Capítulo 8
No dia seguinte, caras estranhas à mesa do café da manhã. Olheiras de quem apenas cochilou, rosto abatido de quem simplesmente não dormiu. Havia um esforço generalizado para não deixar isso transparecer, e de sua parte Adam fez o possível para que parecesse compactar com aquele plano.
Pouco tempo se passou e não demorou a estar de frente ao médico, respondendo a um interrogatório sob vigilância atenta e constante dos pais. A maior parte das respostas eram disparadas com uma dose de instinto, quase uma entrevista pingue-pongue. Uma olhada nos envelopes dos exames, além de uma observação onde seu aspecto deplorável foi colocado em evidência. Após toda essa exposição que julgou desnecessária, Adam foi mandado para a sala de espera enquanto Jin e Ling foram chamados à parte.
- Receio não ter boas notícias. Os exames indicam que a medula óssea de seu filho está totalmente perfurada. O tratamento ocupa muito tempo, ele teria que ficar internado.
- Internado?
- O rapaz já está muito debilitado, senhora. A doença está avançando rápido. Seja qual for o tratamento ele precisa começar o mais rápido possível.
A verdade doeu e foi muito pior do que puderam pensar naquelas poucas horas de raciocínio entre o momento da notícia e aquela consulta. Ainda não tinham pensado nas possibilidades de tratamento porque pouco sabiam sobre a doença. Pouco mesmo.
- O quanto antes... – Jin pareceu raciocinar em voz alta. – E quando isso pode ser?
- Ele pode ser internado ainda hoje. Agora, pra ser mais exato.
- Mas... temos que conversar com ele. – disse Ling – Temos que conversar com Adam antes de fazer qualquer coisa.
O médico olhou-os com uma expressão não muito disposta a concordância, mas nada que os intimidasse. Não tinha influência sobre isso. Os dois saíram de sua sala indo até onde Adam estava.
Adam soube o que era ao ouvi-los se aproximando. Passos incertos ecoando no chão liso do consultório. Rostos consternados, bem como havia imaginado. Respirou fundo, discretamente para não ser percebido, pensando que deveria relevar certas coisas por causa do momento difícil que seus pais deveriam estar passando. Doía pensar que era por sua causa, e que não o deixariam pagar por seus atos sozinho.
- Adam, nós temos que falar com você.
Com voz suave e tom controlado, contaram ao filho a opinião do médico a respeito de seu tratamento.
Talvez Adam tivesse reagido de forma completamente diferente do que todos esperavam. Para ele foi até mesmo divertido perceber a surpresa nos olhos dos outros, mas não naquele momento. Quem sabe não seria mais fácil para eles se protestasse ou esperneasse? Não seria conveniente, e nem de seu feitio. Precisava agir como alguém responsável e maduro que enfrentava as conseqüências de seus atos.
Ouviu tudo que foi dito de forma bem atenta, embora estivessem apenas dando um aviso sobre o que iriam fazer. Não era um pedido. Estavam lhe comunicando sobre a internação. Nada muito absurdo. Era normal que eles quisessem assumir as rédeas, não? Então perguntou apenas quando aconteceria. De resto, deu de ombros.
- Então nós... – Jin pareceu hesitar. – Nós vamos pegar umas coisas, resolver umas pendências burocráticas e isso vai se ajeitar. O médico vai vir falar com você.
Adam concordou, meneando a cabeça. Parecia tranqüilo. Queria fazer uma pergunta mas acabou desistindo por imaginar uma resposta. Queria saber se ele mesmo poderia ir para casa e buscar suas coisas, mas seu pai já havia dado uma resposta. Esperava que ficasse ali desde já. Não demorou a se sentir arrependido por não ter aproveitado mais a curta estadia em sua própria casa. Esperou que lhe falassem mais alguma coisa, mas pareciam estar ocupados com a burocracia do hospital, um assunto que julgaram pouco interessante para ele.
Foi levado ao médico que lhe deu informações sobre a internação e o tratamento. Poucas, apenas o que o Doutor Winster julgou ser indispensável. Afinal os pacientes não tinham que saber de tudo. Mais outras perguntas, poucos exames e foi internado.
Foi esquisito ter de colocar aquela roupa estranha do hospital e ficar naquela cama quando o que estava sentindo na hora era apenas a fraqueza teimosa, mas que ainda não o atrapalhava. Olhou ao seu redor. O quarto não era nada amistoso, assim como em todo hospital, mas não esperava por nada diferente. Os privilegiados nesse caso eram crianças que podiam encontrar um ambiente pouco mais caloroso. Mas não era mais uma criança: tinha quase 19 anos. Também não era o hospital mais assustador onde já estivera, então tratou de se acostumar rápido.
Sentia também o peso do olhar de seu pai, que tinha ficado para acompanhá-lo. estava junto, em seu quarto, bem próximo mas não parecia muito a vontade para usar as palavras. Adam não reclamou, embora o silêncio pesasse e fizesse aquilo mais aborrecedor.
- Vamos lá: o que você quer que sua mãe traga?
- Meu discman e meus CDs. – tentou se lembrar de mais alguma coisa, hesitou e acabou ficando por ali.
- Só isso? – perguntou, num tom surpreso achando que fora pouco.
- Não sei o que posso trazer pra cá. E de qualquer jeito não devo usar mais do que isso. – ajeitou-se na cama, tentando encontrar uma posição, não parecendo ter muito sucesso. Decidiu, por fim ficar sentado.
- Tá difícil, hein?
- Vou me acostumar. Tenho muito tempo pra isso.
Jin não gostou de ouvir aquilo, mas não disse nada a respeito. A princípio lhe pareceu passividade: algo que certamente não era nada confortável de ouvir, mas depois sua percepção mudou. Talvez fosse apenas ter consciência dos fatos. Adam talvez pudesse ter uma boa noção de como seriam as coisas dali por diante e não se enganasse pensando que pudesse ser diferente.
- Eu peço pra trazerem os seus livros.
- Acho que vai ser uma boa idéia
Jin levantou e saiu do quarto. Não pretendia demorar, apenas falar com a esposa. Uma conversa de poucas palavras, o pedido para que buscasse algumas coisas do filho. Sabia que ainda havia muito a ser falado. A descoberta da doença de Adam não teve tempo bastante para ser digerida, raciocinada. Não sabia a que custa ainda pareciam estar conseguindo resolver tudo aquilo. Esperava poderem falar sobre isso mais tarde. Não era um assunto que poderia mais esperar muito.
Após a breve conversa, Ling acatou a incubência. Sem demora foi se distanciando, tomando o caminho rumo ao fim do corredor à passos rápidos.
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Ling não demorou a chegar em casa. Com a mesma rapidez subiu as escadas, indo diretamente ao quarto do filho.
- Mãe?
- Cassie? – virou-se e viu a filha parada em frente à outra porta, pouco mais distante.- Não vi que você já tinha chegado.
- Saí mais cedo. Estava no meu quarto, não tinha mais ninguém em casa, pensei que só iria voltar mais tarde. – explicou. – Veio sozinha?
- É, mas não pretendo demorar. Só vim buscar umas coisas pro seu irmão.
- Onde ele está? – perguntou, num tom que pareceu a Ling apenas uma calma mal disfarçada.
- No hospital. Ele vai ter que ficar internado. O tratamento vai ser longo.
- Ficar internado? Mas eu achei que ele iria pra lá uma vez por dia, ficava umas horas e voltava pra cá.
- Também achei, mas o médico disse que não seria suficiente. – lamentou, para em seguida hesitar e resolver mudar o rumo daquela conversa. – Olha, eu não sei muito bem o que levar pra ele. Não quer me ajudar?
Cassie concordou embora não parecesse nada feliz com a idéia. Logo se concentrou em sua tarefa, lembrando-se do que poderia distraí-lo, escolhendo cada coisa com cuidado, admirando que em tanto tempo de estadia em Nova York não tivesse vindo nenhum livro novo. Por fim, resolveu levar também um caderno. Todas as pequenas escolhas poderiam fazer diferença para ele. Ling apenas observou-a enquanto a filha estava compenetrada nessas escolhas, admirando todo aquele cuidado.
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Jin continuava no hospital. Não estava no quarto, junto com o filho embora realmente quisesse. O médico queria fazer uma pergunta ou outra antes de começarem com os procedimentos de quimioterapia. Há poucos minutos ele estava a sua frente fazendo perguntas de modo incisivo, como se aquilo fosse um interrogatório policial, e de forma até mesmo hostil. Tentou não se importar, afinal dali por diante teriam muito que conviver, e provavelmente não seria uma relação estritamente profissional. Imaginou se por acaso ele também não falaria com Adam no mesmo tom.
Não demorou para ver Ling novamente. Cassie vinha junto com ela, carregando uma mochila. Certamente eram as coisas de Adam, para que ele pudesse passar o tempo. Querendo falar com o marido, Ling disse a Cassie que ela poderia entrar e entregar a mochila diretamente ao irmão. Disse também que entrariam também, mas só depois de alguns minutos. Então esperaram que ela se afastasse para começarem a falar.
- Pensei que estivesse lá dentro. – falou Ling.
- O doutor queria me fazer umas perguntas e acabou me tirando do quarto.
- E como ele está? – referiu-se a Adam.
- Por enquanto tudo bem. Não disse nada e nem reclamou... nem dá pra dizer muita coisa agora.
- Isso aqui deve ser horrível de noite. – olhou ao redor – Não queria que Adam ficasse sozinho.
- Não vai ficar sozinho. Nós podemos nos revezar pra passar a noite aqui.
- É, mas e durante o dia? Hospital é um lugar terrível seja qual for a hora. E nós dois trabalhamos.
- O escritório é meu. Não tenho patrão, Ling. Eu posso ficar com ele.
- Patrão é aquele que trabalha mais, você sabe disso. Você quase não tem tempo pra nada, Jin. Vive enfurnado naquele escritório!
- Nós vamos dar um jeito. Não se preocupa, ele não vai ficar sozinho.
Ela se aproximou, aceitando o convite dos braços estendidos do marido. Encostou a cabeça quase em seu ombro, buscando encontrar alguma segurança naquele abraço desajeitado. Ling sabia que Jin estava atordoado com aqueles acontecimentos e pouco poderia fazer quando o objetivo era acalmar, embora seu tom de voz ainda fosse o mais seguro possível. Um tom suave poderia acalmar e trazer confiança, e ele era bom nisso.
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- E aí, maninho? – disse Cassie, parada bem na porta.
- Você aqui?
- E por que a surpresa? – saiu da porta, aproximando-se da cama e abraçando o irmão.
- Não esperava te ver agora.
- Ah, posso dizer o mesmo. – riu, fazendo piada, munida de seu melhor sorriso para enfrentar aquela situação. – Eu vim trazer as suas coisas. Acho que com isso aqui você pode tentar manter sua sanidade mental.
- Como espera que eu mantenha algo que nunca tive? – foi a vez dele fazer piada.
- Como assim nunca teve? Quem te disse isso?
- Você mesma.
- Ah, tá. Já entendi. Mas isso foi antes, esquece.
- Antes do quê?
- De muita coisa, você sabe. Não vou falar agora porque eles estão lá fora, mas sabe o que eu estou querendo dizer.
Adam realmente sabia ao que ela estava se referindo. O segredo que eles guardavam, o maior segredo que tinham na vida. Algo que quando foi descoberto deixou-os mais unidos pois era maior que os simples laços sanguíneos. Uma prova de confiança mútua e responsabilidade porque ser um ranger era muito maior que muita coisa que conheciam.
- Não faz sentido sua opinião ter mudado só por isso.
- Tem que ter muita sanidade pra fazer aquilo, Adam. É de enlouquecer. E você fez durante três anos.
- Tem que ser insano também. Devo ter sido a maior parte do tempo.
- Bom, se insanidade for requisito, foi por isso que a Katherine me escolheu. – riu, e ficou tranqüila ao ver seu irmão rindo também – Eu não sabia muito bem o que podia trazer, então vê se fiz certo.
Abriu a mochila, tirou as poucas sacolas uma a uma. Não era muito, quase nada aos olhos dos pais ou da irmã, mas para Adam se não fosse muito, talvez fosse o suficiente.
- ... não tem problema quanto a isso, porque posso pegar pra você.
- Hã? O que foi?
- Eu tô dizendo que livros não vão ser problema. Eu posso trazer da biblioteca, se é que você já não leu aquilo tudo. Aliás, eu achei que fosse voltar de Nova York cheio de livros. Pelo que eu percebi não trouxe nada.
- Não tinha tempo pra ficar saindo. Baxter estava me fazendo treinar que nem um condenado pra um torneio.
- Um torneio? – perguntou, surpresa. Há tempos esperava que isso acontecesse e ficou zangada por não saber disso antes - Quando ia nos contar?
- Sei lá, quando estivesse tudo certo. Agora não vai mais fazer diferença porque esse torneio já acabou pelo menos pra mim. De qualquer modo o ginásio nunca foi um ambiente muito propício a cultura. – fez uma última piada, que serviria para mudar de assunto e perguntar pelos pais. – E os dois?
- Conversando, lá fora no corredor. – estava concentrada, olhando ao redor, observando os detalhes do quarto onde seu irmão passaria uma boa parte do tempo. Não demorou muito fazendo isso, pois logo voltou a se concentrar apenas nele. – O que está achando?
- Do quê?
- Do hospital?
- Ah... não é um hotel cinco estrelas mas acho que vai dar pro gasto.
- Engraçadinho! – deu-lhe um tapinha sem força no ombro, que mais tarde se transformaria em um hematoma. – Estou falando sobre você ficar aqui. Acha que consegue?
- Mas é claro. – sorriu, tendo no tom de voz toda a certeza do mundo. "Eu preciso conseguir", pensou, sem o mesmo humor com que a respondeu.
- Isso que é ânimo! Só espero ver tanta animação quando eu vir aqui pra te encher a paciência. Vou vir aqui direto pra te fazer companhia.
- Não preciso me preocupar, Cassie. Você não vai ter tempo pra isso.
- Como sabe?
- Experiência própria. Nunca tive tempo pra muita coisa.
- Como não? Você tirava boas notas, treinava no ginásio, me ajudava a ensaiar... – começou a enumerar.
- Eu fazia tudo isso? – perguntou, surpreso. – Era loucura, até hoje não sei como consegui agüentar.- esfregou os olhos - Perdi a contas de quanta desculpa esfarrapada já tive de dar por aí. Fora o fato de que eu dormia em qualquer lugar.
- Eu lembro. Perdi a conta de quantas vezes te encontrei desmaiado no sofá. Aí ficava imaginando a razão disso. Eu fazia a mesma coisa e não tinha esse sono todo. Fora que vivia dolorido.
- Você devia achar que eu estava metido em encrenca.
- Às vezes sim. Acho que os dois lá fora pensavam isso bem mais que eu. Na realidade, pensava que você devia ser um desastre ambulante sem a mínima consciência corporal.
Ele riu, afinal saber qual era o pensamento de sua irmã a seu respeito não deixava de ser engraçado. Mais engraçado ainda era lembrar que ela passaria pelo mesmo.
- Espero que sua imaginação funcione bem nesse período. Talvez seja mais fácil pra você inventar desculpa esfarrapada. Fiz isso praticamente três anos e cada vez que eu precisava contar uma história, era quase um parto. Ainda mais com eles me olhando com aquela cara de descrença. Não era fácil.
- Mas você gostava. – concluiu Cassie, embora ainda esperasse uma resposta.
E ela veio, sem que Adam precisasse hesitar.
- Acho que foi a melhor coisa que já fiz na vida.
Ao ouvir aquilo, ela teve um gesto imediato, apertando sua mão sobre a dele, como se entendesse e o apoiasse. Teve como resposta um sorriso triste da parte do irmão e um silêncio que pareceu ser o único ato cabível.
Passaram-se ainda alguns minutos até seus pais entrarem no quarto, parecendo não saber muito bem o que fazer ou dizer. Reação natural, já esperada, então Adam não reclamou. Em pouco tempo o médico também entrou para fazer os primeiros procedimentos daquele tratamento longo que o esperava. Basicamente, um cateter levaria os remédios para uma veia profunda, e dali tudo aconteceria. A ele caberia apenas manter o braço o mais quieto possível para não retirar a agulha, seguir as recomendações e agüentar os efeitos colaterais. Para quem ouvia parecia fácil, mas Adam sabia que não era. Não que soubesse muito sobre leucemia, mas o pouco que sabia poderia assustar. Apenas poderia, porque incrivelmente saber disso não o assustou.
Uma picada de agulha e a ardência desconfortável da primeira dose dos remédios foram o início de tudo.
