Cap. 2 : Descoberta
Manhã – Hospital
Depois de horas, Adam finalmente deu sinais de que iria acordar, movendo-se um pouco. Foi algo que deixou Dovner menos impressionado, pois viu-o tão cansado que sua respiração mal deixava vestígios de tão leve que era. Sabia que a noite não tinha sido fácil para ele, então mesmo incomodado permaneceu em silêncio, sem apressar as coisas.
Adam abriu os olhos lentamente, esforçando-se porque as pálpebras pareciam pesadas. Forçou-se a abri-las, mesmo que fosse para fechá-las novamente em poucos minutos. Sentia que algo tinha acontecido e não demorou a descobrir que estava certo.
- Bom dia, garoto. – ouviu a voz baixa de Dovner, sem esperar qualquer resposta.
- O que houve? – olhou ao seu redor, procurando pistas de onde estava e sem demorar a ter uma conclusão – Como eu vim parar aqui?
- Você passou mal durante a noite. Nós te trouxemos pra cá.
- Foi tão ruim assim?
- Foi, mas poderia ter sido pior. Não se lembra?
- Não, não lembro de nada.
- Já era esperado, e como se sente agora?
- Cansado.
- Deu pra perceber. – disse, rindo um pouco, tentando tirar do rosto o ar de quem estava fazendo hora extra.
- Quando vou poder sair daqui?
- Não sei. Ainda não conversei com o médico. De qualquer modo a sua consulta foi antecipada pra hoje.
Adam suspirou. Não tinha gostado daquela idéia, mas pouco poderia fazer. Não tinha como contestar, pois ali não podia tomar suas próprias decisões. Há tempos não sabia o que era isso, sentia falta, mas tentava se acostumar a aquela idéia. Lá, não podia contestar Gregory Baxter, afinal ninguém conseguia tamanha proeza. Mas era o de menos porque não estava no seu ambiente comum, não era o que poderia chamar de seu lugar. O problema era imaginar que aquilo não acabaria nem tão cedo.
- Ainda está muito cedo. Por que não dorme?
- Não sei se consigo.
- Se está cansado como imagino que está, vai conseguir. Foi uma noite difícil.
- Quando o médico vier, pode me chamar?
- Claro. – concordou, mesmo sem saber se era uma boa idéia.
No fim, o sono não demorou a vir. Não teve grandes opções porque não havia nada com o que pudesse se distrair. O sono foi a alternativa mais próxima de fazer o tempo passar mais rápido e esperar que as coisas viessem a ter nome.
Algum tempo se passou, e na primeira voz diferente que ouviu, Adam acordou mesmo sem ser chamado. Dormira com um temor oculto de ser deixado de fora das conversas importantes então se manteve alerta. O estado de vigília era algo que não tinha conseguido deixar desde os dias de ranger. Não reclamava disso, nem se esforçava para mudar pois no fim sempre teria alguma utilidade, como naquela hora por exemplo. Não estava disposto a ser esquecido ali, pelo menos não enquanto ele fosse o assunto.
- E então, Adam? – perguntou-lhe o médico – Como está?
- Cansado. – respondeu, com a palavra mais adequada. Sentia o cansaço físico causado pelo constante mal estar, e o cansaço mental por ter de sempre responder as mesmas perguntas, dando as mesmas respostas.
- Dá pra perceber. – notou o desconforto na voz dele.
- E a febre? – interviu Baxter.
- Baixou. Sem febre por enquanto. – fez uma pausa – Bem, estou com o resultado do exame de sangue...
- E então? – interrompeu Baxter, novamente – Já sabe o que ele tem?
- Ainda preciso de mais um exame para dar um diagnóstico.
- Mas já tem tanto tempo! – esbravejou – Que exame é esse? O resultado demora?
- Não, senhor Baxter. – respondeu calmamente, sem dar mostras de intimidação por aquela voz alta de alguém acostumado a obediência – Ele pode ser feito agora e o resultado sai hoje mesmo. Será que tenho autorização para fazer isso?
- Obviamente. – o treinador respondeu de pronto.
Adam permaneceu quieto. Era apenas um objeto que se tornou tema de uma conversa que lhe pareceu muito distante. Não sabia o que tinha, ou o nome certo para o seu problema. – se é que havia um nome – mas sabia que era grave porque fizera por merecer. Não iria escapar impune daquele dia, afinal. Sabia que agora iria pagar o preço por sua decisão e que este preço talvez fosse alto demais.
- Ótimo, vamos preparar o material. Daqui a quinze minutos virão buscá-lo.
Saiu do quarto deixando-os sozinhos. Baxter e Dovner engataram uma nova conversa, na qual a presença de Adam foi solenemente ignorada. De qualquer modo não fez questão nenhuma de participar, preferindo algum silêncio, um pouco de tranqüilidade, num esforço para manter-se sereno frente a algumas horas a mais de espectativa, tentando abstrair o suficiente para fazer aquelas vozes irritantes a sua volta parecerem distantes melodias. A façanha durou exatos quinze minutos prometidos pelo médico, pois numa pontualidade britânica chegou uma cadeira de rodas para buscá-lo.
- Não precisa ficar nervoso, Park – disse Baxter, numa tentativa de apoio que lhe pareceu artificial: não que fosse falso, mas nada desse tipo combinava com seu treinador. Adam meneou a cabeça, concordando embora aquele conselho não lhe fosse de qualquer utilidade.
Passado algum tempo, voltou para o quarto. Respondeu a perguntas sobre o andamento do exame, se tinha sentido dor... todas respondidas com a maior paciência do mundo embora preferisse deixar aquilo pra depois.
Olhando para Dovner identificou uma certa tensão. Não por desconhecimento, mas por provavelmente já saber do que se tratava e que o tal exame era apenas uma formalidade burocrática. Abstraiu novamente até o envelope chegar. No fim, Adam soube finalmente o que tinha. Meio sentado meio deitado, acompanhado por Baxter e Dovner que mais pareciam sombras, ouviu do médico o diagnóstico: leucemia
