Stay with me
-Você sofreu um sequestro relâmpago?
Ela respirou fundo mais uma vez e lançou um olhar vazio ao homem na sua frente.
-Sim.
-Quem foi? Você consegue descrever o rosto dele?
-Não vi direito. E também estou nervosa, não iria lembrar o pouco que vi – mentiu.
Ela não sabia por que mentia. Agora que estava salva, podia entregar toda a verdade ao marido que tomaria todas as providências para a punição do sequestrador e a segurança dela. Talvez ela mentisse por medo, porque sabia que ele voltaria a lhe procurar e ela não sabia exatamente o que ele queria. E ele era um marginal, fora bom com ela, mas ainda podia aniquilar a vida dela e de todos a seu redor de maneira rápida e banalmente eficiente. Ela manteria sua promessa de inventar uma história qualquer que distraísse seu marido e delegado de procurar quem quer que tenha lhe causado qualquer mal. Talvez estivesse ainda impressionada pela quantidade de coisas que haviam acontecido a ela. E ela ainda não queria pensar.
-Por favor, Harry. Eu estou sã e salva, fique feliz com isso.
Ela disse, olhando para o marido, que estava sentado em frente a ela, preenchendo um boletim de ocorrência ou coisa assim. Ela chegara de manhã em casa e não o encontrando, ligou para a delegacia. Ele estava em seu local de trabalho, tentando desvendar o seu sumiço. Era bom saber que ele estava preocupado, mas ele nem sequer a abraçara com alívio por vê-la, pois tinha sede de justiça. Pegou-a pela mão quando chegou em casa e levou-a para o escritório, levara alguns papéis para que ela preenchesse e queria detalhes de tudo.
-Eu estou feliz por você estar bem – ele sorriu olhando-a com carinho - Mas eu não vou sossegar enquanto não pegar esse cara.
-Eu te entendo. – ela respondeu, pousando a mão por cima da mão dele que estava sobre a mesa – Mas por favor, eu preciso de você. Fique comigo, só um pouco essa noite.
Ela estava suplicando, e detestava fazer isso. Mas estava física e mentalmente exausta, não queria discutir nem exigir nada. Ele a olhou nos olhos e sorriu com compaixão. Levantou-se e deu a volta na mesa, depois se ajoelhou no chão e a abraçou com força. Era todo o conforto que ela precisava.
-Me leve pra cama, eu quero dormir. – ela sussurrou no ouvido dele, com a voz cansada.
Ele a levantou, ainda sem soltá-la do abraço. Ela o apertou com ainda mais força quando ficou de pé. Ele era mesmo seu porto seguro. Queria agarrar-se a ele e à toda esta realidade perfeita onde existem pessoas boas e ruins, sem meio termo e ela podia simplesmente recusar tudo que era oposto a ela sem medo de cometer injustiças ou de sofrer retaliações. Mas que se foda a justiça! Ela nem queria pensar agora. Só queria abraçar forte Harry e esquecer a justiça que ele sempre defendia e que sempre os afastava como marido e mulher. Ela não queria o delegado, queria o marido. E agradeceu mentalmente por ele tê-la ouvido e estar prestando amorosamente este papel.
-Obrigada – ela verbalizou sua gratidão ao pé do ouvido dele.
Ele sorriu e a pegou no colo. Levou-a até o quarto e a colocou com delicadeza sobre a cama. Ele tirou os sapatos dela e depois ela se virou de lado na cama enquanto ele juntava-se a ela. Ela mirou os olhos verdes e companheiros e ajeitou os cabelos pretos dele que insistiam em nunca se arrumar. Ela sorriu em ver que não, eles nunca mudariam sua rebeldia, e essa era mais uma prova de que o mundo continuaria como era, mais simples e claro, enquanto ela estivesse ao lado dele. Ela tirou do rosto dele os óculos de aros redondos e fechou seus próprios olhos. Depois virou-se na cama, ficando de costas para ele, que cedeu um braço como travesseiro para ela. Ela segurou firme a mão em cujo braço ela apoiava a cabeça e adormeceu em posição fetal, encolhida junto ao seu marido, Harry, enquanto ele afagava seus cabelos vermelhos devagar.
-Feliz aniversário de casamento.
Foi a última coisa que ela ouviu, baixinho em seu ouvido. Ela dormiu sorrindo. E acordou ainda abraçada ao corpo quente dele para encarar uma rotina diária de temores que se seguiu.
Cada novo dia era um novo dia de tensão. E à noite ela respirava aliviada em saber que nada havia acontecido a ela ou a Harry. Aquele homem loiro não era tão perigoso assim. Mas com certeza não a havia deixado escapar tão facilmente sem que ele obtivesse alguma vantagem ou benefício com isso. A dúvida do que aquele homem misterioso queria e o suspense em saber quando ele daria as caras novamente a matava. E não poder falar nada com Harry também.
Ele era o delegado. Harry Potter, famoso por ser um justiceiro. Se ela contasse a ele a verdade, ele faria justiça. E ela tinha medo da vingança que lhes afetaria. Ela já sabia, desde sempre dos perigos da profissão do marido. Mas o que mais lhe causava medo era mesmo a vingança das pessoas perigosas com quem ele lidava e ela não queria ser responsável por nada de ruim que pudesse ocorrer ao marido. Ela jamais se perdoaria se alguma coisa ruim acontecesse com Harry, um homem tão bom que a amava tanto.
Além disso, ela tentava se convencer que alguma coisa no olhar daquele homem misterioso é que a convencia de que ele era perigoso, mas nas cinzas daquele olhar só o que encontrara foram sentimentos iguais aos dela, talvez tão bons quanto. Nada ruim ou ameaçador. Ela não sabia então, porque tinha medo dele. Porque o temia? E porque o enfrentava com tanta força e se dispunha a enfrentá-lo novamente com tanta fúria caso o encontrasse? Eram perguntas que permaneciam em sua mente e nunca se calavam. Sempre voltavam à tona.
Durante o tempo de espera e ansiedade desenvolvera o hábito de sempre conferir os papéis que o marido trazia para casa. Ele tinha o costume de trazer arquivos de seus casos mais difíceis de resolver para casa e ela sempre verificava se havia alguma coisa relacionada àquele ladrão de cassinos cuja primeira foto, que a permitira reconhecê-lo naquele fatídico dia, também fora vista dessa maneira por ela. E não havia nada sobre ele. Nem uma linha. Mas havia algumas coisas sobre um homem chamado Blaise. Não era esse o nome do comparsa cuja conversa ela ouvira aquela noite, por trás da porta? Ela estava muito ansiosa, porque esperava que essas coisas de vingança no mundo do crime fossem mais rápidas. Perdida em seu mundinho de dona de casa, era assim que ela imaginava aquela realidade paralela tão diferente da dela, apesar de ser aquela à qual pertencia seu próprio cônjuge.
Nestes momentos de angústia, cresceu nela uma vontade estranha de retomar sua vida antes de se casar. Ela percebeu o quão inútil e sem significado era pra ela continuar vivendo às sombras do marido. Desde que abandonara sua faculdade de psicologia para ser somente a esposa de Harry Potter não se sentia plenamente feliz. Ela fizera esta escolha porque o marido era um homem público e odiado por pessoas perigosas, e para ele o melhor era ter esta esposa perfeita sempre na segurança de sua casa. Quando finalmente percebeu que a vingança ou qualquer outra coisa que pudesse lhe acontecer por parte de seu raptor tardavam demais para chegar, ela decidiu que voltaria a estudar. E seria bom também ter algo para pensar, distraindo-a da ansiedade de esperar pela volta daquele homem.
No primeiro dia de volta, uma sensação de estranhamento a tomava. O beijo de boa sorte do marido na porta havia dado alguma confiança a ela, mas era estranho ver aqueles jovens, quase crianças no lugar em que um dia ela pertencera. Ela se sentia deslocada, ao contrário do que sentira quando ingressara no curso, antes de pará-lo. Naquela época, milhões de expectativas lhe percorriam a mente e ela estava ávida a aprender. Agora, ela parecia perdida. Não era tão mais velha do que estes jovens, talvez uns três ou quatro anos apenas, mas ainda assim, ela não tinha mais aquele brilho juvenil nos olhos. Mesmo que sua energia tivesse se renovado ao relembrar tudo que se lembrava da vida acadêmica, da qual sempre gostara.
Depois de uma aula de Psicologia da Personalidade extremamente frustrante pelo fato de ela ter feito um esforço enorme para relembrar conceitos que eram pré-requisitos do assunto, ela ao mesmo tempo se sentia empolgada em receber conhecimentos novamente e de perceber que não perdera totalmente sua paixão em relação a desvendar a psique humana. Uma aluna loira de grandes olhos azuis que se vestia de modo estranho puxou assunto quando Gina foi para o corredor externo à sala.
-Meu nome é Luna Lovegood. – apresentou-se
-Prazer, pode me chamar de Gina. – respondeu cordialmente.
-Você é nova no curso? Como você veio parar aqui? – Ela disse sorridente.
-Eu tinha parado a faculdade. Agora voltei.
Luna a olhou com grande compreensão, como se o assunto tivesse sido encerrado. Gina tentou emendar:
-Eu me casei e quis me dedicar só ao meu marido.
-E depois de um tempo percebeu que havia mais coisas no mundo pra se ver... – completou Luna, como se já se conhecessem.
-Exatamente. – respondeu Gina.
-Então, há quanto tempo você é casada?
Gina não percebeu quem se aproximava e sorriu ao pensar no marido. Ela adorava contar a história dos dois. Mas não foi exatamente a voz dele que ouviu atrás de si.
-Há pouco tempo, não é, meu bem?
Dedos frios e compridos envolviam sua cintura por trás, deixando seu corpo imediatamente todo rígido. Não era a voz, nem eram os dedos ou o toque de Harry. Era a voz do homem que a sequestrara, finalmente voltando para cumprir sua ameaça.
Ela virou o rosto com uma expressão nervosa que a mulher à sua frente não decifrou como sendo de pânico.
-Prazer, meu nome é Draco Malfoy.
O homem loiro se dirigiu à Luna, estendendo a mão por baixo do braço de Gina, sem soltá-la e aproximando mais ainda seu corpo do dela. Luna cumprimentou-o enquanto Gina mirava aquele aperto de mãos. Agora ele tinha um nome? Isso deixava tudo tão mais perigoso.
-Eu sou Luna. – Ela sorriu, despreocupada. -Vou deixar vocês dois sozinhos. Preciso ir à biblioteca...
-N... Não. Eu não tenho nada pra falar com ele – disse Gina, ríspida demais para que a outra mulher não percebesse que havia algo errado.
-Meu bem, temos que resolver nossas diferenças.
Ele disse no ouvido dela, deixando-a a arrepiada.
-Eu já vou. – reafirmou Luna, que saiu calmamente pelo corredor em direção oposta. E acrescentou, sem se virar: - Tenho mesmo que ir.
-Meu amor, venha comigo. – Ele puxou o braço dela em direção oposta o que Luna havia saído.
-Não me chame assim! – Ela falou, puxando o braço de volta, chamando a atenção de outros estudantes da sua sala que conversavam animadamente a um lado do corredor – E me largue.
Ele não tinha alternativa a não ser aquela. Largou-a por um momento, mas logo a tocou delicadamente no braço. Ela se esquivava, mas logo encontrou a parede. Ele levou o corpo em direção à dela até que ficassem muito próximos.
-Me perdoa – ele falou alto demais. – Eu prometo nunca mais te deixar esperando.
Ela não entendia. Ele a olhava nos olhos e ela até podia ver um pedido de desculpas ali. Ele era bom ator, mas ela precisava escapar dessa cena de briga, que era mais real do que a ficção que ele tentava representar. Alguns colegas de sala observavam a aparente briga e reconciliação com interesse.
-Diga que me perdoa. – ele sussurrou no ouvido dela, pousando o queixo fino no ombro dela.
-Não – ela gritou, tentando empurrá-lo.
-Nosso público está esperando – ele sussurrou, dessa vez com o tom mais severo, pressionando finalmente todo seu corpo contra ela. Ela sentiu a rigidez do metal do revólver encostar nela e se sentiu enjoada. Harry nunca levava sua arma para casa, ou pelo menos não a usava quando ela estava por perto. Ela tinha pânico do som metálico toda vez que ouvia e deixava claro que não queria nada dessas coisas perigosas à sua vista. Sentir aquilo tocando seu corpo era algo que a deixara assombrada. Ela olhou para os lados e viu um grupo observando com curiosidade, mas claramente fingindo que não prestavam atenção.
-Eu perdôo – disse ela entre dentes, para livrar-se logo da tortura psicológica de estar com uma arma encostando em sua barriga.
-Não Gina, diga com carinho. Como se tivesse me perdoado de verdade.
-Eu te perdôo.
Ele afastou o rosto de perto dela.
-Mais alto. Acho que seus colegas ainda não ouviram.
Ela o olhou nos olhos com raiva e sem tirar o olho dele disse em alto e bom som.
-Eu te perdôo, Draco Malfoy.
Ele pousou os lábios contra os dela com força e depois finalmente a soltou. Ela sentiu-se tão aliviada de finalmente estar separada daquele homem que quase não teve forças para acompanhá-lo, pois ele já a puxava pela mão para fora dali.
Quando passaram pelo grupo de estudantes que os observavam eles fingiram muito mal que conversavam sobre outro assunto. E quando o casal saiu de vista, o assunto obviamente foi aquela cena que acabaram de testemunhar.
-Pensei que você nunca fosse ficar sozinha e desacompanhada. – ele zombou, conduzindo-a para fora do prédio. – Isto é, fora da presença do seu marido e longe de toda a segurança que ele pôs na sua vida.
-E eu pensei que você não vinha mais – disse ela entre dentes, quando ele a levou para o estacionamento deserto àquela hora.
-Me desculpe. Mas eu acabei de jurar que nunca mais te deixo esperando.
A voz sarcástica a irritou ao ponto de fazê-la dar um tapa no rosto pálido dele. A marca de seus dedos ficou no rosto fino, mas ele logo se recompôs.
-Nós acabamos de fazer as pazes e já estamos brigando de novo?
Ela cruzou os braços, vermelha até a raiz dos cabelos.
-Quer outro beijo pra se acalmar? – Ele riu com uma expressão divertida no rosto, as mãos segurandos os pulsos dela.
-Olha aqui, você nunca mais ouse me tocar ou eu conto tudo que está acontecendo pro meu marido.
Ele a soltou e recostou-se em um dos carros estacionados.
-O Sr. Perfeito não pode saber de nada ou a sua vidinha perfeita vai sofrer mudanças drásticas...
-Você não me dá mais medo – disse ela com a fúria que havia guardado por todo aquele tempo - Você já teria feito alguma coisa...
-Se me interessasse – completou ele num tom mais firme que o dela.
-O que você quer então? – Ela perguntou com impaciência na voz.
-Quero que você distraia seu marido nos dias em que eu for roubar algum lugar.
-O que? Você acha que eu vou ser sua cúmplice?
-Não se preocupe, sua vida no crime será breve. Depois eu vou embora dessa cidade e você vai poder seguir sua vida perfeita ao lado do Sr. Perfeito.
-Mas como?
-Eu vou te guiar nessa vida criminosa – respondeu com ironia – E vai dar tudo certo.
-Mas quando? – Ela tinha uma expressão confusa no rosto.
-Isso você não vai descobrir com muita antecedência. Agora vá.
Gina saiu pisando duro enquanto ele ficou parado, ali, encostado naquele carro. Antes que ela sumisse da vista dele ele gritou:
-Eu te amo, Senhora Malfoy.
Ela virou-se por um segundo e viu o sorriso divertido no rosto dele, que acompanhava o andar dela. Ela então voltou a olhar pra frente e mostrou-lhe o dedo do meio.
-Vá se foder, senhor Malfoy. – Ela gritou irritada.
-Isso só me faz te amar mais. – Ele gritou em resposta com o tom de voz divertido.
Ela não olhou pra trás de novo. Se não, veria que ele estava de verdade se divertindo com o nervosismo dela.
N.A.: Eu postei dois capítulos num dia só. Eu não mereço um monte de reviews? [Carência mode off]
