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A mulher passou aflita pelo corredor. Os olhos dela encontraram os do tarado do cento e doze, sem que ela soubesse da fama deste. Ele a cumprimentou, como sempre fazia quando era descoberto espiando pela fresta de sua porta. "Bom dia." Havia uma indecente excitação na voz dele, porque ele suspeitava quem era a mulher e o que ela fazia ali.
Os cabelos loiros, olhos azuis, nada na beleza dela se destacava mais do que a aflição. Andou até o fim do corredor e postou-se, por pressentimento, em frente à porta do cento e quatorze. Agarrava-se nervosa à alça da sua bolsa, e seus olhos encaravam o pedaço de madeira à sua frente como se a porta fosse de repente transfigurar-se em uma boca e dizer todas as respostas para as perguntas que umedeciam seus olhos azuis.
-Com licença.
Astória deu um salto no lugar. Levou a mão à boca para conter seu susto.
-Ah, oi.
-A senhora deseja alguma coisa?
-Não.
O homem continuou encarando, mas voltou para seu apartamento. Deixou no entanto a porta entreaberta como sempre, para angústia maior de Astória. Ela ficou de pé em frente a porta, aquela agonia presa na garganta e tendo que fingir que não via que o homem a observava. O homem pigarreou e Astória perdeu a pouca paciência que a situação lhe permitia ter.
Dirigindo-se a ele falou com firmeza:
-Certo. Eu estou procurando meu marido. Você sabe de alguma coisa?
O homem levantou a sobrancelha, interessado.
-Se a senhora tiver a bondade de entrar eu posso te falar mais sobre isso.
Astória o acompanhou para dentro do apartamento cento e doze.
Ela sentou-se no sofá mais imundo que já vira. O homem parecia saber o que acontecia, e esta era a única razão para ela entrar naquele apartamento.
-Você tem visto meu marido? – Ela tinha um certo ar de superioridade, apesar dos olhos aflitíssimos - Um homem loiro, alto, magro.
O homem deu uma risadinha asquerosa. Conhecia muito bem o tipo descrito, e agora a história toda se concluía em sua mente. A formalidade era mais nojenta que a risada:
-Ele tem se encontrado com freqüência com a mulher do cento e quatorze.
A firmeza no rosto de Astória se desmanchou.
-E... O senhor sabe o que os dois fazem quando se encontram?
Astória não sabia se era pior descobrir se ele tinha uma amante ou se ele tinha voltado a fazer alguma coisa contra a lei.
-Bem... eles... – o homem fingia ter tato, mas não controlava a excitação em sua voz – A ruiva e o seu marido, eles têm relações sexuais... o tempo todo.
Astória não chorou, nem teve vontade. Ela viera preparada para essa notícia ou a de que ele estava fazendo outra coisa errada. Mas ela não sabia como Draco havia encontrado a mulher ruiva. Ele lhe contara toda a história da mulher ruiva, casada com o delegado. Astória sabia onde estava se metendo quando se casou com Draco. Sabia que ele não a amava, não do jeito como amava a outra. Astória só aceitara se meter numa relação como essas porque ingenuamente pensou que o tempo calaria aquela paixão. Não calou. Também pensou que ela tinha sumido, mas ele a encontrou. Agora, uma série de desconfianças invadiam sua mente. Ele a procurara? Aceitara se mudar com ela para os Estados Unidos porque sabia que a ruiva também estaria lá? Ele procurava por ela por todo o tempo que moraram ali? O mundo não podia ser tão pequeno e Astória, tão azarada. Mas... bem... era a mulher ruiva de quem ele já lhe falara. Ela não tinha muito como competir e sempre soube disso. Mas, isso não impedia que ela se sentisse mal.
-Bem... Muito obrigada pela informação.
Astória levantou-se e com o máximo ar de dignidade que conseguiu levou a mão à maçaneta, mas seu braço foi detido pela mão do homem que a segurou.
-A... A senhora não deseja saber o que tem acontecido?
-Acho que conheço bem o que acontece num ato sexual, não preciso de explicações.
O morador do cento e doze queria contar a ela todas as indecências que havia testemunhado! Eles transaram com a porta aberta, transaram na varanda, ele podia ouvir as coisas que eles diziam. Eles brigavam com frequência e se reconciliavam com rapidez, sempre com sexo. Sempre discutiam aos berros sobre a esposa do homem. A ruiva sempre questionava quando ele ia se divorciar e o loiro dizia que ele a amava muito, mas que era difícil, porque não queria magoar sua esposa, que lhe apoiara em momentos ruins. O vizinho até mesmo ouvira uma vez a ruiva dizer que queria novamente ter uma arma, porque só com uma apontada à cabeça o homem loiro seria capaz de tomar uma decisão. Precisava contar tudo isso à esposa aflita.
Insistiu, puxando-a mais uma vez pelo braço. Astória se desvencilhou. A raiva lhe subia à cabeça. E saiu para o corredor. Desceu pelas escadas até o andar de baixo, onde já estaria livre daquele homem escroto e poderia ficar sozinha com a descoberta. Dentro do elevador ajeitou os cabelos e alinhou as roupas. No térreo, esperou sentada em um sofá desconfortável na recepção. Esperou, esperou. Via as horas passarem no grande relógio que ficava na parede. Foi o tempo necessário para deixar suas costas rígidas de tensão e seu rosto severo. Cada segundo a mais de raiva deixava mais tranquila. Ela até mesmo sorriu, quando viu Draco descer.
Draco não saberia dizer se o que o assustou mais foi encontrá-la ali ou a expressão no rosto de Astória. Atrás dele, Gina também se espantou, e afastou imediatamente sua mão da mão de Draco.
Astória levantou-se, mas Gina e Draco permaneceram dentro do elevador. Só quando as portas automáticas se fecharam é que os dois se moveram. Draco segurou a porta e a fez se abrir novamente. Gina o seguiu, mas não sabia o que dizer ou fazer. Ela nunca pensou que pudesse de fato encontrar Astoria. E ela sabia que aquela mulher era Astória. Draco a descrevera quando Gina exigiu que ele dissesse como era. Ele fez uma descrição parca, e precisa. Um detalhe não descrito: a decisão e a autoridade nos olhos dela, era o que Gina imaginara por conta própria e o que encontrava nesse momento.
Astória levantou-se e cruzou os braços.
-Estou esperando explicações. Ou pedido de desculpas.
Gina recuou ao ouvir a voz de Astória. Draco avançou e tentou capturar a mão de Astória que afastou-a com frieza.
-Só explicações. Porque você não me falou, Draco? – e pela primeira vez Gina viu a imponência do olhar ser substituída pela fraqueza. – Você não precisava ter mentido pra mim. Podia ter me dito a verdade e eu poderia ter descoberto de uma maneira melhor do que pela boca asqueirosa daquele anormal. Aquele, que mora no apartamento cento e doze, ao lado do apartamento onde vocês se encontram!
Gina teve o desejo súbito de ser invisível ou de desaparecer. Ela não achava que devia estar presente na discussão do casal, porque ela sabia que Astória devia estar sentindo o mesmo que Harry sentira. Gina vira a dor que causara em Harry e nunca quisera que Astória sofresse também. Desde que soube que Draco era casado, quis evitar sofrimento pra todos. Mas, ela tinha que admitir, não tinha muita força pra fazer valer sua opinião quando Draco estava decidido a provar a opinião contrária certa. Com ele por perto, qualquer desculpa como dizer que era complicado, ou coisa assim parecia bastante plausível. E Gina não conseguia se impor, mais uma vez. Mas agora ela via, era realmente complicado, os olhos de Astória eram ameaçadores e, quando fracos, davam pena e isso angustiava profundamente Gina, quanto mais Draco.
Gina olhou nervosa para a nuca de Draco, esperando uma reação dele. Que pedisse para que ela subisse ou que ele saísse dali com Astória, mas ele não falou nada. Ele meramente abriu a boca para falar, mas o som não saía. Astória parecia conhecer tão bem quanto Gina a capacidade de Draco de sempre ter uma resposta afiada na ponta da língua, e percebendo que desta vez as palavras lhe fugiam, o mesmo fez Astória. Deu meia volta e ia embora. Gina corria os olhos dela para Draco, e ele ainda não reagia.
-Vá falar com ela!
Gina empurrou Draco, que pareceu despertar e finalmente se moveu, indo atrás de Astória pela porta.
Gina se encolheu na cadeira da qual Astória acabara de se levantar. Seus pensamentos passavam pela dúvida se falavam dela, se Astória queria matá-lo ou se a vítima em potencial de assassinato era Gina. Depois, sua mente ficou perdida entre o "e agora?" e o "e depois?", passando, claro, pelo torturante "e se?". Os segundos modificaram sua maneira de correr e no que pareceu um piscar de olhos que ardiam pela intensidade dos pensamentos, Draco voltou. Sem a aliança que Gina o lembrara de colocar antes de descerem o elevador.
Ele tinha o olhar de uma criança mimada que só conseguiu o que queria depois de fazer birra. Ela também parecia uma criança, mas uma criança assustada.
-Acabou?
-Acabou, Gina. Somos só nos dois agora.
E agora, sozinhos, só os dois poderiam sofrer as dores dessa coisa estranha que eles chamavam de amor. E não haveria mais ninguém para culparem, a não ser eles mesmos.
FIM
CALMA. Esse é o fim, mas ainda vai ter um epílogo. E embora eu deteste escrever epílogos, esse é planejado desde o começo e eu já tenho a cena toda na cabeça. E aí, gostaram?
