Ato IV – A Reunião

A casa de Steve era algo como aconchegante. Nada de ilustre, mas um colchão de casal jogado no chão da sala e dois sofás de pano vermelho com almofadas com lantejoulas espalhadas por todo o cômodo. Havia a cozinha que sempre estava estranhamente mal cheirosa e com caixas de pizza, lata de cerveja, refrigerante e chá espalhados na pia e mesa. O único quarto tinha uma cama de madeira sem colchão (já que este estava na sala), um guarda-roupa e duas cômodas. Uma porta dava acesso ao banheiro e da cozinha se via um quintal com um pequeno canteiro espantosamente bem cuidado. Toda a casa era de um piso escuro e com as paredes pintadas de branco e numa delas havia uma grande mandala colorida feita de pequenos vidros coloridos.

E lá estava Misha e a linda loira de vestido preto deitados no colchão enquanto Chris e Steve tentavam fazer algum som no violão, sentados de pernas cruzadas um de frente para o outro, no sofá maior. Quando Jensen e Jared entraram pela porta de madeira, prontamente tiveram o nariz invadido por um cheiro e névoa incomum. O clima estava entregue numa calma conforme a voz de Chris vinha aos poucos para dar continuidade à canção.

Os quatro mal falaram com Jared e Jensen – pareciam entregues num próprio mundo - que se sentaram no sofá menor, e ficaram olhando Misha e a loira estenderem as mãos e tocarem as pontas dos dedos uns nos outros, encolherem e sorrirem um para o outro e repetirem novamente a ação e roçarem o nariz e novamente as mãos. Jensen parecia estar drogado mesmo sem ter fumado nada. O cheiro estava forte, inebriante.

Chris parou de cantar, deixando a tarefa para a voz seca e grossa de Steve, para estender o cigarro que estava na sua mão para Jared. O rapaz sorriu em agradecimento e deixou que o conteúdo daquele enrolado se queimasse e fizesse o seu efeito alucinógeno. Estendeu-o para Jensen que o olhou ressentido. Não era como se nunca houvesse usado, mas sempre lhe havia um pequeno receio serpenteando na alma. E já estava a tanto tempo fora de casa... E Jared fez questão de colocar aquele cigarro diferente do tabaco, entre os lábios de Jensen e lhe sorriu com uma calma tão imensa que quando Jensen expirou, a vida se entregava numa paz indescritível.

E então, o cigarro rodou uma segunda vez pelo grupo. Logo Jensen encostou o rosto no sofá e de frente para Jared. E este rapaz quis alcançar o rosto de Jensen, e o toque era simples e suave, uma caricia tão amorosa que Jensen tinha uma felicidade estampada nas esferas verdes de seus olhos. Aos poucos, o rosto de Jared ia de encontro com o de Jensen. As vozes de Steve e de Chris se misturavam, tornavam uma única coisa na melodia tranquila que falava de amor. E Jensen com os dedos dos pés e das mãos formigando, seja efeito daquela erva, seja o efeito da aproximação de Jared, estava com vontade de fechar os olhos e se deixar levar por uma sensação de dormência. Uma piscada a mais e Jared tinha o rosto também encostado no sofá, tão próximo. E Jared suspirou e Jensen sentiu o cheiro que emanava aquele hálito, sentiu o coração viver numa infinita lassidão e ensaiou um pequeno beijo, não mais que um mexer de lábios no polegar do rapaz que acariciava seu rosto numa plácida lerdeza.

- Você tem os olhos mais lindos que eu já vi. Mais lindos... Parece um campo de alecrim, tão verde... Lindo.

E o nariz de Jared encostou a face de Jensen, enxergando de tão perto as inúmeras sardas que pareciam ter sido despejadas uma a uma sob Jensen. Os lábios vermelhos, carnudos e ressecados e lá estavam os pelos ínfimos da barba que fizera pela manhã. Jared estava o achando lindo, e não haveria outra palavra que se encaixasse ali. Lindo.

Acabou por sentir o cheiro de Jensen ao abraçá-lo naquele sofá, ao fazê-lo deitar sob si e acalentá-lo. Estranhamente, quando Jensen se deixou cair numa infinita queda e acordou sobressaltado, um braço estava rodeando seu corpo. Não havia mais a voz de Chris ou Steve, e Jensen assimilou que estavam todos dormindo. Entregou-se nas garras do sono ao sentir a respiração de Jared em seu cabelo e um delicioso calor emanando da sua pele para suas entranhas.

Parecia absolutamente tudo bem.

Continua...