When it's love if it's not rough it isn't fun

O morador do apartamento cento e doze era um voyeur. Um fofoqueiro, na verdade, mas que tinha um prazer doentio quando os acontecimentos que testemunhava tinham um caráter sórdido. Todos os dias, religiosamente, tomava conta da vida dos habitantes daquele andar do prédio, e quando tinha oportunidade, espiava a vida de moradores dos outros andares também. Uma vez que se aposentara precocemente por invalidez, manco de uma perna, ficava o dia inteiro sentado no sofá ao lado da porta fingindo ler o mesmo jornal. Desta posição privilegiada ouvia e via os vizinhos passarem pela porta sempre entreaberta. Quando eles o viam, cumprimentava-os cordialmente e fingia voltar à sua leitura. No cento e onze morava um casal que ele tinha certeza que procurava mulheres para fins sexuais. No cento e treze morava um casal e mais dois filhos. Podia-se ouvir brigas homéricas entre o o pai e a mãe, mas enquanto eles batiam boca, não viam a filha mais velha que ficava se agarrando pelos corredores com um menino que usava mais maquiagem que a própria menina. A sua vizinha mais gostosa achava que ele era um tarado babaca. A mulher do cento e quatorze era ruiva e tinha os peitos grandes. Ele sempre tentava trocar com a mulher algumas palavras, e quem sabe, conseguir alguma coisa com ela. Ela o via espiando pela fresta todos os dias e fazia cara feia. Quando ele decidia cumprimentá-la, ela não dava a mínima confiança a ele, parecia saber das intenções do homem que morava sozinho. E era metida demais. Sempre o desprezava, educada como todos os ingleses, mas cruelmente. E ele percebia, ela fazia questão de ser rápida ao passar pelo corredor, em frente à porta sempre entreaberta do cento e doze.

Mas hoje, para a satisfação do homem atrás da porta, ela estava distraída em meio às mãos de um homem loiro. A porta do elevador se abriu no décimo primeiro andar. Antes de chegarem à porta no fim do corredor, o homem já tinha as mãos por baixo do vestido dela e a carregava. As bocas não se desgrudavam, as mãos iam por todo lugar, ela pôs os pés no chão e tentava com uma das mãos, abrir a porta às suas costas. O homem é que enfiara a chave no buraco, mas ela lutava com a maçaneta desesperadamente, sem no entanto deixar de beijar o loiro. Um êxtase invadiu o vizinho do cento e doze ao ver que a outra mão dela percorria o caminho para dentro das calças do homem. Ela estava tão entretida pelas mãos do loiro que esquecera-se completamente que a porta do cento e doze estava como sempre entre aberta. Infelizmente, para o vizinho, ela conseguiu abrir a porta e os dois entraram e a fecharam. Foi a porta do cento e quatorze bater a do cento e doze abrir. E o vizinho teve certeza, pelos sons que ouvira, de que eles transaram contra aquela porta. Ele ouvia o som dos corpos batendo contra a madeira da porta, gemidos, respirações ofegantes e o som de um objeto - algum vaso da decoração? - se quebrando. Um espasmo percorreu o vizinho do cento e doze quando ele ouviu um quase grito de imenso prazer na voz da mulher do cento e quatorze.

Os sons cessaram no cento e quatorze. No cento e doze, o morador solitário estava verdadeiramente feliz. Finalmente sabia alguma coisa da mulher do cento e quatorze.


Agora, estavam deitados no chão frio, apoiados no sofá logo ao lado da porta, Gina sobre Draco. Descansando a cabeça sobre o peito dele, ela ouvia sua música favorita: as batidas do coração de Draco. Ficaram em silencio o máximo que puderam. Draco brincava com o cabelo dela, que agora era livre para se encher de fumaça de cigarro, sem se preocupar se o marido, que já não era mais marido, perceberia. Gina sentia os dedos dele brincarem com seu cabelo longo e a sensação lhe despertou a memória.

-Você não vai fumar? Adoro você fumando. - ela deu uma risada maliciosamente tímida - Acho sexy.

Draco se sentou e ela também. Ela levou a mão ao bolso traseiro da calça que ele vestia e tirou o maço de lá. Ela colocou um cigarro atrás da orelha, buscou ainda um isqueiro no bolso. Ela se sentou sobre as pernas dele e virou o rosto para que ele tirasse o cigarro de trás da orelha dela. Ele puxou-a pelo queixo e a beijou nos lábios, ao mesmo tempo que pegou com dedos rápidos o cigarro e depois o levou à boca. Ela estendeu a ele o isqueiro aceso e ele tragou longamente. Embora sempre levasse o maço consigo, havia muito tempo que não fumava. O cigarro lhe trouxe ainda mais relaxamento para o corpo, e ele levou a cabeça para trás para soltar a fumaça para o alto. Ela sorriu, sentindo o cheiro invadir suas narinas.

-Eu sentia falta disso...

-Você parou de fumar?

-Parei - disse, tragando mais uma vez - mas eu não falei disso. Senti falta de você. Do seu cheiro, da sua pele, do seu cabelo - ele enrolou um dedo em uma mecha ruiva, enquanto falou aquilo.

-Eu também... - Gina disse em tom confessional.

Gina lembrou-se das noites em que a saudade de algo familiar lhe vinha e ela dormia abraçada à camisa de Draco que levara consigo na ultima vez que o vira. Ela ficou olhando-o fumar em silêncio. Levantou-se para pegar um cinzeiro enquanto ele tragava mais uma vez, observando o corpo nu dela se mover. Todas as sardas continuavam ainda as mesmas, e a mancha em forma de coração continuava no mesmo lugar. No momento em que lhe estendia o braço com o cinzeiro, fogos de artifício irromperam pelos céus. Draco se assustou a princípio, mas depois de bater no cigarro para que as cinzas caíssem, Gina puxou-o pela mão.

-Vamos ver os fogos!

Ele pôs-se de pé, deixando o cigarro apoiado no cinzeiro que ela depositou em uma mesinha de canto. Ela soltou a mão dele, pegou sobre o sofá a camisa dele, demasiado grande para o corpo miudo e sardento dela e vestiu. Draco abotoou as calças rapidamente, seguindo os passos dela pelo pequeno cômodo. Ela o guiara para a varanda pequena, onde a brisa morna do verão os acolheu. No céu, fogos vermelhos e azuis riscavam o céu de luzes. Ela estava apoiada na sacada, e ele a abraçou por trás.

-Os fogos são lindos, não são?

Ela virou o rosto para ele e ele pôde ver que os olhos de Gina brilhavam mais que o céu em chamas.

Ele não disse nada. Só beijou a curva do pescoço, fingindo compreensão. Mas, entendia o sentimento dela quanto aos fogos. Celebrar a independência, na terra da liberdade. Ela estava livre, finalmente. Livre das convenções sociais do casamento, livre do julgamento das pessoas que a condenariam por ter uma aventura fora do casamento, livre do passado e livre do antigo Draco que sempre pressionaria a índole bem construída de Gina a se sentir culpada por trair o marido que tanto amava com um cara que ele odiava, com razão. Ele não compartilhava do sentimento de liberdade. Mas deixaria tudo como estava, enquanto isso a fizesse feliz.

Os fogos acabaram. Gina foi buscar algo para que bebessem enquanto ele preparava-se para se despedir. Formulava mentalmente um texto que fosse claro e sutil. Ele queria voltar a encontrá-la.

-Acho melhor eu ir.

Ela lhe ofereceu um copo de whisky que ele não podia recusar.

-Porque?

-Tenho que voltar pro hotel em Austin.

-Não tem não, fica aqui! - e ela fez um biquinho infantil proposital - Achei que você fosse dormir aqui.

Ele quis hesitar, mas sequer conseguiu isso. Pensou em como seria acordar em meio ao cabelo de fogo, e veio-lhe à mente a ideia de dormir em um colchão em chamas. A ideia desta tragédia parecia tão meiga que ele quis ficar e acordar abraçado a ela, mesmo que o quarto estivesse pegando fogo.


Draco acordou sentindo o cheiro floral dos cabelos dela. Ignorou as preocupações que tentavam dominar sua mente. Agarrou-se ao pensamento de que estava abraçado a ela e só isso importava. Ficou ali por muito tempo, olhando a luz fraca do dia que nascia brincar com o brilho de fogo nos cabelos compridos que estavam a sua frente. Porque, ele pensava, tinha que ser tão bom ficar com ela? Ou porque era tão difícil voltar à vida que construíra no tempo que ficara longe dela? Porque as coisas tinham que ser tão complicadas?

Não era complicado abraçá-la enquanto ela dormia. Não era complicado ficar ali apenas olhando-a dormir. Por isso ele adiava o momento de complicar as coisas. E porque elas seriam complicadas de qualquer modo, não importava se ele ficasse ali por uma noite ou um mês.

Porque você se precipitou? Porque fez isso com ela? Porque fez isso consigo mesmo? Quanto a Gina, não conseguiria se controlar. Vê-la e não desejá-la, desejá-la e se controlar era impossível. Então ele aceitava o inevitável e a abraçava forte. Mas passar a noite com ela - e ele pensava no ato literal de dormir com ela e ficar com ela até o outro dia de manhã - teria suas consequências.

Ela demorou a acordar. Ele pensou seriamente em aproveitar a oportunidade, mas não podia deixá-la acordar sem estar ao lado dela. Depois de se espreguiçar graciosamente ela passou as mãos pelo peito dele.

-É bom acordar com você do meu lado.

Ele disfarçou um descontentamento. Ela precisava mesmo dizer isso em voz alta? Mas ele tinha que dizer que sentia o mesmo.

-Também acho. Mas preciso tomar banho - foi a resposta dele, mais fria quanto conseguia depois de ter dormido e acordado com ela.

Ele levantou-se, ela indicou o banheiro com a cabeça. Ele tirou a cueca e entrou debaixo do chuveiro, a água morna lavando mais a alma que o corpo. Não demorou muito e Gina entrou no banheiro, vestida com a camisa dele e trazendo uma outra em sua mão. Ele não reconheceu de imediato.

-Eu levei essa camisa comigo - ela sorriu com uma timidez sincera - mas agora acho que não preciso mais...

Ela pensava que as coisas seriam mais fáceis. Ele teve vontade de chorar ao constatar as esperanças dela, mas se controlou e sorriu. Como não sorrir para os olhos brilhantes dela? Como não sorrir ao vê-la sentada na pia de mármore, com os cabelos despenteados e vestindo a camisa dele?

Gina o observou em silêncio enquanto ele se lavava. Depois, virou-se para o espelho grande sobre a pia e lavou o rosto. Draco observou passivamente a descoberta dela. Já era manhã, ele pensara que sua farça seria desmascarada na noite anterior. Durou até demais. Ele não sabia o que aconteceria agora. Podia esperar de tudo, mas ele temia pela reação de Gina. Depois de secar o rosto com uma toalha ela olhou sua imagem no espelho. Seus olhos fixaram-se mais atentamente no bolso quase transparente da camisa branca que vestia. O rosto dela expressava confusão e surpresa. Dois dedos buscaram dentro do bolso o círculo de ouro. Um anel estava na palma das mãos de Gina. E ali, junto com o anel, a decisão dela. O que ela faria com ele? Draco precipitou-se e saiu do chuveiro, enrolando-se em uma toalha para ver de perto. Ele temia pela reação dela, mas precisava ver de perto.

Ela aproximou o anel dos olhos. Fechados os seus olhos, Draco baixou a cabeça. Não queria ver a compreensão manchando a beleza no rosto dela. Abriu-os novamente ao sentir a mão dela esquentando-lhe o rosto com um tapa. Ela tinha lágrimas nos olhos.

-Por que você faz isso, Draco? PORQUE?

-Eu achei que nunca mais ia te ver! Pensei que pudesse seguir a minha vida. Eu te disse que não te procurei!

Ela gritava, muito alto. Ele nunca conhecera a fúria dela.

-Mas porque você não me contou tudo ontem? E porque não voltou para sua casa? - Ela o empurrava em direção à porta do banheiro. - Era o que você devia ter feito!

Era o que ele queria ter feito ontem, mas não conseguiu porque ela insistiu que ele ficasse. Mas ele entendia o ódio dela. Já esperava. Ela tinha toda razão. Ele não conseguia fazer nada certo em sua vida mesmo. Aceitava seu destino de perdedor, como bem Gina dissera uma vez.

-EU TE ODEIO, DRACO MALFOY! - Ela lhe empurrava para fora - TE ODEIO, SEU DESGRAÇADO FILHO DE UMA PUTA!

Correndo o risco de cair, porque ela lhe empurrava ele chegou à sala. Recuando assustado com a força da raiva que Gina tinha. Ela abriu a porta de entrada e o empurrou para fora. Ele não reagia.

-Porque você faz isso, Draco? PORQUE?

Ela socava o peito dele. Talvez externar a raiva fisicamente ajudasse a passar um pouco da dor que vinha dos sentimentos.

Ela abriu a mão onde segurava o anel e empurrou-lhe no peito, com força. Ele não abaixou-se para recolhê-lo. Segurou-a pelos pulsos antes que ela lhe escapasse.

-Eu te amo. - Ele disse com tanta sinceridade que doía na garganta dizer.

Ela preferia que ele tivesse revidado com um tapa ou um soco, doeria menos. Eu te amo era golpe baixo. E nunca essas três palavras causaram tanta dor.

Gina estava paralisada. O aperto mais forte nos seus pulsos a fez despertar. Ele queria que ela reagisse, demonstrasse alguma reação. Ela levou alguns segundos para se afastar dele, mas estava preso pelas mãos dele. Levou os lábios com rudeza aos lábios dela, capturando a boca para provar-se verdadeiro. Como se um beijo fosse capaz de provar as palavras ditas verdadeiras. A insistencia de Gina em se afastar fizeram Draco esquecer-se de que tinha que ir embora. Agora a prioridade era outra. Dois dias atrás, ele nem imaginava que iria encontrá-la. Jamais pensou que iria encontrá-la. Não pensou que tivesse que se explicar, nunca pensou que teria de dizer o que sentia para tentar convencê-la a perdoá-la. Nunca sequer pensou que sentia algo sério por ela e que o que sentia era amor. Mas agora ele sabia que era. Porque este é o único nome possível que podia dar para aquela coisa tão contrária a ele que doía, mas que ele não queria deixar de sentir.

O coração dela disparava contra o peito dele como uma metralhadora. Graças a Deus Draco parara de andar com armas. Se ela tivesse alguma arma ao alcance de suas mãos uma tragédia aconteceria. Sem outro jeito de mostrar o quanto o odiava, deixou que ele pressionasse o corpo molhado e semi-nu contra o dela. Como uma revelação sagrada, ela pensou em como ele só podia estar sendo sincero. Arrancou a toalha que o cobria. Ele a levantou no ar e levou-a para a cama. As pernas de Gina estavam ao redor dele, mas as mãos não alcançaram a porta da sala para fechá-la.


Ele odiava amá-la. Ela amava odiá-lo.

Os dois só pensavam nisso. E constataram com uma troca de olhar depois de deitarem-se lado a lado, que já sabiam como proceder. Entraram em acordo silencioso e muito claro quando ela entrelaçou os dedos nos dedos dele.

O torpor ainda tomava conta de seus corpos e suas mentes, mas Draco precisava ir. Levantou-se primeiro. Trocou um olhar cúmplice com Gina antes de começar a vestir-se.

-Preciso mesmo ir.

-Tudo bem. - Ela deixou que ele fosse embora porque se importava muito com ele.

Ela olhou o corpo dele se cobrindo novamente com as roupas que ela despira.

-Você pode me encontrar sempre que quiser.

Ocorreu a Gina perguntar se Draco trabalhava - ela sabia que se ele ainda estivesse envolvido com o crime ela saberia- , qual era sua rotina e quando ele poderia driblá-la a rotina para vê-la. Eles ainda não tiveram oportunidades de conversar com clareza em meio a sexo, lances repentinos e rápidos de felicidade e briga. Mas ela preferiu deixar que ele decidisse quando viria. Assim saberia o quanto do Eu te amo dele era verdade. Não que ela duvidasse, ela só queria realmente sentir-se amada todas as vezes que ele voltasse.

Draco terminara de se vestir. Gina o olhou de cima a baixo. Levantou-se também e ajeitou melhor a camisa dele. Ele tinha que parecer impecável

-Vou preparar o café da manhã para você.

Ele sorriu. Ela levantou-se, entrou na sala, colocou o vestido que deixara no chão na noite anterior e foi para a cozinha. Draco a seguiu e se sentou à mesa. Ela serviu café e torradas para os dois. Comeram em silêncio. Ela pensava que ele a encarava duvidando da aceitação dela. Na mente de Gina, Draco começaria a questioná-la se realmente ela aceitara as coisas como eram. Mas na verdade, Draco pensava que Gina não merecia o que ele fizera a ela, nem a vida que ele a faria viver, mais uma vez, por isso estava calado. Da primeira vez, os dois não haviam dado certo porque eles se atrapalharam tentando equilibrar-se em uma corda bamba usando um guarda-chuvas de mentiras. Desta vez não havia mentiras. Equilibravam-se usando apenas verdade, e isso não lhes dava muito equilíbrio, apenas uma rede de proteção abaixo da corda. E nem sabiam se esta rede, que parecia precária, era segura de verdade.

Ela o acompanhou quando ele deixou a mesa. Gina o levou até a porta. Ele ia embora sem se despedir, mas ela o tocou com delicadeza no braço e ele virou-se e deu nela um beijo ansioso. Ainda no corredor, Draco, apanhou no chão o anel. Gina fechou a porta e voltou correndo para o quarto. Ficou sozinha, mas ainda tinha a camisa dele. Não iria mais devolver até que ele não tivesse mais que ir embora, mesmo que esse dia em que ele pudesse dormir com ela sem se preocupar com a hora de acordar não chegasse nunca. Agarrou a camisa com tanta força, que era como agarrar as esperanças de que ele voltasse. No corredor, enquanto esperava o elevador, Draco olhou na palma de sua mão a aliança. Na parte interna do círculo de ouro, o nome Astoria e a data do casamento estavam gravados em baixo relevo. Ele colocou o anel no anelar da mão esquerda, pensando que Gina não merecia ser amante.

E o morador do cento e doze nunca esteve tão feliz.


N.A.: Gente, este é o penúltimo capítulo, me abraça! Obrigada por lerem e obrigada pelas reviews!