Olá! Segue o segundo capítulo

Agradecimento a Aryana-chan e Valki Fanto

Esse capítulo é mais introspectivo. Não esperem muita ação!

Beijão

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Um homem vislumbra um terreno destruído. De fato, uma luta muito intensa havia acontecido ali. Caminha até um ninja que estava sentado em uma pedra, olhando para o nada, que rapidamente nota a presença do homem.

- Eles escaparam.

- Como?

- Uma mulher de cabelos rosa. – disse com incredulidade -Ela pulou no campo de batalha, invocou uma lesma e desapareceu.

- Interessante!

- Mas isso atrapalha... – Foi interrompido pelo homem de máscara.

- Ele usou aquela técnica?

- Sim.

- Zetsu, meu caro. Há coisas na vida que são inevitáveis. Essa mulher está mexendo as peças lateralmente. O jogo continua o mesmo.

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- Merda! Ele não reage!

Era fim de tarde no Vale das Lesmas. Os raios de sol laranjados tomavam o lugar; que aparência surreal. Flores de aparência atípica, cachoeiras cintilantes. Cogumelos gigantes de todas as cores serviam de abrigo para milhares de lesmas que ali habitavam. E debaixo de um desses cogumelos, uma ninja de cabelos rosa fazia de tudo para salvar uma vida.

- Preciso de mais chacra! Katsuyu, injeção de chacra no três. Um, dois, TRÊS!

Uma massa de chacra verde-azulada, muito intensa, mudou a paisagem. De laranja para azul. Todas as lesmas se viraram em direção à fonte luminosa, surpresas com tamanho poder. Imaginaram o poder curativo que aquela energia teria. Mal sabiam que a situação era critica.

- Não está adiantando. Os danos são muito graves –Disse a lesma, lamentando o fim precoce daquele ninja. E se espantou ao ver Sakura retirar as roupas de seu paciente e em seguida as próprias, deitando-se sob ele.

- SAKURA, NÃO FAÇA ISSO! É MUITO PERIGOSO. VOCÊ NÃO...

- Vai ficar tudo bem, Katsuyu!– deu um sorriso confiante - Apenas monitore meu chacra. E por favor, se algo der errado entregue essa carta a Sasuke. –Estendeu o envelope, amarelado devido ao tempo em direção à lesma.

Sakura ia fazer algo que nunca havia feito. Aplicar a técnica do selo regenerativo de Tsunade para cura de um paciente. A teoria que tinha elaborado era bem simples: somente sincronizar os chacras e liberar seu próprio selo, fazendo a transferência de energia vital. O problema eram as implicações. Ela começou a fazer sua reserva de energia há pouco tempo. Temia não ter a energia necessária para realizar a cura. Faria todo o possível.

- ! - Sakura gritava e gemia de dor sob seu paciente. Sentia sua energia se esvaindo enquanto tentava manter o controle. A dor era tão absurda, que em alguns momentos a perda da consciência esteve próxima. Ao contrário do selo de regeneração normal, que libera toda energia de uma vez só, na regeneração combinada, a energia não podia ser transferida de uma única vez para o paciente. Um longo e doloroso processo que terminou cerca de uma hora depois.

- Katsuyo, ele... –E a ninja médica caiu nua sob a relva, sendo amparada por sua companheira de batalha.

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Sentiu uma brisa tocar sua face. Abriu os olhos lentamente. O corpo doía, a mente doía. Olhou para os lados. Notou um ambiente estranho, parecido com um mundo dos sonhos, dos contos de fadas, que a muito não estavam presentes em sua vida. Riu ao perceber o paradoxo. Um mundo de fadas, de magia, para quem só vislumbrou a escuridão.

Notou um corpo abaixo de um cogumelo ao lado. Fitou as pernas, pés descalços. Não dava para ver o rosto daquela posição. Decidido a descobrir que corpo era aquele, levantou-se, ou melhor, tentou levantar, pois assim que se pôs de pé, sentiu uma dor absurda que o fez ajoelhar. Determinado, tentou novamente, apoiando-se em sua katana, usando-a como bengala. Caminhou lentamente. Fazia uma força tremenda para dar um passo adiante. A curiosidade só aumentava. Que lugar era aquele, que corpo era aquele?

A curiosidade foi substituída por ódio. Puro e intenso ódio, quando reconheceu o corpo que jazia deitado, com uma expressão de dor, num estado de semi-morte.

- Itachi, seu desgraçado! Eu vou te matar.

Tudo foi muito rápido. Ele conseguiu uma força surpreendente. Ergueu a Katana que antes o ajudava a se manter erguido, preparando-se para dar um golpe certeiro, naquele que destruiu sua vida, aquela pessoa a quem dedicava todo seu ódio.

A Katana desceu com velocidade. E fúria. Um golpe preciso. Cascatas rubras formavam poças no chão, misturando-se a fios de cabelos. O rosa e o vermelho, disputando espaço, num conflito sutil, onde o vermelho rapidamente sobrepujava o rosa. O sorriso de alívio, de contentamento, foi sumindo aos poucos. Ele arregalou os olhos. Viu o sangue em suas mãos. Mãos trêmulas, de quem não acreditava no que acabou de fazer. No seu semblante de vingador, o que se viu então foi o desespero, na sua forma mais pura.

- SAKURA!

A confusão na mente do vingador era palpável. Ele praticamente a partiu ao meio. Uma série de lembranças e porquês se formavam em sua mente enquanto o mundo girava rapidamente ao seu redor. Aquele mundo colorido, de contos de fadas. Sua ex-companheira de time, a quem sempre protegeu estava ali, estirada no chão. Inerte. Sem vida. Os orbes verdes já não mais cintilavam. Estavam frios, vazios. Ele caiu sob seus joelhos, se perguntando como poderia ter feito aquilo. Por que ela o impedira, dando sua própria vida para isso?

- Puff!

E como num passe de mágica o pesadelo se dissipou. Sasuke pode reparar ao redor, vislumbrando a verdadeira Sakura, que estava parada próximo a ele, apoiada em uma bengala.

- Nunca vi esse seu lado covarde! Matar alguém inconsciente. Você se superou! Realmente não é a pessoa que eu conhecia.

-Sakura?

- Você quase fez uma merda irremediável, Uchiha!

- Eu achei que tinha te matado! -Disse aliviado, mas o alívio foi substituído por diversas emoções, que brincavam na mente do Uchiha – POR QUE VOCÊ ME ATRAPALHOU? EU FINALMENTE IA MANDAR ESSE CRETINO PARA ONDE ELE MERECE ESTAR!

- E onde ele merece estar, Sasuke?

- No inferno! -E dizendo isso empunhou novamente a Katana, mas antes que pudesse fazer algo, estava caído no chão.

- Estou ficando cansada de te dar socos no estômago, isso vai acabar virando moda!

- Sua...

- Antes de me xingar e proferir palavras sem sentido, quero que leia isso. –Ele olhou desconfiado para o envelope.

- O assunto contido aí é sério – Disse Sakura, mudando de um tom zombeteiro para um tom sério.

- Mas o que poderia – E calou-se imediatamente ao notar o brasão marcado no envelope. O brasão de sua família.

Nada mais foi dito. Ele permaneceu sentado, e abriu o envelope cuidadosamente. A atmosfera de ansiedade pairava sob o ambiente.

Otouto,

Se estiver lendo esta carta, provavelmente já terá realizado sua vingança. E eu estarei onde mereço estar.

Um pássaro voa para o sul quando o norte está inabitável, e retorna quando o inverno passa. Nós, diferentemente dos pássaros, temos que nos fixar em algum lugar, e devemos fazer com que ele seja o mais habitável possível. Seja o melhor lar de todos.

Um lar, para mim, é um local onde há harmonia. Onde todos os habitantes se ajudam, cresçam juntos e sejam sinceros.

Às vezes surgem pragas. Que querem tomar aquele lugar para si. Hienas treinadas e traiçoeiras que sorriem para a sua presa.

Eu fui treinado para ser uma dessas hienas. Um desses vermes. Que sorriem enquanto planejam atacar pelas costas. Uma máquina desleal, sem sentimentos. A melhor das armas criadas pela escória.

Acreditei por muito tempo que essa era a minha verdadeira missão. Que deveria a todo custo dar o poder ao nosso Clã. Que era o mais forte, mais honrado, mais destemido... E que planejava o golpe mais sujo e desonesto que vislumbrei até agora.

Onde está a honra, quando se ataca por trás? Onde está a honra quando se usam crianças como cobaias para experimentos? Onde está a honra?

Não foi uma ilusão, Otouto. Eu realmente matei todas aquelas pessoas fazendo exatamente o que me foi ensinado. Observar, cativar, obter a confiança de todos e atacar quando se menos espera.

Fiz isso, Sasuke, pelas inúmeras crianças que nascem todos os dias na vila, e principalmente por ti. Para te livrar deste destino amaldiçoado.

Espero que você não siga esse caminho. Que encontre um caminho verdadeiramente honroso. Um caminho que possa se orgulhar de seguir.

Itachi

Sasuke estava visivelmente abalado. Ajoelhado, deu um soco no chão, e em seguida ergueu sua cabeça, gritando:

- DESCRAÇADO! ELE CONFESSOU SAKURA! FOI ELE DE VERDADE! Ele matou todo mundo! Ele matou todo mundo... –Dizia apertando a cabeça com as mãos, como se pudesse apagar todas as lembranças dolorosas daquele dia.

- Sasuke. Acalme-se...

- Como eu posso ficar calmo? Quando comecei a ler essa carta ainda tive a ilusão de que tudo poderia ser um mal entendido!

- Sasuke, eu li os arquivos, ele é um herói da vila!

- Herói! Ele é um bastardo. Um grande canalha que matou a todos, matou seus próprios pais. Ele não merece nada! Nada!

- Sasuke, sua família ia matar a todos! Eles tinham um plano, Sasuke! Infiltraram-se na vila para isso! E isso era de longa data. Eles queriam exterminar todos que estivessem em seu caminho.

- A verdade é uma só, Sakura! -disse sacudindo as mãos freneticamente - Ele matou todo mundo. Ele é um assassino e...

Calou-se ao notar um pedaço de papel que caía do envelope, enquanto ele o balançava descontroladamente. Ao reconhecer a página velha e amarelada, ele não tinha dúvidas. Aquilo foi mesmo escrito por Itachi.

Abaixou-se e recolheu a página com cuidado. Ao abri-la, deparou-se com seu maior desejo infantil se realizando. Finalmente leria a última página do livro. A página que foi prometida à Sasuke, num passado distante.

Uma fábula sobre a fábula

Kami criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e escolheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande Imperador Toushirou Himura. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pouco depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apareceu e viu aquela bela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcertado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:

- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o Imperador Toushirou Himura.

O guarda entrou e foi falar com o Imperador. Inclinando-se diante dele, disse:

- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar com nosso mestre, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo.

- Quem é essa mulher?- perguntou o Imperador com viva curiosidade.

- Ela disse que se chama Verdade, senhor- respondeu o guarda. O imperador arregalou os olhos e quase gaguejou:

- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.

O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste. Acontece que... Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio. Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mulher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria. Com voz severa ela respondeu:

- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor deste palácio.

Lá se foi o guarda falar com o Imperador e, ajoelhando-se diante dele, disse:

- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheirosas deseja falar com nosso imperador.

- Como é que ela se chama?

- O nome dela é Acusação, Excelência.

O imperador começou a tremer, morto de medo:

-Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.

Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo caminho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida. E isso por que... Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.

A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde encontrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, anéis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas.

Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do Imperador. Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era. E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:

- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.

O chefe da guarda foi correndo falar com o imperador, até esqueceu de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:

- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso senhor.

Os olhos do imperador brilharam:

- Como é que ela se chama?

- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.

- O quê?- disse Toushirou Himura, completamente encantado.

A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.

As portas do grande palácio de Shima se abriram graciosamente, e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar. Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar-se com Toushirou Himura, o mais fabuloso imperador de todos os tempos.

Sasuke estava apoiado no corpo de Sakura. Várias lembranças confusas de seu passado começaram a vir à tona, mas ele se focou em uma:

Era noite. Em um quarto iluminado apenas por uma luminária, uma criança se preparava para dormir.

- Nii-san, por que está faltando uma página no livro?

- Não está faltando, eu a retirei. Um dia eu lhe darei de volta, quando for capaz de entender além do que está escrito.

- E para quê?

- É um treinamento. Um ninja não é feito só de força física. Existem outras coisas.

- Que legal! De que mais um ninja é feito?

- De muitas coisas. Um ninja deve ser honrado e nunca trair seus companheiros. Nem tudo que parece honroso é. Um verdadeiro ninja é capaz de entender a diferença, e lidar com ela.

- Não estou entendendo nada, nii-san!

- Não precisa se preocupar com isso agora. Um dia você entenderá. –Disse Itachi, afagando os cabelos do irmão caçula.

- E qual história vai ler hoje?

- Pode escolher, Sasuke. Escolha bem, pode ser a última.

-Você é engraçado, Nii-san. Pode ser essa aqui –disse Sasuke, apontando aleatoriamente para uma história.

E Sasuke não sabia. Aquela realmente seria a última história e sua última noite de sono tranquila, cheia de sonhos maravilhosos. No dia seguinte, sua vida se tornaria um pesadelo.

- Nii-san... agora eu entendo... porque naquele dia... você chorou. – Sentindo os braços delicados contornarem seu corpo num abraço, antes de fechar seus olhos, lentamente.

Referências do conto adaptado:MACHADO, Regina (compilado por). O violino cigano e outros contos de mulheres fortes. São Paulo: Companhia das letras, 2004)

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