Thata diz:

Tem alguém gostando disso aqui?
Preciso muito saber se estão, ou vou acabar largando essa história sem final.
Ta difícil escrever uma conclusão, quando eu nem sei se estou indo pelo caminho certo.


Capítulo Oito

Acordou já no cubículo, todo torto e zonzo pelas pancadas de Omael. Sentou-se devagar, olhando tudo a seu redor. O que foi que Zacharias havia dito mesmo? Olhou para a parede à sua frente, e a localizou imediatamente. Caída inerte, o corpo retorcido e de olhos arregalados, perto do mesmo sofá que Castiel a deixara, estava a garota que sofreu a overdose e que ele assistiu morrer em seus braços.

Ao lado, uma reportagem dizendo que o corpo foi achado depois de três dias, pelo zelador. Fechou os olhos, mortificado. O suposto namorado teria dado no pé, deixando o corpo se decompondo, sem ao menos avisar ninguém? Como um ser humano podia ter tão egocêntrico a esse ponto?

O estômago de Cass revirou, e ele teve que sentar-se novamente. Encostando-se à parede, fechou os olhos, tentando livrar-se da cena horrenda que passava várias e várias vezes diante de seus olhos. Aquilo ficaria marcado na cabeça do anjo por toda eternidade.

Agradecia aos céus por Omael tê-lo apagado naquele instante. Sabia que não seria capaz de assistir o homem saindo pela porta furtivamente, fugindo como um gatuno, para não ser pego por posse de drogas.

Ficou ali sentado, sem esboçar reação. Apenas sentado, enquanto tentava ouvir alguma coisa do mundo exterior, concentrando-se em sua respiração, por falta de coisa melhor. A porta abriu, e ele gemeu levemente. Não queria ter de enfrentar mais daquilo. Não agora.

- Sou eu. – A voz de Lela entrou em seus ouvidos, clara com água. Ouviu seus passos rápidos para chegar até ele. Sentiu o corpo delicado sentando a seu lado, sem se mexer ou dizer nada.

Castiel abriu os olhos, deparando mais uma vez com aquelas fotos sangrentas. Odiava cada vez mais aquele espaço em que fora jogado. Olhou para Lela, que o encarava em silêncio. Seus olhos foram tomados por um lampejo de fúria ao encarar as orbes azuis de Cass.

- Castiel...

- Foi horrível, Lela. – a voz dele soava distante, fria. Como se nada daquilo mais pudesse atingi-lo. Como se nada do que ele fizesse fosse fazer alguma diferença. – As coisas que eu vi... Tudo aquilo que Zacharias me mostrou... Eu...

- Não, Castiel. Não desista agora. – ela pegou sua mão. – Zacharias está conseguindo atingi-lo, mas você não deve se deixar abater. Você é a esperança para os humanos.

- Que esperança? – ele soltou-se dela, virando o rosto para o mural desagradável, percorrendo-o como se não o visse realmente. Como se olhasse cores, e nada mais. – Diante de tudo isso, de tudo o que eu vi... Como posso dar esperança a alguém, se eu mesmo me sinto desesperançado?

- Cass... Olhe pra mim... – ela segurou seu rosto entre as duas mãos pequenas, o forçando a encarar seus olhos profundamente. – Eu sei que tem visto coisas horríveis, mas há mais do que isso. Tente se lembrar...

- Eu... Não... – uma lágrima rolou por sua face de anjo – Eu não consigo.

- Então deixe eu lhe ajudar a lembrar.

Castiel franziu levemente a testa, tentando decifrar o anjo à sua frente. Ela parecia determinada e temerosa. Mal percebeu que o rosto de Lela chegava cada vez mais perto do seu. Lentamente, não querendo assustá-lo. Como se ele pudesse quebrar a qualquer minuto.

Ele só percebeu o que ela fazia quando teve sua boca completamente tomada pela dela. Em profundo choque, de olhos arregalados, perguntava-se o que se passava na cabeça da amiga. Sem se dar conta, foi cedendo à insistência do anjo, fechando os olhos e correspondendo ao beijo.

Imagens passaram por cérebro à velocidade da luz, mas ordenada e nitidamente. No velório daquele mesmo garotinho que vira ser assassinado, um outro chorava amargamente pelo amigo. Viu o garotinho crescer, se matando de tanto estudar, trabalhando com afinco, para tirar a si próprio e a família daquele lugar. Viu-o sendo promovido a gerente de uma empresa no centro de Nova York, visitando sua família numa casa bonita e segura. Seus irmãos seguindo pelo mesmo caminho brilhante do mais velho, seus pais orgulhosos por ele ter vencido na vida.

Castiel agarrava-se a Lela, com um desespero imensurável, querendo que ela lhe mostrasse mais coisas boas, que o tirasse daquele poço escuro em que fora jogado. Lela retribuía o desespero, querendo que o anjo visse as coisas boas que conhecia. Ela queria que ele sentisse a onda de esperança que tomara conta de seu peito quando ele chegou naquele lugar.

Mais cenas passaram. Um centro de reabilitação em Los Angeles, lotado de ex-usuários que lutavam por uma vida melhor. A recuperação lenta e dolorosa pagando os bons frutos aos que dela tomaram parte. Ele viu pessoas que costumavam ficar jogadas em sarjetas, olhando o mundo passar a seu redor enojado com sua presença, trazendo mais pessoas em busca de ajuda, de recuperação.

Tão preocupados em explorar aquele mundo de visões, não repararam no que acontecia à sua volta. Lela tinha saído do lado de Castiel, postando-se agora em seu colo, encaixando-se com o outro anjo, abraçando-se mais forte com ele. Castiel apertava a cintura de Lela, sem se dar conta do que aquela cena poderia parecer. Livre de pudores e malícia, ele só queria sentir-se bem outra vez.

As cenas eram mais curtas e em maior quantidade agora. Ele via uma mulher com um teste de farmácia nas mãos, chorando ao ver as listras de positivo aparecerem. Seu marido pegando-a no colo, rodopiando com ela por todo o banheiro, cantarolando de tanta felicidade. A dor do parto não foi nada em comparação com a alegria que aquela mulher sentiu quando os dedos do filho enrolaram-se em seu próprio dedo.

As festas de aniversário, os bolos coloridos e confeitados, as crianças brincando por todo quintal. Balões coloridos enfeitando salões, música infantil tocando a altos volumes, palhaços simpáticos fazendo mágicas, bonecos de fantoches arrancando risadas. Adultos em volta de olhos brilhando ao ver toda aquela felicidade.

A sala começou a encher-se de uma energia única. Um vento forte foi entrando gradualmente pela janela, agitando as fotografias grudadas na parede.

Um baile escolar apareceu nas imagens. Casais dentro de um salão, dançando ao som de uma música que ele tinha certeza já ter escutado. Frases românticas soltas sem pensar, abraços dados com o puro amor adolescente. E, por um instante, Castiel pensou ter visto os Winchesters em suas versões mais novas. Não pôde ter certeza absoluta, pois a cena já mudava novamente.

Um filme da vida de Dean e Sam passou por seus olhos. Os momentos mais felizes, os poucos momentos que eles tiveram de alegria plena, encheram sua cabeça, deixando-o mais leve e despreocupado. Lela não conhecia os Winchesters. Como ela poderia saber de tudo aquilo?

Não importava. Ele não queria parar. Sentir o corpo angelical dela encaixado no dele o fazia sentir-se bem. Feliz, até. Ele não queria largá-la. As fotos, antes pregadas com magia, começaram a soltar-se, uma a uma, rodopiando na atmosfera, ao redor dos dois anjos.

Uma garota de cabelos castanhos fazia um discurso na sua formatura, agradecendo a mãe, que sempre cuidara dela sozinha, dando toda a educação e base sólida que ela podia pedir. Mais tarde, voltando a colocar sua vida nos eixos, a ligação aos prantos à mãe, contando as novidades e pedindo perdão, enquanto corria pelo gramado para um abraço apertado. A habilidade de arrepender-se e perdoar. Duas características tão humanamente bonitas...

Os filmes passaram com tanta velocidade que Castiel já não conseguia ordená-los de forma coerente. Eram só fragmentos agora. Borrões indistintos, parando vez ou outra para deixá-lo contemplá-los. Lela, de um jeito totalmente humano, começou a deitar por cima de Castiel, fazendo com que encostasse as costas no chão frio. Aquela sensação térmica vinha de forma ofuscada, Cass quase não o sentia. Só o peso do corpo de Lela e a vertigem pela velocidade dos seus pensamentos tomavam conta de si. As fotografias já esquecidas iam dissolvendo com a luz branca e pura que as atingia.

Tão rápido quanto a alegria bombeando em seu íntimo, Lela foi arrancada de cima do anjo Castiel, e jogada para o outro lado, de encontro à parede. Omael agarrou a gola da camisa de Cass, encarando-o com uma frieza maior do que já vira tomar conta de seus olhos. Elemiah prendia Lela pelos pulsos, não a deixando escapar.

Zacharias olhava de um para outro com repulsa, como se eles tivessem acabado de cometer um pecado. Deu um sinal para Elemiah, que saiu de lá arrastando Lela. Omael segurava os pulsos de Cass, machucando-o brutalmente. Castiel, tomado por uma força interior poderosa, encarou o mais velho, desafiador.

- Deixe-nos a sós, Omael. – o outro saiu, trancando a porta ao passar. Zacharias tirou o paletó, arregaçando as mangas da camisa, aproximando-se perigosamente de Cass. – Agora, eu vou lhe dar uma lição.