Capítulo 12

Capítulo 12

Uma semana se passou, aos trancos e barrancos.

Adam estava certo quanto ao seu pai. Ele não se acostumaria com a idéia. Continuava lá, no hospital, como se não tivesse mais nenhum compromisso na vida. Sempre estava no quarto ou nos corredores, sem dar atenção a qualquer queixa sua a respeito da presença constante. Não adiantava dizer que a qualquer hora poderia confundi-lo com a mobília do quarto ou uma peça de decoração. A teimosia dele também era suficiente para agüentar queixas de um garoto mimado – ainda que para Jin fosse um absurdo chamar seu filho de mimado, mas era apenas uma provocação, Adam sabia disso.

Não poder estar sozinho era um grande incômodo para ele. Não havia momento pra isso. Sempre estava seu pai, sua mãe, a irmã... e Tanya que voltara, para cumprir a promessa. Religiosamente.

A presença dela era quase um bálsamo. Não era algo imposto e sempre tinham assunto para qualquer conversa. A voz melodiosa de sua amiga era um alento para ele, do qual não era órfão de modo algum. Seu rádio estava sempre sintonizado no programa que ela apresentava. Fazia o tempo passar um pouco mais rápido entre aquelas paredes. Não sabia se era algo bom, mas pensava que simplesmente saber que o tempo ia passar era um alento. Talvez fosse loucura sua, mas tinha a sensação recorrente de que estava vivendo um imenso deja vu;

Seu estado também não ajudava muito. Sentia-se cansado por qualquer razão. Ainda conseguia disfarçar, mas sabia que não poderia durar muito tempo. A qualquer hora seu pai perceberia a grande odisséia que lhe parecia simplesmente ir ao banheiro, que ficava a alguns passos de distância. Sabia que o seu mal estar já era um motivo de preocupação, mas que ainda não afetava tanto sua mínima independência. Não queria depender de todos para tudo. Por isso guardaria para si tudo o que pudesse, pelo tempo que fosse possível.

Apenas um pouco de paz. Talvez se tivesse paz as coisas pudessem parecer melhores. Nem falava mais em sono. Seria pedir demais. Hospitais não eram o melhor lugar para passar as noites. E as suas não eram de um sono normal, apenas de breves cochilos. A insônia era companheira.

Era de noite, mais uma daquelas em que não iria conseguir dormir, quando Cassie chegou. Ao entrar, sem fazer barulho viu-o de olhos fechados, pensando que estava dormindo e ficou desanimada. Mesmo assim se aproximou e sentou ao lado da cama, só para vê-lo melhor.

- Cassie? É você?

- É, sou eu... mas? – pareceu confusa. – Te acordei?

- Não, eu não estava dormindo. – justificou. – Eu conheço o som dos seus passos. Reconheço quase todo mundo que entra aqui. Mas o que está fazendo aqui a essa hora?

- Se eu não viesse agora, que horas eu poderia vim ver o meu irmãozinho?

- Não devia ter vindo, Cassie. Você deve estar exausta.

- Nem tanto. Não tem que se preocupar com isso, está tudo bem. – colocou sua mão por cima da dele e sorriu. – Como se sente?

- Normal, meio enjoado. – sorriu de volta para a irmã. – Como foi o seu dia?

- Daquele jeito, né? Um monstro aqui, Astronema acolá... eu queria vir mais cedo pra te encontrar acordado mas ela não deixou. Ela queria se divertir um pouco antes.

- Eu demoro muito a dormir, Cassie. Esse problema você não vai ter. – explicou, sem se referir a insônia que o perseguia. – Está machucada?

- Não. Foi leve hoje.

- Então aproveite, que hoje você deve dormir fácil-fácil. Aliás, não é hora pra estar aqui. Deveria estar dormindo.

- Não estou na rua por qualquer razão, Adam.

- Sei que deve estar achando que sou um chato implicante, mas uma hora vai perceber que não tem outro jeito. Eu só quero o seu bem.

- Sei disso, embora não mude o fato de ser realmente chato e implicante. Mas não tem problema, eu amo meu irmão de qualquer forma.

Ela abriu os braços, bem humorada e recebeu dele um abraço e um sorriso que valeram muito.

- É, eu também amo a minha irmã rebelde. E agora, que tal você ir embora?

- Puxa, quer se livrar de mim mesmo. Não quer que eu passe a noite aqui?

- Não, nem um pouco. Já tem um guarda costas lá fora, não preciso de outro.

Riu, sabendo que estavam falando do pai, que estava no corredor tomando café.

- Tudo bem, já entendi o recado. – colocou a bolsa no ombro, pronta para levantar. – Mas amanhã eu volto.

- Desde que seja num horário normal...

- Babaca. – xingou-o carinhosamente. – Não conte com isso.

Abaixou e deu-lhe um beijo no rosto antes de sair. Desejou boa noite, sem saber que ele sofria com a insônia, e afastou-se sem fazer barulho. Atravessou o corredor na ponta dos pés para que o pai não a visse, e respirando aliviada ao sair de sua vista. Caso contrário teria de agüentar um interrogatório repleto de desculpas esfarrapadas, como vira seu irmão fazer algum tempo atrás.

Não demorou e Adam ouviu os passos do pai voltando ao quarto. Os olhos permaneceram fechados. Não queria forçá-lo a uma situação de conversa. Aconteceria se o visse acordado. Pelo som dos passos soube que ele se aproximou da cama. Sentindo o movimento do ar, sentiu que provavelmente estava sendo analisado com calma, o rosto principalmente, esquadrinhado por olhos atentos e perspicazes. Encontraria a mesma coisa: sua palidez, sua aparência abatida, as olheiras do qual suspeitaria mais tarde. Nada de mais.

Manteve a respiração leve, e uma expressão plácida. Não era tão difícil assim fingir que estava dormindo. Ele parecia ter acreditado, pois sentiu a mão morna e afetuosa fazendo um afago rápido em seu rosto. Um momento furtivo apenas. Seu pai não era uma daquelas pessoas que davam grandes demonstrações de carinho a qualquer hora. Era rígido demais pra isso, também era indiscutivelmente ligado aos filhos. Estar ali no hospital era uma das maiores provas que podia dar desse amor.

Adam sabia reconhecer. Por isso não daria mais motivos para deixá-lo mais preocupado. Era o máximo que podia fazer. Talvez a única.

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Um novo dia. Uma nova manhã.

Adam nunca estava sozinho. Sua mãe estava lá, numa visita rápida antes de ir para o trabalho. Ling encontrou seu filho com a aparência de quem não dormia há tempos. Não o condenava por isso, afinal hospital não era um bom lugar pra nada, ainda mais naquelas circunstâncias. Dele, não ouviu queixas, resmungos nem nada. Parecia encarar tudo aquilo com uma resignação e estoicismo ilimitados. No lugar disso, um sorriso sem graça que deixava transparecer ao menos o seu tédio. Ainda assim, um tédio do qual ele não falava, mas lutava com as armas que podia: um discman e livros.

Aliás, Adam pouco falava. Preferia ouvir. Era um custo ouvir sua voz, respondendo apenas o que era perguntado, especialmente aos médicos. Ainda assim, poucas palavras. Também não fazia perguntas sobre os remédios e o tratamento, nem se queixava do mal estar. Preferia gastar sua voz com quem realmente interessava e não com o médico ríspido. Afinal ele certamente não se importava com esse silêncio. Talvez até o preferisse. Era muito mais útil falar com quem realmente queria ouvi-lo: seus pais, sua irmã, Tanya... de qualquer modo, continuava falando pouco, mas por falta de assunto.

- Garoto, você está muito quieto. – Ling se queixou.

- Ah, então preferem que eu levante da cama e coloque fogo na enfermaria? – perguntou, rindo mansamente. Quem visse poderia acreditar que era uma resposta malcriada, mas Ling sabia que não era o caso.

- Engraçadinho. – olhou enviesada para o filho, que riu sem graça e se desculpou em seguida, com medo de ser mal interpretado. – Não precisa pedir desculpas, entendi o que quis dizer. Só estou preocupada com você, não estou acostumada com todo esse silêncio.

- Não tenho muito assunto pra gastar numa conversa. Não acontece muita coisa desse lado do hospital.

- Imagino que seja mesmo entediante. Nós vamos dar um jeito nisso, certo?

Adam deu de ombros, como quem simplesmente acata. Ling aceitou, embora preferisse ouvir sua voz. Vê-lo daquele jeito a preocupava.. Tinha medo do que a mente fértil e solitária de seu filho poderia pensar e fazer com a própria saúde. Geralmente era desse jeito que a depressão começava. Será que o seu silêncio seria o maior inimigo?