Capítulo 17
Algumas horas antes, hospital.
- Addie, o que...?
A voz grave e quase incrédula que tentava articular uma pergunta era de Jin Park. Pai de Adam que tentava fazer algo por seu filho doente, ainda que não soubesse o quê e nem como. Acabara de voltar para o hospital depois de uma saída rápida, e tinha certeza de que, quando saíra, seu filho ainda tinha cabelos.
- Estava caindo. – ele disse, tentando ignorar a expressão surpresa de seu pai, tentando fazer aquilo ser a coisa mais normal possível, embora soubesse que não seria assim tão fácil. – Estava caindo e eu fiquei incomodado demais pra esperar. Uma hora isso ia acontecer.
- Imagino que sim... mas você não comentou nada!
- Não achei que fosse preciso. Ainda não dava pra ninguém perceber já que eu fico o dia inteiro deitado aqui. Mas era chato tentar virar e dar de cara com tufos do meu cabelo.
- E quem fez?
- Hum? Não entendi?
- Quem raspou o seu cabelo? – tentou gracejar, quebrar um pouco do clima estranho gerado por sua desconfiança, mas temeu não ter sucesso. - Quer dizer, você não fez sozinho, creio eu. Não acho que alguém do hospital daria uma tesoura ou uma navalha nas suas mãos. Nenhum médico ou enfermeira entregaria algum instrumento cortante nas mãos de um paciente.
- Claro que não... óbvio. Eu até tentei mas eles não colaboraram. – riu, num pequeno gracejo, achando graça da obviedade e seu pai também acabou rindo. Sabia o que ele estava tentando fazer e não queria estragar suas tentativas. – Foi a Tanya. Ela esteve aqui, conversamos um pouco, enrolei um tempo... e acabei pedindo ajuda. Ela fez o trabalho duro. Depois uma enfermeira veio acertar com a navalha. Ficou bom?
A pergunta não era exatamente o que Jin esperava. Mas percebeu que, em se tratando de Adam, deveria esperar tudo. Aqueles dias estavam lhe mostrando isso. E este era um fato sobre o qual precisava pensar.
Mas precisava pensar direito. Isso envolvia a vida de seu filho. Era prioridade. E também precisava lhe dar uma resposta. Sabia que Adam estava tentando fazer o mesmo: descontrair, quebrar o clima ruim. Ele próprio começara, então tinha que ir até o fim.
- É... ficou. Sua amiga tem jeito pra cabeleireira. – constatou, passando a mão na cabeça do filho, descobrindo que não ficara um fio sequer – Deve ser muito prático. Acho que vou adotar um corte parecido.
- Não aconselho. O formato da cabeça é um item fundamental pra se adotar esse corte. Pelo menos pra quem vai fazer isso por opção própria.
- Ok, vou pensar no assunto. – fez uma pausa, para depois sua expressão assumir traços de dúvida – Tá me chamando de cabeçudo?
Conversaram outros assuntos, coisas mais amenas, bobas até. Riram um pouco, aliviando um pouco o clima estranho, típico de um ambiente hospitalar. Um modo ainda que desajeitado de deixar aquele assunto para trás. Adam sabia que não ficaria esquecido por muito tempo, sabia que seu pai pelo menos estranhara sua atitude, mas precisava fazê-lo perceber que aquilo era normal... ou pelo menos deveria ser encarado dessa forma.
Quer dizer, estava numa situação difícil. Sabia que o pai estava se esmerando para ajudar, mas não queria que ele visse tudo o que estava passando como um suplício, ou algo terrivelmente errado e se obrigasse a não ter uma vida. Não queria tirar seu pai do trabalho, nem afetar tanto sua vida. Precisava fazê-lo entender que iria ficar bem, de um modo ou outro.
Por fim, sentiu sono. Fruto de noites mal dormidas, que rendiam alguns cochilos esporádicos e quase decorativos durante o dia. Na verdade, fazia pouca diferença, afinal mal sabia a diferença entre dia e noite dentro daquele quarto. Não queria deixar seu pai falando sozinho, mas logo viu que não havia jeito. Jin percebeu que seu filho estava fechando os olhos aos poucos, mas fazendo esforço para manter-se acordado e continuar a conversa.
- Durma um pouco, Adam. Você me parece cansado.
Não foi preciso repetir. Logo Adam tinha os olhos fechados e parecia longe. Um cochilo, que para Jin, pareceu muito leve.
Era bom mesmo que pudesse descansar. Jin teria mais tempo para colocar os pensamentos em ordem. E pensamentos não faltavam: todos referentes ao filho.
Sentado na poltrona que havia perto da cama, observava Adam em seu sono leve. O rosto de seu menino estava pálido. E agora, sem os cabelos, ele parecia sumir entre os travesseiros.
Levara um susto ao vê-lo assim. Aquilo acontecera em uma questão de minutos, uma hora talvez. Foi esse o tempo que deixou-o. Vê-lo sem os cabelos foi uma surpresa... uma entre tantas que tinha com seu filho quase diariamente.
A primeira surpresa foi justamente descobrir que ele tinha leucemia. Era difícil entender... afinal desde criança sua saúde era perfeita. Mal se resfriava! E até pouco tempo, pelo menos até a última vez que o vira antes de buscá-lo em Nova York, ele parecia a personificação da saúde. Se não fosse assim, nunca teria conseguido entrar numa equipe treinada por Gregory Baxter.
Ok, mas acontecera. Doenças não podiam se prever, e todos estavam a mercê delas. Adam fora um dos escolhidos. Não podia fazer nada quanto a isso, tinham aceitar a realidade e tratá-lo.
Mas o principal agora era perceber como ele reagia aos acontecimentos. Quer dizer, Adam era um adolescente, tinha uma vida toda pela frente, uma chance de carreira, que gostava de se divertir, como todos os outros. Um diagnóstico de câncer deveria ser um baque em qualquer idade... especialmente em jovens, que muitas vezes se julgavam inatingíveis. Deveria mexer com a cabeça dele de alguma forma... ao menos era o que Jin esperava.
Porém, Adam surpreendeu. Quando o viu logo após receber a notícia do diagnóstico, ele parecia calmo, calmo até demais. Jin achou que Adam estivesse sob impacto emocional da notícia... mas desde a chegada em Alameda dos Anjos e a internação que ele permanecia exatamente o mesmo. Não se irritava, não reclamava do hospital, não pedia pra voltar pra casa e nem nada parecido. Não que estivesse feliz. Ninguém estaria... a questão é que Adam não se mostrava triste. Não dava pra saber o que ele sentia. Rosto impassível, parecia mais quieto que o de costume. Apático.
Jin estava preocupado com seu filho. Sabia que o caminho não seria fácil. Sabia que o caso dele era grave, e estava disposto a tudo para ajudar. Mas era difícil ajudar quando não se sabia o que fazer. Adam parecia não precisar de apoio, parecia fazer de tudo para não precisar. Tudo sempre estava bem, nunca precisava de nada, quase nunca pedia nada.
Não conseguia se aproximar de seu filho. Por mais que tentasse, não conseguia se aproximar. Pelo jeito, Tanya era a única que se encontrava mais a frente nesse caso... mas não podia se comparar a ela. Tanya era amiga dele, a mais próxima. Sempre estavam juntos, um parecia confiar no outro e não era raro dizer aos dois que isso parecia mais do que amizade. Sempre ouviam isso. Jin já dissera isso ao filho mais de uma vez, se divertindo ao vê-lo com o rosto corado, envergonhado com aquela afirmação, rindo parecendo constrangido, mas sem dizer qualquer palavra.
De fato, estavam muito próximos. Ela ia ao hospital todos os dias para vê-lo. Passavam algum tempo conversando, e Jin percebia que esses minutos faziam bem ao filho. E sempre que via os dois juntos, pensava que estava fazendo pouco por Adam. Claro que não podia comparar-se a Tanya, eram relacionamentos baseados em circunstâncias completamente diferentes... mas tinha uma certa inveja da proximidade que ela conseguia junto a ele. Adam confiava em Tanya.
Jin só queria que seu filho pudesse confiar nele também. Será que era pedir demais?
Teria de implorar para poder cuidar de seu próprio filho?
Era estranho ter de se deparar com aquele estereotipo com que muitos pais criam seus filhos homens. Ser forte, nunca demonstrar fragilidade, nunca chorar. Não se lembrava sobre já ter submetido Adam a um padrão desses de masculinidade, do qual sinceramente achava ridículo, mas que seu filho parecia seguir, de uma forma ou outra, querendo ou não.
Sabia que ele era forte, mas não queria que guardasse o que estava sentindo apenas para si. Talvez pudesse ser mais fácil fazer algo por Adam se ele demonstrasse tristeza, estivesse com raiva ou chorasse. Mas, como agir com quem não parecia precisar de nada?
Será que seria mais fácil se ele fosse fraco? Se Adam não fosse sempre tão fechado?
"Ah, garoto... quando vai me deixar cuidar de você?" era essa a pergunta que ficou em seus pensamentos, enquanto velava o sono de seu filho: a única coisa que podia fazer por ele.
