I won't tell you that I love you, kiss or hug you

Riscos finos maculavam a grossa camada de poeira sobre o soalho de madeira. O chão fora arranhado pelos saltos dos sapatos de uma mulher ruiva amarrada a uma cadeira pelos braços. Em frente a ela e de costas, a figura longilínea de um homem loiro. Com uma das mãos ele se apoiava em uma mesa de jantar encostada à parede. Na outra mão, havia uma faca. Depois de muito tempo no ar, o braço cansado que segurava hesitante a faca de prata sucumbiu ao peso do metal e da decisão. O rosto pálido saiu finalmente das sombras e pôde ser visto, com alívio, pela mulher na cadeira. O rosto pálido, embora mais magro e abatido, voltara a ser o mesmo que ela costumava ver quando frequentava o sótão daquela casa. Se ele tirara a máscara dele, ela também tiraria a dela. Mas ao ver que a faca ainda estava nas mãos dele e que ele andava em direção a ela, o pânico a invadiu, e de repente o fato de ele ter voltado a ser ele mesmo não parecia mais tão certo.

Os passos de Draco ecoavam na sala mal-iluminada. Os únicos móveis que restaram daquele cômodo eram duas cadeiras e a velha e enorme mesa feita de uma peça única de carvalho que agora se encontrava junto à parede para fins funcionais. O resto, assim como muitas outras coisas da casa que uma vezfora luxuosa, ele tivera que vender para sobreviver sem chamar atenção de seus inimigos. O vazio da sala parecia amplificar todos os sons. As batidas do coração de Gina aumentavam de volume na mesma medida que Draco se aproximava e ela se perguntava se ele também podia ouvi-las acelerando. Ela fixou os olhos na faca que ele empunhava. Os silêncios dele sempre a incomodaram, mas hoje, a falta de palavras a torturava mais do que a expectativa da faca perfurando sua carne. Ela se agarrou firmemente à crença de que ele era mesmo uma pessoa boa como ela havia dito a alguns segundos atrás. Fechou os olhos e ouviu sua própria respiração se juntar às batidas descompassadas de seu coração. O toque frio de uma das mãos dele em seu braço parecia o prenúncio do fim. Um arrepio percorreu todo o corpo dela. A próxima sensação seria certamente o frio metálico tocando sua pele e depois... Ela não sabia o que seria... A morte devia ser bem desagradável e só lhe restava o arrependimento de, sabendo como ele podia ser impulsivo e orgulhoso, tê-lo provocado a fazer isso quando ela podia não morrer pelas mãos adoráveis dele.

Para o alívio de seu coração que já não aguentaria mais esperar até o momento em que tivesse que finalmente parar, o que sentiu foi a pressão das cordas diminuir contra seus braços. Tomando coragem, abriu os olhos e viu Draco debruçar-se contra o outro braço e cortar as cordas, libertando-a por completo. Ele ficou de pé novamente, muito formal. Ela o encarou sem saber o que dizer, agradecida por sua crença ter se provado verdadeira, mas sem saber como agir, agora que já não sabia mais o que fariam.

Então ele segurou a mão dela e a puxou, fazendo-a se levantar. Gina jogou os braços ao redor do pescoço dele e pressionou acaloradamente os lábios sobre os deles. De maneira bruta ele afastou os braços e os lábios, deixando-a, mais uma vez, sem saber como reagir.

-Eu só queria agradecer... -Gina disse para justificar seu ato repentino.

-Podia ter dito 'obrigada.' - retrucou ele, seco.

Draco voltou a agarrar a mão dela e a conduzia para fora do cômodo. Ela o seguia por entre os cômodos observando a decadência final da mansão dos Malfoy. No entanto, ao ver a mão dele na maçaneta, foi acometida precocemente pela realidade devastadora que teriam que encarar quando a porta se abrisse.

-O que vamos fazer? - ela disse, fazendo Draco parar o movimento de girar a maçaneta.

-Eu não sei - respondeu ele, quase num grito, desesperado. - Eu salvei sua pele, agora você se vira.

-Mas e você?

-O que tem?

Ela postou-se em frente a ele, o olhando nos olhos. Ele sabia ao que ela se referia, mas a tratou com secura.

-Eu me viro.

-Mas você disse que eles me queriam pra alguma coisa.

-E eles querem. E eu só aceitei porque... eu estava com muita raiva de você. E agora, eu me acerto com eles. Eu digo a eles que você fugiu e...

-O que eles querem comigo?

-Querem atrair o Potter e se vingar de algum jeito. Seu marido está em uma operação para pegá-los, desde que eu fui preso, é claro. Eu dei a ele as informações em troca de uma cela longe de todo mundo que queria me matar e agora o Senhor Perfeito faz o trabalho sujo.

-Você ia me entregar para...

-Ia - Draco a encarava, desafiador. - E foi por culpa sua.

Primeiro, Gina ficou vermelha ao mesmo tempo que seu punho se fechou. Depois, com extrema precisão, o punho fechado acertou a boca dele, com força suficiente para rasgar o lábio e fazer sangue escorrer em um fio pelo queixo.

O primeiro instinto dele foi segurá-la pelos pulsos, mas agora a força que ele sempre vira nos olhos dela e que se escondia nas sombras castanhas fazia parte dela, inteiramente, e Gina conseguiu se esquivar, o surpreendendo. Ele tentou de novo, com mais força e mais precisão nos movimentos. Desta vez conseguiu segurá-la e a pressionou contra a porta de entrada da Mansão que havia acabado de fechar.

-Porque você fez isso comigo?

O corpo dele estava inteiro pressionado contra o dela e ela podia ver uma veia no pescoço dele pulsando nervosamente.

-Você mereceu o soco. Me salvou agora, mas você ia... você ia deixar eles fazerem o que quisessem comigo?

-Eu já falei que estava com raiva.

-Isso não justifica! Eu me arrependi tanto do que fiz, tanto que voltei a te procurar pra tentar me redimir, enquanto você estava sendo conivente com a minha morte, de verdade!

-Você não tem o direito de querer explicações.

A imagem dela mesma dizendo palavras parecidas com essas que acabavam de sair da boca de Draco na última vez que se viram veio à mente de Gina imediatamente, causando nela uma espécie de constrangimento que foi percebida por Draco.

-Porque você fez isso? Você ainda não me respondeu. - As mãos dele agarravam com mais firmeza os pulsos machucados de Gina e o corpo dela não poderia estar mais pressionado contra a porta e contra ele. - E eu não estou falando do soco.

A cena de Gina dizendo a Draco que ele não tinha direito de sentir ciúmes dela se repetiu na mente dela. Que espécie de amante era ele que sentia ciúmes do marido? Que espécie de criminoso era ele que não supunha que uma pessoa de bem não fosse entregá-lo? Com um nó na garganta Gina se deu conta de que ela não podia ter criado expectativas como aquelas em relação à Draco. A situação não era típica de um relacionamento extra-conjugal e não podiam esperar que tudo se resumisse somente a sexo, como na maioria dos outros casos. Mas não era correto que ela esperasse dele lealdade e nem que ele esperasse dela comprometimento. Os dois estavam cegos pela situação, e ela queria dizer a ele que tudo tinha uma explicação lógica, mas sabia que ele talvez não entendesse como devia ser entendido.

-Primeiro, me solte. Depois conversamos.

Relutante, ele a soltou, mas só porque ele não sabia dizer não se olhasse nos olhos dela. Colocou as mãos nos bolsos e a ouviu.

-Eu fiz o relatório depois que você me beijou no carro. Eu não sabia o que sentir sobre aquilo, então escrevi e mandei entregarem para mim. O tempo todo em que nos encontramos o relatório estava a caminho. Mandei entregarem como se tivesse sido feito por alguém na França... Aliás, como é que você descobriu que fui eu?

-Só duas pessoas sabiam onde eu estava, e a outra pessoa não me trairia. Não nisso.

-Quem era? Blaise Zabini?

-Como é que você sabe quem ele é?

-Eu investiguei a sua vida, Malfoy. Como é que você sabe que não foi ele? Porque confia tanto nesse tal de Blaise?

-Primeiro, nós somos amigos de infância. Segundo, ele está ajudando a polícia a se livrar dos comensais, não me colocaria lá. E aliás, ele só não me denunciou desde o princípio porque também estou contra eles.

-Ele trabalha para a polícia?

-Não! E sim... - Draco viu a expressão confusa no rosto de Gina e prosseguiu - Bem, ele trabalhava para os comensias e foi pego porque foi traído por alguém dentro do grupo. Blaise detesta eles. Quando foi preso, ele fez um acordo com a polícia de ser um infiltrado no esquema dos comensais e desde então ele vem agindo contra eles.

Gina o encarou, absorvendo as informações.

-Por isso eu sabia que era você, o tempo todo. - concluiu ele.

Gina baixou os olhos por um instante. Depois voltou-os a ele.

-Me desculpe. Eu estou realmente arrependida, agi sem pensar.

Ele a encarou, as mãos ainda nos bolsos. Não sabia o que fazer a seguir. Embora uma vontade de empurrá-la contra a parede e beijá-la lhe ocorresse, ele sabia que não era o momento. Precisava tirá-la dali, deixá-la a salvo e pensar em uma desculpa para tê-la libertado. Assassinos armados viriam atrás dela e também gostariam de obter satisfações com ele se não a encontrassem lá, então era bom que ele e Gina fossem rápidos e inventassem uma boa desculpa.

Ele levou a mão à maçaneta mais uma vez, de repente, lembrando-se de que tinham que ser rápidos.

-O que vamos fazer agora?

Gina repetiu sua pergunta, com a mesma preocupação de antes.

-O que você vai fazer. - corrigiu-a ele.

-Não, Draco, nós estamos juntos nessa história. O que nós vamos fazer?

Ele encolheu os ombros, mas havia um pouco de desespero nos seus olhos.

-Eu não sei, só vamos tentar ficar vivos, certo?

Gina ficou em silêncio encarando o teto, as paredes e os desenhos elaborados em relevo na porta, coisa em que ela sinceramente, nunca tinha reparado antes.

-E se eu te disser que tenho um plano? Você confiaria em mim?

Draco olhou para ela, mas na verdade encarava todo o histórico dela junto a ele. Ele não podia muito bem confiar nela, mas era tudo o que lhe restava. Ainda com ressentimentos que inundavam sua mente o impedindo de chegar a uma conclusão, ele abriu a porta e fez um gesto indicando que ela passasse.

Gina aproximou-se dele e, encarando-o com a intensidade de quem precisa salvar duas vidas - as vidas deles -, pôs as mãos nos ombros de Draco.

-Confie em mim, por favor.

Ele tirou as mãos dela dos próprios ombros e a empurrou gentilmente para fora. Antes de fechar a porta para uma Gina visivelmente decepcionada, ele a mirou, dizendo com toda a profundidade do cinza de seus olhos se confiava ou não nela.

Ela gritou para o lado de dentro:

-Atrase-os o máximo que puder e tome cuidado.

Gina virou-se e foi realizar seu plano. Pelo que conhecia dele, e a distância parecia ter aumentado o conhecimento que ela tinha sobre esse homem, ele confiava nela.


-O que você quer aqui, Ginevra?

Gina se sentiu mal por ouvir seu nome completo. Ele estava agindo com mais frieza do que o necessário, e ela não suportava esse drama, mas teve que engolir as respostas que ficaram em sua garganta.

-Preciso de você... E você vai gostar do que eu tenho pra te dizer. Tem uns caras que você precisa prender...

-Você se diverte com isso, não é? Você acha que está sendo uma grande heroína fazendo isso, não é?

-Harry, eu vim aqui porque preciso de você e porque você é a única pessoa em quem eu confio para fazer isso direito. Será que você não pode esquecer tudo isso e me perdoar?

Harry suspirou, mas não a respondeu. Deu as costas a Gina enquanto remexia nas caixas de arquivos em uma das muitas prateleiras atrás da mesa que a separava dele. Gina levantou-se da cadeira, deu a volta na mesa e pôs a mão no ombro de Harry. Ela esperava realmente que aquilo fosse tornar as coisas mais fáceis? Nos quatro anos desde que ele descobriu a traição da mulher, Gina tentara de todas as maneiras deixar as coisas mais amigáveis com o marido, mas não conseguia que ele sequer permitisse a aproximação dela, que dirá tocá-lo. A reação dele foi a mais provável. Contraiu o ombro e afastou o corpo do alcance dela.

-Estou falando sério, Harry. Você nunca vai esquecer tudo e perdoar?

A mágoa de Gina ao ver Harry agindo desse modo era verdadeira. Tanto que quando ele virou-se para encará-la com desprezo, encontrou no olhar dela verdadeira vontade de ouvir explicações.

-Eu perdoei Gina, mas não vou esquecer. - Num tom choroso ele prosseguiu, mas o rosto estava ainda rígido de raiva - Eu imagino o que vocês faziam juntos e as imagens me perseguem, mas isso nem é o pior. O pior é saber que você traiu a minha confiança com alguém que você sabe que eu detestaria. Parece que você escolheu o Malfoy de propósito!

Gina olhou para o chão. Um aperto impedia seu coração de bater normalmente. Doía ver um homem que ela amou tão apaixonadamente tão magoado e agindo desse modo. E o pior era que ela nunca quis ferí-lo e tentou protegê-lo o tempo todo da verdade que ela sabia que seria dolorosa para ele.

-Harry, eu não escolhi o Malfoy... - disse ela pacientemente - Simplesmente aconteceu...

-Essa desculpa é simplesmente ridícula. Se você me amasse, teria pensado antes de fazer uma besteira dessas...

-Mas eu te amo! Quem é que disse que não?

-Os seus atos dizem muito mais do que o que você fala, Ginevra.

Tanto rancor nos olhos dele, e Gina sempre soube que, de certo modo, Harry era movido por rancor. O desejo de vingança, que ele chamava justiça para tornar a obsessão mais aceitável o levara àquela profissão. Se isso definira até a vida adulta dele, a raiva que ele guardava não permitiria que ele perdoasse Gina verdadeiramente e tentasse esquecer de tudo o que acontecera. Ela não poderia fazer o pedido que viera fazer tão simplesmente quanto imaginara. Primeiro, teria que transpor a raiva dele. Gina tinha agora que encarar o fato: talvez não tivesse a ajuda que precisava de Harry, mas era indispensável. Ela precisava dele para salvar a sua vida e a de Draco, e por isso teria que jogar com as cartas que tinha: os sentimentos.

-Harry, você não sabe o que eu senti e eu vou ser absolutamente sincera com você: eu te amo. Eu nunca quis te magoar e te respeito imensamente. Você é a pessoa mais maravilhosa que eu conheço e eu nunca desejei nenhum mal a você.

Harry a encarou. Seus olhos mais vivos do que quando ele demonstrava amor. Agora ela sabia como ele encarava os criminosos que tanto odiava.

-Acontece que a rotina do nosso casamento me deixou totalmente entediada. E eu simplesmente me deixei envolver...

Harry permaneceu em silêncio.

-E porque você não me falou que estava entediada, Gina? Eu podia ter mudado e a gente podia ter tentado melhorar as coisas...

Sinceramente, Gina não achava que Harry seria capaz de mudar. E ela também não desejava que ele se tornasse outra pessoa. Ela o amava por quem ele era: a pessoa gentil e doce que a entendia e protegia. Se ela não era capaz de se contentar com isso, não era culpa dele e não havia nada que seu marido pudesse fazer.

-Harry, eu não conseguiria evitar, nem se eu estivesse consciente do que eu fazia. E eu achava que você nunca descobriria. Não era para te machucar, entende? Eu tinha você num pedestal de perfeição, eu não poderia falar com você sobre meus problemas que eram insignificantes perto do que você encarava e nem queria que você sofresse por eu não ser tão perfeita quanto você merecia que eu fosse.

Harry cruzou os braços, o brilho feroz de seus olhos diminuindo. Gina soube, desde que conhecera Harry, que a maior qualidade dele era sentir mais amor do que ódio. Mesmo que ele tivesse muito mais motivos para odiar, o coração dele era leal ao amor.

-Harry, eu te amo. Não quero que tudo volte ao normal, mas eu te amo.

-Um jeito estranho de amar...

O tom quase de constatação mostrava que ele estava quase cedendo à lábia dela. Ela sabia jogar com Harry, mais um pouco e venceria.

-Mas é o meu jeito, e eu só sei te amar assim. E não importa se você não acredita em mim, Harry, é a verdade.

Harry se sentou em sua poltrona, tirou os óculos e passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos pretos.

-O que você quer?

Gina sorriu ao perceber no modo como ele falava resquícios do amor que ele um dia sentira por ela, e que iria, gratificantemente, salvar a pele dela. E do homem com quem traíra Harry.

-Tem uns caras que vão aparecer na mansão do Malfoy daqui a pouco. Você pode dar um jeito de tirá-los do meu caminho?

-Isso tem alguma coisa a ver com Malfoy? Você não está se encontrando com ele de novo, está?

Ela não precisava mentir. Não estava se encontrando com Draco Malfoy. O encontrara hoje, já que desde que ele fora solto, era a primeira vez que ia procurá-lo e conseguira vê-lo. Isso não era 'estar se encontrando' com Malfoy.

-Harry, eu não perdi o juízo, não estou me encontrando com ele. Eles estão no meu caminho. Por causa dele, é verdade, mas eu não sei porque estão atrás de mim. Talvez achem que eu sou uma namorada do Malfoy ou coisa assim...

A desculpa fora perfeita e convincente. Harry não desconfiou. E Gina usou também a necessidade de fazer justiça que ele sentia sempre que alguma coisa errada acontecia. Harry rapidamente contactou outros policiais e se preparava para ir atrás daqueles homens, fossem quem fossem.

-Seja rápido, Harry. Fiz eles pensarem que vou me encontrar com Malfoy na mansão. Não demore.

Harry abriu a porta para sair de sua sala.

-Obrigada. E tome cuidado - Ela acrescentou.

Ele se virou para ela e sorriu. Ainda não era do mesmo modo que antes sorria para ela, mas já era um progresso.

Gina ficou sozinha mais alguns segundos na sala pequena e cheia de arquivos e armários. Encarava aquela sala e reconhecia ali um lugar que refletia a exata personalidade de Harry. Abriu a bolsa e tirou de lá papéis que sabia que significavam muito para Harry, e para ela também. Deixou-os com cuidado sobre a mesa e despediu-se do local como se sair daquela sala fosse deixar para trás Harry Potter.

N.A.: Mil perdões pela demora, infelizmente a tendência é eu demorar um pouco mais para postar os capítulos porque estou trabalhando e nem sempre tenho acesso à internet onde trabalho. Responderei reviews em breve. Muito obrigada, leiam sempre e comentem, por favor.