brincadeiras, das flores, dos almoços de família. Do amor. Lembre-se principalmente do amor. – ela acariciou sua face – Se lembrar do amor, Zacharias não poderá chegar até você.
Castiel sorriu.
- Você tem razão. Obrigado, Lela.
- De nada. – ela estendeu-lhe um chá. – Tome isso. Ainda estou preocupada com aquela facada que recebeu.
- Estou bem.
- Só beba.
Castiel pegou o copo, entornando o líquido rapidamente. Entregou-o a ela, que saiu sorridente de lá. Assim que fechou a porta, Castiel pôde ver uma seleção de fotos que antes não existiam: fotos de coisas boas. Casamentos, aniversários, batizados. Sorrisos sinceros, coroados de uma alegria que Castiel nunca experimentara, mas que sabia existir. Fechou os olhos, imprimindo aquelas imagens em sua mente, sobrepondo-as às anteriores.
Sentiu sua sanidade voltar aos poucos. Sabia que tinha feito a escolha certa. Era só lembrar-se do amor. Castiel sabia que nunca conseguiria agradecer Lela o suficiente por tudo o que estava fazendo.
Levantou-se, indo até o mural do anjo. Passou a mão por cima de uma foto onde um casal se abraçava sorridente. A mulher abraçava a barriga grande da gravidez. O homem tinha um brilho no olhar que chegava a espantar Cass. Em outra foto, um casal de adolescentes se beijava cheio de paixão e doçura.
Em outra, a mais bonita de todas, uma mãe sorria enquanto empurrava a filha no balanço. A criança olhava para a figura materna com orgulho, feliz por ter alguém para brincar com ela. Como colocar as coisas ruins por cima de tudo aquilo? Não havia como. Não no coração de Castiel.
O trinco da porta começou a mostrar sinais de vida, e rapidamente Castiel voltou ao seu lugar, sentando-se imóvel, de olhos fechados, como Zacharias ou um dos outros pretendiam encontrá-lo. O superior entrou, olhando em volta, e depois olhando Castiel. Este abriu os olhos azuis, encarando-o com determinação. Zacharias espantou-se por encontrar outra coisa que não desespero neles. Suspirou, resignado. Deixou a porta aberta, apontando para o lado de fora.
- Vamos dar uma volta.
