Capítulo Doze

Por cinco dias, Castiel ficou vigiando o acampamento de cima do morro, velando silenciosamente pelos seus moradores. Por cinco dias, Aysha veio lhe visitar à noite, conversando com ele até quase cair no sono ou ver algum adulto se mexer lá embaixo. Trouxe-lhe até comida, que Cass fez questão de comer, só para ver o sorriso que a garota lhe dispensava toda vez que o caldo das frutas escorria por seus lábios.

- Você tem família? – Aysha perguntou.

- Sim. Uma bem grande.

- Tem irmãos?

- Sim. – ele suspirou, olhando momentaneamente para cima – Vários.

Ela deu uma risadinha, atraindo a atenção dele.

- O que foi?

- Você parece o meu irmão. – ela olhou para o acampamento – Eu tenho uma família grande também, sabe? Vários irmãos. Quando um deles fica aborrecido com o outro, eles fazem isso. Respiram forte. - ela olhou para Cass com os olhos grandes e curiosos – Por que você está chateado com seu irmão?

- Porque acredito que ele está fazendo uma coisa errada, mas não consigo impedi-lo.

- Tenho um irmão assim também. Ele vivia correndo atrás dos cachorros, tentando fazer maldades, como puxar o rabo dos coitadinhos... Eu tentava impedir, mas ele sempre me batia. – ela fungou, aborrecida – Me irrita.

- E o que você fez?

- Eu contei para minha mãe. – ela sorriu, travessa – Ela brigou com ele, colocou ele de castigo e os cachorros ficaram em paz. – ela pousou a mão no braço dele – Por que você não conta pra sua?

- Eu não tenho mãe.

- Oh! E o seu pai?

Castiel suspirou, olhando para o céu estrelado novamente. Sim, e o seu Pai?

- Eu não sei onde ele está.

- Não fique triste, Cass. Você acha ele. – ela olhou para o acampamento – Eu preciso ir. Vejo você amanhã.

Ela lhe deu um beijo na bochecha antes de descer a encosta e ir se alojar dentro da tenda onde dormia com sua mãe e mais algumas mulheres. Cass deitou na areia, pensando se Aysha tinha razão, se um dia encontraria seu Pai. Se ele apareceria nos céus para dar sentido a alguma coisa naquela bagunça.

Acabou adormecendo enquanto pensava.

Acordou com sons ensurdecedores de tiros bem abaixo de seu ponto de vigília. Levantou-se num pulo, assustado. Olhou para baixo e viu homens armados e fardados invadindo o local, atirando nos homens, arrastando mulheres pelos cabelos, deitando-as na areia e violentando-as ali mesmo.

Uma das mulheres em questão tinha a cabeça sangrando, jazia inerte no chão. Respirava com dificuldade, mas isso não pareceu importar ao homem. Como um animal, entrava nela com violência, saciando seu instinto, sem sentir um pingo de remorso.

Cass desceu o morro gritando, pensando em parar aquela loucura, mas quando chegou lá embaixo reparou que ninguém o ouvia. Nem o enxergavam. Ele não passava de um fantasma, em vão tentando botar algum juízo e humanidade na cabeça daqueles homens primitivos, que acabavam com o vilarejo em poucos minutos.

Assim que terminaram de saquear, estuprar e matar todos os moradores, eles continuaram caminhando, talvez para o próximo lugar em que levariam a destruição e a morte.

Cass começou a caminhar entre os presentes, procurando, desesperado, a pequena Aysha. Entre os corpos mutilados das mulheres que tentaram salvar seus filhos, ele a encontrou. Toda ensangüentada, ainda respirando com extrema dificuldade.

Seu vestidinho estava rasgado, puxado para cima de qualquer jeito, expondo seu corpo inocente e puro. Olhando atentamente para ela, Cass pôde ver vestígios de fluídos de um dos homens que haviam passado por ali.

Castiel fechou os olhos, não acreditando. Ele os abriu novamente, pegando Aysha no colo, arrumando-a do melhor jeito que pôde. Os olhos sem brilho encontraram os seus, enquanto ela tentava falar, engasgando no próprio sangue.

- Shh... Não diga nada. – ele passou a mão nos cabelos negros dela.

- Você... disse... me... proteger... – ela disse com muita dificuldade.

- Eu sei. Me desculpe. – uma lágrima rolou pelo rosto de Castiel. – Eu não consegui. Eu... – ele engoliu o nó que se formou em sua garganta – Não se preocupe. Você está indo para um lugar melhor. Lá você ficará bem.

- Cadê... Mãe...?

- Ela também estará lá. – ele afirmou com a cabeça.

Ela respirou com dificuldade, tentando falar. A voz não saía. A respiração quase não vinha. Ele aproximou o ouvido perto do rostinho arroxeado.

- E... Deus?

Silêncio.

Castiel não sabia responder àquela pergunta. Antes mesmo que pudesse inventar uma mentira para confortar a garotinha, a vida dela esvaiu de seu corpo, escorrendo por entre os dedos do anjo.

Cass chorou. Chorou como uma criança. Chorou pelo terror que presenciara. Chorou por não ter sido capaz de ajudar. De não ter sido capaz de proteger Aysha e sua família. Por não ter conseguido proteger Dean. Por não ser capaz de proteger a humanidade de si mesma.

Chorou por estar ali, sozinho, em meio à massa confusa de corpos ensanguentados. Chorou pelo cheiro metálico que subia por suas narinas. Chorou pelo aspecto grotesco da tinta vermelha e espessa manchando todo o chão de areia. Chorou por ter tanta esperança de que seu Pai fosse aparecer para salvar a todos.

Chorou por não saber onde Ele estava. E por pensar, pela primeira vez em muito tempo, que talvez Zacharias tivesse razão, e que Ele não estava disponível para seus filhos. Que eles tinham que cuidar disso sozinhos.

Chorou por concordar com Zacharias.

E ficou chorando por dias, sem saber exatamente quantos. O cheiro pútrido de carne em decomposição foi tomando conta dos ares enquanto eles passavam, atraindo abutres e animais que se alimentavam dos restos mortais das pessoas que ali jaziam, mas Cass não largou Aysha em nenhum momento. Nem mesmo quando os insetos começaram a se alimentar dela, desfazendo a pele macilenta aos poucos, apagando lentamente sua existência nesse mundo.