Título: Além do Espelho
Autora: DarkAngel
Sinopse – Dois lados de um mesmo espelho. Dois lados de uma mesma guerra. Dois lados de uma mesma história. Não há caminhos errados para quem não tem escolhas.
Shippers: Draco Malfoy\Hermione Granger (e mais alguns outros sem importância ao longo do caminho, como Remus\Tonks, Andromeda\Ted, Harry\Ginny, Harry\Snape e por aí vai)
Gênero: Romance\Songfic\Angst\Drama
Classificação: NC-17\M
Spoilers: até Enigma do Príncipe fielmente seguindo o canon e, depois disso, alguns pedaços de Deathly Hollows, mas não tudo e não necessariamente canon.

Disclaimer: Nem as músicas dos capítulos, nem os personagens do universo de Harry Potter me pertencem, e eu definitivamente não ganho dinheiro com isso.

Música do Capítulo: Right Here, Stained.


Capítulo V

O Inesperado

Acordou sentindo-se cansada, como se tivesse tido um dia exaustivo, e não foi preciso muito tempo para que se lembrasse o porquê de estar sentindo-se tão mal. Ron... O garoto que implicara com ela nos primeiros meses de escola, o ruivo que a fazia rir, ainda que fosse de exasperação, que fora seu porto seguro, seu companheiro e de Harry, por quase dez anos.

Era o trio reduzido a uma dupla, um casal reduzido à solidão, o amor reduzido à culpa.

Sentou-se no sofá, deixando o cobertor que estava sobre ela escorregar até o chão. Olhou em volta e viu que estava sozinha. Lembrou de Malfoy e das confissões que haviam trocado, quase sem sentir, na noite passada, e deixou um suspiro escapar. Como estava cansada. Levantou e saiu da biblioteca, indo até o seu quarto. Precisava de um banho, de comida, precisava fazer alguma coisa para não pensar, porque pensar, naquele momento, era algo muito arriscado.

Entrou no corredor de seu quarto e viu, escorado à sua porta, parecendo adormecido, Harry, sentado no chão, os óculos escorregando para o lado. Aproximou-se lentamente e chamou por ele, baixinho, fazendo o moreno acordar e, imediatamente, colocar-se de pé, abraçando a amiga como se sua vida dependesse disso.

- Eu fui tão burro ontem, Mione. Deixei você sozinha exatamente quando você precisava de alguém. Me desculpa.

- Não precisa, Harry. – ela disse, sentindo lágrimas começarem a cair mais uma vez, e abraçando o amigo de volta, - Eu precisava ficar sozinha... Eu... – a voz da garota embargou e ela não pôde mais falar. O moreno apenas acariciou o topo de sua cabeça e afastou-se um pouco, fitando-a nos olhos.

- Eu estou aqui, Mione. Sempre. Você e o Ron foram a primeira família que eu tive. Meus primeiros amigos. Eu nunca vou deixar nada acontecer com você, eu juro.

- Harry... - ela começou e foi interrompida.

- Eu sei o que você vai dizer, Mione. Eu sei que não foi minha culpa, nem de ninguém. Mas eles levaram Ron. Eu não vou deixar que levem você também. Vem, - ele disse, carinhosamente, puxando-a pela mão, - vem comigo que eu vou cuidar de você.

Ela se deixou conduzir, dividida entre a culpa que a consumia e a gratidão por ter Harry tão próximo. Não era culpa dele. Ela sabia que não era, era sua. Mas ela não precisava que Harry se atormentasse com isso. Seguiu o amigo enquanto ele a levava, pelas escadas, para o andar de baixo, decidido a mantê-la próxima dele, de qualquer maneira que pudesse.

I know I've been mistaken
But just give me a break and see the changes that I've made
I've got some imperfections
But how can you collect them all and throw them in my face?

Ele havia acordado quando o dia ainda nem tinha nascido e simplesmente não conseguira adormecer de novo. A proximidade de Hermione o impedia. Observou o rosto da garota por vários minutos, deixando-se perder em pensamentos que, há dois anos atrás, o teriam feito achar que enlouquecera. Ela parecia tão frágil. Nunca havia pensando que Granger poderia ser tão suave, sempre a vira como a parte sensata e forte do trio maravilha, mas agora via que ela era apenas humana. Exatamente como ele, que pensava ser melhor que todas as pessoas que conviviam com ele, e, agora, percebia que não era assim, nem nunca tinha sido. Ele havia cometido tantos erros, e, naquele momento, achava tão injusto que aquela menina, que nunca havia feito mal a ninguém, estivesse sofrendo tanto, enquanto ele, que cometera tantos deslizes e fizera tanta gente sofrer estivesse, ainda que de uma forma dura, imune a qualquer tipo de sofrimento. Não havia mais ninguém a quem ele fosse apegado, logo, não havia ninguém que ele pudesse perder.

Saiu da biblioteca e foi até a cozinha. Estava com fome, não havia comido nada no dia anterior. Passara o tempo todo dividido entre a preocupação com Hermione, que estava desacordada, e a exasperação, pois Potter insistira em ir ao funeral e enterro de Weasley, mesmo que isso pusesse metade da Ordem em perigo. Quando chegou ao local, encontrou Potter despedindo-se da namoradinha e sua mãe, que voltariam para o buraco que chamavam de casa. A garota havia, finalmente, concordado em voltar para a sua família. Percebera, enfim, que a guerra era muito mais do que algumas aventuras imprudentes com os amiguinhos e dera-se conta que sua presença ali, inexperiente, apesar de talentosa, só trazia preocupações adicionais e muito pouca ajuda.

Quando mãe e filha sumiram na lareira, restaram ele e Potter na cozinha fria. Ele ignorou a presença do outro, enquanto servia-se de café, que havia encontrado sobre o fogão, e sentava-se à mesa. Ele precisava dormir, estava dolorido devido à sua posição no sofá a noite toda. Viu o rapaz moreno servir-se também de café e sentar-se do outro lado da mesa, parecendo perdido em pensamentos e tristeza. Imbecil, pensou o loiro. Ficava ali, com aquela cara de enterro porque havia perdido um amigo e a namoradinha tinha ido embora, em vez de tentar ajudar a única pessoa que, aparentemente, havia restado em sua vida. Se Potter cuidasse direito da amiga que tinha, ele não precisaria se preocupar com ela e, então, tudo seria mais fácil. Considerou, por alguns momentos, a possibilidade de falar para Potter que havia passado a noite com Hermione, só para ver a reação do outro, mas conteve-se. Afinal, ela era sua aliada, e não faria bem algum ele irritar tanto alguém de quem ele deveria estar tentando se aproximar.

Depois de alguns minutos, o moreno levantou-se e pegou uma poção do sono, do armário em cima da pia, e parecia decidido a sair da cozinha e ir para seu quarto, dormir. Aquilo foi a última gota para Draco. Até a estupidez de Potter deveria ter um limite.

- Você sabe onde está a Granger? – Potter congelou onde estava e fitou o loiro.

- Por que está perguntando? – disse, desconfiado.

- Porque ela saiu daqui ontem, sem dizer a ninguém aonde ia, e ainda não apareceu. Eu pensei que vocês eram amigos. Ela some e você nem quer saber onde ela está? – retrucou o loiro, com um sorriso cínico. O moreno deu dois passos na direção do primeiro, parecendo prestes a explodir.

- O que você fez com ela, Malfoy? Se você tocou num fio de cabelo da... – a voz dele era exaltada e Malfoy riu amargamente.

- Pare de ser idiota, Potter. O que eu ganharia com isso? Perguntei porque é realmente engraçado. Juram amizade, diz por aí que são o trio maravilha, mas eu não vejo você a ajudando. Deveria, às vezes, dar valor ao que está aqui e não ao que já perdeu, sabia, Potter? Eu não precisei fazer nada com a Granger. O fato de que você não faz já é suficiente.

- Do que é que você está falando? – o rapaz parecia realmente confuso.

- Ah, Potter, por favor. Você é realmente tão cego assim? Achei que esses óculos serviam para alguma coisa. Deixar a garota sozinha quando o namorado dela morreu? Passar a noite toda sem nem ao menos procurar saber onde ela podia estar? Se isso é a tão famosa amizade, eu prefiro não ter amigos. – o loiro levantou e saiu da cozinha, com Potter em seu encalço.

- Onde ela está, Malfoy?

- E quem disse que eu sei? – retrucou, sem parar de andar.

- Sabe ou não?

- Talvez eu saiba, mas sabe o que, Potter? Eu não vou dizer. – ele parou na porta do próprio quarto e cruzou os braços, num gesto desafiador, - Não vou dizer porque, a esta hora, ela deve estar descansando e se você é tão burro que não consegue adivinhar onde ela estaria, é melhor mesmo que ela fique sozinha. Mas, se quer mesmo saber se ela está bem, sente aí na porta e fique esperando, ora. – deu de ombros e entrou em seu próprio quarto.

Foi mais de uma hora depois que ouviu passos pelo corredor e, abrindo uma pequena fresta de sua porta, viu a cena que se desenrolava a sua frente.

Ótimo, ele pensou. Quem sabe agora aquele Grifinório cego via a amiga que tinha e ele não precisaria mais se preocupar com ela. Ele tinha mais o que fazer do que pensar em Granger. Claro que tinha. Muito mais. Era realmente uma pena que ele não conseguisse lembrar exatamente o quê.

But you always find a way to keep me right here waiting
You always find the words to say to keep me right here waiting
And if you chose to walk away I'd still be right here waiting
Searching for the things to say to keep you right here waiting

Foram dias de paz triste, mas, de certa forma, abençoada, naquela casa onde raramente via-se algum rosto feliz, ou alguém que não estivesse sofrendo. Harry parecia decidido a não deixar que ninguém lembrasse tristezas, a não fazer nada que pudesse entristecer alguém e, por conseqüência disso, exatamente como o antigo dono da casa deixava, por vezes, sua melancolia infiltrar-se por todos os lugares e contagiar os habitantes e visitantes do lugar, a vontade imensa que Harry tinha de fazer todos se sentirem bem também os contagiou, de maneira quase que involuntária. Uma semana de paz, uma semana de calma, uma semana em que seria quase inacreditável que havia uma guerra acontecendo lá fora. Mas durou apenas uma semana. Não era porque, de alguma maneira, os integrantes da Ordem haviam dado uma pausa em suas buscas, pesquisas e ações, que a guerra havia parado de acontecer. Não era porque um de seus membros mais valorizados e importantes havia perdido o melhor amigo que Voldemort deixaria de atacar, ou que suas Horcruxes seriam destruídas de maneira mais fácil ou rápida. Talvez fosse exatamente o contrário.

Havia uma pessoa em Grimmauld Place, no entanto, que não encarava tal mudança de maneira positiva. Draco Malfoy estava, mais do que nunca, mal-humorado e prestes a explodir com alguém, caso lhe fosse dado a chance. Ele não tinha mais companhia, nem alguém com quem conversar. Passava horas sozinho na biblioteca, sem ter alguém que brigasse se ele dormisse, ou que simplesmente mostrasse que havia alguém naquele maldito lugar que o via como uma pessoa.

A reaproximação do Testa Rachada e de Granger havia sido promovida por ele, afinal. Se não fosse a intervenção que ele fizera, Potter não teria enxergado o quanto a sua amiguinha precisava dele. Ele só não imaginara que o imbecil de cabeça aberta iria monopolizar a tal ponto a sua então aliada. Não desgrudava da garota por um segundo. Era incrível. E, portanto, ele não tinha como se aproximar dela, sem que Potter estivesse junto. Não lhe ocorreu, nem por um segundo, que o seu plano original de aproximar-se de Hermione para se aproximar de Potter, seria muito facilitado, uma vez que os dois estavam juntos. Acostumara-se tanto com a presença da morena, que não conseguia mais se adequar àquele lugar sem ela ao seu lado.

A semana, no entanto, acabou. Havia uma guerra lá fora, havia batalhas a serem lutadas, lugares a serem protegidos, Horcruxes a serem descobertas, e, num entardecer particularmente sombrio, com uma garoa fina e insistente caindo do céu cinzento, foi quando Potter decidiu que estava na hora de voltarem a agir. Enterrou-se em uma reunião em Lupin e, por horas, nenhum deles foi visto, e, o mais incrível, haviam deixado Hermione de fora. A morena podia ser encontrada, o rosto fechado em zanga, sentada na biblioteca, onde Draco também estava, com um sorriso estampado nos lábios, soltando risadas baixas a cada vez que ouvia a morena resmungar contra o veto de Harry à sua participação da reunião.

- Sabe, Hermione, se você continuar resmungando desse jeito eu nunca vou acabar de ler esse livro.

- Ora, vá ler no quarto então, Malfoy. – retrucou a morena, de maneira azeda.

- Não, prefiro ficar aqui. – o loiro fechou o livro que fingia ler e encarou a garota que estava sentada na mesma poltrona que sempre ocupava, - Quem sabe se você falar sobre o que está lhe incomodando, você consiga parar de resmungar e eu possa ler em paz. – ele deu um sorriso cínico, que a garota recebeu com um olhar frio.

Você precisa praticar mais isso,- Isso é um oferecimento de ajuda, Malfoy Porque, por algum motivo, eu não me sinto nem um pouco inclinada asabe conversar com você, já que não acho que seu oferecimento seja honesto. – ela o encarava de maneira dura, e o loiro a fitou de volta. Droga. Não era para ele O jeito que brilhavam quando elaachar os olhos dela tão interessantes, era estava com raiva, a maneira como pareciam chispar (exatamente como os de McGonagall) quando ela o analisava, da maneira que estava fazendo agora. O loiro deu-se uma sacudidela mental e decidiu ser honesto. Até agora, parecia ter sido a política que o levara mais longe com a jovem que agora o encarava.

- Bem, façamos assim, então. Eu quero ler, você resmungando não me ajuda, só conseguirei ficar em paz para ler se você se acalmar, e eu penso que se você falar, isso vai acontecer, portanto, sim, eu tenho muito interesse em te ouvir. – a garota o fitou entre incrédula e irritada.

- Na verdade, você quer me ajudar, porque isso te beneficia?

- Hum... Sim. – declarou o loiro, depois de considerar a questão por um momento, - O fato de que eu ganho alguma coisa te ajudando, não muda o fato de que eu te ajudo, certo? - ela o encarou por mais alguns segundos e pareceu ceder.

- Não é nada, na verdade. É só que... Harry parece não ter meios termos. Antes ele me incluía em tudo, parecia realmente depender de mim e agora, me excluiu dessa reunião e algo me diz que eu não vou poder sair desta casa por um bom tempo. Isso não é justo.

- Talvez ele só queira te proteger, Granger. – declarou Draco, dando de ombros, e então acrescentou, com um ar inocente, - Quer dizer, talvez eu te deva desculpas, eu realmente não deveria ter pegado tão pesado com ele naquele dia, logo depois que tudo aconteceu. Eu poderia ter falado menos. Tenho certeza de que ele perceberia de que você precisava de ajuda sozinho. Se eu não tivesse dito nada, talvez agora ele não estivesse tão super protetor. – o loiro voltou a encarar o livro, com um ar impassível, esperando que suas palavras surtissem efeito. Sim, ele havia ajudado Potter. Sim, ele queria que o imbecil-que-não-podia-morrer cuidasse da única amiga que havia restado, mas ele não estava disposto a deixar que o imbecil levasse os créditos por tudo. Não estava mesmo.

- O que você quer dizer? Ela o encarava com um ar intrigado – Vocês conversaram sobre mim?

- Não exatamente. Eu só disse para ele prestar atenção nas coisas que ainda estavam aqui em vez daquelas que já havia perdido. – ele voltou a olhar para a garota, que parecia perdida em pensamentos, a expressão confusa e com um ar de algo mais que Draco não conseguia definir, -Bem, realmente, Granger, isso vai passar, certo?

- É, - ela respondeu, - Vai.

Voltou a encarar o livro e Draco fez o mesmo, sorrindo internamente. Mais um ponto que ele ganhava com Granger. Talvez ele fosse perder um com Potter, mas, naquele momento, aquilo não pareceu importante.

I hope you're not intending
To be so condescending it's as much as I can take
And you're so independent
You just refuse to bend so I keep bending till I break

Hermione encarava a nuca do rapaz loiro, que agora lia, parecendo muito concentrado, seu livro sobre poções exóticas da América Central. Quem era aquele rapaz? Definitivamente, não Draco Malfoy. Desde quando Draco Malfoy, o sangue-puro, o adolescente que odiava nascidos trouxas, o menino que havia atormentado ela e seus amigos durante toda a sua vida escolar falava com Harry Potter sobre o bem estar de Hermione Granger? E, o pior, desde quando Hermione Granger sentia-se feliz com isso? Toda a atenção de Harry naquela semana, todos os cuidados, todos os segundos que ele fizera questão de passar ao lado dela não haviam lhe dado a sensação de aquecimento, de conforto, talvez até um pouco de alegria, que saber que Draco percebia coisas que seu melhor amigo demorava a perceber, lhe dera. Na verdade, que ele nem ao menos teria percebido se não fosse a ajuda do loiro.

Ficou mais algum tempo na biblioteca e saiu dali ainda sentindo-se confusa. Eram coisas demais, acontecendo rápido demais. A guerra, a morte de seus pais, a busca pelas Horcruxes, a vinda de Draco, a missão fracassada, a morte de Ron, a superproteção de Harry. Era tudo demais, às vezes. Entrou em seu quarto e escorou-se contra a porta, sentindo a cabeça ferver. Precisava ordenar seus pensamentos, seus sentimentos para, ao menos, definir o que, exatamente, estava sentindo. Mas não seria naquele momento que encontraria a calma e a quietude que precisaria para fazer isso. Mal havia entrado no quarto, uma batida se fez ouvir, e ela virou-se, com um suspiro, abrindo a porta e dando de cara com Harry, que trazia um sorriso de desculpas estampado no rosto.

- Posso entrar, Mione?

- Ora, Harry, pensei que não quisesse a minha companhia. – ela falou, mas afastou-se para dar passagem ao rapaz, que se sentou na beira da cama que ela ocupava, enquanto ela fechava a porta e vinha sentar-se ao lado dele.

- Não diga isso, Mione. É só que eu realmente precisava organizar algumas coisas com Lupin. Eu... eu acho que encontramos a pista de alguma das Horcruxes, Mione. – os olhos da morena arregalaram-se com a notícia, tanto de felicidade, quanto de medo, - Mas é apenas uma vaga idéia, eu tive que explicar tudo para o Lupin para que ele pudesse nos ajudar e ele nunca encontrou uma Horcrux antes, então pode ser apenas um alarme falso, mas eu preciso ir até lá e verificar.

- Onde? Onde que está? Quando nós vamos?

- Está em algum lugar em... bem... Por aí, Mione. E eu vou partir amanhã pela manhã, bem cedo. Mas eu vou com o Lupin, Mione. Apenas os dois.

- Harry! – a garota exclamou, indignada, - Eu sempre estive ao seu lado, você sabe disso, aquela primeira Horcrux que nós encontramos, você nunca ia ter conseguido destruí-la sozinho, você precisou de mim e de Ron com você. Como que você vai ir até lá sozinho? Não é justo, Harry. Eu entrei nessa guerra para estar ao seu lado, por mais que você não quisesse. Eu entrei para lutar, Harry, para te ajudar a vencer. Você não pode simplesmente me deixar para trás agora. Eu não sou uma inútil. Eu sei que eu falhei quando não consegui defender o Ron, eu sei que foi minha culpa, mas você não pode fazer isso comigo, Harry. Não pode. – ela nem havia notado que estava de pé, e que lágrimas escorriam pelo seu rosto, até ver Harry olhá-la, alarmado e vir até onde ela estava, secar uma lágrima que escorria pelo rosto da morena e abraçá-la.

- De onde você tirou isso, Mione? Não foi sua culpa, o que aconteceu com Rom não foi culpa de ninguém. É uma guerra, Mione. Pessoas morrem. – ele a encarou nos olhos, ainda segurando-a nos braços, - E é por isso que eu não quero que você vá agora, Mione. Só desta vez. É tudo muito recente. A morte de Ron me fez ver que...Que nem sempre tudo dá certo no fim. Nos já passamos por coisas muito piores aquelas, com muito mais Comensais, muito mais perigosos, e, no entanto, Ron se foi. É a guerra. Ninguém sabe se volta, quando decide ir. É por isso que eu te peço, Mione. Eu não quero perder tudo que me restou. Eu acho que eu... eu nunca tinha me dado conta do quanto você significa para mim até que alguém me fez ver que eu poderia te perder. – Hermione continuou encarando o amigo. Sabendo que ele falava de Malfoy. O que aquele loiro havia dito para Harry? – Por favor, Mione. Diz que vai ficar, desta vez, só desta vez? – o apelo dos olhos verdes dele a fez amolecer e ela, lentamente, concordou com um aceno de cabeça. Talvez fosse bom mesmo, que ela se mantivesse afastada da ação por alguns dias mais. Ainda estava abalada com a morte de Ron. Não que não houvesse presenciado mortes antes, mas nunca de alguém tão próximo.

Harry abriu um sorriso, ainda que pequeno, e a abraçou mais uma vez.

- Eu não quero acordar você amanhã quando eu sair, mas eu volto logo, está bem? Vão ser apenas alguns dias e eu estarei de volta. Eu juro.- a garota deu um pequeno sorriso e acenou com a cabeça. As crises de protecionismo de Harry lhe irritavam, em grande parte das vezes, mas, naquele momento, ela estava achando muito reconfortante que ele estivesse se importando tanto com ela. Harry fixou o olhar no dela novamente e, muito devagar, aproximou-se do rosto da morena, colocando brevemente os lábios sobre os dela, liberando-a do seu abraço logo em seguida e a puxando em direção à porta.

- Vamos, Mione. O jantar deve estar pronto.

Hermione deixou-se conduzir, em estado de choque. O que havia sido aquilo? Uma demonstração de amizade, certo? Ela sabia que já não se sentia atraída por Ron há muito tempo, mas tampouco conseguia enxergar Harry de qualquer maneira que não fosse puramente amistosa. Havia sido uma demonstração de amizade, era óbvio. Amigos dão selinhos uns nos outros. Claro que sim.

A garota jantou sem nem notar o que estava comendo, remoendo o que havia acabado de acontecer. Recolheu-se cedo, dando um grande abraço de despedida em Harry e, não querendo ficar sozinha com ele, alegou sono e saiu da cozinha antes de qualquer outro. Por estar tão perturbada, também não percebeu o par de olhos cinzas que estiveram postos sobre ela durante toda a refeição.

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Havia um certo loiro, que acordou em Grimmauld Place, e olhou pela janela encontrando um dia ainda extremamente nublado e ainda com uma pequena garoa e, ainda assim, sorriu e deixou escapar um "Que belo dia!", enquanto espreguiçava-se a saía da cama. Devia ser pouco mais de oito horas, e ele levantou-se, colocou uma roupa realmente confortável e decidiu descer para o café da manhã, sentindo-se bem humorado como não se sentia há dias. Sem Potter. Sem lobisomem. Sem gente chata, sem aborrecimentos. Era, finalmente, um pouco de paz, naquela mansão super habitada. Havia ainda um semipensamento, que sua mente recusava-se a deixar escapar, mas que, mesmo assim, estava lá: sem Potter, sem interferências, a companhia de Hermione, em horário integral, única e exclusivamente, para ele.

Sempre fora uma pessoa possessiva. Com seus brinquedos, seus amigos, suas coisas, sua companhias. Naquele lugar, a única companhia descente parecia ser a de Granger, logo, não era absolutamente nem um pouco estranho que ele não quisesse dividir tal companhia com ninguém, muito menos com o imbecil que atendia pelo nome de Harry Potter. Chegou à cozinha e a encontrou vazia, exceto por Dobby, que começava a preparar o café da manhã. O elfo anda encolhia-se de medo a cada vez que o via, mas estava ficando mais relaxado aos poucos. Não era uma boa coisa que ele manchasse sua imagem em construção de bom moço, por algo tão bobo quanto mal tratar um elfo doméstico, por mais divertido que isso fosse. Não demorou a que Hermione viesse lhe fazer companhia, silenciosa e parecendo distraída, ainda com um ar triste que perpetuava na sua expressão mesmo quando ela sorria. Draco desviou o olhar da garota logo depois de lhe dar bom dia, não iria funcionar ficar olhando para ela o tempo todo e imaginando causas da tristeza. Não que fosse preciso ser um gênio para saber, o namorado dela havia morrido há uma semana, mas, naquela manhã, parecia haver algo além da tristeza, parecia haver uma preocupação a mais. Culpa do Potter Pateta, óbvio, refletiu o loiro, sair em missão e deixar a garota para trás. Draco não conseguia decidir o que deveria ser pior para ela: ficar e sofrer com a falta de informações, ou ir e correr o risco de morrer. Lembrou-se da cena na noite anterior, quando a morena havia deixado a cozinha apressada, parecia querer fugir de Potter, o que teria acontecido?

Sacudiu a cabeça. Chega, Draco. Ele pensou. Chega de divagações. Aproxime-se dela para, quando Potter voltar, você ser a terceira parte de um novo trio. Uma dupla nunca funciona, uma tríade havia sido a base do Cicatriz por toda a sua vida, ele precisaria de alguém ali, para completar a parte faltante do esquema. Concentrando-se nisso, começou a puxar assunto com Hermione. Ela parecia não muito interessada a princípio, mas foi soltando-se aos poucos, e não demorou para que restabelecessem a antiga facilidade de comunicação dos dias anteriores à missão. Não que houvesse muitas opções, afinal. Eram apenas os dois e Dobby naquela casa, nenhum dos outros membros parecia achar que eles deveriam receber informações já que o Precioso Eleito de Cabeça Aberta não estava lá.

Passaram-se dez dias de leve camaradagem e quase amizade entre os dois. Horas perdidas na biblioteca entre discussões vãs sobre propriedades de plantas ou a eficácia de algum feitiço, onde Hermione acabava recitando um almanaque e fazia Draco calar-se com um olhar. Por vezes, ele chagava a enfurecê-la apenas para tirá-la da apatia que parecia tomar conta dela, com o olhar parado e angustiado. Nunca mais havia ouvido o riso de Hermione... E isso fazia falta de uma maneira estranha.

I've made a commitment
I'm willing to bleed for you
I needed fulfillment
I found what I need in you

Estavam na cozinha de Grimmauld Place, era o dia de folga mensal de Dobby, que havia se oferecido para ficar (como fazia em todas as suas folgas), mas Hermione não havia permitido que ele ficasse. Ela e Malfoy poderiam se virar durante um dia sem um elfo doméstico. Levantaram-se tarde e decidiram pular o café da manhã e começar a preparar o almoço, Hermione indicava o que precisaria a Draco tentava ajudar. Mas não estava tendo sucesso algum. Quando ela pediu que ele cortasse as cebolas, em menos de dois minutos, ele tinha um corte no dedo. Quando indicou uma panela e pediu ara que ele mexesse seu conteúdo, em trinta segundos ele tinha uma queimadura. Ela o observava e começou a sorrir, de forma divertida. Como podia ser tão descoordenado em uma cozinha e ter tanta graça em outras coisas?

Aqueles dias em confinamento, tendo apenas um ao outro como companhia, havia estreitado seus laços e Hermione atrever-se-ia a dizer que estavam começando uma amizade com grandes chances para dar certo. Depois de ter que ajudar o loiro, e em conseqüência disso, atrasar a refeição, por três vezes, quando ele conseguiu queimar a outra mão em uma chaleira de água fervente, a garota desistiu de pedir ajuda. Indicou os armários com os pratos e pediu que ele pusesse a mesa. A porta da cozinha estava fechada, isolando os sons do exterior. Draco foi até o primeiro armário e localizou a pilha com os pratos, puxando os dois últimos para tira-los de lá, em vez de pegar os dois primeiros. O resultado da ação mal pensada foi toda a pilha desabar em direção ao chão, e Hermione virar-se rapidamente para impedir que uma dúzia de porcelanas Black virassem caquinhos. Encarou o garoto loiro que deu dois passos para trás, quando viu os pratos vindo em sua direção, e riu.

Uma risada limpa, contagiante. Ela fez os pratos flutuarem até à mesa, e apoiou-se na pia para não perder o equilíbrio. Os risos dela ecoaram pelo lugar.

- Se você fosse um pouquinho mais desastrado, não estaria vivo!

- Ah, Hermione, fica quieta. – o olhar zangado se desfazendo quando viu o rosto iluminado novamente. Sentira falta do sorriso dela. E aquela não era uma boa linha de pensamento.

- É bom ver que as coisas mudam, não é? – falou uma terceira voz, vinda da porta – Quem diria que vocês estariam rindo juntos algum dia. – a palavras tinham um tom acusatório e Hermione ficou séria mais uma vez.

- Harry! Não sabia que já tinha voltado! – ela foi até o moreno e abraçou-o. E por isso não viu o olhar raivoso que Draco lançou ao ato. Mas Potter viu. E aquela visão não lhe agradou.

- Como foi a missão, Harry? –ela parecia ansiosa e Harry a envolveu em um abraço apertado, desta vez. Ela precisava dele. Talvez, mais que isso, ele precisava dela. Era tudo que havia lhe restado. Precisava ter Hermione perto, mais do que qualquer outra pessoa, mas do que Lupin, mais do que Ginny, que havia sido enviada para a Romênia, com seu irmão, por causa da guerra. Só haviam sobrado eles dois. E ele iria certificar-se de que Hermione ficaria ao lado dele, sempre.

- Vem comigo, Mione. - Ele falou, sorrindo e repetindo o ato de dar-lhe um breve selinho, antes de arrastá-la para fora da sala, - Eu te conto no meu quarto. -Hermione seguiu, meio espantada, mas a curiosidade venceu qualquer outro sentimento, e deixou para trás um rapaz frustrado e com raiva, com ciúmes e uma vontade enorme de pegar aquele imbecil de cabelos de porco espinho e afogá-lo em uma banheira de água fervente.

O que havia sido aquilo? Aquele beijo? Quem ele pensava que era para beijar Hermione daquele jeito? Mas aquilo não iria ficar assim. Não iria mesmo.


Bjs e

R E V I E W !