Capítulo 16
Sozinho no quarto, Adam tinha a expressão pensativa. Naquela manhã percebera o que seria o efeito mais visível do tratamento contra sua doença: a queda de cabelos.
Percebeu logo ao acordar, quando tentou prendê-lo ou deixá-los de um modo que parecesse ao menos civilizado para quem pudesse entrar naquele quarto para vê-lo. Ainda compridos, seu cabelo sempre ficava bastante bagunçado depois de horas intermináveis rolando na cama. Bastou passar a mão sobre ele para perceber a queda. Não uma queda de poucos fios, como seria o normal. Afastando um pouco o corpo e olhando para trás, pôde ver tufos em seu travesseiro, destacando-se no azul da roupa de cama.
"Droga..." amaldiçoou-se. Mais um sinal para deixar bem claro ao mundo que estava doente. Já não bastava a palidez, o enjôo e a fraqueza? Precisava ficar marcado, para que as pessoas o tratassem como um coitadinho?
Suspirou. Não podia fazer nada quanto a isso. Era sua culpa. Não podia reclamar. Não tinha esse direito.
"Preciso dar um jeito nisso." pensou, tentando pesar as possibilidades que tinha. Não podia resolver o problema sozinho: era um fato. Nunca um médico ou uma enfermeira em sã consciência entregaria uma tesoura em suas mãos. "Eu deveria ter pensado nisso antes..."
Não expôs o seu problema para mais ninguém. Manteve-se quieto diante do pai, agindo normalmente em sua presença. Sem queixas, mesmo que fossem pequenas. Pequenas conversas sobre assuntos amenos. Nada que o atrapalhasse em seu raciocínio sobre o que deveria fazer, embora realmente tivesse sido um pequeno alívio quando seu pai saiu, após receber um bipe em seu Pager. Percebeu seu pai desconfortável em ter de sair e deixá-lo ali, mas Adam convenceu-o de que ficaria bem, que poderia ir tranqüilo.
Algumas horas se passaram, no mais absoluto tédio para o jovem, lutando contra o enjôo para decifrar algumas frases de uma pequena matéria de revista e quase perdendo a paciência, até que a solução entrasse pela porta. Literalmente.
Tanya.
Ela entrou no quarto sorridente como sempre, descontraindo o ambiente que julgava ser pesado. Todos que entravam ali se esforçavam para isso, mas Tanya era quem parecia ter mais sucesso nessa empreitada. Talvez pelo fato de não ser alguém de sua família, de serem amigos... mais que amigos, pela opinião dos outros. Talvez pelo fato de, enquanto conversarem, o assunto nunca faltar, como se ele surgisse magicamente. Quem sabe pelo fato de se entenderem, às vezes, com um único olhar?
Fosse como fosse, Adam julgou que ela fosse a pessoa certa. Com certeza, mas ainda assim, apesar de sua convicção, demorou algum tempo para tocar no assunto. Estava com vergonha, tinha receio em lhe pedir favores: o último fora demais para ela. não queria mais envolvê-la em seus problemas. Queria um pouco de leveza, estava cansado disso. preferiu desfrutar da companhia de sua amiga, fazer com que as horas passassem mais rápido. Era tudo o que precisava.
- Adam, tudo bem?
- Tudo, mas por que essa pergunta?
- A sua cara...
- É a minha cara de sempre.
- Você parece triste.
- Impressão sua. – despistou.
- Ou preocupado. Está preocupado com alguma coisa?
- Não, não estou.
- Adam, você não me engana.
- Estou falando sério.
-Está? – levantou uma sobrancelha, numa expressão inquiridora – Mesmo? Não parece, será que não está esquecendo de contar nada?
Viu-o rir, olhando para o chão sem encará-la. Estava certa. Bem que percebera algo diferente quando o viu. Não sabia explicar bem o que era, somente que talvez algo o estivesse incomodando. E se fosse verdade, era melhor fazê-lo falar.
Ele não respondeu com palavras. Apenas passou a mão pelos cabelos levemente cacheados, tirando uma mecha que parecia solta, estendendo-a em direção a amiga para que ela visse e finalmente soubesse.
Tanya suspirou, compreendendo.
- Está aborrecido com isso?
- Aborrecido não é a palavra... é que... – ela viu-o hesitar, não por medo mas sim por procurar as palavras que lhe parecessem certas. – Eu vou ficar marcado. Quem me vir vai saber que estou doente e...
- Mas já está bem claro o fato de que está doente. Não está num hospital a toa!
- Não precisava ficar mais evidente do que já era. Agora, quem me ver assim vai me tratar como se fosse um coitadinho. Vão ter pena de mim. Eu não quero ter a piedade das pessoas, Tannie. Já está sendo ruim sem isso. Não preciso de mais nada pra fazer com que eu me sinta pior.
- Sente-se mal? – perguntou, disposta a ouvi-lo. Não era muito comum que Adam falasse, ou reclamasse de algo. Se ele queria falar, Tanya queria ouvi-lo.
- Não... não é isso. É que... não, não é nada. Esquece isso, Tanya. É bobagem minha.
- Adam...
- Estou falando sério. É bobagem a minha.
- Okay... não vou insistir. Se não quiser falar, não fala. – fez uma pequena pausa, observando-o, percebendo como o amigo olhou-a, como se estivesse agradecido por ela ter encerrado o assunto. – Mas precisa resolver esse problema do cabelo... não deve ser higiênico.
- Realmente não é. Posso deixar que caia tudo naturalmente mas... é incômodo. Só que não tenho quem me ajude com isso, e ninguém aqui vai me dar uma tesoura pra resolver isso.
- Eu poderia ajudar?
Viu o amigo sorrir, abaixando a cabeça por poucos instantes e parecendo envergonhado.
- Era isso que eu queria te pedir...
- Ah, mas eu sabia que você queria alguma coisa de mim. Eu já estava com medo de saber o que era!
- Puxa, obrigado pela confiança! – ele disse, ironicamente, num tom falsamente ofendido. – Bom saber que pensa tão mal de mim.
- Da última vez que me pediu um favor, eu tive de esconder uma coisa séria do seu pai.
- Não precisa me lembrar, Tanya. Já faço isso todos os dias.
Tanya sentiu-se mal pelas palavras do amigo, mas procurou não demonstrar. Sabia que não dissera isso com intenção de magoá-la, ou coisa parecida. Ele feria a si mesmo... e saber que Adam fazia desse jeito, a feria também de uma forma que não sabia explicar.
- Bem, se você me arranjar uma tesoura, eu mesmo posso dar um jeito nisso. – Adam disse, quebrando o silêncio momentâneo.
- Não. Eu mesma vou fazer isso. Não sou maluca de deixar uma tesoura na sua mão.
- O que está querendo dizer com isso?
- Nada. Com quem eu devo falar?
Em poucos minutos, Tanya já tinha tesoura e máquina para raspar o cabelo. Mais rápido do que ambos puderam imaginar.
- Primeiro eu vou cortar com a tesoura mesmo... só pra evitar que o seu cabelo fique preso, certo?
- Faça como achar melhor.
- E então? – Tanya empunhou a tesoura, de forma que a fez parecer uma renomada cabeleireira – O que vai ser?
- Humm... quero uma mudança radical. O que sugere, minha cara estilista capilar?
- Máquina zero!
Ambos riram com o que mais parecia ser uma conversa de malucos, mas não havia outro jeito de fazer aquilo. Optaram, inconscientemente por um pouco de alegria e evitar que o pesar e o constrangimento fossem maiores que o inevitável.
Os dedos de Tanya tocaram os cabelos de seu amigo num gesto quase cerimonioso. Enrodilhou os cachos desalinhados de um jeito suave, tentando crer que aquele momento fosse real. E sem demora, o som da tesoura preencheu o silêncio torturante de um momento que prometia ser muito duro.
As mechas logo estavam caídas no lençol branco da cama, sucumbindo ao corte afiado da tesoura nova.
Adam tentava se concentrar, buscando o som de sua própria respiração. Sentia o toque gentil de Tanya, ajudando-o mais uma vez a cumprir mais uma etapa daquela jornada. Ao mesmo tempo que sentia a frieza do metal arrepiando sua pele, as mãos dela eram quase um afago. Pareciam uma espécie de incentivo, ou um consolo naquele momento.
Logo o lençol estava tomado pelos cachos, deixando Tanya mais segura para usar a máquina. Um som bem mais cruel que o da tesoura, mas com o qual ambos, cada um de seu modo, tentavam não se incomodar. E em pouco tempo a aparência de Adam já estava completamente diferente. Havia apenas o rosto pálido, os olhos tristes, cansados mas agradecidos. Ao fim, ele passou a mão sobre a própria cabeça, sentindo as mudanças.
Olhou para Tanya, que acabara de sentar ao seu lado, dividindo o espaço no colchão. Sentiu a mão dela fazendo a mesma coisa, com um toque diferente... um outro olhar. Um carinho? Piedade? Alentos? Adam preferiu não saber. Apenas prestou atenção nos olhos dela, sem querer decifrá-los, mas notando que estavam marejados. E vendo que ela não sabia o que dizer optou também pelo silêncio, abraçando-a como se também a consolasse, ao mesmo tempo em que agradecia.
ooOOoo
Quando Tanya voltou para casa, mal teve forças para fazer qualquer coisa. Sentia-se completamente esgotada, sem energia. Passou pelos cômodos, seguindo pelo corredor, ignorando a presença de sua família que jantava, tranqüilamente. Sua vontade era simplesmente cair em sua cama, ou no sofá, que era bem mais perto, do jeito que estava e dormir.
Infelizmente o senso de responsabilidade falou mais alto. Foi direto para o banho, tentando aliviar um pouco o cansaço que sentia, antes que sua mãe a mandasse fazê-lo. Aliás, tinha a nítida impressão de ter ouvido a voz de sua mãe atrás de si, mandando-a fazer isso.
Deixou que a água lavasse seu corpo, esperando também que lhe aliviasse os pensamentos. Normalmente dava certo, mas agora as preocupações pareciam bem maiores.
Enrolou-se na toalha, vestindo-se e saindo do banheiro, louca para deitar e dormir, mas assim que chegou ao quarto encontrou sua mãe, esperando-a sentada em sua cama.
- Dia ruim, Tannie? – disse a jovem senhora, observando a expressão de cansaço de sua filha.
- Só um dia cansativo.
- Aconteceu alguma coisa na rádio?
- Não, nada especial.
- Esteve no hospital?
- Claro. Eu não deixaria de ir lá por nada.
- E como ele está? – referiu-se a Adam.
- Está bem, na medida do possível. – suspirou.
- Não parece. Aconteceu alguma coisa com o garoto?
- Não... ele só estava chateado.
- Ele tem mesmo razão para estar assim, afinal ficar enfiado naquele hospital não é fácil. Ainda mais com a doença que ele tem.
- O tratamento não está sendo fácil, mãe. Os efeitos colaterais são muitos... o cabelo dele começou a cair.
- Inevitável. – suspirou. – Uma hora isso acontece.
- Eu o ajudei a raspar a cabeça. Ele não ia conseguir fazer sozinho, e acho que não queria pedir ajuda pra mais ninguém.
- Adam confia em você.
- Sim, confia. Afinal somos amigos, não somos?
- Eu diria que vocês são bem mais que amigos.
- Até você, mãe?
- Vocês dois são muito próximos, filha. Qualquer um diria isso.
- É, acho que sim. Todo mundo diz isso. – faz uma voz aparentemente entediada, mas que em nada tinha de tédio. Era simplesmente cansaço. – Qualquer hora, de tanto que dizem vamos acabar acreditando nisso.
- Só vocês dois que não acreditam. – disse, sorrindo para a filha. – Você precisa descansar.
- Eu sei. Tô morta de sono.
- Então vou te deixar dormir antes que me expulse.
- Eu nunca te expulsaria do meu quarto!
- Mas nada te impeça que tenha a vontade de fazer isso. Agora relaxe e veja se durma. – levantou-se – Boa noite, Tannie.
- Boa noite, mãe.
A jovem senhora saiu, apagando a luz e deixando a filha sozinha com seus pensamentos. Sabia que ela tinha muita coisa na cabeça, e provavelmente precisava de um tempo a sós. Simplesmente saiu, fechando a porta devagar para não fazer barulho e afastando-se de lá com passos lentos, tendo nesse ato o mesmo propósito.
Tanya agradeceu mentalmente o fato de a mãe ter cortado o assunto e sair do quarto. Queria ficar sozinha, precisava mesmo de um tempo para si.
Pensar... todos diziam que era tão fácil... por que não era?
Todos diziam muita coisa. Não queria pensar nisso. Não queria pensar em todos quando na verdade queria pensar em Adam.
Seu amigo estava em seus pensamentos. Foi assim durante todo o dia, desde que saíra do hospital depois da última visita. O rosto pálido, seus olhos tristes... alguma coisa estava acontecendo com Adam. Algo mais o estava incomodando e ele não queria contar. Precisava descobrir o que era.
Intromissão de sua parte? Não, não achava que fosse. Adam era o seu amigo. Importava-se com o seu bem estar, preocupava-se com ele. Sabia que seus problemas eram sérios, pois sempre fora tão calmo, tão fechado... e se algo o incomodava, deveria ser realmente grave.
Adam estava triste... e saber disso e não poder ajudá-lo era horrível. Queria fazer mais do que apenas visitá-lo. Aquilo lhe parecia insignificante, afinal seu melhor amigo estava passando por algo semelhante a um pesadelo, com aquela doença e com aquele tratamento cruel. Visitá-lo não era nada. Absolutamente nada.
Não podia ignorar aquela tristeza em seus olhos. Tinha medo do que ela poderia significar, do que esse sentimento poderia levá-lo a fazer.
"Addie..."
A jovem adormeceu, levada pelo torpor do cansaço e pela sensação do abraço dele, grato. Um gesto silencioso, mas ainda assim repleto de significados, muito maiores do que simplesmente palavras.
