Capítulo Sete
Ninguém o jogou, empurrou ou chutou para dentro do cubículo. Castiel entrou com as próprias pernas, arrastando o corpo, desolado. Olhou o horror que ainda enfeitava o ambiente. Seus olhos fixaram numa foto na parede oposta à que ficava a porta. Sabia que tinha visto aquele prédio e aqueles homens antes. E agora sabia onde.
Foi até a parede, observando a cena do crime que vira ser fotografada. A foto do garotinho morto estava ao lado das dos outros dois corpos. Tudo ali, documentado pela polícia, e pendurado para lembrá-lo do que vira. Virou e sentou-se naquele canto, olhando para o mural de Lela.
Os sorrisos, os abraços e beijos, a alegria... Não fazia muito sentido agora. Ele tentava continuar positivo, mas a imagem do garoto com sangue nas mãos, tendo de lidar com a morte tão cedo, o deixava atordoado. Deitou-se, fechando os olhos, tentando esquecer aquilo.
Sabia que salvar os humanos era uma coisa boa. Não importava se alguns deles fizessem escolhas erradas. Todos faziam. Inclusive anjos. Havia muita coisa boa para salvar. Agarrou-se àquela ideia desesperadamente. Precisava pensar num jeito de sair dali. Antes que enlouquecesse.
Mais uma meia hora se passou e Zacharias entrou novamente. Deixou a porta aberta, esperando que Cass se levantasse e fosse com ele para algum lugar. Mas ele não se mexeu. Não continuaria com aquilo, não sairia daquele cubículo novamente.
- Você não tem escolha, Castiel. - Os dois capangas entraram, prontos para arrastar Cass para fora de lá. – Ou sai amigavelmente ou Omael terá de obrigá-lo. Eu escolheria a primeira. Sabe que ele não é muito gentil...
Omael sorriu, diabólico. Elemiah tinha os olhos baixos, tentando não olhar para as fotografias grudadas na parede. Aparentemente aquele mar vermelho não deixava só Castiel doente. Ele levantou e caminhou até a porta. Saíram calmamente dali, sem pressa alguma.
- Vamos ver... – Zacharias olhou Castiel – Qual será o próximo? Ah, já sei!
Estavam num beco escuro. Os dois prédios que os ladeavam eram altos e negros, e impediam a passagem da luz do luar. Naquela viela, tremendo feito vara verde estava uma mulher, magra e suada. Olhava para os lados nervosamente, conferindo o relógio barato a cada cinco segundos. Passava a mão no nariz todo o tempo também.
Um homem de cabelos compridos seguia da outra ponta da viela, caminhando vagarosamente até a moça. Ela virou o corpo em sua direção, dando passos apressados. Pararam no meio, conversando rapidamente. Apertaram as mãos, trocando mercadoria por dinheiro. Afastaram-se, cada um por um caminho, sem trocarem outro olhar.
De volta ao apartamento com a garota, Cass observou-a fazendo uma carreirinha com gilete na mesa de centro. O apartamento estava quase limpo. Não havia nada mais do que a mesa, um sofá puído e cobertores e almofadas espalhados. Não existiam aparelhos eletrônicos por ali, provavelmente vendidos para comprar drogas.
Um homem estava sentado a seu lado, enrolando uma nota de um dólar como um canudo. A moça olhava frenética seus movimentos, ansiosa por usar. O homem aspirou uma das carreirinhas em cima da mesa, jogando a cabeça para trás e passando o papel para a garota.
Ela rapidamente aspirou uma. E outra. Seguidas. Sem muito tempo de espaço. Virou a cabeça para trás, sorrindo debilmente. O homem puxou uma das últimas carreirinhas, deixando a outra na mesa. A moça tomou o papel da mão dele.
Cass observou o homem deitar-se no chão, aproveitando a brisa que aquilo lhe proporcionava. Tão absorvido pelo efeito, não reparou que ela aspirava o restante do pó. Assim que ela virou a cabeça, os olhos arregalaram de espanto. Caiu no chão, convulsionando fortemente. Cass não se segurou e correu até ela, abraçando-a, colocando a mão em sua testa, tentando fazê-la voltar.
Os olhos arregalados pareceram focá-lo por um minuto, como se ela realmente pudesse enxergar o anjo.
- Não adianta. – Zacharias disse-lhe em seu ouvido – É uma visão. Ela já está morta faz tempo.
O corpo trêmulo da mulher foi perdendo a força. Experimentou um último espasmo, antes de cair molemente no chão, seu último suspiro liberado silenciosamente. Castiel abaixou a cabeça, fungando. Como aquilo poderia acontecer a alguém tão jovem? E de onde é que ele conhecia aquela garota?
- De seu quarto, tão lindamente decorado. – A voz sarcástica feriu os ouvidos de Castiel. Ele encarou o mais velho – Devia ter olhado aquelas fotos com mais cuidado.
O fogo da raiva subiu pelo corpo de Castiel. Seus olhos arderam em chamas, fazendo-o partir para cima de Zacharias. Estava pronto para socar-lhe até seu sangue enfeitar sua mão e o chão daquele apartamento. Antes que pudesse sequer encostar no anjo, porém, Elemiah agarrou seus braços, puxando-o para trás.
Omael, que estivera de longe, só observando, sorriu abertamente, antes de ir para cima de Cass, batendo tanto nele que acabou desmaiando. Zacharias observou a situação calmamente. Mais um pouco e Castiel sucumbiria a seus desejos. Tinha certeza. Só precisava ser mais paciente.
Olhou o homem caído no chão, em puro êxtase. Castiel desmaiara na melhor parte. Ele estava disposto a mostrar quão egoístas os seres humanos poderiam ser. O homem ali deitado, quando recobrasse os sentidos e visse a moça morta, sairia porta afora antes que a polícia pudesse ser acionada. Procuraria por outra viciada para comprar drogas para ele.
E quanto à moça... Ficaria ali, apodrecendo sozinha, durante três dias, até o cheiro da decomposição alarmar o zelador do apartamento, e ele finalmente chamar a polícia.
