Capítulo Seis
Escoltados por Omael e Elemiah, Zacharias e Castiel foram parar do lado de fora de uma casa do subúrbio de Nova York. Era uma casa de dois andares, toda pintada de marrom, com a fachada desgastada. Numa escada de três degraus estavam sentados dois meninos negros. Eles conversavam animadamente sobre a escola, ouvindo música num velho walkman.
- O que estamos fazendo aqui? – Cass perguntou, desconfiado.
- Quero lhe mostrar uma coisa. – ele apontou à esquerda do prédio. – Olhe.
Cass assistiu um jovem, de não mais de vinte e dois anos, sair de um prédio, cumprimentando outro que ficara na soleira da porta, contando dinheiro. Cass sabia que eles estavam metidos em alguma coisa ilegal, só pelo jeito que o primeiro olhou para os dois lados antes de sair.
Ele disse alguma coisa para as crianças, que acenaram sorridentes. Um carro negro cantou pneus, virando a esquina com rapidez. O coração de Castiel disparou. Ele queria correr até aquelas crianças e protegê-las, mas pelo tom desbotado da imagem, sabia que aquilo era uma visão do passado.
Ele assistiu, passivamente, o carro diminuir a velocidade conforme se aproximava dos dois homens adultos. Dois bandidos sentaram na janela direita dos carros, rifles na mão, enquanto um terceiro no banco de trás fazia a mesma coisa. O motorista sacou de um .38, apontando diretamente para o jovem na calçada.
O tiroteio começou, sem dar tempo para muitas reações. Os dois homens foram atingidos em cheio por várias balas. As crianças tentaram correr para dentro da casa, mas não foram tão rápidos. O garoto mais jovem foi baleado bem no coração. Castiel viu o desespero do outro ao tentar parar o sangramento.
Ele assistiu a vida do menor se esvaindo por entre seus dedos. Gritou por socorro, desesperado. Em cinco minutos, um adulto desceu as escadas correndo. Pegou o garotinho no colo, levando-o até um carro velho e marrom estacionado por perto, gritando alguma coisa para a mulher que aparecera na porta. Ela entrou correndo, balançando a cabeça.
O garotinho ficou na porta, estático, observando o carro dar partida e sumir na esquina. As mãos trêmulas estavam com as palmas viradas para o céu, o sangue do amiguinho pingando, marcando o chão da escada e o coração da criança para sempre.
A mulher voltou para o lado de fora, arrastando a criança inerte para dentro. Olhando para os lados com desconfiança. A porta foi trancada. A polícia chegou alguns minutos depois, recolhendo de qualquer jeito os corpos mortos na calçada. Dinheiro e drogas apreendidos.
Em um segundo, os anjos já não estavam mais lá. Estavam dentro de uma igreja. Aquelas de bairro, simples e impecavelmente limpas. Os bancos estavam todos tomados, e algumas pessoas estavam em pé, amontoadas pelos quatro cantos do templo. A mulher que Castiel vira dava tapinhas gentis nas costas de outra mulher, a mãe do garotinho assassinado.
O corpo da criança estava exposto num pequeno caixão aberto, os olhos inocentes fechados pela eternidade. A mãe chorava copiosamente, desesperada por seu filho ter sido tomado de si. O outro garoto olhava de cabeça baixa o chão acarpetado da igreja. A mesma expressão que tomara conta de sua face enquanto observava o carro virar a esquina, levando seu amigo para longe.
Assim que começaram a entoar cânticos religiosos, Zacharias os tirou de lá, transferindo-os para um apartamento sujo e bagunçado. A mãe do garotinho estava largada numa poltrona, os cabelos desalinhados e gordurosos. Fitava a televisão antiga, sem realmente ver.
Uma moça jovem passou por trás dela, falando que estava de saída. Usava uma microssaia que deixava toda a extensão de suas pernas de fora, e uma blusa que não deixava margem para imaginação. A maquiagem carregada e a bolsa brilhante já sugeriam para onde ela estava indo daquele jeito, mas a mãe não se importou.
A garota suspirou, mandando-a comer alguma coisa, saindo para arranjar algum dinheiro para pagar as contas da casa. Pensava em como era injusto ter que tomar o lugar dela na providência do dinheiro, em sacrificar-se daquela maneira por causa da morte do seu irmão. Se os homens daquela gangue não tivessem atirado nele, jamais teria que se prostituir daquele jeito. A vida era tão injusta para quem não tinha dinheiro!
Mudando de local novamente, Castiel avistou o garotinho que ficara para trás no dia do tiroteio. Agora estava crescido, quase um adulto. Suas feições eram duras e cruéis. Os lábios grossos cuspiam palavras ameaçadoras na cara de um moleque, enquanto apontava um revólver na sua cabeça. A perda o transformara num dos próprios monstros que haviam acabado com a vida de seu amigo. A alma limpa e inocente fora enterrada junto com o corpo daquela criança tão jovem.
Uma lágrima rolou pela face do anjo moreno. Vidas arruinadas por um erro imbecil. Por ganância e sede de poder. Pensar que aquilo acontecia todos os dias, por todo o mundo, revirava seu estômago.
Zacharias, olhando a expressão desolada do anjo, sorriu de lado. Acenou com a cabeça para os carrascos. Omael, sádico como só ele, pegou Castiel pelo braço, arrancando-o dali o mais bruscamente que foi capaz.
