N/A: Penúltimo capítulo. Acredito que seja o maior dessa história e o que eu mais gostei de escrever. Espero que gostem!
Capítulo Quinze
Ele não precisaria olhar em volta para saber onde estavam, o cheiro denunciava antes mesmo de chegarem. O inferno. Lar de todos os demônios e pecados. Lugar onde almas pagavam o preço de suas vidas miseravelmente fúteis. Lugar de onde Cass resgatara Dean.
Avistou um corpo disforme, amarrado a paredes invisíveis, preso por grossas correntes de metal. Sua cabeça pendia no pescoço, como se estivesse desmaiado. Sua pele parecia uma camiseta maltrapilha rasgada em vários pedaços. Suas pernas tinham cortes profundos, já cicatrizados.
Em seus pulsos e tornozelos, onde as correntes apertavam seguramente o homem, a pele estava tão machucada que parecia ter sido tingida. Era a imagem da desolação. Castiel não podia imaginar um lugar pior para se passar a eternidade.
Ouviu passos. O que era estranho, pois não havia nada que se assemelhasse a um piso naquele lugar. Alastair vinha despreocupado, com as mãos no bolso, assoviando uma canção arrepiante. Ele parou de frente ao homem, levantando seu rosto com o dedo indicador.
- E então? Pronto para desistir?
Olhos apagados encararam o demônio. Estavam tão escuros que Castiel quase não os reconheceu. Quando percebeu que o corpo estraçalhado era o de Dean o coração de Cass deu saltos de agonia. Se não estivesse preso pelos braços de Omael, já teria corrido até ele.
Dean tentou falar, mas sua garganta extremamente seca não o deixava. Acabou desistindo de tentar, e balançou a cabeça afirmativamente, derrotado. Alastair comemorou, dançando na frente dele, antes de sair de cena. Antes que Zacharias pudesse tirá-los dali, Cass ainda avistou duas gotículas caírem do rosto de Dean, perdendo-se na imensidão abaixo dele.
O lugar tomou a forma do que parecia uma imensa sala de torturas. Corpos retorcendo-se, gritando e cuspindo sangue estavam amarrados a cadeiras, mesas e paredes. Para onde se olhava, só se via terror. O cheiro de carne queimada misturada a sangue e suor deixava Castiel enjoado. Até mesmo Elemiah parecia querer sair dali o mais rápido possível.
À frente de cada um desses corpos aterrorizados havia um torturador sádico, que sorria e se deliciava com cada facada, cada queimadura, cada pequeno pedaço de carne arrancada.
Exceto um.
Uma garota estava amarrada a dois postes de metal, bem no centro de todo aquele circo de horrores. Seus olhos marejados presenciavam cenas que ela não gostaria de ver. Suas lágrimas assustadas molhavam seu colo, escorriam por seu torso, dando-lhe a falsa sensação de ainda estar viva, apesar de tudo.
O que ela já sabia – e que todos ali também sabiam – é que desejaria em breve não ter essa sensibilidade. Sabia que tudo seria bem mais fácil se não sentisse absolutamente nada. Nenhuma dor, nenhum desespero, nenhum arrependimento. Se fosse somente uma casca vazia, e nada mais.
Dois pares de passos ecoaram no espaço pútrido, parando todas as atividades, silenciando todos os murmúrios. Alastair entrava no recinto, com seu novo discípulo à sua sombra. Torturadores e torturados desviaram os olhos quando Alastair passou, os primeiros mantendo a devida distância, com medo de o demônio virar-se contra eles.
Dean encarava o chão, sem levantar os olhos nenhuma vez. Castiel viu cada passo dado deixar um pedaço de alma para trás. Não podia aguentar aquilo. Era demais para ele. Virou-se, dando as costas para a cena, para não presenciá-la.
Aparentemente, esquecera-se quem era seu algoz. Zacharias não o deixaria escapar de uma tortura psicológica daquelas. Portanto, não foi tão surpreendente deparar-se com a mesma cena quando se virou.
- Fechar os olhos também não vai adiantar. – o murmúrio de Zacharias naquele mundo de silêncio parecia um grito.
Sem alternativas, Castiel teve de assistir Alastair parando em frente à garota amarrada. Dean parou a seu lado, levantando os olhos pela primeira vez, para encontrar o mar de lágrimas que descia pelo rosto jovem e bonito.
- Por favor... – a voz suplicava, olhando para Dean, como se ele pudesse realmente fazer alguma coisa por ela.
- Então, aí está. Sua primeira alma, saída do forno. – Alastair esfregou as mãos, sorridente – Vamos começar?
Estendeu um estilete a Dean, que o pegou, sem nem sentir o metal em seus dedos. Olhou a lâmina reluzir quando o virou lentamente, sem expressão nenhuma. Os olhos antes verdes encararam o demônio, que continuava sorrindo.
- Vamos! Você sabe o que fazer. – ele fez um gesto como se enfiasse o estilete com toda a força em alguém – Já fez isso antes.
Castiel rezava internamente por um milagre. Que a cena se desmanchasse diante de seus olhos; que Elemiah ou Omael sentissem pena dele e o levassem dali; que Lela viesse buscá-lo; que Deus o ajudasse, só daquela vez. Ou mesmo que Zacharias o considerasse inútil a seus propósitos e o deixasse em paz.
Ou que o matasse de uma vez. Pois ele preferia morrer a assistir aquilo.
Aparentemente ninguém se interessava por Castiel e seus sentimentos, porque os olhos azuis escureceram ao ver o estilete deslizar na pele da garota, fazendo um corte fundo em sua barriga. O grito lacerante que saiu de sua garganta fez Cass estremecer.
- É como andar de bicicleta, não? – Alastair fez um gesto com as sobrancelhas, levantando-as e abaixando-as rapidamente, o sorriso doentio ainda estampado.
Dean não esboçou reação nenhuma, nem quando a garota gritou e resfolegou pela segunda vez que a navalha a cortou. Ele parecia estar em outro lugar, que não ali. Castiel inconscientemente esperava que ele tentasse atacar Alastair com a lâmina, tirasse a garota das correntes pesadas e tentasse escapar de alguma forma desesperada, mas não aconteceu.
O Dean que ele conhecia não morava mais ali.
- Que tal passarmos para os brinquedos de gente grande?
Tirando o estilete das mãos de Dean, Alastair o substituiu por uma faca, que o outro se apressou em afundar no estômago da garota. Castiel pôde ver nitidamente a expressão de Dean: os olhos semiabertos e vazios, os lábios apertados numa fina linha e o tremor involuntário de pura satisfação.
Satisfação por não ser ele quem estava amarrado em posição vulnerável, pra variar. Satisfação por não ter a sua pele dilacerada várias e várias vezes. Satisfação por poder infringir toda dor que lhe fosse possível. Satisfação por finalmente ter alguém em quem descontar tudo o que passara ali embaixo.
Castiel a tudo observou mortificado. Aquele não parecia nem de longe com o Dean que conhecera. Com o Dean que aprendera a amar. A maldade que cercava aquele espírito não cabia dentro do seu Dean.
Quanto mais a garota gritava e implorava para que ele parasse, mais fundo ele ia. Mais sangue a faca extraía. Mais prazer com aquilo começava a sentir. E mais era engolfado pela atmosfera negra da maldade.
- Aí está seu modelo de perfeição – o sorriso odioso impregnou a fala do anjo – Não parece tão perfeito agora, não é?
Castiel fechou os olhos. Não queria ver mais. Ele já se sentia exausto. Só queria ir para casa. Só isso. Deixou-se pender nos braços dos anjos, como se ele mesmo fosse a garota a ser brutalmente dilacerada. Zacharias não o deixou quieto; fez com que abrisse os olhos para presenciar mais horrores.
Os orbes azuis corriam de um lado a outro. Sem que percebesse, todas as almas começaram a serem torturadas ao mesmo tempo. Os gritos e lamentos pareciam uma esquisita sinfonia, tocando uma terrível e pavorosa canção.
Cass fixou seu olhar em Dean. Observar o modo como aquela tortura o estava afetando, afastando-o de si mesmo, era apavorante. Não admirava Sam achar que ele mudara tanto desde que fora parar no inferno. Como não mudar, com toda aquela crueldade ao redor?
Castiel foi obrigado a assistir várias sessões de tortura, com várias almas diferentes. E a cada uma delas, Cass via um pedaço da alma de Dean separar-se dele. E a cada grito e expressão de prazer, Cass se desfazia em pedaços.
Em certo ponto, Dean já não era um simples torturador, virara realmente o pupilo de Alastair. Pensando poder transformar Dean em um demônio mais esperto e mais capaz do que qualquer um que já vivera, ele começara a ensinar truques. Truques infalíveis para arrancar verdades de pessoas. Ou o que quer que precisasse falar.
Castiel viu Dean ficar realmente bom no que fazia. Viu os olhos verdes perdendo a cor lentamente, escurecendo ao longo do caminho. Dean caminhava para virar um demônio, e o afligia saber que disparara aquela parte dele outra vez quando o trouxeram para torturar Alastair.
Quando chegavam perto do dia da libertação de Dean, uma coisa mudou: em vez de torturar no meio daquela sala cheia de corpos sangrando, Alastair o levou para uma sala privada, longe de todos.
Deitado na maca metálica, no centro da sala, um corpo forte, negro, cheio de músculos estava preso por amarras indestrutíveis. Olhava para os lados desesperado, não entendendo como fora parar ali.
Alastair conduziu Dean para dentro da sala, empurrando-o levemente, antes de fechar a porta. O olhar do loiro recaiu sob o corpo estendido, um brilho de expectativa tomando-lhe o espírito.
- Dean, este é Jake – apontou para o homem aterrorizado – Jake, este é Dean.
- Não! Não!
- O quê? – Alastair colocou a mão em concha perto do ouvido, como se não pudesse ouvir o homem gritando – Oh, é mesmo! Vocês já se conhecem, não é?
- Sim. Já tive o prazer. – a voz sibilante de Dean fez Castiel sentir-se sujo.
- Bem, vou deixar vocês a sós. – sorrindo chegou perto de Dean, encostando sua boca ao ouvido do rapaz – Considere isto como um presente de formatura.
E saiu, deixando Dean e Jake com vários objetos de tortura, que Dean usou com habilidade e contentamento. Um turbilhão de sentimentos negativos tomaram conta de Castiel, fazendo-o sentir-se desesperado. O sorriso maldoso estampado na face de Dean era um insulto ao homem que ele era.
- Você matou meu irmão – ele começou – E por sua causa estou aqui hoje. – pegou um objeto que lembrava muito um alicate, mostrando-o para Jake, um lado depois do outro – Agora é hora de retribuir o favor.
Os gritos que Jake deu quando sentiu seus dedos serem arrancados um por um, fizeram com que Elemiah se virasse e fechasse os olhos. Até mesmo Omael, tão sádico e frio, não conseguiu olhar a cena, tendo de virar a cabeça para uma parede.
Zacharias, que observava Castiel esse tempo todo, achou que já era hora de voltar. Já havia lhe dado um pedaço do inferno, e Cass deixara seus próprios pedaços por lá. Estava na hora de deliberar e se render.
