Ato II – O encontro

O Cabaret era uma casa praticamente às ruínas, construído num bairro pobre e mal cheiroso. Cada coluna que sustentava o prédio estava corroída pelo tempo ou por estranhas marcas com as quais se apostaria em marcas de balas e pichadas com a arte das ruas. O tom de tijolo mal sobrevivia a tanta injúria. Palavrões, frases e desenhos se destacavam cada vez mais ao se adentrar no Cabaret.

O corredorzinho estreito que dava em direção ao metálico bar estava repleto de indivíduos vestidos de forma que pareciam se misturar ao ambiente pegajoso e nebuloso. Rápidos flashes vermelhos/laranjas/amarelos poderiam ser vistos conforme os cigarros, se já o próprio tabaco ou a maconha, eram acesos. O cheiro de cerveja, vodka e uísque parecia engolir o local de tal forma que apenas por andar por entre as luzes esverdeadas do que se poderia dizer de pista, uma tontura poderia ser sentida. Um rock velho e rancoroso ecoava pelas caixas de som postas nas quatro paredes acima dos sofás de couro escuro e aparentemente desgastado.

Logo quando Jensen pisou o pé ali, se sentira fora do habitual. A cerveja que consumia e o cigarro que fumava parecia não ser suficiente para lhe extravasar a tensão. Ao seu lado, Chris ria constantemente e abertamente para Steve Carlson, um cara quase cinco anos mais velho que Christian e Jensen, e que parecia ser a pessoa que o amigo de Jensen exaltava. E lá estava Steven cochichando algo no ouvido de Chris para que fizesse novamente o rapaz rir e engolir quase um terço da vodka com limão que tomava. Afinal, o que se esperar de alguém com recém 18 anos?

- Quando a gente soube no palco, Chris? – Jensen perguntou quase que aos berros, tirando o amigo da entorpecência ridícula em que estava.

- Ei! – Chris era todo sorriso quando realmente deu atenção a Jensen, tinha o cabelo loiro e longo esvoaçando e fazendo conjunto com a face afogueada; e na opinião de Jensen, estava patético. – Não fica nervoso, Jenny... Quando o idiota do Misha chegar, a gente soube naquela merda ali e arrasa. Só... relaxa por enquanto.

E segurou na mão de Jensen e nela depositou um cigarro feito minutos atrás por Steve. Jensen levantou seus olhos verdes como o mais puro oceano, e devolveu um olhar inconformado para o sorriso pequeno do amigo. – Foda-se cara. Às vezes você realmente sabe o que eu preciso, né? Realmente...

Jensen só largou o baseado no colo de Steve e levantou daquele sofá carcomido com uma carranca no rosto. Antes que Chris fosse atrás do amigo, Steve perguntou o que acontecia com aquele cara mal humorado e se ele conhecia a prática tântrica e a yoga, ou se ele já havia tentado alguma posição do kama sutra. E em minutos Chris estava rindo e entretido novamente para poder lembrar-se onde Jensen estava indo.

Sem pensar duas vezes, Jensen já alcançava a porta do banheiro masculino. Atitude tomada por um impulso que o fizera se arrepender tragicamente. Aquele banheiro era um completo descaso de saúde publica, onde o vaso e o mictório estavam sujos e havia urina infestando cada pequeno lugar. A parede estava poluída de frases podres, umas escritas a caneta ou tinta e outras feitas com fezes. O que parecia ser um espelho estava poluído por uma gosma branca e com toda a sua extensão trincada. Jensen via sua imagem dividida em duas, o que lhe lembrava uma cena clichê de algum filme. E o que deveria ser uma pia de mármore branca estava suja e a lixeira de metal estava empalada de papel, camisinhas e uma solitária calcinha vermelha.

Numa das três cabines, Jensen podia ouvir algum gemido sôfrego acompanhado de um ou outro palavrão. E com uma coragem incentivada pela cerveja, Jensen se encaminhou a cabine do lado para aliviar sua bexiga. Ao levantar o zíper, sair da cabine, desistir de lavar a mão, maldizer Christian Kane e abrir com estremo cuidado aquela porta nojenta do banheiro, Jensen tivera seu braço esquerdo agarrado com certa brusquidão por uma mão pesada.

Jensen poderia ter gritado ou socado a pessoa que o agarrara daquele jeito. Talvez, devesse ter gritado e socado a pessoa que o agarrara daquele jeito. Mas quando seus olhos subiram e encontraram uma criatura alta e de cabelos um tanto que compridos, o fizera engolir cada uma de sua revolta. E somado a isso, a voz com uma desculpa o tirou do mundo.

- Ei... Eu vi quando você entrou e minha mente piscou um 'Eu conheço aquele cara de algum lugar', e eu não ia conseguir dormir hoje se não te visse de perto e tirasse a dúvida. Sério, se eu não descobrir da onde eu te conheço eu não vou ficar em paz.

O cara sorriu para Jensen como se realmente aquele sorriso valesse algo. Era um abrir de boca que deixara a mostra os dentes e uma perceptível dobra pudera ser vista em cada lado dos lábios, um sorriso amplo que alcança os olhos e faz um rosto inteiro se iluminar como o acender de uma lâmpada ilumina uma sala escura. Jensen sentiu o coração perder uma batida e as pernas bambearem num simples segundo.

- Desculpa, desculpa. Imagino que eu estou te assustando! Claro que sim, um louco chegar e puxar seu braço e mandar uma lorota do tipo 'eu conheço você'... Mas, sério, me desculpa! É que eu realmente acho que te conheço...

Jensen deveria falar alguma coisa agora. Nesse exato momento as cordas vocais de Jensen tinham que se expressar e iriam, realmente, se alguém não interrompesse o processo.

- Jensen! Cara? Aonde você se enfiou? – E desta vez era a voz e a mão de dedos longos de Christian lhe agarrando o braço e o puxando. – O que você 'tá fazendo aqui? Porra Jen, você atrasou dez minutos o show! Quem é esse?

Jensen não sabia. Quis abrir a boca, mas em instantes o rapaz a sua frente se abria em um sorriso imenso para Christian enquanto Jensen remoia uma pontada na alma ou no estômago.

- Jared?

E Jensen viu o rapaz realmente rir e abraçar Chris com toda a intimidade do mundo. Jensen conhecia esse cara? Se Jensen o conhecesse, ele iria lembrar com certeza. Que merda era aquela? De onde Chris conhecia o tal Jared e Jensen não? Jensen e Chris andavam juntos desde que Jensen tinha memória. Christian Kane esteve presente de tal forma na vida do rapaz que no primeiro dia de aula da sua vida, fora Chris que lhe dera a mão para levantar da gangorra que ele havia caído e o ajudara a lidar com a dor de lavar um joelho rasgado. Ou seja, aquele que fazia parte da vida de Christian Kane fazia parte da vida de Jensen Ackles e vice e versa. E Jared parecia ser uma exceção.
Um minuto e Jensen tinha o cenho franzido e olhava o abraço dos dois rapazes a sua frente como o verdadeiro absurdo no mundo.

Com o abraço desfeito e sob o olhar de Jared – que Jensen não podia dizer que cor eram os olhos devido aquela maldita falta de luz, Jensen puxou Chris com certa rapidez.

- De onde você o conhece?

E Chris não respondeu ao cochicho que Jensen lhe fizera. Só sorriu mais, convidou o tal a ouvir a sua banda e pediu que esperasse o show terminar para que conversassem.

- Claro Chris, não perderia esse show por nada.

Uma piscadela e mais uma sequência de sorrisos. Chris sequer deu margem para Jensen dizer algo e o levou para o palco de madeira e cortina escarlate. Um cara de barba e cabelo desfeito anunciou que haveria uma banda para animar a noite e Jensen ouviu vários uivos do que seria sua platéia.

Continua...