Disclaimer e talz: capítulos anteriores.

Música utilizada: Like a star, Corinne Bailey


Capítulo Nove

Percepção

"You've got this look i can't describe
You make me feel like I'm alive
When everything else is a fade
Without a doubt you're on my side
Heaven has been away too long
Can't find the words to write this song
Oh... Your love"

A luz que entrava pela janela era fraca, muito fraca, e Draco se dava conta de que as cortinas daquele quarto eram excessivamente claras para que alguém pudesse dormir em paz. Conclusão óbvia: aquele não era seu quarto.

Havia ainda o silêncio, e o mesmo cheiro de mel da manhã anterior, e ele pensou seriamente em simplesmente dedicar-se ao que estava fazendo na situação anterior. Relaxar e entregar-se às sensações, e não pensar. Mas então um forte sentimento de que estava sendo observado o assaltou e ele abriu os olhos lentamente, encontrando Hermione lhe observando, atenta.

Ele a encarou de volta e não quebrou o silêncio. Os olhos de Hermione estavam presos aos seus, no instante em que ele os abriu. Ela parecia ter estado tentando memorizar cada feição sua.

Observou-a e perdeu-se no olhar dela. Os olhos de Hermione não eram castanhos. Ao menos, não castanhos puros, não uma cor uniforme. Os olhos dela tinham rajadas de um tom escurecido de verde e de um tom mais escuro do mesmo marrom, que quebravam o marrom puro. Os olhos dela pareciam ter movimento, como se as pequenas rajadas tivessem vida, e se movessem do centro até a borda de suas íris, e ali, e este foi um detalhe que Draco realmente apreciou, havia um círculo firme, de um tom mais escuro que o resto de seu olhar. Um marrom beirando o negro, circundando todo o castanho claro e seus raios fugitivos e invisíveis, a menos que se estivesse muito perto, e se prestasse muita atenção.

Os cílios dela não eram longos, mas eram incrivelmente escuros, e a combinação pareceu ser tão harmônica e expressiva que Draco se pôs a imaginar como jamais havia reparado na infinidade de cores que um único olhar continha. E como cada cor pareça ter seu significado e mistérios próprios, pedindo, gritando para serem desvendados.

E quem poderia desvendá-los era ele. O sabor daquela percepção o fez sorrir, e ele esticou a mão e tocou de leve o rosto dela, que não se esquivou do toque, mas tampouco se moveu. Ela parecia ausente, preocupada e, estranhamente triste. Isso o preocupou também.

- Hermione? Está tudo bem?

Ela ficou em silêncio mais alguns segundos, sem quebrar o contato visual.

- Você tem dezessete sardas, e todas elas ficam no seu nariz. E se não se presta atenção, nem dá para vê-las. – ele assumiu um ar surpreso, mas não a interrompeu. Hermione não ficava desperdiçando palavras, ela deveria ter algum objetivo, - Seu rosto é mais fino embaixo, e eu nunca tinha percebido que é isso que te dá esse ar de superioridade. É parte de você, até quando você está dormindo. A sua pele é tão clara, que você não deveria nem sair ao sol, porque ele não deve te fazer bem. E o seu cabelo cai no seu rosto enquanto você dorme, e você resmunga a cada vez que isso acontece. Você enrola as mãos no lençol, enquanto está dormindo, e no verão, isso deve ser um suplício. As maçãs do seu rosto te dão um ar forte, e sem elas, você pareceria delicado demais, mas não é. E os seus olhos... – ela ficou em silêncio alguns segundos, fitando-o como se pudesse ver sua alma, e Draco se deixou analisar, estava encantado com a descrição que Hermione fazia dele, - Eles lembram granizo, e dias de tempestades. Há pelo menos três tonalidades de cinza neles, e você tem um círculo de um azul tão escuro em volta das suas íris que parece quase negro. Seus olhos são frios, mas isso não é ruim. Não mais. Porque alguma coisa mudou.

Draco continuou em silêncio, e Hermione colocou uma mão sobre o rosto dele, enquanto seu olhar se perdia em algum ponto da parede além.

- Eu nunca soube quantas sardas Ron tinha. E também não lembro quantas matizes de azul havia no olhar dele. Às vezes eu me sinto culpada, porque, quando eu fecho os olhos, eu mal consigo lembrar o rosto dele. E eu me sinto tão mal por ser assim. – a garota o encarou novamente, - Eu quero memorizar cada detalhe seu, e ao mesmo tempo, eu não quero ter que lembrar deles, porque eu quero ter você aqui, para conferir cada novo detalhe que surgir. Eu não quero que você vá. Em nenhuma maneira.

Draco ficou estupefato por alguns segundos e percebeu que Hermione ainda olhava firmemente para ele, como se tivesse medo que ele fosse evaporar, caso ela desviasse o olhar.

- Eu não vou a lugar algum.

Ela simplesmente não parecia convencida.

- Ninguém quer ir. As pessoas apenas... Vão.

Draco sentiu seu coração apertar, mesmo que ele não quisesse. Tudo ali era involuntário, de qualquer forma. Seus pais não haviam desejado morrer, e Potter não desejara ser perseguido desde sempre, Hermione não desejara perder tudo que tinha, dos pais ao amigo de infância, ele não desejara ter se apaixonado tão rápido por alguém tão improvável.

Era a ordem das coisas em sua vida. As coisas não são previsíveis, e não há controle sobre nada. Era desestabilizador, e apavorante. Mas trazia algumas recompensas. Encarou a mulher à sua frente e sorriu, de leve, enquanto a puxava para mais perto dele, percebendo o quanto o corpo dela parecia se adequar perfeitamente ao seu.

- Eu não vou jurar coisas que não posso cumprir. – ele sentiu ela enrijecer em seu abraço, - Mas eu quero que você saiba que eu não sairei voluntariamente do seu lado por coisa alguma no mundo.

Ela devolveu seu sorriso, e o beijou, enquanto acomodava-se mais perto ainda dele, fechando os olhos.

Segundos de paz, e muito poucas certezas e, estranhamente, parecia a perfeição.

"I wonder why it is
I don't argue like this
With anyone but you
I wonder why it is
I wont let my guard down
For anyone but you
We do it all the time
Blowing out my mind"

O clima dentro de Grimmauld Place não era bom, mesmo para os padrões já sombrios da casa. Os dias passaram, tornando-se semanas, e notícia alguma aparecia na busca pela horcrux que Harry ainda precisava destruir.

A exasperação dele acabava contagiando todas as pessoas da casa, e um temor crescente tomava conta deles todos, enquanto liam as palavras aparentemente imparciais do Arauto. Uma circulação gratuita, atingindo mais pessoas do que O Profeta e O Pasquim juntos, o jornal infiltrava-se em todos os lugares, conseguindo apoio para cada pequena idéia que divulgava e insinuava que era boa.

Como, por exemplo, ao ventilar a singela opinião de que Comensais fugitivos deveriam ser ouvidos porque, afinal, era um jornal imparcial, a publicação conseguira uma aprovação em massa à idéia, e, no dia seguinte, trazia uma longa reportagem com Rodolphus Lestrange.

O fato de que Rebastan Lestrange era o redator chefe do jornal era desconhecido por qualquer um que não pertencesse à Ordem.

Na extensa reportagem, Lestrange afirmava que eles apenas lutavam por suas convicções, como qualquer pessoa, em um país livre, tinha o direito de fazer. Também declarava que fatos mal interpretados por pessoas tendenciosas poderiam transformar um homem de visão em uma ameaça, ou um garoto ambicioso em sua esperança.

Quando questionado sobre a sanidade de Voldemort, Rodolphus respondeu afirmando que todos os grandes gênios eram considerados excêntricos, e teve a audácia de citar o próprio Dumbledore como exemplo.

A reação de Harry ao ler a reportagem foi queimar o jornal, e Hermione chegou a ver as lágrimas de frustração e ódio formaram-se nos olhos do garoto. Ele saiu da sala, e Hermione pegou o exemplar que estava lendo e refugiou-se na sala do piano, para terminar a reportagem.

Havia mais algumas perguntas absurdas, claramente formadas para deixar claro que Rodolphus era um homem lúcido e de bem, e não um assassino frio.

A última pergunta era uma provocação tão aberta e clara, que Hermione sentiu o sangue ferver. Rodolphus, respondendo à indagação do suposto "repórter" sobre o quão prejudicial uma organização como os Comensais da Morte poderia ser para o livre pensamento dos habitantes da Grã-Bretanha, havia feito a seguinte declaração:

"Comensais da Morte é apenas um nome. Talvez uma escolha mal feita, mas que já está popularizada, nada a fazer para reduzir o efeito do nome. Talvez o que a população aceite mal seja o fato de que todos buscam poder. O Ministro quer poder, assim como nós também queremos. Buscar o poder não é errado, mas o que se faz com o poder pode ser prejudicial. Nosso nome precede nossas intenções. Por que A Ordem da Fênix é considerada boa, sem questionamentos? Porque tem um nome "bom"? É julgar um livro pela capa. Dê poder a um incapacitado, e você terá uma guerra. Dê o poder a uma criança sedenta de atenção e terá um ditador. Dê o poder a alguém capacitado, e você terá a paz."

Nenhuma única vez, o jornal citava a matança, as ameaças, as torturas que estavam acontecendo até algumas semanas atrás. Apenas ressaltava, com graciosidade, o fato de que elas não ocorriam mais.

Por Merlin, como podiam ser cegos? O fato de que algo não acontecia mais, não apagava o fato de que já havia acontecido.

Quão curta era a memória de todos?

Atirou o jornal longe também, e parecia prestes a quebrar alguma coisa, quando viu Draco entrando, o rosto inexpressivo, frio como há dias Hermione não via. Ele também carregava o jornal nas mãos.

- Distorção não nem começa a definir o que esta droga de jornal está fazendo!

Ela continuava parecendo estar prestes a explodir, até que Draco a abraçou, com força, e a garota conseguiu se acalmar.

- Potter se enterrou na biblioteca de novo. Lupin devorou mais mapas da região norte da Inglaterra do que seria humanamente possível, e você não pára de consultar anotações. O que está acontecendo? – o tom dele era extremamente baixo, mas Hermione sentiu o medo através das palavras.

- Eu... Nada, Draco.

- Você não confia em mim? – os olhos cinzas pareciam querer perfurar os castanhos e ler a alma dela, e Hermione balançou a cabeça, exasperada.

- É óbvio que eu confio! – exclamou, se afastando para poder olhá-lo melhor. – Mas... Não é um segredo meu! Eu não posso falar!

- Se você falar eu posso ajudar!

- Se eu falar, Harry não vai mais confiar em mim!

Encaram-se em silêncio, os olhares queimando, até que Draco soltou um suspiro exasperado.

- Eu posso ajudar! Ele não tem porquê ficar sabendo, confie em mim, ao menos até eu ter resolvido. Eu confio em você com a minha vida, Hermione. Você confia mesmo em mim?

Um silêncio mais longo se seguiu, e Hermione hesitou. Ele poderia ajudar. E ela confiava nele. Mas Harry confiava nela, e ela jurara não falar nada. Mas ele poderia ajudar e poderiam acabar com a maldita guerra, antes que aquela aberração apelidada de jornal fizesse mais estragos. Tomou a decisão impulsivamente, mas sentiu como se tivesse tirado um peso enorme de seus ombros. Dividir qualquer coisa com Draco parecia fazer tudo ficar mais leve.

- Você sabe o que é uma Horcrux, Draco?

"Just like a star across my sky
Just like an angel off the page
You have appeared to my life
Feel like I'll never be the same
Just like a song in my heart
Just like oil on my hands
Honour to love you"

Não conseguia dormir. Havia ouvido o relato de Hermione, e tentara se manter impassível, como se ter um pai que havia servido o maníaco o houvesse preparado para algo daquele tamanho. Mas agora...

Não era uma guerra simples. Não dava para Potter chegar a matar o Lorde das Trevas e fim da história. O homem não podia morrer.

Não. Podia. Morrer.

Era tão absurdo e tão doentio... Merlin!

E eles precisavam descobrir onde estavam as malditas coisas, para que só então, alguém, algum dia, pudesse ter a chance de conseguir matar o bruxo mais poderoso de sabe-se lá quanto tempo. Deus!

Mapas... Lupin estava revirando mapas. Hermione dissera que eles procuravam alguma pista sobre a localização da última das coisas. Claro, excetuando-se a cobra abominável do serial killer.

Mapas... Mapas retirados dos salões do Lord... Por que isso lhe soava familiar? E então ele recordou.

Dias antes de seu pai ser morto, ele havia retirado cópias da maioria dos mapas do arquivo do próprio Lord. Draco entreouvira a conversa de seus pais, em que ele dizia que parecia ter algo importante escondido nos mapas, e que, se ele descobrisse o que era, poderia chantagear o Lord, e eles estariam a salvo.

E os mapas encontravam-se na Mansão Malfoy.

E ele precisava pegá-los.

Levantou-se de um pulo, e encarou Hermione, que ainda dormia. Não poderia avisar ninguém, quanto mais rápido fosse, mais rápido voltaria, e mais cedo tudo teria acabado.

Não que pudesse pedir ajuda, de qualquer maneira, já que ele supostamente nem deveria saber de nada.

Colocou rapidamente a roupa, e deu um beijo na testa de Hermione, que se virou e continuou a dormir.

Era uma maravilha.

Saindo no meio da noite para um lugar perigoso, para ajudar o maldito Potter, arriscando seu pescoço por gente que não iria saber reconhecer isso, e irremediavelmente apaixonado por uma Nascida trouxa. Que adorável.

"Alguém me dê um uniforme vermelho e dourado" ele pensou, irônico, "eu devo estar virando um grifinório."


Respostas das reviews:

Mione G. Malfoy: Draquinho é amor!!! Que bom que tu ta gostando, Bjs!

Fla: Eu não consigo fazer Potters apertáveis em DHrs que nem tu.

Hauhauahuahauhau Bjs!

Lauh: o dia que eu achar um Draco vagando por aí, só de calça de pijama, eu agarro, sem pensar duas vezes. E o Harry é sem noção. Hauhauahuahua Bjs!

Tinker: Obrigada, menina!

Bjs! Espero que continue curtindo!

Anna: Draco é amor, amor, amor! Sonserino amado! (agarra e foge com ele) huahauhauahuahua Bjs!

E a minha twin! (aperta), pela betagem instantânea, e por entender meus delírios. Distorção (risada maníaca)

Era isso, review aí pessoal!

Espero que tenham curtido esse capítulo!

Bjs e

R E V I E W !