ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

James estava surpreendido em como aquela garota aguentava prestar atenção à McGonagall a pesar do sono que tinha. Umas leves olheiras davam para perceber debaixo de seus olhos cansados, que em vão tentavam ser ocultas por um leve pó rosa salmão. Sorriu para ela quando a garota virou o rosto até ele, mas ela desviou o olhar no segundo seguinte. Ele matara a aula anterior, claro, mas não podia faltar à de Transformações, que era antes do almoço. Já tinha muitos problemas com a subdiretora do colégio como para estar faltando à toa.

As duas horas de aula passaram lentas. Lily a anotar em seu pergaminho as instruções da nova transformação que aprenderam. James e Sirius a dormitar no escritório, Peter a rabiscar uns desenhos no canto do pergaminho e Remus a anotar quase na mesma velocidade da ruiva. Matilde estava com o cotovelo na mesa, o queixo na mão e os olhos fechados, com a boca entreaberta em um sono leve. Só quando o sinal tocou os garotos, sonolentos, se mexeram dispostos a sair para o Salão Principal para almoçar.

– Potter! Evans! – chamou a professora McGonagall antes que eles saíssem da sala de aula. Sirius, Remus, Peter e Matilde também paralisaram, temendo que ela tivesse descoberto alguma coisa da festa ou de alguma coisa pior. – Isso cabe a vocês também, Lupin, Black e MacDonald.

– O que quer que seja não fomos nós – defendeu-se Sirius com rapidez, levantando as mãos como pedindo perdão, mas o sorriso maroto não saía de seu rosto.

– Quero falar com vocês sobre a peça de teatro que vocês estavam ensaiando para Halloween – disse McGonagall com tom sério.

Os garotos entreolharam-se sem entender sobre o que ela estava falando, até que Lily e Remus trocaram olhares de compreensão.

– Claro, professora. Sobre o quê quer falar? – indagou a ruiva com educação. James então abriu a boca largando um "Ahh" de compreensão um pouco fora de lugar, o que fez que a garota lhe lançasse um olhar fulminante.

– Estive falando sobre a idéia de vocês com os outros professores e acordamos em dar a vocês um espaço para que mostrem sua peça para o resto do colégio. Espero que não me decepcionem. – E com um leve sorriso quase imperceptível combinando com seus olhos de águia, indicou aos garotos que podiam se retirar.

Os garotos esperaram a que estivessem o suficientemente longe da aula de Transformações para falar sobre o que acabara de ocorrer. Sirius abriu a porta de uma aula vazia e indicou aos outros que entrassem.

– Que encrenca! – falou James passando as mãos pelos cabelos, arrepiando-os e sorrindo para Lily, quem tratou de desviar os olhos o mais rápido que pôde.

– A culpa é sua, quem mandou inventar uma mentira dessas? – disparou Matilde, largando a mochila rosa sobre uma mesa e sentando-se com as pernas cruzadas. Remus acariciou o queixo com o indicador e o polegar, pensativo. – Agora, em menos de uma semana temos que inventar uma peça de teatro para Halloween... Isso é para o domingo! E hoje é terça!

Lily percebeu que Sirius e Remus trocaram olhares frustrados, e James observando-os também mordendo o lábio. Peter também parecia saber o que tanto perturbava ao jovem Lupin. Matilde só cruzou os braços grunhindo coisas incompreensíveis em voz baixa, tal vez amaldiçoando os garotos por agora fazê-la entrar de atriz.

– Eu não vou poder assistir o domingo – declarou Aluado um pouco sombrio. Lily então percebeu que tinha que ver com isso o que preocupava os garotos. – Mas vocês vão fazer isso para McGonagall de qualquer jeito. Ela conta conosco para isso, não podemos deixá-la plantada diante dos outros professores e de Dumbledore.

– Sim, gênio, o que pretende fazer? – rebateu James, segurando a alça da mochila que levava sobre um ombro só.

– Vamos representar um conto trouxa.

– J – L –

Lily não entendeu por que Remus escolhera justo Alice no País das Maravilhas, uma das suas histórias favoritas tanto pela história divertida como toda a filosofia que guardava por trás. E menos entendeu quando fora escolhida quase por unanimidade pelos garotos para ser a protagonista, se era Matilde quem encaixava mais na descrição da garota loira da história.

Depois de repartir os personagens, Remus começou a armar a história, já que a história original seria modificada para que todos, inclusive os alunos que nunca a ouviram, pudessem entender.

Remus, ao perceber que James, Sirius, Peter, Lily e Matilde não eram suficientes para interpretar a obra inteira, ele chamou Alice e Frank para cobrir os buracos. O pouco tempo que restava obrigavam-nos a ensaiar a noite inteira depois de aulas. Na quinta-feira os garotos começaram seus ensaios sem o diretor, o que provocou caos por causa das brincadeiras de James e Sirius. Lily então se encarregou da direção da obra.

Na noite de sexta feira, à uma da manhã depois de um ensaio exaustivo, Lily aproximou-se a James.

– Posso falar com você?

James sorriu amplamente, o sorriso torto para um lado. Sirius, que era o único que restava no Salão Comunal, se espreguiçou e se levantou do sofá em que se havia jogado.

– Acho que vou dormir – bocejou ele, e subiu pela escada que conduzia ao dormitório dos garotos. Antes de desaparecer, fez um sinal com o polegar a James pelas costas da ruiva.

– Sei que não é da minha conta nem nada parecido – começou a dizer Lily, antes que James falasse alguma coisa de que ela não queria conversar, – mas o que é que acontece com Remus?

Lily percebeu que James abrira os olhos com surpresa pela pergunta, mas ele voltou a sorrir torto, levando a mão ao cabelo para despenteá-lo.

– Você sabe, ele tem a mãe doente ou coisa assim. Por que está perguntando?

– Por nada, é só que acho estranho ele não levar nada quando vai embora, e sempre vai uma semana por mês... Bom, era só isso... Até amanhã então.

James ficou observando enquanto ela começava a subir pelas escadas.

– Hey, ruiva!

Lily virou-se até ele, com a mão ainda pousada no corrimão da escada, a boca ligeiramente aberta, respirando entrecortadamente. Desde quando comecei a reagir assim cada vez que ele me chama de "ruiva"? Perguntou-se sem entender por que parecia que seu coração acelerara. Por um momento pensou em subir correndo escada acima, mas seus pés não estavam obedecendo.

– Que foi Potter?

Ele sorriu torto, colocando as mãos nos bolsos dianteiros da sua calça jeans surrada.

– Depois da festa de Halloween não quer ir a dar uma voltinha pelos jardins? Tem um lugar que quero te mostrar.

Lily sorriu. É, James. Parece que tem muita coisa de você que não conheço...

– Seria ótimo – respondeu, dando meia volta e subindo as escadas sem esperar a reação dele. James sorriu de lado e deu meia volta para sair pelo retrato.

– J – L –

O palco estava oculto atrás do telão. Lily sentia seu estômago arder por causa dos nervos. Ao seu lado, Sirius tentava emparelhar as orelhas de coelho que saíam de entre seu cabelo preto impecavelmente penteado, com uns fios caindo ao lado do rosto e com um sorriso maroto em seu rosto. Eles eram os primeiros a se apresentar na obra, e a ruiva se posicionou em seu lugar. Viu Flitwick pronto com sua varinha: tinham pedido a ele para fazer todos os encantamentos e a troca de cenário, já que isso era a parte mais difícil. Lily então fechou os olhos enquanto ouvia o farfalhar do telão subir e os murmúrios dos alunos acabarem repentinamente.

– J – L –

Lily estava deitada no chão. Abriu os olhos e observou ao seu redor. Encontrava-se em uma réplica de uma sala ampla e de paredes brancas, sem janelas. Não havia nada ali, exceto um coelho branco pulando de um lado ao outro: Sirius estava realmente uma gracinha com o terno branco, as orelinhas em sua cabeça e o relógio de ouro pendurado do bolso do paletó. De costas para a platéia, sorriu para Lily e piscou um olho.

– Tô atrasado, tô atrasado! – repetia ele, entre o trote e o pulo pelo palco.

Os sapatinhos de Lily soaram no chão enquanto perseguia Sirius.

– Oi... Coelinho...!

Sirius olhos para ela, fez uma cara de assustado e deu três pulos até chegar a borda de um buraco no chão. Lily ladeou a cabeça, franzindo a testa. O coelho soltou um risinho, acenou coma mão para a garota e pulou, desaparecendo.

– Mas o que foi isso? – perguntou-se Alice, ajoelhando-se junto ao buraco. – Oooooi! – gritou pra o vazio debaixo de seus olhos, sem perceber que o coelho estava atrás dela, sorrindo maroto.

– Bye, bye – murmurou o coelho branco, e a empurrou.

Em um abrir e fechar de telão, Lily então gritava caindo por um tobogã até parar em outra sala, de paredes azul céu e também sem janelas. A única coisa que tinha no lugar era uma bananeira (que incrivelmente crescia de um tapete laranja) e um baú de madeira, de onde saiu Peter, vestindo uma capa verde musgo e com umas orelhas enormes de rato, com um rabo balançando atrás de si.

– Hey! Pode me dizer onde...? – mas Alice não terminou a frase. O rato deu um gritinho agudo e correu para se esconder atrás da bananeira. – Espera! Eu não...

Mas Peter arrancou uma banana, comeu-a e, com um estampido de fumaça, ficou tão pequeno que Alice não teve tempo de pegá-lo antes de ele desaparecer atrás de umas pequenas portas da parede da direita. Lily voltou a franzir a testa e abriu o baú.

– E aquele de onde saiu? – perguntou-se ao ver seu interior. Correu então para as portas pequeninas e as abriu, agachando-se para poder olhar pela abertura.

– Hey, você! – gritou, mas logo exclamou. – Olha só, o coelinho! – Olhou ao seu redor, preocupada. – Não tem portas nem janelas aqui... Então... Parece que a única saída é por aquelas portinhas... Mas... – Dirigiu-se até a bananeira, pensativa, e pegou uma fruta. Suspirando descascou-a e comeu-a.

E de repente tudo ao seu redor começou a ficar maior (e os alunos mais jovens exclamaram "Oh!", enquanto os maiores comentavam sobre o feitiço que poderia ser usado para dar esse efeito). O único que via então Alice era as portas na sua frente, um pouco mais altas do que ela. Sorrindo, abriu as portas. O palco girou enquanto ela as atravessava e caiu em uma enorme piscina que estava do outro lado.

Passou dois segundos antes dela surgir de novo e nadar até o outro lado, segurando-se de uma escada que estava na beirinha.

– Vejo que você chorou muito.

Alice virou-se e do escuro saiu um cogumelo gigante, onde Frank estava sentado, com um traje de lagarta azul, fumando uma espécie de narguile* árabe de muitas cores, o ar se enchendo de um cheiro doce, uma mistura de chás de todas as frutas. O mais estranho era que dele também saíam bolhas de sabão. Lily abriu a boca e observou-o com interesse.

– A água dessa piscina são todas as lágrimas que chorou seu coração até agora. Tristeza, solidão... Suportou isso por muito tempo, não é verdade? Mas de qualquer jeito deveria sair dessa piscina imediatamente... Ou vão te comer...

– Hã? – exclamou Lily, e estou virou o rosto até a lisa superfície da piscina. Três pares de olhos surgiram e avançaram até ela velozmente. Alice gritou e subiu a escada, pulando até ficar perto da lagarta. – O que foi isso? Não tô entendendo nada! Tenho que voltar ao meu tamanho original o mais rápido possível... – murmurou a garota, o cabelo vermelho pingando sobre o vestido também molhado. Olhou ao seu redor. – Mas... Acho que já voltei ao meu tamanho original...

– Um te fará maior – disse a lagarta, e Lily virou-se até ele. – Um te fará menor.

– Do que está falando? – perguntou Alice.

– Não vai ser barato – disse ele, espirando um monte de bolhas.

– Mas... Eu não sei nem se estou grande ou pequena – disse ela, analisando os pequenos cogumelos que cresciam ao redor do maior.

– Isso depende do ponto de vista... Olha, ali tem uma porta.

Lily virou-se. Do outro lado da piscina havia uma porta aberta, e um bebê loiro engatinhava até a escuridão do outro lado. Ela correu até o garotinho, que já tinha desaparecido, e entrou, a porta fechando-se atrás de si.

Um fechar e abrir de telão, Lily agora abria uma porta à direita e caía no chão.

– Ela caiu, ela caiu! – disse uma voz. Alice levantou os olhos. Matilde, com os cabelos loiros e encaracolados soltos sob os ombros, sentada sobre uma cadeira com um vestido azul e longo. Ao seu lado, um sofá amarelo onde Sirius, vestido agora de gato roxo, deitado de bruços e apoiando o rosto na mão esquerda. O rabo balançava levemente, e ele sorrindo mostrando todos os dentes.

– Eu sou a Duquesa – disse Matilde. – A garota que está fazendo a sopa é nossa cozinheira. – Lily então percebeu que junto á porta, atrás de si, uma mulher estava inclinada sobre um caldeirão, de costas para ela. Sabia que era sua amiga Alice. – E aquele que dorme ali é nosso gato – continuou a disser a Duquesa. O gato abriu o sorriso mais ainda se fosse possível.

– Não sabia que os gatos pudessem sorrir desse jeito – comentou Lily, ladeando a cabeça para observar o felino. Sirius voltou a piscar-lhe um olho.

– Por que tenho que cozinhar? – gritou a cozinheira, tomando Lily de surpresa. – Já me cansei! – continuou dizendo, lançando pratos para a Duquesa, quem nem se mexeu. A platéia riu e a cozinheira foi embora. Lily só levantou as sobrancelhas e olhou para Matilde, percebendo que ela tinha o bebê loiro entre os braços.

– Assim que a senhora é a mãe desse bebê... – disse Lily para a Duquesa.

– Está interessada no bebê? – indagou então Matilde, sem nenhuma expressão no rosto.

– Que bom que você encontrou sua mamãe... – disse Lily sorrindo para o bebê. – De verdade, que bom...

Matilde olhou pela janela no fundo do palco.

– Acho que já é hora de eu ir – disse, e estendeu o bebê para Lily. – Você poderia cuidar desse garoto por mim?

Lily, sem entender, segurou a pequena criança em seus braços.

– Aonde vai, Duquesa?

– Fui citada para comparecer a um juízo. – E sem dizer mais, levantou-se e saiu pela mesma porta que Lily tinha entrado.

– Juízo? – perguntou Lily à porta que se fechava.

O gato no sofá sentou-se e olhou Alice de soslaio.

– De verdade você pensou que esse porco era o bebê da Duquesa? – indagou ele com um meio sorriso. Lily observou o bebê que segurava no colo, mas tinha se convertido verdadeiramente em um porco.

– Mas o que está acon...? – começou a dizer ela, mas quando levantou os olhos para o sofá, Sirius também tinha desaparecido.

Lily inclinou-se sobre o sofá amarelo e deixou o animal ali. Olhou a porta que estava do lado oposto ao qual entrou e desapareceu. O palco voltou a girar e Alice encontrou-se em um corredor cheio de colunas, e Sirius estava ali, apoiado sob uma delas, de braços cruzados.

– Gato! – exclamou Lily, mas ele virou a coluna e desapareceu. – Mas...

– Por aqui... – E Sirius voltou a aparecer de outra coluna. – Surpreendida?

Lily observou-o com o cenho franzido.

– Ah, sim.

– Posso desaparecer... – E Sirius deu mais uma volta na coluna para aparecer em outra atrás de Lily – ...e aparecer como agora.

– É incrível – comentou a garota. Sirius fechou os olhos e voltou a rir com todos os dentes. – mas de qualquer forma, eu queria perguntar uma coisa. Por onde eu devia ir?

– Isso vai depender... – Sirius desapareceu e apareceu em duas colunas depois - ...de onde quer ir.

– Quero voltar – declarou a garota com segurança, voltando-se até ele – a onde eu pertenço.

O garoto apareceu atrás dela novamente.

– Não se tem permitido voltar... – Sirius voltou a aparecer na sua frente – ...sem ver a Rainha.

– A Rainha? – indagou ela olhando para trás porque o gato voltara a desaparecer, mas não voltou a aparecer. Dando os ombros, ela voltou a caminhar pelo corredor.

– Pode-se dizer... – o gato apareceu na coluna ao seu lado – ...que este mundo... – continuou, aparecendo na coluna seguinte – ...é governado... – e a coluna seguinte – ...pela Rainha.

Lily deteve seu andar. O gato voltara a desaparecer.

– Olha, eu não posso falar adequadamente deste jeito. Será que pode deixar de fazer isso? – pedir ela. Mas o gato não deu sinal de querer aparecer. – Então não importa. – E continuou caminhando até a porta do outro lado. Sirius saiu de uma das colunas e observou-a partir.

O telão se fechou e abriu em um piscar de olhos, e Lily entrou em um cenário cheio de mesas vazias, exceto por uma. Ela se deteve ao lado dela e observou as três pessoas que estavam ali. À esquerda havia um chapeleiro, à direita uma lebre e no meio, dormindo com os braços e a cabeça sobre a mesa, um arganaz.

– Isto... – disse Lily, ladeando a cabeça.

– Não tem assentos livres – falou o Chapeleiro, sem levantar os olhos do seu chá. Lily observou-o, e esqueceu o que tinha que fazer por um momento. James estava muito bonito com o traje vermelho e longo, a cartola preta e alta caindo sob a testa. Levou a xícara à boca com lentidão, e Lily se lembrou de fechar a boca.

– Isso, não tem assentos livres.

– Hã? – exclamou Alice, olhando as mesas vazias ao seu redor. Pestanejou e voltou os olhos para os três. Passaram-se cinco segundos, nos quais se podia ouvir o tic-tac de um relógio próximo.

– Não tem... – começaram a dizer o Chapeleiro e a Lebre, mas Alice os interrompeu:

– Assentos livres, né? – Lily começou a andar até a porta do outro lado.

– Hey, pára! – exclamou James, levantando-se de sua cadeira e olhando Lily por primeira vez desde que o telão tinha subido. Ela estava realmente bonita, com os cabelos soltos, com um prendedor azul com uma rosa do lado direito do rosto, levando um vestido azul céu que chegava até os joelhos, dando-lhe um ar infantil tão meigo que ele teve vontade de ir correndo a abraçá-la. Ela sorriu de leve para ele e se deteve, tentando se concentrar na peça. – Não avance a conversa por sua conta! – exclamou o Chapeleiro, apontando-a com o dedo índice.

– Era brincadeirinha! – exclamou Sirius, vestido feito a lebre, as orelhas cinza saindo do cabelo preto. Também levava um terno, mas de um tom azul escuro. Lily concordou então com Remus que ele era o garoto perfeito para ser os animais mais fofos da história, já que estava arrancando suspiros e gritos da platéia. Tanto ele como James. – Aqui também tem muito assentos livres, não é verdade? – continuou dizendo Sirius, sacudindo os braços e fazendo biquinho, com o garfo na mão e um pedaço de pudim na outra.

Lily contemplou-os com perplexidade, arqueou as sobrancelhas e se dirigiu até ele, sentando-se frente ao Chapeleiro sem pensar. James e ela entreolharam-se.

– Queria perguntar-lhes uma coisa – disse Lily, observando Frank, vestido de Arganaz, dormitar ao lado de James.

– Seu cabelo é muito longo.

– Hã? – disse Lily, observando James, que era quem tinha falado.

– Gosto desse cabelo – disse então.

– Por que está falando do meu cabelo? – indagou a garota. Isso está no scrip? Perguntou-se ela. Ou esse garoto só quer me elogiar em público?

– Adivinha, adivinha! – exclamou então o Chapeleiro, e Lily levantou as sobrancelhas, sem entender. – Por que um cachorro e um cão são tão parecidos?

– Porque são a mesma coisa – disse Alice sem da importância.

– Não! Você está errada – exclamou James energicamente, levantando-se de sua cadeira com as mãos apoiadas na mesa.

Um carrinho de mão surgiu empurrado do nada e se deteve justo junto à mesa, com uma jarra grande, de uns 5 litros, sobre ela.

– Olha, olha! – exclamou Sirius sorrindo maroto. – Chegou Uísque de Fogo, você quer um pouco?

– Que os menores bebam álcool está proibido por lei – recitou a garota solenemente.

O Chapeleiro abrira a boca para protestar, mas um relógio soou ao longe, anunciando às três da tarde. Logo se juntaram mais relógios a soar. James tirou do bolso do paletó um relógio e observou-o.

– Aqui são sempre às três da tarde – disse, voltando a guardar o relógio.

– Por isso é sempre a hora do lanche.

– Então, que lugar é este exatamente? – indagou Lily curiosa. – Eu entrei por um buraco perseguindo um...

Soou uma corneta ao longe, e tudo ficou em silêncio por vários minutos. Lily olhou para cima tentando descobrir de onde tinha saído aquele som.

– O que foi isso?

– Acabou de começar um juízo – informou James, fechando os olhos e erguendo-se na cadeira.

– Juízo? – indagou a garota olhando-o.

– A Duquesa vai ser sentenciada à morte – disse Sirius cortando um pedaço bastante grande de pudim e levando-o à boca.

– Isso por quê? – perguntou Lily levantando-se da cadeira e apoiando as mãos na mesa.

James, com a xícara de chá na mão e sem olhá-la, disse:

– Porque a Rainha assim o quer... Suponho...

– Isso está muito errado! – exclamou a garota, dando meia volta e correndo até a porta.

Alice surgiu em um cenário fechado, com várias cadeiras ocupadas no fundo, Matilde sentada em uma pequena cadeira na frente de Alice, vestida de Rainha de Copas, e de Frank, vestido de Rei.

– A acusada: a Duquesa – começou a dizer o rei. Lily ficou de pé, observando. – Quando organizamos uma festa de música, você aceitou nosso convite e viesses. Você admite o crime?

– Acaso isso é um crime? – atacou Alice, correndo até ficar entre os reis e a Duquesa.

O rei levantou os olhos até ela, franzindo a testa.

– E você quem é?

– Eu sou... A advogada da acusada! – disse a garota.

Matilde levantou-se da cadeira e dirigiu-se até os reis.

– Comparecer às festas sociais é o meu trabalho, alteza – defendeu-se ela.

A rainha levantou o queixo em um gesto autoritário.

– Deixando para trás seu precioso filho? – Lily e Matilde abriram a boca de surpresa. – Seu crime é, embora fosse por trabalho, deixar seu filho sozinho em casa... E você o submergiu em solidão...

– Não, sua alteza. Isso não é verdade – declarou Lily em um tom forte e firme. – Os filhos sabem muito bem quando seus pais estão ocupados. Não vão manifestar nenhum rancor deles. Além do mais, se vai sentenciá-la a morte... O que vai acontecer com a criança?

O rei se endireitou na cadeira.

– Este é um lugar para a lei, não um lugar para as emoções pessoais! – exclamou.

– Se não há emoções em um juízo... Então que as máquinas façam este trabalho! – contra-atacou Lily, dando um passo à frente. – Já não necessitaremos juízes ou advogados!

O rei apertou os dentes.

– Que insolente! Acaso a senhorita tem um certificado que comprove que seja advogada? E antes disso, não é uma criminal? Ante isso, primeiro vamos nos encarregar dos crimes desta advogada.

Lily vincou a testa.

– Meus crimes?

A rainha se levantou da cadeira e apontou Lily com um dedo.

– Cortem-lhe a cabeça!

Alice escancarou a boca, horrorizada. Milhares de cartas de baralho pularam sobre ela, saindo de todas as partes... E logo essas cartas foram se transformando em balões pretos, brancos e vermelhos. Lily acordava na sala de sua casa, na qual tinha dormido ao lado de suas bonecas. Matilde, que levava um vestido parecido ao dela e o cabelo tingido magicamente de vermelho, olhou-a com repreensão e colocou as mãos na cintura.

– Alice! Sua dorminhoca!

– Eu tive um sonho tão estranho! – exclamou Lily, levantando-se do chão. – Vem cá que te conto...

E o telão fechou. Os aplausos encheram o Salão Principal, Lily abraçou Matilde e Sirius passou os braços pela cintura da loira, abraçando-a por atrás. Lily virou-se e viu James sorrindo para ela, e a garota não deteve a vontade de abraçar ele também. O telão voltou a abrir e Matilde, Sirius, Lily, James, Peter, Alice e Frank deram as mãos para fazer a reverencia aos espectadores, que aplaudiram com mais entusiasmo.

Ao fechar de novo o telão, e por última vez, James não soltou a mão de Lily, e ela o fitou tentando saber o que estava pensando. O moreno riu torto, e sua cartola caiu um pouco para a direita, fazendo Lily sorrir. Então os dois saíram do Salão Principal o mais desapercebidamente possível e chegaram aos jardins quinze minutos depois.

– Lembra dele? – perguntou James apontando um coelho branco que pululava pelo jardim. Lily sorriu e observou o animal desaparecer no buraco entre as raízes de uma árvore relativamente grande. James seguiu-o e convidou a garota a entrar.

O lugar era o suficientemente grande para entrar os dois de pé, e James se havia encarregado de colocar dois faróis para iluminá-lo. Num canto do lugar, uma cartola preta estava repousava no chão e o coelho saiu dela com uma rosa amarrada ao seu pescoço. Lily riu e se abaixou para pegá-la.

Olhou James e sorriu-lhe.

– Gostou? – perguntou-lhe ele.

– Amei! Isso faz lembrar minha infância... – exclamou ela feliz. – Como...?

James segurou o rosto de Lily e se aproximou. A garota fechou os olhos e pousou seus lábios nos dele.

– J – L –

* Narguile: O tabaco árabe, aquele troço grandão de cores que eles fumam com uma mangueira, sei lá. Só sei que aqui tem de montão.

A idéia do capitulo foi inspirada no episódio 13 do anime "Ouran High School Host Club", chamado Haruhi no país das maravilhas.

Foi o capítulo mais difícil de fazer, já que a história de Alice tem toda sua filosofia... Espero, a pesar de tudo, que tenham gostado! O próximo virá logo.