Capítulo 11
A garota estava voltando para casa. De carro a distância era menor, mas naquele dia sinceramente preferiria ter ido a pé. Talvez dirigir não fosse a melhor opção, por mais que fosse preguiçosa. Por mais que gostasse de dirigir, não gostaria de ter de se concentrar em algo mais do que nas horas anteriores.
Aliás, preferia esquecê-las.
Chegando em casa, trocou meia dúzia de palavras sem importância com os pais e foi imediatamente para o seu quarto. Trancou a porta, jogou a bolsa em um canto qualquer e sentou-se pesadamente na cama. Abaixou a cabeça, perdeu os pensamentos olhando para o nada por alguns bons instantes até aqueles momentos começarem a remoê-la. A chegada da mãe dele na rádio, aquela expressão triste, a voz se esforçando para ser serena...
- Tanya, eu preciso te contar uma coisa... é muito sério.
Poderia ser qualquer coisa, mas sabia que era sobre Adam. Algo tinha acontecido a ele. Sempre que a via na rua, sempre estava sorrindo, sempre a cumprimentava, sempre um assunto agradável, mas não tinha sido assim naquele dia. Não podia lembrar com exatidão as palavras que usara para dar a notícia, mas lembrava do seu tom de voz e do olhar triste. Suficientes para fazer crer que não era uma brincadeira de mau gosto.
- Ele está no hospital tem uns dois dias. Eu achei que você devia ser a primeira a saber. Vocês sempre foram tão próximos...
Também não lembrava de sua reação. Apenas que fora ruim pois sentiu as mãos dela em seus ombros, oferecendo um copo d´água e dizendo-lhe que precisava ficar calma.
Não dava pra acreditar que estava acontecendo. Não com Adam. Não podia! Era jovem, sempre tinha sido tão forte! Ele tinha sido um ranger! Como podia estar acontecendo?
Era demais pra sua cabeça. Por mais que fosse, tentou reunir serenidade e calma suficiente para ir vê-lo. Óbvio que não ia deixá-lo sozinho. Se fora a primeira a saber, como a Sra. Park dissera, Adam não devia ter recebido nenhuma visita!
E assim o fez, horas depois. Tempo que demorou a se recompor minimamente. A Sra. Park ficou por ali até que se acalmasse. Nesse meio tempo algo parecido com uma conversa. Perguntou a ela como Adam estava, como tinha reagido, coisas poucas, apenas para saber qual era o estado de espírito dele, tentar calcular um modo de puxar uma conversa com ele. Não acreditou muito quando ouviu a resposta.
- Está calmo.
Como assim calmo? Como poderia estar calmo? A doença dele era quase uma sentença de morte, e todo mundo que ouvia esse tipo de coisa deveria estar em pânico! No mínimo angustiado. Para sua surpresa, era apenas a verdade, pois quando o viu acabou descobrindo que estava muito mais nervosa que ele.
Sou uma idiota!, pensou, recriminando-se por sua atitude dentro do hospital. Antes de sair da rádio, preparou-se psicologicamente, temendo o que encontraria, mas ao chegar lá mal soube o que fazer! Esperava nervosismo, angústia, mas vê-lo calmo daquela forma apenas deixou-a mais confusa.
Mas não era importante. Precisava pensar nele, e no que poderia fazer pra ajudar. Iria sim visitá-lo todos os dias, como tinha prometido. Se não podia ajudá-lo de forma concreta, um pouco de companhia faria bem, embora tivesse a sensação de fazer muito pouco. Ainda não conseguia imaginar como Adam estava se sentindo diante disso. Não eram perguntas para as quais havia resposta em se tratando dele, embora pensasse que saber delas talvez pudesse ajudá-la a saber como deveria agir.
Deitou-se na cama, cansada. Sua cabeça parecia pesar uma tonelada depois do impacto da notícia. Seria uma noite de insônia, com certeza, mas ao menos teria motivos pra isso.
Todos os seus pensamentos durante aquelas breves horas de descanso foram para ele.
Por que, meu Deus? Por quê?
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Tanya não foi a única a ter uma noite insone.
Adam mal conseguiu fechar os olhos. Sentia-se mal. Enjôos, dor de cabeça. Nada que não estivesse acostumado a disfarçar enquanto estava em Nova York, mas não a ponto de poder ignorar e dormir. Então se manteve quieto, de olhos fechados. Assim não incomodaria seu pai, que estava sentado numa poltrona. Não sabia se ele estava ou não dormindo. Poderia estar vigiando-o. Não duvidava que ele fosse capaz de uma coisa dessas. E num hospital teria a desculpa perfeita para isso.
Riu ao pensar nisso. Uma boa distração para os problemas, embora a dor de cabeça aumentasse a cada vez que o fizesse. Era melhor rir do que reclamar e não reclamaria por não ter esse direito, pelo contrário. Era culpado. Sentia-se mal com isso, e pensar dessa forma apenas fazia piorar todo o mal estar.
Mas de que outro jeito poderia pensar? Não foi culpa sua estar naquela situação agora? Ninguém o forçara a pegar naquele morfador. Também não tinha sido falta de aviso. Alpha e Carlos ainda tinham gritado para que não fizesse isso... mas não se importou. Ser novamente o ranger preto foi uma escolha sua. Apenas sua. Não havia culpados senão ele mesmo. Ele, como fazia questão de se lembrar todos os dias desde a primeira vez que se sentira mal, era o responsável. Era ele quem tinha de pagar por seus atos, embora não pudesse evitar que outras pessoas pagassem e sofressem por sua causa.
Seu pai, sentado na poltrona ao lado, pouco mais distante era um claro lembrete de sua maior culpa. Ele não devia estar ali, mas insistia em estar perto. Por enquanto não tinha reclamado sobre sua presença. Ainda não tinha passado uma semana de internação, e tinha esperanças de que aos poucos pudesse ir se habituando e acabasse retomando a vida. O mesmo poderia dizer de sua mãe, de Cassie então! Estava muito preocupado com ela. Sua irmã aparecera já de noite, expressão cansada só para visitá-lo.
- Se eu não venho agora, não vou te ver em horário nenhum, tartaruga. – justificou, dando de ombros com aquela cara como quem diz que não se importa, que o sacrifício vale. Não havia sermão sobre os deveres como rangers que poderiam funcionar naquele momento. Cassie era bastante passional e nunca iria ouvi-lo. Era teimosa o suficiente para resistir a qualquer bronca de irmão mais velho.
Tinha Tanya também... sua visita, a primeira que recebia desde a internação, também teve os seus momentos de ansiedade. Dava pra ver em seus olhos que ela mal sabia o que fazer. Justo Tanya que sempre tinha uma palavra para qualquer coisa, fosse uma provocação ou um elogio!
De qualquer modo naquele momento ela não soube mentir. Nem teve como. Adam podia perceber o quanto estava nervosa, chocada com a situação. Incrédula, talvez tivesse descoberto pouco tempo antes da visita. Talvez não conseguisse mesmo esconder.
Adam sabia que sua doença era um choque para muita gente. Não condenaria ninguém por isso. Se não tivesse feito o que fez, também se surpreenderia.
Mas não era o caso.
Não sabia o que podia acontecer agora, mas esperava que o tempo passasse pra descobrir. Torcia também, embora no fundo já soubesse qual era a resposta: eles nunca o deixariam pagar sozinho.
Nada mais restou a não ser respirar fundo e suportar. E também esperar.
