N/A: Capítulo betado por Galatea Glax. Muito obrigada, amor.
Aliás, capítulo postado por causa da beta, que disse que a história não está de todo o mal. Não acreditei nela, mas beta é beta.
Espero que comentem. Ta difícil escrever um final pra Abismo sem saber o que vocês estão pensando sobre ela.
Capítulo Dez
A adrenalina que corria em suas veias após o episódio não lhe abandonou tão cedo. Sentir Zacharias embaixo de si, se retorcendo e tentando escapar, aterrorizado pela força que Castiel manifestou em meio àquela experiência traumatizante, foi revigorante.
Ele se sentiria feliz por mais tempo, se o seu pensamento não tivesse caído sobre Lelahel. Ela tinha se arriscado por ele, ajudando-o, tirando-o da escuridão. Não sabia exatamente o porquê dela ter feito o que fez, mas lhe seria grato até o fim dos dias.
O jeito como Elemiah arrastara Lela para fora daquele quarto... Ela estava encrencada. E por sua causa. Sentiu o coração afundar dentro do peito. A última coisa que queria era que ela sofresse por causa dele. Foi até a porta, batendo fortemente, gritando por qualquer anjo que ousasse aparecer ali. Precisava saber se Lela estava bem, impedir os outros de torturá-la também.
Durante muito tempo ele ficou socando a porta e berrando a plenos pulmões, antes de se sentar, exausto, caindo no sono encostado à parede mesmo.
Acordou e já não estava no quarto que lhe servia de cárcere. Estava em um prédio esverdeado e abandonado. Algumas paredes estavam parcialmente tombadas, com grandes buracos nelas, tijolos e entulhos espalhados pelo lugar.
Cass achou tudo muito esquisito. Levantou-se, indo até ele para averiguar aonde Zacharias o teria mandado agora. O que viu o chocou.
Corpos estraçalhados espalhados por todo o pátio desmoronado abaixo. Sangue tingindo os escombros de um vermelho assustador. Cabeças e membros separados, longe uns dos outros. Restos mortais misturados, impossíveis de identificar.
No meio de tudo aquilo, adereços negros perto do que deveriam ter sido braços. Alguns até mesmo enrolados nas massas de carne. Cass não tinha certeza do que eram. Aliás, imaginava, mas não queria acreditar. Ele caiu. Desceu até o pátio, em um pulo. Sorte ser um anjo nessas horas.
Aproximou-se de um, silenciosamente. Suas suspeitas se confirmaram: aquela coisa preta era uma metralhadora. Uma grande e mortífera metralhadora. Já sem balas. Seu corpo estremeceu. Virou-se para fugir dali e acabou chutando para longe um capacete verde-militar.
Abaixou-se para pegá-lo. Seus dedos sentiram uma coisa pegajosa e ele virou o objeto para ver o que era. Dentro dele, vestígios da pessoa que o usava. Cabelo, sangue, pele. Como suvenires de uma guerra sem sentido, grudados em uma foto do que Cass imaginou ser a família do soldado em questão.
Ele ouviu berros ao longe, seguidos por disparos. Ele foi até lá, correndo o máximo que suas pernas podiam. Parando em uma cavidade, observou o cenário que se desenrolava bem diante de seu nariz.
Vários outros corpos jogados ao chão, sendo pisoteados e usados como escudos por outros soldados, que se abaixavam e miravam, atirando em homens escuros e magricelos do outro lado de uma barreira improvisada.
Castiel apurou a visão, notando que alguns deles não pareciam ter idade suficiente para serem considerados adultos. Eram apenas crianças. Cada pequeno corpo quase não suportando o peso ou o recuo da arma disparada.
Castiel ficou horrorizado. Crianças não deveriam ser usadas numa guerra. Elas deviam ser preservadas, protegidas a todo custo dos horrores do mundo. O mundo humano, um sussurro correu para dentro do seu ouvido. Zacharias deveria ser responsável por isso.
- Me leve de volta - ele disse em voz alta.
Silêncio. Nenhuma voz, além daquelas nervosas, que apontavam armas para crianças. Castiel se irritou. Zacharias não conseguiria atingi-lo. Não podia quebrar o turbilhão de coisas boas que vira graças a Lela.
Ele começou a caminhar, em direção aos garotos pequenos. Ele daria um jeito de parar aquilo. Começou a falar para os garotos recuarem, deixarem as armas no chão. Parou, literalmente, no meio da batalha e gritou para que todos parassem e abaixassem suas armas. Mas eles não podiam vê-lo.
Um adulto vestido de verde acertou em cheio no peito de uma das crianças, a menor de todas, ainda com feições infantis. Castiel correu até ela, pegando-a nos braços, olhando dentro dos seus olhos com profunda atenção.
Os pequenos olhos negros pareceram focar durante um tempo nos seus azuis, enquanto engasgava no próprio sangue, morrendo sufocada com aquilo que sempre correra em suas veias, protegendo-o de todaos as doenças que podia.
Cass fechou os olhos, tentando não deixar aquilo corrompê-lo. Conhecendo Zacharias como conhecia, sabia que ele não o deixaria sair dali até que finalmente concordasse em lutar ao lado dele.
Começou a andar para longe daquela batalha, para longe de todo aquele sangue e corpos jogados à disposição dos abutres que estacionaram no alto dos prédios em volta, só esperando para se alimentarem do produto daquela inutilidade.
Caminhou por quilômetros dentro da planície árida, longe dos disparos e gritos, do desespero e terror. Caminhou e caminhou, bloqueando os pensamentos negativos que teimavam em querer abrir caminho.
Pensou em Lela. Pensou no que ela tinha lhe passado através do beijo. Pensou no corpo pequeno enroscando-se no seu. Era estranho pensar no que estavam fazendo, agora que olhava sob outro prisma. O jeito como ela deitou em cima dele... Mais um pouco, sabe Deus o que estariam fazendo.
Desejou, do fundo do coração, que ela tivesse escapado das garras de Zacharias. Ele odiaria pensar nela sofrendo as mesmas torturas que Zacharias vinha lhe infringindo.
Oh, ela será bem cuidada. A voz sussurrou no seu ouvido novamente. Castiel fechou os pulsos, fincando suas unhas na própria carne, tentando ignorar o desejo de acabar com o supervisor na próxima vez que o visse.
Agora, mais do que nunca, precisava de calma. Estava sozinho em uma das ilusões de Zacharias e não sairia dali tão cedo. Precisava se proteger. Fechar o coração para tudo o que pudesse presenciar.
Seu coração disparou ao avistar uma vilazinha mais à frente. Várias tendas e cabanas improvisadas montadas no meio de um campo aberto, rodeado por montanhas livres de vegetação. Continuou caminhando em direção a ela, rezando para que nenhuma bomba caísse naquele lugar tão remoto.
