Capítulo Catorze

Cass encarou a forma praticamente sem vida de Sam Winchester. Seus olhos vazios encaravam o tampo da mesa. Sua mão agarrava com firmeza a garrafa de uísque, e de quando em quando ele sorvia um grande gole do bocal mesmo. Copos não eram mais necessários naquela fase de luto em que se encontrava.

O cheiro de bebida, misturada com o suor e sujeira acumulada pela falta de higiene, entorpeciam Cass. Seu coração deu um salto em protesto ao que via. Sam estava quebrado. A ausência de Dean o quebrara em milhões de pedaços, mais de uma vez.

Seguiram-no quando ele levantou abruptamente, pegando as chaves do Impala e saindo na escuridão da noite. Rodou pela cidade, sem perceber os anjos à sua volta. Parou em frente a um motel de quinta. Desceu decididamente, atravessando o hall sem ao menos olhar o recepcionista.

O quarto em que ele entrou, abrindo a tranca com destreza, abrigava dois demônios, entretidos com uma vítima semi-morta. Levantaram-se quando o viram entrar, mas nada pararia aquela fúria personificada.

A faca atravessou a garganta do homem, que caiu inerte no chão, sofrendo os espasmos característicos da morte. O humano que sobrara ainda engasgou-se no próprio sangue, antes de sua vida chegar ao fim. Sam não esboçou nenhuma reação.

A mulher tentou lutar com ele, mas não era páreo ao rapaz forte e sem misericórdia. Passou a faca vagarosamente pelos dois braços do demônio, antes de jogá-la de qualquer jeito numa poltrona, encostando a lâmina fria em seu pescoço.

- Lilith?

O pavor enfeitava os olhos negros, fazendo as palavras morrerem a meio caminho da garganta. Ela não sabia o que fazer. De qualquer jeito seu destino era a morte. Mas vê-la estampada no rosto de feições fortes e vazias a fazia querer chorar.

- Eu não...

Não chegou sequer a terminar a frase, tendo a garganta cortada brutalmente por Sam. Ele chegou perto da vítima, amarrada à cama com os ferimentos expostos. Sentiu-lhe o pulso, verificando que ainda estava viva. Com as duas mãos, segurou a faca com firmeza, antes de desferir um golpe certeiro em seu coração.

Castiel assistiu a tudo mortificado. Sam virara uma máquina de morte, sem expressão ou sentimentos. Seus olhos verdes, outrora tão cheios de vida, pareciam mortos. A única coisa que transparecia era tédio. Samuel Winchester sentia tédio enquanto matava.

- Vamos pular as partes chatas? – a voz de Zacharias soou em seu ouvido.

Agora estavam num diferente quarto de motel. A cena que passava diante de seus olhos quase o fazia corar. Sam e Ruby atracados como coelhos, fazendo coisas que Castiel sequer sonhara em fazer. E, bem no meio do êxtase, Ruby puxou uma faca, fazendo um corte profundo em seu próprio braço.

O sangue desceu pela pele, enquanto Sam desceu sua boca para a ferida, sugando o máximo que podia, imprimindo mais prazer àquilo que faziam. Castiel viu a expressão de prazer de Ruby, com seus motivos reais foram dissimulados com maestria. Sam entregava-se completamente àquele universo de poder e escuridão, sem ao menos olhar para trás enquanto andava por ele.

O cenário mudou novamente num flash, mostrando agora uma sala ricamente decorada, com um demônio amarrado à cadeira. Sam usava seus poderes para mandá-lo de volta ao inferno, sem se preocupar em não machucar a pessoa ali dentro. Ruby soltava palavras de incentivo, enquanto um sorriso cruel abria-se lentamente às costas de Sam.

Em outro momento, Castiel observou-o beber do sangue do demônio torturado, antes de mandá-lo para o inferno. Ele agia de acordo com as palavras de Ruby, assegurando-lhe que o humano ali dentro já não estava vivo. Castiel conseguia ouvir o espírito humano debatendo-se, implorando... Não queria mais ver.

- Dê uma boa olhada, Castiel. – a voz de Zacharias soou alta e clara em seu ouvido – É isso que está lutando para proteger?

Sam fechou os olhos, sua expressão cheia de um prazer assustador. O sangue escorria pelos cantos de seus lábios, enquanto eles se abriam num sorriso de puro deleite. Sam virara um monstro, essa era a verdade inquestionável.

O outro ambiente Castiel reconheceu na hora: era o quarto em que Sam estava hospedado no dia em que Dean voltara do inferno. Viu três demônios amarrados em diferentes cadeiras, todos olhando Ruby com uma expressão incrédula e cheia de rancor. Ouviu as palavras proferidas contra ela. Viu-a sorrir a cada uma.

Sam ouvia a tudo indiferente. Quando ela deu o sinal, Sam estendeu a mão, os olhos semicerrados, seus poderes drenando os demônios de dentro dos humanos, lentamente e ao mesmo tempo. As fumaças negras saíram de suas bocas, descendo ao chão, agrupando-se em um grande círculo. Acompanhando o movimento da mão do Winchester, elas dissolviam-se, sumindo no chão acarpetado.

Só restaram três corpos inertes. Viu Sam tirando a pulsação de cada um deles, comemorando feito criança quando viu um acordar assustado. Ouviu Ruby dizendo-lhe que descansasse um pouco, enquanto ela levaria a garota acordada e os outros dois corpos para fora dali. Sam concordou, jogando-se na cama.

Castiel sabia que ela não ajudaria aquela pobre humana. Ele podia ver, dentro de sua cabeça, o demônio metendo-lhe uma faca, fazendo-a sangrar até morrer, jogando seu corpo em um beco sujo qualquer.

- Quantos humanos acha que mataram nessa brincadeira? – a voz de Zacharias era soturna, soava quase como se importasse – Quantas vidas destruídas, quantos futuros massacrados, para que ele pudesse exterminar demônios com sua mente?

Viu Ruby voltar, como se nada de mais tivesse acontecido. Deu-lhe a notícia de que a garota talvez sobrevivesse, arrancando um sorriso ingênuo da face do outro. A comemoração foi aquela cena, repetida por tantas vezes que não haveria como contá-las. A luxúria misturada com profanação. Se Dean visse aquilo...

- É, por falar nele... – Zacharias começou – Vamos dar uma voltinha. Precisa conhecer de verdade seu amado Winchester.