Lynne Graham
Adaptação.
Personagens pertencentes a Lynne Grahame e Stephenie Meyer
Historia pertence a Lynne Graham.
A Noiva do Deserto
Lynne Graham
CAPITULO IX
No final da tarde Edward atravessou o jardim em sua direção, á testa franzida indicando problemas.
— Normalmente está cochilando a esta hora — ele comentou.
— Não tenho sono — Isabella respondeu, sem desviar os olhos do livro que lia à sombra de uma árvore.
Uma semana antes abrira mão do orgulho e jogara-se aos pés de Edward, e para quê? Por alguma razão, ele passara da euforia demonstrada no hospital à mais completa frieza. Era educado e atencioso, sempre levando flores e livros em suas visitas diárias, mas seu comportamento era o de um anfitrião dedicado. Não havia o menor sinal de afeto ou intimidade em suas atitudes.
— Quando iremos ao deserto?
— Talvez no mês que vem, quando a temperatura começar a cair. Você não suportaria o calor atual.
— Estou certa de que suportaria.
— Não pode ter certeza a respeito de algo que não conhece. A esta altura do ano o deserto é uma fornalha, e empreender uma viagem desse tipo seria loucura.
— Pode ficar em sua própria tenda... se é isso que o preocupa.
Desde que deixara de ser um difícil objeto de conquistar para se transformar em perseguidora, Edward simplesmente perdera o interesse. Devia estar arrependido por ter se metido nesse casamento, ansioso para desfazê-lo e
correr para os braços de Irina!
— O que tem achado de uma cama solitária? — o príncipe perguntou de repente, como se pudesse ler seus pensamentos.
Isabella ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
— Tornei-me um objeto sexual, e não gosto nada desse papel, embora já o conheça. Muitas outras mulheres trataram-me assim. Mas você é minha esposa...
— Temporariamente!
— E apesar de não ter a menor intenção de ser ofensivo... — Mas essa é sua especialidade!
— Não sou seu garanhão.
— O que disse?
— Adoraria que eu fosse procurá-la todas as noites e partisse ao amanhecer, sempre em silêncio. Teria o prazer físico sem me conceder uma migalha de sua verdadeira personalidade. Não serei usado dessa maneira. Quando aprender a conversar comigo, partilharei de sua cama.
— Não quero conversar com você. Não o quero em minha cama. Na verdade, gostaria que pulasse do precipício mais próximo!
— Mentira! O que não suporta é ser contrariada. Nunca foi disciplinada quando criança? Estou perguntando porque também fui um garoto mimado, mas recebi os castigos adequados e a disciplina me fez muito bem.
Isabella fechou os olhos e contou até dez. Edward sentou-se na cadeira diante dela.
— Gostaria de tomar uma bebida gelada.
Ela apanhou a jarra a sou lado e preparou-se para servi-lo.
— Espero que não esteja pensando em me punir com um banho de suco.
— Seria uma boa idéia...
— Odiaria ter de submetê-la à indignidade de ser jogada na piscina. Os rumores sobre sua experiência na fonte, no dia de nosso casamento, já se espalharam além das paredes do palácio.
Vermelha, ela decidiu contar até cem.
— O fato de ter um temperamento forte como a cor de seus cabelos também já deixou de ser segredo.
Talvez até duzentos..,
— E agora, sobre o que gostaria de conversar?
— Métodos de tortura e morte — ela resmungou, antes de respirar fundo e encará-lo novamente. — As vezes você me deixa muito furiosa.
— Pelo menos não a aborreço, como meu pai aborrecia minha mãe.
— Certa vez disse que ela o abandonou antes de morrer...
— Minha mãe não morreu.
— Não? Mas Angela disse...
— Asseguro que ela está viva, e muito satisfeita. Casou-se com um político francês de grande importância e tem outros dois filhos adultos.
— Seu pai divorciou-se dela?
— Ela providenciou o divórcio assim que voltou para a casa da família. Papai é orgulhoso demais para admitir que foi um romance de férias fracassado, e daí o falso relato sobre a morte de minha mãe.
Isabella estava fascinada.
— Um romance de férias?
— A mãe de Alice havia morrido, e papai ficou viúvo com quatro filhas. Ele conheceu minha mãe em Paris. Mamãe era jovem, rica e mimada, e achou que seria divertido casar-se com um príncipe árabe. Vovô ainda ocupava o trono naquela época.
— Está dizendo que sua mãe era francesa? Cristã?
— Por que o espanto? Um terço da população local é cristã.
Havia esquecido esse detalhe. Há um século um grande número de cristãos emigrara do Egito para estabelecer-se na Jordânia. A presença desses fiéis levara o país a um grau muito maior de tolerância religiosa, e a uma transição amena para uma sociedade mais miscigenada do que na maioria dos países islâmicos. Mas não imaginava que Edward possuísse sangue francês e, percebendo sua surpresa, ele sorriu.
— Sou mais parecido com meu pai. Na verdade, não tenho nada de minha mãe.
— Por quanto tempo eles foram casados?
— Por mais tempo do que ela desejava, graças ao fato de ter ficado grávida logo no primeiro mês. Minha mãe deixou a Jordânia quando eu tinha duas semanas de idade.
— Seu pai não teria permitido que ela o levasse.
— Ela nem tentou. Uma criança teria sido um empecilho para alguém que pretendia um novo casamento.
— Foi isso que seu pai contou?
— Está ansiosa para despejar toda a culpa nas costas de meu pai — Edward suspirou irritado.
— Ele era completamente apaixonado por minha mãe. A rejeição, principalmente o fato de seu filho também ter sido rejeitado, causou a mais profunda e dolorosa das feridas.
— Nunca teve contato com sua mãe?
— Apenas uma vez. Eu a procurei, embora meu pai houvesse me prevenido de que seria inútil. — O príncipe riu com amargura. — Um esqueleto levantando-se do túmulo não teria provocado horror maior do que minha aparição. Ela não gosta de lembrar o primeiro casamento e o primeiro filho, porque seu marido não é exatamente apaixonado pelos homens de minha raça. Ainda estava lá quando ela fez a criada jurar que não revelaria minha visita a ninguém.
— Que coisa horrível! — Isabella exclamou com veemência, surpresa por sabor que existiam mães capazes de encarar os filhos com tanto repúdio, especialmente um filho que, embora rejeitado, ainda tivera a generosidade de ir procurá-la.
— Fala como se realmente se importasse.
— É claro que me importo — ela respondeu, desviando os olhos para não revelar mais que o conveniente. — Não desejaria essa experiência nem ao meu pior inimigo.
— Não sofri como está imaginando. Sempre fui amado por meu pai, a madrasta que me criou desde os três anos de idade tratou-me como uma verdadeira mãe. Tenho duas irmãs mais novas que você teria conhecido, se nosso casamento não houvesse sido arranjado às pressas. As duas são casadas e vivem fora da Jordânia.
— Então é o único filho.
— O que explica a proteção exagerada e embaraçosa de meu pai. Alice não estava brincando. Se espirro perto dele, papai fica pálido de preocupação. Alá devia tê-lo abençoado com outros filhos.
Jamais imaginara que Edward fosse o único filho do Rei Carlisle. Seis mulheres e um único homem! Podia imaginar como fora valorizado desde a hora do nascimento, e como devia sentir o peso das expectativas que pesavam sobre suas costas. De repente mudava de ideia a respeito do sogro. Já não o considerava um tirano disposto a comandar a vida do filho, mas um pai amoroso e super protetor.
— Papai começou a desenvolver sua famosa desconfiança por todos os ocidentais depois do fracasso do casamento. Ficou amargurado com a experiência, e por essa mesma razão fui educado aqui.
— E na única vez em que ele o deixou ir ao ocidente...
— Nós nos conhecemos. E quando o verão acabar e você partir, ele dirá.,. Ah, não! Não quero pensar no que meu pai vai dizer.
— É claro... Ele não queria que se casasse comigo.
— Não.
— E por que o desobedeceu? — Isabella perguntou com voz fraca, compreendendo a incrível coragem que ele tivera ao desafiar a ordem paterna.
Filhos árabes honravam seus pais e encaravam os desejos da família como regras absolutas a serem obedecidas, nunca questionadas.
— Já expliquei por quê.
— Seu desejo por mim era tão grande assim?
— Acha que tenho o hábito de seqüestrar mulheres e impor casamentos repentinos? — ele perguntou, respirando fundo antes de encará-la e sorrir. — Soube que andou visitando os estábulos. Sabe cavalgar?
A súbita mudança de assunto a espantou.
— Cavalgar?
— Costumo montar todas as manhãs, quando ainda é fresco. Se quiser, poderá ir comigo amanhã. O deserto é um lugar de beleza estonteante ao amanhecer, e gostaria de partilhar essa beleza com você.
— Não há muito sentido em partilharmos alguma coisa — Isabella comentou, atacada por uma nova e intensa onda de dor.
— Só por que vai partir? — ele se levantou. — Derrotista, como sempre. Se posso conviver com essa certeza, você também pode. E por que haveria de contentar-me com um arremedo de relacionamento? Não vou desvalorizar o que podemos viver enquanto estivermos juntos, como você insiste em fazer. Dividiremos mais que uma cama antes de voltar ao seu mundo.
— Há dez dias você se recusava a me deixar em paz.
— Há dez dias fui tolo o bastante para acreditar que estava mudando de ideia a meu respeito. Mas depois fui visitá-la em seu leito de convalescença e descobri meu engano. Discutimos literatura, política, economia e até seu projeto de pesquisa.
— Entendo, Está dizendo que o aborreci, não é?
— É inteligente demais para ser aborrecida, e sua opinião sempre me interessou. Mas, enquanto evita qualquer assunto mais pessoal e faz questão de demonstrar a mais completa falta de interesse por mim, sinto que ainda estamos numa fase de namoro...
— Na... namoro? — ela repetiu, levantando-se de um salto.
— Não me trata como amante ou marido. Nega-me a verdadeira intimidade de um casal... exceto quando olha para mim. Mas, se tive de aprender inglês para me fazer entender, você também terá de aprender a língua que quero ouvir.
— É isso que quer! Vingança! — ela concluiu. Sabia que ele só precisava tocá-la para tê-la a seus pés, mas essa certeza já não era o bastante para satisfazê-lo. Agora queria esgueirar-se em sua alma e desvendar todos os seus segredos, da forma que o controle fosse total.
— Algum dia duvidou disso? — ele sorriu.
— Devia ter imaginado — Isabella murmurou com tristeza.
— E eu devia ter resistido à tentação. Mas acusou-me de tantas coisas ridículas, que acabei perdendo a cabeça. Chego a dar risada quando penso nas duzentas concubinas, na esposa, na maneira como me encarava quando pensava estar diante de um homem violento... e, mais recente, imaginou que eu fosse uma espécie de Jekyll e Hyde que se transformaria num monstro horas depois de ter se casado com você. Se não pudesse rir, estaria perdido.
Isabella engoliu em seco. Agora que ouvira todas as acusações absurdas que fizera, sentiase embaraçada com a tolerância do marido.
— Sinto muito, mas... bem, havia um motivo para todas essas suspeitas. Minha tia casou-se com um árabe e enfrentou uma terrível experiência, como deve saber.
— Por que acha que sei alguma coisa sobre sua tia?
— Você mandou investigar minha vida.
— Apenas a vida amorosa. A única coisa que queria era ter certeza de que não estava envolvida com outro homem, e não precisava invadir sua privacidade para obter essa informação.
— Ah... — ela murmurou desconcertada.
— Estava falando sobre sua tia.
— Susan era apenas sete anos mais velha que ela, e fora uma visita constante durante sua infância. Pouco depois de completar dezenove anos, quando ainda estudava para concluir o Segundo grau, ela fora a uma festa onde conhecera um engenheiro iraniano. Faisal havia sido formidável, e mostrara-se encantado e apaixonado pela ocidental. Susan também se apaixonara, e o romance acabara em casamento. E acabara era a palavra perfeita para descrever a situação!
— Foi um desastre desde o início — Isabella contou. — Faisal mudou no instante em que eles se casaram. Passou a tratá-la como prisioneira, criticando suas roupas, vetando o uso de maquiagem e exigindo que se afastasse dos amigos. Até da família ele conseguiu afastá-la. A certa altura voltou-se contra nós, e no final passou a agredi-la fisicamente. Tia Susan teve de ir à polícia.
— E acha que essa história é uma evidência de diferença cultural?
— E não é?
— Esse tipo de homem existe em qualquer cultura, Isabella. São desequilibrados emocionais, ciumentos obsessivos que acabam sempre recorrendo à violência. Está falando de uma pessoa doente e perigosa, e sua tia teve muita sorte por conseguir escapar antes dele provocar algum dano mais sério. Por que sua família permitiu que uma jovem imatura e inexperiente se casasse com um estrangeiro praticamente desconhecido?
— Bem, ele... ele parecia tão romântico! Na verdade, minha tia era tratada com verdadeira devoção.
— Deve ter sido terrível testemunhar o fracasso de um casamento tão encantador.
Havia sido horrível. Susan ia procurar a casa de sua mãe todas as noites, os olhos roxos e o rosto inchado e cheio de hematomas, a energia da juventude drenada pela tensão e a infelicidade, pelo medo de um marido violento que a ameaçava diariamente. Fora um verdadeiro pesadelo. Mas, por mais que odiasse admitir, Edward tinha razão. Susan podia ter se casado com um compatriota e sofrido a mesma decepção.
— O que importa é que minha tia conseguiu escapar quase ilesa. Susan formou-se em administração de empresas e emigrou para o Canadá, onde é diretora de uma grande companhia internacional.
— Ela não voltou a se casar?
— Oh, não! Ela é muito ambiciosa.
— Seu modelo de mulher ideal?
Vermelha, pensou nas longas conversas que tivera com a tia durante sua visita ao Canadá, dois anos antes. Susan a recebera como se o fato de ter resistido à atração por um árabe a transformasse numa heroína! Jamais recuperara a confiança no sexo oposto e ainda era uma mulher amarga em função dos dois anos de pesadelo que vivera com Faisal. Pela primeira vez, Isabella compreendia o quanto também fora afetada pelo mesmo pesadelo.
Crescera testemunhando o desastroso casamento dos pais e o namoro da tia, com um homem aparentemente devotado e gentil, chamara sua atenção. Como não podia deixar de ser, ficara devastada quando esse relacionamento também chegara ao fim, acreditando que não existiam homens confiáveis ou amor verdadeiro.
Isabella abaixou a cabeça e admitiu:
— Admiro o que Susan fez com a própria vida desde aquela terrível experiência.
— Algumas mulheres conseguem combinar o casamento e a carreira.
— Super mulheres, você quer dizer! Um bebê num braço, o aspirador de pó no outro, e uma pilha de trabalho que trazem do escritório todas as noites.
— Empregados podem fazer a diferença. Minha irmã Alice conseguiu essa combinação com uma boa dose de sucesso. Assim que o filho mais novo foi para a escola, ela se dedicou aos estudos e concluiu o treinamento médico.
— Como diabos ela conseguiu esse milagre?
— Com força de vontade e o apoio de Jasper.
— Tenho a impressão de que Jasper pula cada vez que sua irmã estala os dedos.
— É verdade — Edward suspirou. — Ele é um homem gentil e sensível, e ainda está encantado com a esposa mesmo depois de tantos anos de convivência. Alice quebrou muitos tabus em nossa família, e ele se orgulha de suas conquistas. Os dois vivem um casamento feliz, uma verdadeira parceria.
— Não estava criticando seu cunhado — ela explicou, sem entender por que ele fazia tanta questão de provar que carreira e casamento não eram conceitos exclusivos. Talvez quisesse fazê-la sentir inveja...
— Deve haver uma certa dose de compromisso numa relação entre um homem e uma mulher — Edward opinou.
— É claro. E sei quem acaba sempre assumindo o compromisso. A mulher!
— Isso nem sempre é verdade.
— É mais verdadeiro do que deveria ser.
De repente Isabella compreendia que tomara a tia como modelo a ser seguido, não por pura admiração, mas porque não pudera respeitar e admirar a mãe depois de vê-la sempre se humilhando por um marido que jamais a tratara com respeito e consideração.
— Está querendo dizer que não existem mulheres oportunistas que tiram vantagem dos homens?
— Você não desiste nunca? — ela suspirou.
— Você precisa aprender a argumentar com lógica, aziz. É muito teimosa.
— E você não é? — ela se irritou, virando-se para fitar aqueles grandes e profundos olhos verdes.
Ao ver o brilho que os iluminava, Isabella não pôde impedir uma reação imediata do próprio corpo. Como era possível desejar tanto alguém que não a queria, que só a perseguira para provar que ninguém poderia rejeitá-lo?
—-Não olhe para mim desse jeito.
— Por que não? — Isabella sorriu, notando que o príncipe estava ofegante. Nesse nível eram iguais, e isso a enchia de confiança.
De repente Edward puxou-a de encontro ao peito e o instinto assumiu o controle. A boca apoderou-se da dela com urgência, provocando um arrepio que a percorreu da cabeça aos pés, espalhando ondas elétricas que a deixaram desorientada, tonta, desesperada pela satisfação que só ele poderia proporcionar.
Por isso o choque da separação foi tão forte. Aturdida, abriu os olhos para fitá-lo e descobriu que ele havia ido encostar-se à parede, os olhos iluminados por um brilho triunfante.
— Você aprende depressa, aziz.
— E você é um excelente professor — ela devolveu, o rosto tingido por um rubor intenso.
De repente sentia-se insuportavelmente humilhada.
— Oh, não! Fui muito impaciente e ensinei as coisas erradas — ele murmurou,
aproximando-se para entrelaçar os dedos nos dela.
Lágrimas quentes ameaçavam brotar dos olhos de Isabella numa torrente desesperada. Queria-o tanto, que era como se tivesse um relógio no lugar do coração, um relógio que marcava a passagem do tempo e a impedia de esquecer que, em breve, tudo estaria acabado.
— Venha comigo — ele pediu. — Quero que veja algo. Sem soltar a mão dela, Edward levoua a um dos salões do palácio e apontou para um belo cesto de vime deixado sobre um tapete caríssimo. Isabella não precisou abri-lo para saber do que se tratava.
Dois anos antes, o príncipe a presenteara com uma linda gata persa, e agora decidira repetir a dose.
Emocionada, ajoelhou-se ao lado do cesto e abriu-o, encantando-se com o lindo filhote que, imediatamente, saltou para a liberdade.
— Esse é macho — Edward informou.
— Sim, eu... Obrigada. Ele será uma ótima companhia para minha gata... quando eles conseguirem se encontrar.
Um casal. Homem e mulher. O príncipe certamente acreditava que os dois produziriam belos filhotes. Jamais pensaria que ela podia ter levado a gata ao veterinário para uma cirurgia de esterilização. Uma gata sem filhotes, como sua dona. Sim, jamais teria filhos porque, se não pudesse ter Edward, nunca mais se entregaria a outro homem.
— Está pensando nas regras britânicas de quarentena, não é?
— Quarentena? — ela repetiu confusa. — Oh, sim! Ele estará crescido quando cumprir os seis meses de observação e puder ir para casa.
— Entendo. Bem, preciso ir dar alguns telefonemas. Se me der licença...
Odiava a ideia de vê-lo partir, e por isso apressou-se em dizer:
— Não pode deixar as ligações para mais tarde?
— Por que quer que eu fique? Sem dúvida prefere que eu tome providências para que o gato seja posto em quarentena imediatamente, não?
— Não... sim... Ah, eu não sei! Afinal, o que fiz de errado? Disse alguma coisa que não devia ter dito?
— Nada que seja importante.
Tentando retê-lo a seu lado nem que fosse apenas por mais um minuto, Isabella atreveu-se a fazer uma pergunta mais pessoal.
— Seu pai viveu aqui com sua mãe?
— Não é óbvio?
Oriental de um lado, ocidental de outro. O palácio era a evidencia da distância que havia separado o casal.
— Isso significa que ninguém quis ceder nesse relacionamento? — ela perguntou.
— Minha mãe não pretendia tornar-se uma nativa, como ela mesma dizia. E você também não foi muito mais generosa no dia do nosso casamento.
— Eu, você não me deu tempo suficiente! As pessoas precisam se adaptar às novas circunstâncias, e sabe disso tão bem quanto eu!
— O que sei é que aqueles trinta minutos de espera no deserto foram os mais longos de minha vida. Quando superei a angústia, decidi que tínhamos de nos casar o mais depressa possível.
— Por que tentei fugir... ou por que eu não conseguia tomar nenhuma decisão com relação ao nosso relacionamento? Nos primeiros quatro dias de estadia em sua casa fui submetida a choques e sustos sucessivos, sem saber o que pensava ou sentia. Tudo acontecia muito depressa; não podia controlar a situação e não tinha a menor ideia do que fazer. Era enervante...
— Mas o fator surpresa trabalhou a meu favor. A mesma estratégia não teria dado resultado na Inglaterra. Lá, você teria fechado as portas, tirado o telefone do gancho, fugido para algum lugar onde eu não poderia encontrá-la. E mesmo aqui, como minha esposa, ainda coloca barreiras ofensivas entre nós!
— Mas não sou sua esposa de verdade, Edward! Estou aqui apenas temporariamente, lembrase?
— Como poderia esquecer, se você vive brandindo essa certeza como uma espada?
— O que esperava?
— Você faz jogos perigosos em nome do orgulho — ele condenou com ar furioso. — Deixe-me esclarecer alguns fatos. Não nos encontraremos novamente depois que partir. Nosso tempo estará acabado, e não haverá nenhuma possibilidade de retorno, porque me casarei outra vez num espaço de meses. Essa foi a promessa que fiz ao meu pai. Também jurei que não voltaria a
procurá-la, e agora compreendo que não terei sequer vontade de vê-la novamente. Seu coração de pedra é capaz de repelir até os mais enraizados sentimentos!
Surpreendida, Isabella estranhou a intensidade da dor provocada pelas palavras de Edward. Felizmente a raiva veio em seu socorro e ela reagiu, os olhos chocolates fixos no rosto do príncipe.
— Que tipo de esposa espera encontrar depois de mim?
— Não discutirei esse assunto com você!
— Por que não? Tem sido sempre tão franco!
— Se quer mesmo saber, será a esposa perfeita de acordo com os padrões de meu pai. Se eu erguer a voz ela perguntará como me ofendeu. Não me desafiará nem desacatará minhas ordens. Nunca irá à minha cama sem ser convidada. Passará os dias vestida à moda ocidental, vendo tevê, fazendo compras ou conversando com as amigas. Posso até vê-la... bela, indolente, não muito educada... Mas me dará filhos.
Devastada, Isabella virou-se para esconder o desespero que sabia estar estampado em seus olhos. Então já havia realmente uma esposa à espera do príncipe! E Edward a descrevera sem alegria ou prazer. Na verdade, detectara uma certa repulsa em sua voz! Gostaria de ter forças para fazer novas perguntas, mas ele já estava deixando a sala, e seria melhor ficar sozinha até se acalmar e se recompor.
Passado o choque inicial, Isabella concluiu que a esposa que o rei escolhera não correspondia aos sonhos de Edward. Lágrimas de alívio brotaram de seus olhos quando finalmente compreendeu o que o marido tentava dizer desde o início. Edward não tinha escolha. Desde o primeiro instante tentara explicar que se casara com ela contra a vontade do rei, seu pai, e só agora ela enxergava a realidade.
O casamento temporário havia sido a última oportunidade de desfrutarem de algum tempo juntos, antes de ele atender aos desejos paternos e cumprir o dever de casar-se com uma mulher sem objetivos ou inteligência, mas disposta a produzir uma coleção de herdeiros para o trono. De repente tudo ficava muito claro. Talvez não fosse amor, mas Edward sentia algo muito forte por ela! Ainda lembrava o desespero que vira nos olhos dele, ao acordar naquele hospital, o cuidado que demonstrara em diversas ocasiões...
As lágrimas desciam por seu rosto numa torrente de dor e tristeza, e o desespero aumentou quando ela lembrou da aliança no fundo da piscina. Edward tentara demonstrar que a respeitava, que o casamento não precisava ser uma farsa, mesmo que fosse temporário.
O rei era um velho cruel e tirano, um sujeito preconceituoso que havia sido humilhado e desprezado pela esposa, e por isso decidira que uma ocidental jamais seria adequada ao precioso e único filho que pusera no mundo. Pois se conseguisse chegar perto dele, diria o que pensava a seu respeito e rezaria para que suas palavras o fizessem sofrer um ataque cardíaco!
A Respirando fundo, abriu os olhos e virou-se, e quase morreu de susto ao ver Edward parado a seu lado.
— Vá embora! — soluçou, odiando-se por não tê-lo ouvido entrar.
— Eu a magoei.
— De onde tirou essa idéia?
— Jamais a vi chorando antes.
— E o que esperava que eu fizesse depois de ouvir o que disse?
— Você me obrigou...
— Ah, isso mesmo! Ponha a culpa em mim!
Edward abraçou-a e Isabella ficou rígida por alguns instantes, até que o cheiro familiar da loção de barba e o calor das mãos em suas costas venceram sua resistência.
— Não devia criticá-la por ser a mulher que é - o príncipe murmurou emocionado.- Se fosse diferente, eu não a teria desejado.
— Isso é cruel - ela soluçou, o rosto escondido no peito do marido. — E você é teimoso, obstinado, irritante...
— Somos muito parecidos.
— Explosivo, agressivo...
— Nisso também somos semelhantes.
— Uma combinação infernal? — ela riu.
— Não... isso não, aziz. Embora não possa pensar no final do verão, guardarei essas semanas com você em meu coração. Para sempre...
Horrorizada com o próprio descontrole, Isabella explodiu novamente num choro
convulsivo. O que podiam fazer? Quisessem ou não, o verão chegaria ao fim, e então seria hora de partir.
— Quero minha aliança de volta — ela decidiu de repente. — E não vou rastejar por ela, ouviu bem?
— Nunca quis que rastejasse por coisa alguma. A única coisa que queria era que nos desse uma chance.
— Estou disposta a oferecer essa chance — ela disse, respirando fundo para conter as lágrimas.
— Mudará de idéia novamente antes que o sol se ponha.
— Prometo que não.
— O que provocou essa súbita mudança?
— Pensar em você com outra mulher... seu idiota!
— Então é ciumenta?
— É claro que sim! Acha que tenho os sentimentos de uma pedra?
— Confesso que pensei coisas desse tipo.
Nos braços de Edward, Isabella sentiu-se invadida por uma paz imensa e, exausta, não conseguiu conter um bocejo.
— Posso carregá-la até a cama?
— O que está esperando?
Mesmo sonolenta, podia sentir o coração batendo mais depressa.
— Infelizmente irei jantar com meu pai esta noite.
Cansada, Isabella nem tentou responder. Que direito tinha de discutir as decisões de um rei? Além do mais, talvez o rei Carlisle estivesse certo. Edward era filho de mãe francesa, e uma criança gerada por ele e uma inglesa poderia não ser aceita como o futuro governante pelo povo da Jordânia. Mesmo assim, precisava de algo a que pudesse se agarrar, ou não suportaria o futuro vazio
e sombrio que se estendia à sua frente.
Era uma idéia maluca, completamente irresponsável, mas... Sim, só isso lhe daria forces para continuar vivendo. Um filho de Edward, um pedaço dele para levar consigo quando voltasse para casa.
Ele jamais saberia, e o que não soubesse não poderia feri-lo. Dois meses... em dois meses teria de engravidar de um homem escrupuloso que tomava todas as providências contra essa possibilidade. Era uma missão difícil, mas não impossível, ela decidiu, pensando em uma ou duas idéias que a fizeram rir. Satisfeita com a própria decisão, Isabella finalmente adormeceu.
E ai o que acharam…..?
