Lynne Graham

Adaptação.

Personagens pertencentes a Lynne Grahame e Stephenie Meyer

Historia pertence a Lynne Graham.

A Noiva do Deserto

Lynne Graham

CAPÍTULO IV

O Range Rover as esperava com o motor ligado e Isabella encolheu-se no banco trapeiro.

Irina sentou-se a seu lado e o motorista deu a partida, arrancando em alta velocidade. Meia hora seria suficiente para estarem no aeroporto, Isabella calculou, tocando a valise que levava pendurada no ombro, sob o chador. Tinha o passaporte, mas não providenciara a passagem de volta. Ora, um lugar em qualquer vôo satisfaria, desde que pudesse sair da Jordânia!

Depois de algum tempo, Isabella percebeu que estavam trafegando há mais tempo do que esperava. Confusa, olhou pela janela e surpreendeu-se ao descobrir que atravessavam uma planície deserta onde não havia sequer uma estrada.

— Onde...?

Um gemido do dor escapou de seus lábios quando as unhas de Irina cravaram-se em sua mão. Tremula, fitou os olhos azuis e cheios de rancor antes de esconder a mão no bolso, não sem antes sentir o filete de sangue que escorria do ferimento, dez minutos se passaram. Isabella não sabia o que fazer. À frente a planície dava lugar às dunas. Para onde diabos estava sendo levada? De repente, ruídos estranhos chamara sua atenção no banco da frente, e ela surpreendeu-se ao ver uma forma velada deixando seu esconderijo, no piso do

carro para acomodar-se no banco do passageiro.

— Duas mulheres deixaram o palácio, e duas mulheres retornarão — Irina explicou satisfeita. — Ninguém suspeitai de que partiu em minha companhia.

— Onde estamos?

O motorista parou o Range Rover à sombra de uma grane duna e saltou para abrir a porta ao lado de Isabella.

— Desça! Irina ordenou, empurrando-a com força.

A violência e a surpresa combinaram-se para jogá-la no chão. Caída, o rosto voltado para a areia quente, Isabella ouviu a risada histérica de Irina e a profecia de que o sol queimaria sua pele alva e derrubaria seus cabelos, de forma que nenhum outro homem jamais olharia em sua direção.

Desesperada, levantou-se e livrou-se do chador que ameaçava sufocá-la.

— Não pode me deixar aqui! — gritou, saltando para sair da frente do veículo que já partia novamente.

De repente estava sozinha no meio do nada. A princípio o desespero ameaçou dominá-la, mas em seguida a raiva tomou seu lugar. Como pudera ser tola a ponto de confiar numa mulher que sabia estar ardendo de ciúme e despeito? A viagem até ali levara pouco mais de uma hora. A que distância estaria do palácio? Logo estaria escurecendo!

Buscando um local do onde pudesse observar as redondezas, começou a escalar a duna com determinação. Quando finalmente alcançou o topo estava exausta, ofegante e morta de calor, e por isso pensou estar alucinando ao vislumbrar a fileira de tendas armadas alguns quilômetros à frente.

Mas não se tratava de alucinação. Era um acampamento Beduíno, e dos grandes! O motorista de Irina devia ter se apiedado da pobre criatura que certamente morreria de fome e sede sob o sol escaldante, e decidira deixá-la num local onde sabia que seria encontrada. Agora só precisava caminhar...

Dezenas de crianças envoltas em panos coloridos a viram primeiro, e correram na sua frente gritando como loucas. Mulheres espiavam pelas frestas das tendas, e homens morenos e barbados a receberam com expressões que iam do choque à mais severa desaprovação. Por alguns minutos ficaram parados em torno dela, falando em árabe e gesticulando muito. A reação do grupo, tão diferente da conhecida hospitalidade árabe, desconcertou-a.

Um homem baixo, gordo, grisalho, vestido com uma túnica azul e dourada adiantou-se e encarou-a.

— É a noiva do príncipe Razul?

Cabelos cor de chocolates na Jordânia era como ter duas cabeças. E agora, o que faria? Devia dizer a verdade ou fazer-se de desentendida?

— Sou o tio-avô de Edward, Sheik Aro Volturi.

A apresentação foi suficiente para fazê-la decidir. O princípio de solidariedade familiar era quase uma segunda natureza para os árabes, e o Sheik Aro devia estar ofendido com a presence da noiva de Edward no meio de um acampamento, sozinha.

— Eu... me perdi — disse, sentindo que o mundo começava a girar à sua volta.

— Isso não voltará a acontecer — o sheik anunciou, tirando um pequeno telefone celular do bolso da túnica. — Meu sobrinho tem um temperamento explosivo, e pode ficar furioso quando contrariado.

Isabella oscilou, tonta e exausta, e não hesitou em seguir a mulher que gesticulava a seu lado, chamando-a para o interior de uma tenda. Em silêncio, a desconhecida trouxe água e ajudou-a a se lavar, antes de servir o chá com uma deliciosa seleção de pratos. A noite começou a cair e as lamparinas penduradas pela tenda foram acesas. Sozinha, Isabella estendeu-se num tapete macio e repousou a cabeça numa almofada de seda, os olhos vagando pelo colorido exuberante das tapeçarias espalhadas pela barraca. Antes que pudesse se dar conta, já havia mergulhado num sono profundo e exausto.

Quando Isabella finalmente acordou depois de uma noite bastante agitada, um cobertor ameaçava matá-la de calor. Jogando-o longe, sentou-se e usou as mãos para afastar os cabelos dos olhos antes de consultar o relógio. Eram apenas oito horas, mas... Um movimento num canto da tenda chamou sua atenção e ela sentiu-se congelar.

Envolto pelo traje do deserto, Edward a observava com a seriedade e a imobilidade de uma estátua de bronze. Olhos brilhantes como o sol estavam cravados em seu rosto, e o silencie era assustador. E ainda mais assustadora era a mistura de alívio e prazer que experimentava por vê-lo.

A resposta era seu pior pesadelo tornando-se realidade.

Isabella desviou os olhos dos dele.

— Está bem, dei um passo ousado em busca da liberdade e acabei muito longe do aeroporto. E agora, o que vai fazer? Enterrar-me até o pescoço na areia quente e esperar que o sol me cozinhe viva? Ou prefere mandar-me para casa em desgraça? Qual é a atitude tradicional?

— Do acordo com a tradição devo espancá-la.

Isabella empalideceu, tomada de assalto pelas lembranças do desastroso casamento da tia com um árabe. A violência física desempenhara seu papel no rompimento da união.

— Sabe que não pode me atacar fisicamente — disse, tentando esconder o medo.

— Você me deixou!

— Isso costuma acontecer com mulheres roubadas. As criaturas estúpidas estão sempre pensando numa maneira de recuperar a liberdade.

— Quer que eu perca a cabeça?

Era exatamente o que ela queria. Precisava de uma cura para a loucura que a afligia, e a prova de que ele era o tipo de homem capaz de agredir uma mulher, apesar de sua evidente superioridade física, certamente seria a melhor terapia.

Afinal, em que estava pensando agora? Quando fora a última vez em que havia conseguido raciocinar com clareza? Desde que chegara à Jordânia agia como uma maluca!

Furiosa, ergueu o queixo e encarou-o num gesto de desafio.

— Por que não? Essa confusão toda não é sua culpa? Foi sua idéia trazer-me a esse pais! E como se atreve a tentar me intimidar, depois de tudo que fez?

— Não erga a voz para mim aqui, onde podemos ser ouvidos — ele lembrou furioso.

— Eu faço o que bem entender. Não sou um de seus tapetes, e isso significa que não pode pisar em mim quando julgar conveniente. Não tem nenhum direito sobre mim, ouviu bem?

— Não?

— Não, e pode guardar esse número do machão para o seu harém! Não vai conseguir me fazer rastejar a seus pés. É muito atrevimento ainda falar em honra, quando já tem uma esposa! Quando o chamei de primitivo e bárbaro, há dois anos, não estava nem perto da verdade! Você é muito pior do que eu imaginava!

Com o rosto contorcido pela raiva, Edward aproximou-se tão depressa que Isabella jogou-se para trás no tapete e gritou. Mãos poderosas agarraram seus ombros e tentaram levantá-la, apesar de sua resistência desesperada. A força daqueles braços alimentava seu pânico, e mais alguns gritos escaparam da garganta de Isabella antes que Edward pusesse a mão sobre sua boca para silenciá-la.

Olhos chocolates e arregalados, cheios de medo, cravaram-se no rosto do árabe.

— Fique quieta — ele ordenou.

O comando controlado não era o que esperava. Enquanto se preparava para a primeira bofetada, Isabella arregalava os olhos mais e mais. O coração batia disparado, e o peso do corpo que a imobilizava provocava estranhas reações.

— Meu povo vai pensar que não consigo controlar minha mulher, mas sei exatamente como mantê-la sob controle — Edward afirmou. — Na cama e fora dela. Jamais tive de recorrer à violência, e essa não será a primeira vez. Sendo assim, mais um grito, aziz, e vai acabar recebendo um balde de água fria sobre a cabeça para acabar com sua histeria. Estou sendo claro?

Isabella afirmou com a cabeça.

Satisfeito, Edward soltou-a e respirou fundo.

Ainda estava tão perplexa que não conseguia pensar. Fora da raiva ao terror em segundos, e perdera o controle como jamais havia acontecido antes. Uma espécie de constrangimento perplexo erguia-se sobre as outras emoções.

Edward a encarava.

— Você disse... Disse que eu já tinha uma esposa. O que é isso? Mais uma tentativa infantile de me difamar?

— Eu sei que Irina é sua esposa! — ela irritou-se.

— Nunca tive uma esposa. Aos vinte e dois anos fui prometido a Kate, uma prima em segundo grau, mas ela morreu há cinco anos num acidente de automóvel, pouco antes da data em que nos casaríamos. Kate tinha uma irmã mais jovem chamada Irina — ele revelou com o mesmo tom frio e seguro, apesar da tensão que se fazia notar em suas mandíbulas. — Ela não é minha

esposa. Quer que eu chame testemunhas para confirmarem o que digo?

Isabella sentou-se devagar. Estava tentando lembrar o que Angela dissera, e de repente recordou que Irina não havia se referido ao príncipe como seu marido, e até mostrara-se surpresa ao ouvi-la fazer alguma afirmação.

— Se tivesse tentado me conhecer, saberia que não concordo com a prática da poligamia — Edward prosseguiu. — Sempre aceitei a opinião de meu pai sobre esse assunto. Uma mulher de cada vez é o suficiente para qualquer homem. Infelizmente você preferiu acreditar no pior. Sabe de uma coisa, Doutora Swan? Seu preconceito é vergonhoso para alguém que se diz uma antropóloga! Mentes acadêmicas não costumam tirar conclusões tão precipitadas.

— Edward , eu...

— Em nome de Alá, pedir desculpas seria uma ofensa ainda maior! Sem dúvida ainda acredita que minha família abriga concubinas. Podemos ser primitivos, atrasados e refratários aos conceitos ocidentais que tanto valoriza, mas nossos padrões de comportamento sexual são mais elevados que os adotados pela sociedade em que vive.

Pálida e envergonhada, Isabella obrigou-se a ouvi-lo em silêncio e de cabeça baixa, sabendo que merecia cada censura.

Felizmente Edward decidiu retomar as explicações sobre Irina.

— Depois da morte de Kate, jovens de todas as partes do Oriente foram enviadas a meu pai, na esperança de que eu escolhesse uma delas para esposa. Enquanto estavam dentro de nossa casa eram sempre acompanhadas. Também receberam educação, roupas e alimentos, tudo à custa de minha família... uma razão muito prática pela qual tantas filhas eram oferecidas por seus pais. Enquanto os lucros dos poços de petróleo não eram divididos, muitos deles não conseguiam encontrar casamentos adequados para as jovens, e meus parentes desposavam muitas delas.

— Como esperava que eu soubesse disso?

— Você não quis saber. Preferiu acreditar nas mentiras ofensivas publicadas pela imprensa. Aquele artigo foi uma injúria imperdoável que causou enorme mortificação à minha família e aos pais de todas aquelas moças. Negar todas aquelas calúnias seria uma atitude muito aquém de nossa dignidade.

De repente Isabella, que sempre se orgulhara de ser uma pessoa de mente aberta e avançada, envergonhava-se dos preconceitos irracionais que havia preferido abrigar, simplesmente porque eram convenientes cortinas de fumaça para os sentimentos que ameaçavam sua tão prezada independência. Que medida desse preconceito havia adquirido ao longo da adolescência, quando tia

Sue, irmã caçula de sua mãe, suportava toda espécie de violência e humilhação dentro do fracassado casamento com um árabe?

— Não sei o que dizer — murmurou envergonhada.

Então ele não era casado. Nunca fora. Não havia outra mulher em sua vida. As barreiras que erguera ao longo de muitos anos caíam uma a uma, e sem essa proteção sentia-se fraca e vulnerável. Já podia sentir o terrível alívio que ameaçava invadi-la! Edward era livre.., e sua última linha de defesa acabara de ser destruída. Estava apavorada!

— Como se feriu?

De repente ele estava ajoelhado a seu lado, examinando os ferimentos em sua mão. O contato quente daqueles dedos e a visão do homem gentil e preocupado em que subitamente se transformara a fez sentir vontade de chorar.

— Foi Irina — Edward concluiu em voz baixa.

— Não importa.

— Ela ameaçou a família de Angela, que me procurou para pedir ajuda. Infelizmente já era tarde quando ela conseguiu encontrar-me. Estava com meu pai e... Bem, não importa. Temos de tratar esses ferimentos antes que infeccionem — ele indicou, franzindo a testa e levantando-se.

De repente a distância parecia insuperável, e não podia culpá-lo pela hostilidade que demonstrava. Lembrava-se de ouvi-lo dizer que se arrependeria, se ele a deixasse partir, e também recordava como ficara ultrajada quando ele dissera estar lhe oferecendo uma segunda chance.

Algumas verdades atingiam em cheio o orgulho de uma mulher. Como havia sido covarde dois anos atrás, escondendo-se atrás dos próprios preconceitos, recusando-se a ouvir a própria inteligência, exceto quando ela dizia aquilo que queria ouvir. A realidade era que havia sido mais fácil rejeitá-lo. Não tivera coragem para cruzar a ponte da própria insegurança, temendo a força daquela atração e da possibilidade de ser magoada, e nem mesmo esse medo havia sido razoável.

Afinal, não havia perspectiva de futuro com Edward. Falar em casamento era insano! E claro que ele não falara num casamento verdadeiro, numa união conforme a que conhecia e acreditava mas mesmo assim... Não sabia lidar com sentimentos. Por que não aceitara manter um relacionamento com ele na Inglaterra? Teria superado essa fixação e agora estaria curada, cuidando da própria vida. Em pouco tempo teria compreendido que não tinham nada em comum e a paixão teria morrido de morte natural. Sem complicações, sem agonias, sem um passado para voltar a atormentá-la com arrependimentos e amarguras.

— Acho que precisamos conversar... Isabella murmurou hesitante.

— Estou sempre pronto para o diálogo.

— Tenho uma sugestão a fazer.

— Algo relacionado à sua partida?

— Sim... Bem, obviamente, seria mais sensato ir embora, mas isso não significa que... que não esteja disposta a... Quero dizer que estou aberta à possibilidade... Não em seu país, é claro, mas você não pode passar todo seu tempo aqui!

— Não estou entendendo.

Como poderia sugerir que mantivessem um romance?

— Sinto-me atraída por você — ela começou novamente, tentando vencer o embaraço. — E estou preparada para admitir que não reagi de maneira razoável com relação à... à situação em questão. Se houvéssemos explorado esses sentimentos num relacionamento há dois anos, e admito que fui a única culpada por não termos nos relacionado, certamente teríamos adotado a solução mais sensata...

— Para o problema dessa atração... ou situação — Edward concluiu com um sorriso sarcástico.

Aliviada por ele ter seguido sua linha de raciocínio, Isabella animou-se e encarou-o antes de continuar.

— Portanto, empregar o casamento como resolução para a situação seria um excesso ridículo. Não estamos no século dezenove, e...

— É assim que a imagino falando numa palestra.

Um silêncio tenso os envolveu.

Um rubor furioso cobriu o rosto de Isabella, que decidiu ignorar o comentário irônico.

— Somos adultos...

— Isso é uma questão de opinião.

— Quer fazer o favor de parar de me interromper? Só estou tentando dizer que, embora não esteja disposta a me casar com você, estou disponível para... aberta à possibilidade de...

— Explorar a situação em minha cama?

— Se precisa colocar as coisas nesses termos — ela encolheu os ombros, abaixando a cabeça para esconder o rosto ruborizado. — Estava pensando em termos de...

— Um relacionamento cerebral?

— Não sei! - Isabella irritou-se. — O que quer que possa se desenvolver. Não tenho bola de cristal.

— Se tivesse, teria fechado a boca há cinco minutos! De qualquer maneira, agradeço pela honestidade, e espero que saiba demonstrar igual gratidão. Meus termos são.., casamento ou nada! Ou nos casamos, ou nunca mais voltaremos a nos ver.

— Não pode estar falando sério!

— Não? Pois saiba que nunca falei tão sério em toda minha vida.

Furiosa e incrédula, Isabella recriminou-se pelo ato insensato que acabara de cometer. Pusera em jogo o orgulho e o auto-respeito, oferecendo uma possibilidade de relacionamento que jamais havia oferecido a nenhum outro homem, e como ele reagia? Como um bárbaro arrogante, radical e antiquado!

— Nesse momento, acho que não vê-lo nunca mais me traria enorme felicidade!

Edward encarou-a e abriu os braços, deixando-os cair em seguida num gesto conformado e impotente.

— Inshallah. Nesse caso, vou lhe dar a liberdade que diz querer. Pode ir. Há um helicóptero lá fora, e o piloto a levará ao aeroporto. O próximo vôo para Londres sairá dentro de duas horas.

Devastada, Isabella encarou-o em silêncio, como se estivesse diante de um fantasma.

— Tem meia hora para decidir — o príncipe avisou.

— Não preciso de meia hora! Não preciso nem mesmo de um minuto!

— A decisão é sua, aziz. Mas, esteja certa... Se ficar, será minha esposa antes do anoitecer.

— Vá sonhando, Príncipe Edward! Vá sonhando! Você só pode estar maluco!

— É o que veremos.

As palavras simples soaram como uma ameaça escrita em sangue. Sério, sem demonstrar a menor emoção, o príncipe da Jordânia virou-se e saiu.