I'm not lying

Ele se aproximou do mesmo modo que na vez anterior: sorrateiro e sem que Gina percebesse. Quando deu por si, havia um homem loiro gesticulando do lado de fora da janela. Ela pediu licença ao professor educadamente, mas sua expressão havia se fechado quando saiu da sala.

Draco Malfoy disse sem demonstrar um sentimento sequer:

-Sexta feira, não saia de casa e não deixe seu marido fazer o plantão noturno.

O homem girou e começou a andar na direção contrária da mulher com quem acabara de falar. Ela tinha perguntas a fazer. Ele não podia simplesmente sair sem que ela tentasse lhe arrancar alguma informação.

-O que você vai fazer? – Ela perguntou, seguindo-o a passos rápidos.

-Não é obvio? Vou fazer coisas que seu marido não gosta que eu faça.

-Mas onde você vai?

-Você acha mesmo que eu vou te dizer? – Ele lançou-lhe um olhar irônico, com uma sobrancelha erguida. Ela já caminhava ao lado dele e fechou a cara de novo.

-Olha aqui, você precisa me dizer alguma coisa sobre você ou me falar mais sobre o que você faz! Você vem aqui e quer me pedir pra fazer as coisas, ameaça a minha vida e a do meu marido... Você acha que é fácil eu confiar em você?

Ele olhou para baixo com um sorriso torto no rosto. Continuou andando, e ela o seguindo.

-Você não tem que confiar em mim. – Finalmente ele respondeu, depois de alguns segundos. – Você tem que me temer.

Finalmente Draco parou. Estavam no amplo estacionamento na frente do prédio em que Gina estudava. O lugar estava deserto. Ele se encostou em um carro preto e esperou que ela falasse. Gina também estava parada, ao lado dele.

-Pois eu não tenho medo de você. – Ela disse cruzando os braços e postando-se em frente a ele.

Ele riu.

-Você não tem medo de mim?

-Não.

-Então porque até gaguejava quando eu falava com você? E porque muda de postura quando me vê?

-Eu não faço isso! – Ela disse num tom mimado. – Eu ajo normalmente...

-Não age não... Eu vejo como você muda.

-É mais por raiva – Gina tentava se justificar.

-Raiva? Porque? Você devia se sentir grata porque eu não te matei.

-Você não seria capaz...

-Como você tem tanta certeza? – Draco cruzou os braços também e a encarou.

-Psicologia básica – ela respondeu, como se a resposta fosse satisfatória. – Não é preciso nem estudar pra entender.

Draco levantou uma sobrancelha em descrença. Valeria a pena ouvi-la desferir besteiras embasadas nessa estupidez que ela estudava.

-Certo. O que a psicologia diz de mim?

O tom era de provocação. Gina aceitava o desafio proposto. Ela levantou uma sobrancelha também e o encarava com uma pose que impunha alguma grandeza.

-Você deve ter sido rico. Talvez ainda seja. Não sei porque você começou a roubar, mas é provavelmente por causa de alguma outra questão que não seja necessidade. Você tem bons modos e fala de um jeito refinado e sempre me trata de uma maneira relativamente cuidadosa, se levarmos em consideração que eu sou sua vítima. Até o seu andar entrega que você tem uma origem sofisticada.

Gina observou o rosto dele desmanchar-se. Por um milésimo de segundo ela jurou ter visto uma expressão de surpresa, por ela estar dizendo nada mais que a verdade, talvez. Mas logo o rosto dele tomou feições hostis. Ela não se deixou intimidar.

-Também não é por comodidade que você rouba. Você nem gosta do que faz. Faz porque é obrigado e eu vejo isso no jeito que você despreza o que faz, usando sempre de ironia. Eu também acho que você não me mataria. Porque você me tratou com cuidado quando você podia fazer o que bem entendesse comigo. Você nem usa sua arma. Nunca nem sequer a mostrou pra mim. Posso dizer que você talvez nem goste de tocá-la, já que você só insinua pra mim que está com ela, mas nunca me apontou, quando isso seria uma ameaça bem mais eficiente. Talvez seja uma lembrança ruim que você tenha a respeito de armas de fogo que te façam agir desse jeito.

Draco permaneceu parado, os braços cruzados a encarando com um olhar mortal por alguns segundos.

-Análise interessante – Draco disse com desdém. – Mas não é nada de mais. Também posso dizer coisas sobre você, e não preciso estudar psicologia pra isso.

-Como eu disse, é psicologia elementar, bastante difundida. Qualquer um com cérebro consegue perceber que você não representa ameaça nenhuma.

-Então porque você ainda se submete ao que eu quero?

Ela sentiu suas orelhas queimarem, seu rosto estava vermelho. Ela sentia algum medo dele, isso era mais do que óbvio. Ela não devia ter dito o contrário a ele mais cedo. Um homem estranho que lhe ameaçava... Ela o obedecia por prudência e um pouco de temor.

-Eu mesmo posso responder. – Ele prosseguiu, com sarcasmo na voz – É claro que você é uma mulher que foi criada de maneira independente. Mas alguma coisa aconteceu com você, talvez alguma violência, e você se sente dependente do seu marido. Acho que o que aconteceu com você te causou um trauma. Por isso você agia com tanto medo, mesmo sabendo que você pode se defender sozinha. Você não conseguiu reagir do jeito que queria quando essa coisa ruim te aconteceu e por essa razão você sempre espera que Potter te salve. Eu vi a sua impaciência nos seus olhos quando ele não chegou, naquele primeiro dia. Você podia ter chamado a segurança do lugar, mas preferiu esperar seu herói. Isso é deprimente, além de tudo, sabia? Você se apega a ele também porque ele é um homem bom, mas isso também é muito frustrante pra você, porque ele parece perfeito e você, obviamente não é, ou não estaria aqui conversando comigo.

O rosto dela também mudou lentamente. Ela ficava ainda mais vermelha e quando ela ia protestar ele prosseguiu.

-Você tem medo de mim e não porque é porque eu sou perigoso. Mas ainda assim eu vejo como você se submete ao que eu ordeno porque você gosta de alguma coisa em mim. – Draco descruzou os braços finalmente e os estendeu na direção dela, tocando os lados dos braços dela. - Acho que sou uma coisa tão diferente de você que eu te fascino. O seu mundo é todo certo e você fica presa no medo que tem de mim, medo que você sente porque eu sou tão mais humano do que todo mundo que você conheceu.

Gina ficou poucos milésimos de segundo perdida nos olhos cinza que a encaravam tão severamente. Depois descruzou os braços e afastou de si as mãos geladas de Malfoy, tentando não pensar na reação que toque dele a havia causado.

-É um absurdo você falar em humanidade.

-E onde está a humanidade em ser perfeito? Seu marido é uma frustração pra você, porque como todas as outras pessoas no mundo, você tem defeitos também. Por isso você voltou a estudar. Você queria primeiro se afastar dele e esquecer o quão perfeito ele é, em segundo lugar você quer alcançar um meio de ser perfeita em alguma outra coisa, talvez pra provar, não sei se pra você mesma ou pra todo mundo, que você também pode ser tão boa quanto ele.

-Isso é absurdo. – Gina respondeu, parecendo indignada.

-Não é absurdo, é verdade. É a sua psicologia. – ele pronunciou a última palavra com desdém – E eu aprendi numa mesa de poker.

Ela nunca sentiu tanta raiva dele. Queria esbofeteá-lo, e se possível arrancar daquele rosto maldito aquele sorriso nojento de escárnio, mas ela ficou sem reação. Paralisada pela raiva, os músculos de todo o corpo tensos porque ela simplesmente queria matá-lo mas seu cérebro dizia que não devia fazer isso. Seria prová-lo certo. Ainda que a falta de reação dela também provasse, de certo modo, que ele tinha razão.

Ele entrou naquele carro em que estava encostado e deu a partida. Ela ficou parada no mesmo lugar remoendo o fluxo de raiva que lhe perpassava todo o corpo. Ele deu ré para sair da vaga do estacionamento e só então ela se moveu, virando-se de lado para ver o veículo saindo. Ela ligou-se de repente de que tinha a placa do carro como informação. Olhou fixamente para ela e tentou memorizar a série de números e letras. Draco manobrou o carro de modo a lentamente postar-se ao lado de Gina.

-Não adianta decorar a placa. Ela é falsa. – Draco disse a ela.

-Tanto quanto sua indiferença ao que eu te disse? – retrucou ela entre dentes.

-Não... a placa é tão falsa quanto a sua indignação com o que eu disse.

Ele parecia muito tranquilo, frio até demais. Ela se perguntou o que se passava por trás daqueles olhos gelados. Porque ela tinha uma certa convicção do que dissera, afinal, baseara-se mesmo no básico da psicologia de que ela tinha conhecimento. Enquanto ela visivelmente tentava não admitir que na verdade ele tinha razão, ele agia friamente, como se ela sequer houvesse chegado perto de atingi-lo. Mas ela sabia que o havia tocado de alguma forma. Ela só não podia ler muito bem naquele rosto esvaziado de emoções como ela o havia balançado.

-Não se esqueça de não deixar o Sr. Perfeito ir trabalhar amanhã.

Logo após ter dito a frase, ele saiu com um acelerar de motor, deixando Gina para trás.

Pouco mais de uma semana depois, a linguagem corporal dela dizia tudo que ele precisava saber. Ela estava com os ombros caídos e os olhos eram inexpressivos quando entrou no carro. Gina sentou-se silenciosamente e esperou calada e encarando o nada até que ele falasse algo.

-Muito bem, seu maridinho nem sequer apareceu!

-E só ficou sabendo do estrago que você fez no outro dia – ela respondeu sem reagir à provocação dele.

-Posso saber o que você fez pra conseguir manter o senhor justiceiro dentro de casa?

-Comemoramos nosso aniversário de casamento, que foi interrompido pelo meu sequestro. Eu disse que já estava recuperada do trauma, que merecíamos uma comemoração e que era um bom dia pra comemorar. Ele disse que não podia, que tinha que trabalhar e eu insisti. Ele cedeu. Ficamos em casa com uns amigos. – Ela disse abatida.

-Espero que tenha feito isso com mais animação do que o modo com que está falando comigo agora.

Ela não respondeu. Ao invés, perguntou apaticamente:

-Então, quer que eu o segure em casa mais uma vez? Que dia?

-Gosto da sua disponibilidade, mas eu espero sinceramente que você tenha sido mais convincente com o seu marido.

Por orgulho e para ter o gosto de vê-la admitindo derrota, Draco queria chegar ao ponto de fazê-la admitir que o que ele dissera dias atrás estava certo.

-Não se preocupe, com ele eu sou muito mais calorosa – respondeu ela, ácida.

-Isso tudo é porque você finalmente descobriu que era tudo verdade o que eu disse?

Ela não respondeu. Era mais ou menos por isso. Ela tinha finalmente admitido para si mesma, depois de um processo de aceitação que durou quase tanto quando aqueles dias sem ver Draco Malfoy, que ele dissera coisas que tinham sim, um fundo de verdade. Os sentimentos dela estavam muito próximos do que Malfoy havia descrito.

-Quando você quer que eu faça Harry ficar em casa? Amanhã?

Ela voltou ao assunto, fazendo-o sorrir. Estava mais do que claro que os argumentos dele haviam deixado Gina derrotada. Ele tinha razão e era bom saber disso.

-Amanhã. – ele disse com um sorriso maroto no canto dos lábios.

-Certo. – Ela desceu do carro e bateu a porta com força. – E não adianta rir porque eu sei que o que eu te disse é verdade também.

Ela admitira derrota. Ele devia sorrir com escárnio, e sorriu. Mas ela pode ver que, contrastando com o sorriso, os olhos dele aceitaram que ela também tivera razão.

Ela sorriu, eliminando de si mesma toda a tristeza que sentia ao tomar consciência de que ele dissera verdades que ela não queria encarar. Saber que tinha razão, mesmo que ele também tivesse, era a motivação que faltava para por em prática o plano que tinha em mente de derrubá-lo e entregá-lo de bandeja à Harry. O melhor de tudo é que agora ela sentia-se dotada de poder suficiente para armar uma estratégia que a mostrasse completamente longe dessa rede de mentiras em que caíra. Ela só precisava de mais alguns encontros, e em breve Draco Malfoy estaria na cadeia.

N.A.: Muito obrigada por ler! Quero ver bastante reviews, já que eu estou tendo muito trabalho pra escrever e esse é o único pagamento que recebo em troca. Quero saber o que estão achando da história, da trama, da relação do Draco com a Gina e da Gina com o Harry. E calma, prometo que no próximo capítulo vai ter um pouco mais de ação entre Draco e Gina! ;) E olha, eu não sei quando vou atualizar o próximo capítulo, porque apesar de ter o prazo de quinze dias, vou viajar e não sei se vai dar pra escrever lá ou como vão ser as coisas. Mas não se preocupem, assim que eu voltar vou correndo terminar o próximo capítulo pra postar!