Ato III – A prévia após o encontro

E quando Jensen desceu daquele palco, suas costas estavam encharcadas de suor assim como a testa e o rosto afogueado. Seus olhos brilhavam no mais puro verde e ele diria que sentia uma felicidade incomum. Era incrível poder se expressar na forma da música, cantar com toda a sua alma e vontade e receber pelo menos um olhar de admiração daqueles que o assistiam se tornava a maior retribuição e sem dúvidas, a mais prazerosa.

Jensen não diria que cada indivíduo estranho que estava no Cabaret o aplaudira, a maioria continuara na sua forma em se fazer parte do ambiente, mas Jensen viu Jared (ele não esquecera o nome) sorrir e olhar para ele enquanto Jensen segurava o microfone e acompanhava a guitarra de Steve com a intensa letra de 'Hey Joe'. Jensen podia jurar que viu Jared sorrir e comentar para o amigo sobre ele, dizendo vagarosamente ele é maravilhoso.

O rapaz que tomava conta da bateria veio até Jensen e enlaçou seu pescoço com certa euforia. Era Misha Collins e a sua barba por fazer, a túnica branca e uma calça jeans desgastada que apertava Jensen com certo mimo. Era um cara que estava na vida de Jensen há algum tempo, ele não saberia precisar, e tinha um jeito de ser que se fazia alguém imprescindível.

- Você cantou bem, carinha. Cantou bem... – Misha sussurrou com carinho para o amigo e com um leve tapinha nas costas se afastou de Jensen, que sorria amplamente. Antes de ir até Chris e Steve que carregavam os instrumentos, Misha gritou em alto e bom som: – Merda, aonde nós vamos agora? Essa porra de lugar fica me dando uns arrepios monstros, juro.

E Jensen olhou para a improvável banda, que sequer tinha um nome, composta por quatro caras e que só era o resultado do sonho de um, pelo sonho de Chris. Antes que a mente de Jensen pudesse dar voltas e voltas, o rapaz que segurara o braço de Jensen vinha cortando a multidão de esquisitos que preenchia cada vez mais o Cabaret. Com a mão no bolso da calça jeans, Jensen pacientemente esperou que Jared (o nome parecia ter colado em algum de seu neurônio) viesse até ele.

- Oi...

- Oi. – Jensen sorriu francamente, deixando que seu rosto ficasse frouxo e perdido no rosto de Jared. Talvez o mundo tenha dado mais de uma volta nesse instante, mas não era o que vinha ao caso.

- Você cantou bem, amigo do Chris.

- Obrigado, amigo do Chris.

Ambos soltaram um riso idiota pela frase compartilhada. No entanto, lá vinha a voz rouca de Chris e a assassina fumaça do seu cigarro se impor entre Jensen e Jared.

- Moças, desculpa atrapalhar essa linda conversa, mas convido vocês a irem para a humilde residência do adorável Steve.

E Chris saiu rodopiando, como um imbecil na opinião de Jensen.

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Sairam do Cabaret.

Chris, Misha e uma adorável loira de vestido preto foram no carro de Steve com os equipamentos, enquanto Jensen estivera ao relento e perdera espaço no carro do amigo. Estava agora andando ao lado de Jared que ria da cara de indignação do rapaz.

- Por que você fica rindo de mim? Sou engraçado ou algo do tipo? - Jensen murmurou, seguindo Jared pela fileira de carro naquela rua destruída por entulhos e saco de lixos. Jared parou de andar e virou de costas para Jensen. Ele realmente queria ver o rapaz, queria enxergar suas feições e detalhes, mas a maioria dos postes de luz tinha suas lâmpadas destruídas; Jared seguiu andando de costas e olhando Jensen como se fosse a coisa mais admirável e esquisita do mundo. E lá estava Jensen com o rosto trancado numa revolta e indiferença falsa, com os braços cruzados e o coração querendo concorrer nas olimpíadas de cem metros; um completo ridículo, pensou Jensen.

- Não fique irritado, tudo bem? Nós vamos de moto, você me ensina o caminho para a casa do Steve e tudo vai ficar certo.

Jared ensaiou um sorriso e virou, deixando Jensen encarando suas costas. Ele resolveu não responder nada, e deixou que Jared o guiasse até a tal moto. Após uns dez passos alcançaram uma Matchless preta e antiga. Jensen poderia dizer que era um aficionado com motos, mas se sentiu impressionado com a raridade estacionada; sorriu e acariciou toda a extensão da moto com o dedo indicador como se tratasse de um vidro. Estava encantado pela peça.

- Bonita. Aonde você conseguiu uma dessa? – Jensen encarou Jared por uns segundos. O moço simplesmente deu de ombros e sussurrou que conseguiu com o pai, dando o assunto por encerrado. Jensen não insistiu e com toda a modéstia, deu espaço para que Jared subisse na moto.

Jensen subiu na moto logo após. Jared pegou uma das mãos de Jensen e colocou em torno de sua cintura antes de esconder seu sorriso ao olhar para frente. – Eu costumo correr, Jen...

- Jensen. – Ele corrigiu rapidamente, sentindo o estômago doer com o contato da sua mão no tecido da jaqueta jeans de Jared. Era simplesmente surreal encarar aquela nuca e sentir um tóxico perfume, algo misturado ao cheiro de cigarro, menta, maconha, cerveja, e suor.

- Se segure Jensen. - E antes que Jensen pensasse, Jared deu partida naquela raridade e acelerou.

Aos poucos a cidade se transformava num borrão, as luzes se tornavam intensas e flashes tal como o passar rápido de um cometa. Os carros que Jared ultrapassava ficavam cada vez mais para trás, até que se tornavam um ponto de luz branco devido aos faróis e semáforos incessantes; a multidão de errantes noturnos eram nada perto da velocidade que o rapaz impunha naquela moto. Era rápido, completamente vertiginoso. Jensen diria que era refrescante e o seu ideal sentir o vento lhe bater no rosto, lamber a boca, bagunçar os cabelos e enviar arrepios pelo corpo, eriçando cada pelo e poro. Os prédios vinham entrando em ação na avenida que cruzavam, as intensas luzes das lojas refletiam os olhos de Jensen para a imensidão de asfalto que se estendia sob a moto. Jensen parecia uma criatura encantada, preso numa forma de ver a cidade – a cidade de forma rápida, noturna, esporádica e intensa, uma forma de ver a cidade que era possível por causa de um cara que mal conhecia e jurava lhe conhecer.

Então, se deixou sorrir quando a moto atravessou um túnel de luzes amarelas intensas e inconscientemente encaixou o queixo na clavícula de Jared. Naquele momento, o mundo parecia entrar verdadeiramente no eixo.

Continua...