Ato V – Ressentimento após a proposta, encontro e reunião

Estranhamente, um som agudo e metálico vinha de longe, trazendo-o para a realidade. Cada vez mais, o som podia ser ouvido no escuro da dormência da mente de Jensen, o despertando de uma estranha sensação. Sua boca tinha gosto de algo amargo, a cabeça apontava uma súbita dor – um leve incômodo comparado a de seu estômago. Ele tinha fome. O som retornou. Era irritante, um barulho insensível acompanhando agora um tremor no bolso esquerdo da calça jeans que fazia cócegas, um remexer na pele morna da perna.

Ele então abriu os olhos. Definitivamente, a primeira coisa que sentiu foi o áspero de um botão lhe pressionar um lado do rosto e depois entendeu que um tecido duro machucava seu maxilar. E aí, para reparar que estava deitado sobre alguém foi preciso sentir um profundo suspiro que não era seu e uma mão que não lhe pertencia serpentear suas costas. Segundos e Jensen tinha os olhos vermelhos e injetados, estes se fixavam na criatura deitada abaixo num sono invejável.

O som metálico e irritante embalou todo o processo que Jensen forçara sua mente a ligar e lhe informar onde estava e quem aquele sujeito era.

E a mente foi eficiente até, entregando a Jensen uma sequência repleta de acontecimentos que o fizeram instantaneamente se por de pé e sentir uma conseqüente vertigem. Foi lembrar de que Jared era o cara que segurou seu braço afirmando que o conhece, lembrou do show e dos olhos de Jared sob si enquanto estava no palco, lembrou daquela raridade de moto e do cheiro de Jared, a casa de Steve e o sofá de Steve que deitara com Jared... Lembrou de Jared.

- Merda.

A palavra soou de forma repleta de significados. Passou a mão no rosto adormecido e decorado com vergões, olhou pela sala e aqueles que eram seus amigos, também estavam dormindo. Uma súbita raiva tingiu seus nervos enquanto buscava o aparelho perdido no bolso da calça, aquele que era a fonte do terrível barulho que lhe dava náuseas. A tela colorida do celular avisou com uma seta vermelha 32 ligações perdidas entre à meia noite e o meio dia e meio.

- Merda!

Ele praticamente avançou em Chris que dormia agarrado ao edredom azulado e de listras brancas no sofá. O rapaz acordou sobressaltado quando seu edredom fora puxado tão bruscamente, quase caíra do sofá e seu rosto não escondia o susto.

-Porra Jenny, o que é isso? 'Tá maluco...

Chris falou num tom molenga, realmente cansado. Frase que pareceu irritar ainda mais Jensen que abriu amplamente os olhos e instintivamente esfregou o celular na cara do amigo. O que pareceu não adiantar, pois Chris encolheu o ombro num misto de não entendi com o que houve?, que fez Jensen se sentir cansado e enjoado demais para iniciar uma discussão. O rapaz só se pôs a desabar no sofá que antes Chris estava deitado, com a cabeça entre as mãos. Pesou o desatino e a conseqüência de seus atos, somou e dividiu, até mesmo multiplicou e se entristeceu com o resultado.

- Eu vou ficar sem casa depois dessa, Christian! Olha isso... Meu pai vai tirar o meu couro ou, espera... Minhas coisas já devem estar na porra do quintal...

- Você se preocupa demais em seguir as regras da mamãezinha, eu hein, relaxa Jen... Uma noite fora de casa não é o fim do mundo, pelo amor de Deus. – Chris comentou enquanto coçava a própria nunca com desinteresse quando um som de chave roubou sua desfocada atenção.

E era nesse momento que Steve abria a porta da entrada com os pés revestidos num chinelo branco e com as mãos entrelaçadas em sacolas plásticas. Um cheiro inebriante de pão quente atiçou, sem querer, o estômago de cada um.

- Que dia bonito hoje, hein? – Steve suspirou enquanto atravessava a sala e ia à cozinha, fingindo não ouvir as lamúrias do amigo mais novo. Ao chegar ao outro cômodo, sua voz foi se tornando cada vez mais distante e alta: – Eu trouxe pão, queijo e leite. Alguém quer? Aquilo que a gente fumou de madrugada me deixou com uma puta fome...

Misha que antes dormia, acordou não só pelo tom desesperado que o Jensen tinha na voz – ele ainda resmungava baixinho – mas também pela incrível fome que se apossava do seu ser. Mesma coisa aconteceu com a linda loira de vestido preto que, com seus pés nus correu até a cozinha levando Misha consigo. O único que se demorou a levantar foi Jared, o ser estranho aos olhos de Jensen, mas que havia dormido e divido com ele um baseado.

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Jensen quis sumir no momento em que viu Jared em pé e apontar com aqueles olhos os seus. Uma grossa camada de sol adentrava na sala e embebia o rosto amassado de Jared, lhe dava uma beleza simples e humana, e enquanto Jensen encarava aquilo como uma dúvida interna entre o correr para casa neste momento ou ficar ali observando o homem, Chris conseguiu escapulir para a cozinha. Jensen sequer percebeu.

- Bom dia.

E foi Jared com a voz rouca, realmente plastificada devido às horas de desuso, mas que soou firme. Jensen por sua vez vacilava e com a incerteza de que sua voz viria, se limitou a balançar a cabeça num tom afirmativo. Ele sentiu vergonha de si mesmo e não conseguiu escondê-la, seus olhos pareciam fugir de todo e qualquer lugar que queria firmar a vista. Estava atordoado.

Jared veio com passos largos e sentou-se ao seu lado. E com toda a delicadeza que aquele homem podia conceber, pegou as mãos frias de nervosismo de Jensen e colocou entre as suas. A meiguice que Jensen via naquela expressão ele nunca tinha visto em nenhum outro rosto, e isso lhe deu uma estranha dor no que se chama coração. Uma dorzinha incômoda da incerteza de se sentir atraído por alguém, de se sentir encantado e terrivelmente necessitado da companhia alheia, era medo e temor, uma mistura incongruente daquilo que os poetas vêm atém hoje tentando decifrar em palavras.

- Tudo bem com você?

- Não. – A palavra escapuliu da boca de Jensen como a água de um riacho invade um local seco. Ele não conseguiu mentir para aquele homem, essa era a verdade. Além disso, ele queria ser confortado, queria ouvir se aquele cara estaria disposto a lhe dar alguma dedicação, um mísero momento de escuta e palavra gentil. Ele queria descobrir se em Jared era possível encontrar algo do ainda mais que ele não havia vivido nessa vida inútil que vivia. E nisso, esse sentimento provocou espanto, havia menos de um dia que ele conhecia Jared.

- Entendi. – Então Jared saiu do sofá, largou as mãos de Jensen e se pôs de pé, remexeu no bolso da jaqueta e estava de frente com a porta. Parecia estar prestes a sair e a goela de Jensen prontamente se encolheu, repreendeu uma dolorosa angústia e decepção imbecil... E aí ele até mesmo quis arrebentar qualquer coisa que estivesse próxima de si naquele momento.

Jared, aquele homem de aparentemente vinte e tantos anos e de boa altura, abriu a porta e segurou-a aberta lançando um sorriso gentil e convidativo para Jensen. Movimento surpreendente para os sentimentos recém nascidos em Jensen. A chave da moto balançava sutilmente à mostra em sua mão.

– Vamos Jen, deve ter alguma padaria que ainda sirva um bom café da manhã à uma hora da tarde.

E não havia problema se Jensen estava absolutamente amassado e ainda com linhas avermelhadas no rosto pelo modo em que dormira sobre Jared ou se sua cabeça pesava com uma detestável dor. Ele só levantou e com certa ansiedade cruzou a porta, recebendo o típico ar quente daquele verão fora de época no rosto.

Continua...