Capítulo 15
Manhã.
No hospital não havia mudado muito. Adam continuava tentando lutar contra o desconforto do tratamento e o ócio interminável... mas esperava que fosse diferente dessa vez.
Naquela manhã, decidiu tentar ler um livro que Cassie lhe levara na noite anterior. Pensava que ler seria algo que pudesse fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Uma distração possível? Pensava esperançoso. Seria bom se fosse. Seria ótimo afinal tempo era algo que não lhe faltava ali. Naquele quarto sem relógio, tempo era simplesmente algo que não existia, não passava. Era cada dia mais difícil tentar se distrair mas lançava mão de todas as armas ao seu alcance. A leitura era uma delas.
Temia os enjôos. Sabia que provavelmente tornariam a leitura algo mais difícil. Tinha o medo secreto de acabar sujando o livro caso algo mais sério acontecesse. Não dizia nada a ninguém, mas Cassie certamente lembrou-se de levar algo para ele. Devia ter sido bem fácil para ela conseguir algo na biblioteca do colégio, afinal pela sua ficha, já dava pra perceber quais os seus gêneros preferidos.
De fato ela tinha acertado. Um livro de suspense. Cassie sabia ser legal quando queria.
É, talvez aquele dia prometesse algo diferente.
ooOOoo
Dois dias depois. Nenhuma mudança. Adam parecia enjoado, abatido. Foi isso o que Cassie constatou quando foi visitá-lo em uma tarde.
- Addie, tá sentindo alguma coisa?
- Por que a pergunta, Cassie?
- Você está tão pálido...
- Efeito dos remédios. É normal.
- Humm... certo – fingiu aceitar a explicação – E então? Leu o livro que eu trouxe?
- Li um pouco, mas ainda não terminei.
Cassie pegou o livro que estava sobre uma mesinha ao lado da cama. Não era um livro grande, mas o marcador de páginas ainda estava longe da metade. Achou estranho, afinal seu irmão sempre fora um devorador de livros. Alguém que lia tão rápido que tinha o apelido de flipbook.
- Pode deixar mais um dia? Eu acabo com ele amanhã.
- Sim, claro. Eu falo com a Elize. – referiu-se à bibliotecária.
Cassie sabia que não era por falta de vontade. Imaginava que os remédios fossem responsáveis por isso. Talvez os desconfortos fossem maiores do que ele realmente quisesse admitir. E aquilo a entristeceu.
- Que cara é essa, Cassie? Tá enjoada com o cheiro do quarto? Sai um pouco que melhora.
- Não, não é nada disso.
- Então o que foi? Está chateada?
- Só tô meio cansada. – disse, torcendo para que ele acreditasse naquela desculpa – Fiquei rolando na cama sem sono ontem à noite.
- Está machucada?
- Não. Por que a pergunta?
- É que as vezes eu não conseguia dormir quando me machucava. Hematoma que doía, arranhão incomodando... – disse, rindo um pouco, como se as lembranças o divertissem – Por que não vai pra casa e tenta descansar um pouco?
- Não tô a fim de sair daqui.
- Não vou morrer se você sair. Você precisa estar inteira. Nunca se sabe quando vai precisar lutar. Pense na humanidade.
- Prefiro pensar em você.
- Eu achei que também fizesse parte dela...
- Boboca!
- Tô falando sério. Não tem que se preocupar. Não dá pra ficar sozinho em um hospital. Além disso daqui a pouco o guarda-costas vai chegar – referiu-se ao pai. – Eu não posso ceder a minha cama pra você.
- Tá bom, tá bom... você venceu. – aceitou, já sabendo que não conseguiria argumentar. E também porque costumava seguir seus conselhos no que dizia respeito a ser ranger. Seu irmão era o seu maior exemplo. Sempre o ouviria nessas horas. – Quer alguma coisa da rua?
- Não, obrigado. Não esquenta a cabeça.
- Certo. – levantou-se da cadeira e abaixou-se para lhe dar um beijo no rosto. – Tchau.
- Tchau.
Segui-a com os olhos até que ela saísse e, percebendo-se sozinho, suspirou. Queria mudar de posição, mas não era tão fácil. Exigiu esforço de sua parte, acabou cansando-o.
Com mais algum esforço, esticou o braço para pegar o livro. Prometera a Cassie que ia terminá-lo e assim pretendia fazer.
Abriu onde o marcador de páginas lhe indicava que havia interrompido a leitura. Assim que achou o ponto exato começou a ler, tentando fazê-la em sua velocidade costumeira, mas não durou muito tempo. Alguns breves minutos depois, começou a sentir-se mal. Respirou fundo, de olhos fechados, para pouco depois tentar novamente.
Começou a ler, mas após quase duas páginas, as frases pareciam se arrastar. Sem demora, parecia não haver mais palavras, e sim códigos espalhados no papel.
Céus... eram apenas palavras! Por que não conseguia decifrá-las?
Foi em meio a esses pensamentos que começou a sentir um gosto estranho na boca. Sua saliva tinha agora um gosto ruim. Aliás, já conhecia muito bem essa sensação e queria fugir dela a todo custo.
Não pôde conter. Logo aquilo tornou-se mais forte. Acabou virando o corpo e vomitando em uma espécie de tigela, que tinha exatamente essa finalidade.
Limpou a boca com as costas da mão, enquanto tentava normalizar a respiração. Tentava também concentrar-se em qualquer outra coisa para esquecer o gosto ruim. Quis levantar, mas preferiu não se arriscar. Sentia-se mal. Fraco, e tentar ir ao banheiro sozinho não lhe parecia uma boa idéia.
Pegou o livro, que jogara em qualquer lugar da cama antes de vomitar. Segurando-o com as duas mãos, deu uma boa olhada para a capa e manteve seu olhar fixo ali por segundos que lhe pareceram eternos. Chateado, colocou-o de volta na mesa ao lado, admitindo para si mesmo que não conseguiria lê-lo.
Encostou-se, novamente no travesseiro, deitando. Triste com aquilo, fechou os olhos e tentou dormir, querendo esquecer.
Encostada atrás da porta, Cassie viu toda a cena. Tinha apenas saído do quarto para deixá-lo sozinho e dar-lhe mais privacidade, pois não pensava em deixá-lo antes que o pai voltasse. Sentiu os olhos marejarem ao perceber que era verdade: seu irmão sofria bem mais do que admitia.
Controlou-se, tentando evitar um soluço, o que denunciaria a sua presença. Apenas afastou-se rapidamente, querendo prender as lágrimas até chegar a qualquer lugar onde pudesse chorar. O que aconteceu pouco mais adiante, em um parque, sentada debaixo de uma árvore.
ooOOoo
Quando Adam acordou, seu pai já estava de volta ao quarto. Fechou os olhos novamente para que ele não percebesse que estava acordado. De qualquer forma, ainda sentia-se cansado. Não sabia quanto tempo havia dormido, mas sentia uma queimação incômoda por ter vomitado. Talvez ficar de olhos fechados pudesse ajudá-lo a melhorar.
Foi desse jeito que passou boa parte da tarde. Por vezes, acabou realmente cochilando, o que o fez descansar um pouco, mas não o suficiente para aliviar a dor. De qualquer forma, suportou quieto. Aquilo não lhe parecia pior que esconder as tonturas ou a fraqueza, então não foi difícil de disfarçar. Ao acordar de mais um de seus cochilos, agiu normalmente, como se não sentisse qualquer incômodo. Quando seu pai lhe perguntou se sentia alguma coisa, respondeu apenas que se sentia cansado.
De noite, Cassie voltou para visitá-lo. Adam fingiu ficar aborrecido ao vê-la, mas ambos sabiam que não era verdade.
- Você deveria estar na cama. - ele disse.
- Ainda não são nem dez horas.
- Como se nós tivéssemos horário pra alguma coisa...
Cassie riu, divertindo-se com aquela preocupação dele.
- Eu não ia conseguir descansar sem te ver antes, maninho. – deu um sorrisinho irônico para ele. – Como você está?
- Tranqüilo. Dormi quase a tarde toda.
- Não parece. – respondeu, observando as olheiras de seu irmão, agora começando a imaginar o que ele estava sentindo.
- Imagino mesmo que não.
Cassie olhou para o lado e viu o livro, exatamente como ele o havia deixado.
- Adam, você está com sono?
- Mais ou menos. Por que a pergunta?
- Quer que eu leia pra você?
- Ler pra mim?
- É... eu sei lá, achei que devia estar enjoado demais pra ficar lendo. E você não tem muito o que fazer por aqui. – pareceu envergonhada, tendo receio de ofendê-lo com a pergunta, ser invasiva, mas seu medo logo desapareceu ao vê-lo sorrir.
- Faria mesmo isso, Cassie?
Ela concordou, meneando a cabeça sem entender muito bem o que ele queria dizer com aquela pergunta. De qualquer forma, foi sincera em sua resposta.
- Você quer?
- Hoje está tarde.
- Amanhã então?
- Não prometa o que não pode cumprir, Cassie.
- Como tem tanta certeza disso?
- Já estive no seu lugar.
- Eu sei. Lembro disso, só que você nunca deixou de cumprir uma promessa ou faltou um compromisso.
- Não me cite como exemplo. Não sou exemplo pra ninguém, muito menos pra você.
- Até parece... – balançou a cabeça e riu, olhando para o seu irmão, desconsiderando o que acabara de ouvir. – Não estou cansada. Posso ler agora.
- Se quiser...
- Eu quero. – disse, estendendo a mão e pegando o livro.
Abriu na página indicada pelo marcador e começou a ler em voz alta, tentando se concentrar mais nas palavras escritas do que nas reações dele... mas quando o fazia, via nele uma expressão pensativa, porém leve. Adam estava concentrado no que ouvia, do mesmo modo que o fazia quando estava lendo.
Cassie sorriu discretamente, satisfeita. Naquele momento soube: seu irmão aceitara partilhar um momento. Reforçaram, naquele dia, o vínculo fraterno. Era bem mais que simplesmente amor. Ele, de certa forma, passara a aceitar partilhar também suas dores. Um elo a mais para uni-los.
