Fold'em, let'em hit me
O carro parou bruscamente e ela deu um tranco para frente. Ainda não sabia que lugar era aquele, mas ela estava agradecida por ao menos ter feito a viagem no banco de trás, amarrada. Porque a outra opção seria o porta-malas, então ela mesmo vendada e com os braços atados estava satisfeita ou menos insatisfeita por ter passado o trajeto acelerado ali sentada e com cinto de segurança que ele fizera questão de colocar.
Sem a visão, os outros sentidos dela estavam aguçados, portanto ela podia distinguir vários movimentos dele. Agora ele abria a porta do carro e se debruçava sobre ela para soltar o cinto de segurança. Pode sentir o cheiro forte mas agradável de perfume caro que ele tinha. Ela saiu hesitante do carro, os passos curtos e cautelosos sobre o salto alto. Pôde perceber que o chão era de paralelepípedos, pois teve uma certa dificuldades de se equilibrar. Puxando-a pela parte superior do braço, ele a conduzia calmamente por um caminho reto. Não haviam sons de vozes ou música ou carros, e isto tudo a fazia concluir que deviam estar na parte antiga da cidade.
Seu palpite estava certo, mas ela não podia ver que estava diante de uma mansão enorme. Mal cuidada, é verdade, mas grande e imponente. Eles passaram pelo portão barulhento e ele a fez entrar pela porta depois de subirem dois degraus. Havia um cheiro suportável de poeira e mofo. Eles andaram mais um pouco, fizeram algumas curvas e ele a mandou sentar-se em algo que ela descobriu ser um sofá fofo, mas com textura empoeirada. Ouviu os passos dele cruzando o aposento e ecoando no vazio entre as quatro paredes. Enquanto esteve sozinha, ela só pensou em um modo escapar. Não tentou descobrir onde estava. Já estava em desvantagem por estar vendada e com as mãos amarradas, tentar fugir daquele jeito seria ainda pior.
Alguns minutos depois ele voltou com passos calmos para tirar a venda dos olhos castanhos dela, revelando a ela que estavam em uma das salas de uma casa que algum dia deveria ter sido extremamente luxuosa e rica. Alguns móveis, como aquele sofá e uma mesa de canto com um candelabro cobertos de teias de aranha ainda estavam no lugar, mas notava-se claramente a ausência de algumas peças da decoração.
Ele ficou de pé por muito tempo, enquanto ela o encarava esperando que alguma coisa acontecesse. Tudo que ele fazia era olhar no relógio de tempos em tempos. Quando ela se entediou com essa brincadeira irritante de fingir que nada estava acontecendo perguntou:
-Você não vai dizer nada?
-Não. –Ele continuou com a mesma expressão.
-Você não vai me explicar o que você vai fazer comigo?
-Quer que eu te explique que isso é um sequestro? – ele disse, rindo.
-Essa parte eu já entendi. Só queria mais esclarecimentos. Você vai me negociar ou coisa assim?
-Não é da sua conta. Isso é com o seu marido. – Disse ele, consultando o relógio mais uma vez e sem sequer olhar para ela.
Ela calou-se e olhou ao redor. Ele continuava em silêncio, mas essa calmaria fora de ocasião a estava deixando nervosa. Ela queria falar sobre algo, porque agora que sabia que era um sequestro, ao menos confiava no homem que a amava para salvá-la, mais uma vez.
-Que lugar é esse? – perguntou na esperança de que ele entregasse algum ponto que ela pudesse usar a favor de si mesma.
-Mais uma coisa que não te interessa.
-Eu acho que é a sua casa.
Ele não respondeu, mas fez uma expressão de irritação.
-Ou é uma casa que você invadiu?
Ele passou a encarar o teto.
-Não, realmente é ou foi a sua casa. Se fosse um lugar que você invadiu, você teria levado tudo daqui e revendido. Mas isso indica que você...
Eles ouviram um barulho. Ele saiu apressado pela porta e a fechou atrás de si. Poucos segundos depois voltou para tirar o candelabro da mesa e fechou novamente a porta. Bem em tempo. Ela tentaria mesmo usá-los de algum modo para fugir. Ela ouviu o barulho da chave sendo passada na fechadura e alguns segundos depois levantou-se devagar, aproximando-se da porta o mais silenciosamente que o velho assoalho de madeira a permitia.
Além da voz de seu seqüestrador ouviu uma outra voz grave e uma conversa entre elas que ela pegou já na metade.
-Como assim? Você seqüestrou a mulher do delegado? – pronunciou a voz exaltada do outro homem.
-Relaxa, Blaise...
-Relaxa? Porque você fez isso, seu idiota? – apesar do xingamento, a voz do tal Blaise havia se acalmado.
-Porque ela estava lá, ele ia chegar logo e eu tinha que fazer alguma coisa. – respondeu como se fosse a coisa mais óbvia e lógica do mundo.
-Porque você simplesmente não foi embora antes que alguém te visse?
-Porque ela estava sozinha, eu tinha que fazer alguma coisa.
-Tá certo, cara, você é mesmo idiota. – Blaise disse em tom de brincadeira, mas ela podia sentir uma certa tensão na voz grave - Mas e agora o que a gente faz?
-Pedir resgate? – sugeriu a outra voz.
-Se a gente pedir resgate vamos ter que fazer contato e aí vamos ser perseguidos e parar na cadeia... Cara, você é um burro!
-Pelo menos eu fiz alguma coisa – o tom era o mesmo de uma criança mimada.
-Certo, porque a gente não larga ela no meio do nada?
Houve um silêncio. Ele devia estar pensando no que fazer com sua refém, e ela com apreensão desejava ouvir a resposta logo. Ela estava preocupada com o que iria lhe acontecer, mas pelo menos sabia que nem sequer cogitavam matá-la. Menos pior.
-Aí – prosseguiu a voz de Blaise em tom de sugestão – você pode devolver ela sem a gente se envolver nisso.
-Não tem como, ela já viu meu rosto. Aliás, ela me conhece. Ela é que estava me encarando.
-Vai ver ela só te achou atraente e...
-Ela é que veio com o assunto de que eu roubava... Já me conhecia!
-Deve ter xeretado nas coisas do marido e visto uma imagem sua... Mas você não é nem um pouco conhecido pela cidade.
Ela mordeu o lábio com raiva, do outro lado da porta. O tal Blaise sabia exatamente como ela conhecia esse maldito que lhe trouxera para lá e nem sequer sabia o que iria fazer com ela.
-De qualquer jeito, você vai ter que resolver o problema. Você que achou que essa seria uma boa ideia, você que resolva.
-Tá bem, eu cuido disso.
-E dê um jeito de calar a boca dela sobre esse lugar...
-Ela não viu nada, estava vendada.
-Menos pior. – suspirou Blaise. – Bem, eu tenho que ir. Depois me diga o que você decidiu fazer.
-Está bem.
Ela ouviu passos vindo em direção à porta em que ela estava encostada para ouvir. Correu o mais silenciosamente possível de volta ao sofá e se jogou bem a tempo de ele abrir a porta. Enquanto ele fechava a porta ela se ajeitou o melhor que pôde no sofá, fingindo que nada havia acontecido. Ele olhou para ela e percebeu que não estava exatamente do jeito que ele havia deixado.
-O que aconteceu aqui? – ele perguntou em tom inquisidor.
-Eu estava tentando me soltar – respondendo em tom ofendido para soar mais real, e forçando de verdade as cordas que prendiam seus braços.
Hum. Ele aceitou esta resposta com um olhar desconfiado e ordenou que ela se levantasse.
-O que você vai fazer?
-Você faz perguntas demais – foi a resposta dele. Ele continuava de pé ao lado da porta esperando que ela se levantasse.
-Eu estou sendo sequestrada... É assim que costumam agir as pessoas desesperadas.
-Você vai levantar ou não?
O medo se apoderava dela, pois o olhar de impaciência seguido do ato de levar a mão à cintura, perto de onde o revólver dele estava era amedrontador. Mesmo a despretensiosa conversa dele com seu comparsa Blaise e a aparência benevolente não amenizavam a profundidade deste olhar. Nem cada atitude impulsiva que ele tomava, de quais ela tomava nota mentalmente.
Ela se levantou, mas ao menos tentou demonstrar alguma dignidade e coragem, que se desmanchou no ar tão logo ele a encarou. Ele, no entanto, não podia mais sustentar tanta superioridade no olhar quanto antes de encarar aqueles olhos castanhos. Ela viu as inseguranças no fundo dos olhos cinza dele. Os dois fingiram não notar a influencia do olhar um do outro e seguiram em silêncio. Ela seguiu adiante e passou pela porta, na frente dele.
Ela reparou que ele acompanhava seus passos com algo mais do que o cuidado que uma vítima tem por sua presa e uma estratégia ousada, arriscada e perigosa se formou na cabeça dela. Ela iria evitar o destino que ele queria lhe impor com uma tática simples. Deplorável, mas simples: implorar. Porque ele não era um homem mau. E mesmo que provocasse algum instinto ou impulso contrário nele, pelo menos ela tentaria.
-Meu nome é Gina.
-O que? – ele estava confuso com a frase fora de contexto.
-Você me perguntou mais cedo o meu nome. É Gina.
-Gina? – ele fez uma careta.
-Ginevra... – ela revirou os olhos. – Ginevra Molly Weasley Potter.
Gina? Com um nome tão bonito era assim que ela gostava de ser chamada?
-Não vai me dizer seu nome também? – Ela perguntou, enquanto ele a segurava pelo braço e a conduzia por um corredor de aparência macabra.
-Você já não sabe?
-Não.
-E como me conhecia?
-Vi seu retrato falado, um garçom de um cassino te descreveu.
-Mas não sabe meu nome?
-Não.
Ela estava jogando, fazendo-se de vítima, mais do que ela já era nesta situação.
-Então não vou dizer. – Disse ele. – Isto não é o chá das 5, não temos que trocar gentilezas.
Se ela não sabia o nome dele, ele não entregaria. Melhor que tudo ficasse como estava.
Chegaram ao fim do corredor e ele percebeu que ela estava muito atenta ao lugar. Seria bom vendá-la novamente, ele estava a deixando ganhar vantagens com as informações que via.
-Paramos aqui. – ele afirmou, já levando à mão ao pescoço dela onde o lenço com que fora vendada pendia, com a amarração frouxa.
Ela virou o rosto para ele e o encarou, apostando todas as fichas em um olhar que tentasse demonstrar tudo que ela queria que ele visse. Ela queria fazer um acordo para sair dali bem. Nem que isso custasse o preço de vê-lo se dar bem também.
-Eu faço o que for preciso pra sair daqui bem. – afirmou ela, suplicante.
-Você vai sair daqui – ele sorriu torto, ainda a encarando, mas sem deixar de tentar desfazer o nó em que trabalhava. – Não tem que me pedir nada.
-Por favor – ela disse firme – eu posso garantir que nada aconteça com você.
-Nada?
-Me deixe ir, eu invento uma história e convenço meu marido de que ela é real.
-Você mentiria para o Potter por mim? – disse ele, sarcástico.
-Eu quero escapar disso tudo inteira, não vou entrar no meio de uma rixa entre vocês. – ela disse com sinceridade.
-Acho elegante dizer que é só uma rixa o que há entre eu e o seu Sr. Perfeito.
-Tudo bem, essa perseguição, que seja... Mas me diga o que eu tenho que fazer pra escapar disso!
Ele ficou em silêncio por algum tempo pondo mais força em desatar o nó do que necessário. Quando finalmente terminou ele baixou os olhos para o tecido agora solto que percorria o pescoço cheio de sardas dela. O pedaço de pano corria lentamente pela curva formada pela junção do ombro com a garganta. Gina ainda o encarava com um olhar que misturava desespero e outros sentimentos mais fortes. Ele queria deixá-la ir, mas não podia garantir que ela não estivesse mentindo.
-Você vai embora. – Ele viu alívio nos olhos castanhos - Mas eu vou garantir que isso não é um blefe.
Ele intensificou o olhar sobre ela, fazendo-a encolher seu corpo e se afastar dele.
-C... como? – ela parecia apavorada, mas tentava impor valentia na voz.
-Você vai descobrir.
A última imagem que ela vira, e que permanecera em sua mente até que ela visse a luz novamente fora o rosto pálido e frio contorcer-se em um sorriso de malícia assustadora. De certa forma, aquele sorriso maquiavélico combinava com aquele par de olhos cinzas brilhando, e ela se perguntava o que estava por trás daquele olhar que permanecia em sua mente quando fora vendada novamente.
Por um tempo ela pensou que o plano tinha dado errado, porque eles realmente entraram em um carro, mas desceram no meio da cidade. Como estava vendada ficou imaginando onde aquele carro pararia, pensou que só tinha conseguido piorar as coisas. Mas ela conseguira convencê-lo. A única coisa ruim é que ela não sabia a que custo estaria livre e segura.
Antes de descerem do carro ele a desatou e desvendou. Ela viu o dia já quase amanhecendo e perguntou-se onde estava seu marido delegado de polícia quando mais se precisava dele. O homem loiro a conduziu pelo pulso, cruzando a rua. De longe, pareciam de mãos dadas. Ela tentava sair do domínio dele em silêncio, mas ele a segurava com mais força, até que ela finalmente decidiu seguir os passos dele sem relutar, afinal, ele já havia cedido a ela um pouco, não custava nada ela confiar nele, só um pouco mais. Depois de perceber que ela havia relaxado, ele deslizou seus dedos compridos pelo braço dela e os entrelaçou aos dela.
Aquilo gerou uma sensação estranha nela. Ela não podia ignorar a tensão da situação, mas andar de mãos dadas com seu próprio sequestrador pelas ruas parecia tão normal. Era assustador ver quão normal um homem que vivia às margens da lei era. Na cabeça dela, tudo era claramente dividido: os bons e os maus, cada um com seus pensamentos completamente opostos. Ela ainda tinha muitos sentimentos fortes e confusos passando em sua cabeça sobre aquela noite, mas era estranho ver alguns sentimentos que ela mesma sentia nos olhos daquele homem que era visto como seu inimigo e oposto. Ele sentira compaixão por ela. Ou era o que ela pensava.
Ele andava tranquilamente, caminhando de modo a fazer parecer que aquele passeio de mãos dadas fosse mesmo um passeio de mãos dadas. Caminharam mais um pouco em direção a um ponto de táxi. O motorista ouvia uma música baixa e a batucava fora de compasso no painel do carro. Gina se perguntava se ela é que entraria naquele táxi e qual seria o seu destino.
A porta foi aberta sem aviso prévio, tirando o taxista de seu transe tedioso. Ele observou tranquilamente o homem loiro conduzir a mulher a quem dava a mão para dentro do banco. Ela olhava assustada para o tal homem que a conduzia, mas não tirava os olhos arregalados dele. Ele dobrou os joelhos para ficar com o rosto na mesma altura que ela, e a beijou rápido, na boca.
-Leve-a para casa – falou ao motorista. – Em segurança.
E fechou a porta. Um olhar mais atento do taxista e ele teria percebido a ironia no tom de voz arrastado daquele homem. O táxi entrou em movimento deixando-o parado do lado de fora, observando atentamente aquele carro partir.
-Para onde vamos, senhora?
Ela demorou a responder. Ainda estava atônita, atordoada com tantos sentimentos intensos e por último, aquele beijo do homem cujo nome não sabia e que havia acabado de raptá-la. Ao menos perpassava por ela o alívio de finalmente estar longe daquelas garras perigosas, mas ela não entendeu o porquê do beijo.
-Pra onde, senhora? – repetiu o motorista um pouco impaciente.
-Pra casa. Seja lá onde for que ela fique...
Se ela soubesse que nem ele sabia o motivo para beijá-la.
N.A.: Odeio implorar, mas estou carente de reviews. Muita gente leu que eu sei, então acho que não custa nada umas reviewzinhas pra eu saber se estou no caminho certo, ne? Obrigada por lerem, revizem e voltem sempre :)
