Capítulo Dezesseis
Elemiah, solidário à dor de Cass, colocou-o gentilmente no chão, sem brusquidão ou maldade. Nem Omael parecia tão disposto a torturar Cass depois do que acabaram de presenciar; estava todo estranho, parado num canto, pensativo. A um sinal de Zacharias saíram todos, deixando-no ali sozinho, com seus pensamentos.
Mas Castiel não queria pensar. Não queria sentir. Só queria ficar deitado no chão frio, sentindo a sensação térmica contra sua testa, levando as imagens embora. O problema é que elas não iam embora. Grudaram ali, fazendo-o sentir sua cabeça dez vezes mais pesada do que realmente era.
A dor. Toda aquela dor! Como os humanos podiam viver sentindo aquilo o tempo todo? A luta diária para uma vida longa e próspera... E a solidão no final do dia, porque ninguém é de ninguém, e a família não mais importa.
Qual o objetivo? Para que querem uma vida longa, se vivem num mar de sentimentos negativos? De desespero, raiva, mesquinhez? Para que querem tanto dinheiro, se as coisas que realmente importam são de graça? Para que trabalharem tanto se, em instantes, o que têm pode ser destruído por uma simples briga de poder?
Castiel não entendia as inúmeras divisões entre os humanos. Raça, cor de olhos, religião, preferências musicais, roupas, escolaridade... Eles inventam categorias para as categorias! Vivem para definir os outros, mas não conseguem definir a si próprios.
Inventam guerras e mais guerras, mas alegam o tempo todo que o querem mesmo é paz. Sempre apontam o defeito dos outros, sem olhar embaixo do próprio nariz. São tão covardes e egoístas, que chega a ser desconcertante!
E era por isso que estava lutando?
Sim, claro, havia o amor, a felicidade. Mas junto com aquele amor vinham tantas coisas mais! Decepção. Rancor. Mágoa. A escalada para a felicidade era tão íngreme, que poucos chegavam ao topo. E quando chegavam, se jogavam da ponta do morro, para começar tudo outra vez. Qual o objetivo?
Pelo menos no Paraíso, tudo seria perdoado. Eles estariam em paz. Experimentariam, enfim, a sensação que tanto buscavam em vida. Zacharias não queria o mal do mundo. Só o melhor para seus próprios irmãos. Quem era Castiel para se opor a isso?
Quem ele pensava que era para preferir os humanos aos anjos?
Dean Winchester não era perfeito; tinha suas qualidades, mas também tinha defeitos. Seu amor pelo irmão era inexaurível, transpunha qualquer barreira, qualquer vida. Dean matava e morria por Sam. Ele começara essa guerra, e quem era Castiel para julgar as soluções que os anjos haviam tomado para conter o inferno?
Castiel era um anjo do Senhor, e tinha feito um juramento: obedecer acima de qualquer coisa. Nem que custasse a sua vida. O que estava fazendo, descumprindo isso agora?
Queria ser considerado um anjo caído? Banido dos céus para longe de sua família e das coisas que conhecia? O que lhe sobraria se escolhesse esse caminho? Uma vida humana de dúvidas e questionamentos infindáveis?
Castiel pensou nos corpos estendidos e desmembrados no chão; nas crianças mortas por guerras entre gangues; nas jovens mulheres entregues à prostituição, por falta de perspectiva de vida; nos drogados afundando a si próprios e às suas famílias; nos recém-nascidos jogados – pelos próprios pais – de encontro à morte.
Pensou em toda e qualquer violação. Pensou em quantos corpos viu Sam enfiar a faca mágica. Pensou em quantas almas Dean torturou. Pensou em quantas famílias choraram pela falta de notícias daquelas pessoas sem rostos. Pensou em demônios. Pensou em anjos. Pensou em tudo o que passara nesse último ano exaustivo.
Concluiu que pensar era cansativo demais e a coisa mais difícil que já fizera em toda sua existência. E decidiu que não queria mais pensar.
Que os outros pensassem por ele agora. Seguiria suas ordens a partir de hoje. Porque pensar lhe tirava o ânimo de viver. E um anjo sabe, melhor do que ninguém, que suicídio era um pecado mortal. E jamais pensaria em cometer ato tão pérfido.
Michael acabaria com Lúcifer, libertaria os humanos, os anjos viveriam em paz na Terra e demônios seriam liquidados. O mal acabaria de vez. Suas famílias poderiam coexistir em paz, finalmente. As criaturas divinas dividindo o mundo de Deus.
Ponto final.
Toda aquela luta, aquele suplício, aquele tormento seria justificado. Não existiria mais dor, sofrimento, solidão, ganância, poder, guerras, armas, destruição. Só a paz, como deveria ser.
A porta escancarou-se, mas ninguém entrou. Cass achou estranhíssimo, mas levantou-se assim mesmo. Caminhou pé ante pé até o portal. O lugar parecia deserto. Ele andou em passos lentos por toda a extensão do lugar, checando cada porta, cada canto. Nenhuma alma viva passava por ali.
Chegou até a porta final, que o separava do resto de seu mundo. Fechou os olhos, rezando baixinho, antes de virar a maçaneta. A porta abriu sem oferecer resistência. Cass foi engolfado por uma luz intensa, que o cegou por instantes.
Assim que sua visão acostumou-se, avistou Zacharias, sozinho, parado a meio metro da porta, com um sorriso vitorioso no rosto. Seus braços estavam abertos, como num abraço. Cass olhou desconfiado para ele, que só alargou mais o sorriso, dizendo:
- Bem-vindo de volta!
FIM
Nota Final:
Acaboooou! Graças aos céus! Essa foi a maior fic que eu já fiz (e acredito que jamais vá fazer) e, além de tomar muito tempo, tomou muito da minha sanidade. Descobri cantinhos de escuridão pura dentro de mim que nem imaginava que existiam, mas foi um bom exercício, pra descobrir que a minha escrita não é tão limitada quanto eu pensei que fosse.
Agradecimentos a EmptySpaces11, por ser tão querida e ficar me incentivando durante o processo todo e por betar Abismo pra mim. A Galatea Glax por ser uma quase-tiete minha e ficar me ameaçando de morte durante os meus períodos de baixa autoestima, e por betar alguns capítulos também. Obrigada pelas idéias que me fizeram reestruturar Abismo e deixá-la maior do que o esperado, meninas. Vocês são demais.
A Piper Winchester, CassBoy, Allie Salvatore, Anarco Girl, TaXXti, Liafrombrazil, ShiryuForever94, Inny e Mary Spn por acompanharem e/ou comentarem coisas tão deliciosas (e muitas vezes engraçadas) a ponto de me fazerem querer escrever mais e melhor. Desculpem-me pelas caixas de lencinhos que vocês desperdiçaram por minha causa.
E a todas as pessoas que acompanharam essa fic e contribuíram no grande número de visualizações da página do traffic. Eu espero que todos vocês tenham gostado da história, dos personagens, das situações (mesmo sendo tão difíceis de serem lidas) e, especialmente, do final. Sei que não teve um muito feliz, mas pra encaixar direito no seriado tinha que ser isso mesmo.
Mais uma vez, muito obrigada. Vocês me deram muitas alegrias. Até a próxima!
