( Autora says: FIC REVISADA! Eu havia escrito em 29/08/07. Revisada agora, dia 26/05/11. Espero que gostem! Não esqueci de vocês :*)


Eu estava sentado no banco da parada de ônibus, como fazia todo santo dia. As mesmas pessoas, mesmos carros, mesma rotina. Subi no ônibus. Agora você me pergunta o porquê de um promotor como eu não ter um carro, certo? Eu tento preservar o meio ambiente. Mas isso não vem ao caso. O mundo é entediante. Tento não me projetar nesses pensamentos, mas não consigo. Dói só de saber que sou mais um mero humano. Pessoas sorriem, riem, tem uma razão para viver. Mas e eu? Não tenho. Alias, claro que tenho, hei de me esforçar cada vez mais para exercer a justiça em meu trabalho. Pelo menos no trabalho, mas isso não me satisfaz mais. Precisava de algo para me esforçar, para ver resultados, pra me sentir correspondido... Foi aí que vi uma luz. Ok, na verdade não foi uma luz. Foi uma porta que se abriu, naquela manhã no meu escritório.

- Mikami-sama, um policial gostaria de falar com o senhor.

Policiais, odiava aquela raça. Não existem pessoas mais corruptas e sem moral de justiça que eles. Eram... Repugnantes. Recusei sem nem pensar.

- Fale que não estou... Você sabe Yumi-san...

A olhei com tédio, transmitindo meu real sentimento.

- Mas, Mikami-sama... Ele insistiu, falou que o esperaria caso não estivesse. O que eu faço?

Sorri com os olhos meio fechados, expressando tolerância. Pedi o nome desse tal policial e o mandei entrar. Deu dois passos da porta e direcionou seu olhar para mim; parecia surpreso. Ele era jovem, deveria ter minha idade ou um pouco mais. Esboçava um sorriso simpático e parecia vestir seu melhor paletó. Abaixou a cabeça em um gesto de respeito, eu correspondi. Após isso, não tirou seus olhos dos meus, parecia querer ler meus pensamentos. No mínimo, mais um desgraçado querendo me intimidar.

- Yagami Raito, certo?

Perguntei sério, desviando meu olhar para um papel que havia sobre a mesa.

- Correto, Mikami-sama.

- Apenas Mikami, por favor.

Eu disse, voltando a olhar em seus olhos – que conseqüentemente estavam seguindo os meus – e logo me pus a analisar suas mãos: teria aliança? Hm... Sempre tive esse hábito, de querer deduzir a vida das pessoas pelas pequenas coisas, apenas pelo olhar. E ele não iria escapar dessa minha brincadeira pessoal.

- E me chame de Raito, Mikami..

E, analisando-o assim, como o medíocre ser humano que é... diria que não dorme há dois dias, não tomou café da manhã e tem problemas de dor de cabeça. Fora que é compromissado, mas não está de acordo com isso ainda (notei a leve mania de esconder a mão que abriga a aliança). Pois bem, o que ele queria mesmo?

- No que posso ajudá-lo?

- Desculpe não ter ido direto ao assunto; pois bem, um de seus clientes é suspeito de uma investigação... Assunto sério e problemático, e que por acaso estou no comando desse caso.

Permaneci olhando em seus olhos enquanto falava, e ele desviou por um momento enquanto se perdia nas palavras. Estava um pouco nervoso e parecia fugir do assunto, parecia querer prolongar... Parecia querer tempo. E na verdade, nem me respondeu o que perguntei. Sorri e perguntei novamente.

- No que posso ajudá-lo?

Ele ficou um pouco sem graça, mas acomodou-se na cadeira, cruzando uma das pernas e apoiando os cotovelos nas coxas. Voltou a fitar-me.

- Gostaria de saber o que você sabe sobre ele.

Raito sorriu, jogando uma mexa de cabelo para trás. Suspirei entediado, e voltei a folhear alguns papeis.

- Qual o nome do sujeito?

- James Tuner.

Sorri. James era um antigo conhecido meu, envolvido na máfia e cursou o colegial comigo. Abri uma gaveta grande que havia ao lado da minha mesa e comecei a procurar a pasta do tal, enquanto isso, arrisquei algumas palavras sobre o James.

- ...Vulgo Jay Tun, certo? Programador, casado, trabalha na J&J Programers.

- Ele mesmo. Alias, pensei que Mikami-san fosse mais velho, sempre ouvi falar de você. Tem uma certa fama..

Franzi a testa e voltei meu olhar para o policial, dando um sorriso falso. Que diabos ele estava falando? Parecia querer intimidade. E aquele jeito era o mais errado para tentar tirar verdades de mim. Achei a pasta e deixei-a sobre a mesa, sem abri-la.

- O que exatamente quer saber, caro Yagami?

Desconversei suas palavras anteriores – por mais que eu quisesse iniciar um papo com ele, continuava travado por precaução. Ele é policial, oras. Senti que talvez quisesse me investigar.

- Tudo. Tudo o que sabe dele.

Yagami respondeu, e passou a língua entre os lábios, esboçando um sorriso desafiador. Oras, o que o faz pensar que irei falar sobre meus clientes? Aproximei minha cadeira da mesa, apoiando meus braços sobre ela.

- Desculpa, Yagami-san. Mas não posso falar a respeito dos meus clientes. Qualquer consulta é confidencial -

Ele me olhou com desdém, interrompendo-me.

- Mikami, eu não sou qualquer um.

E mostrou-me seu distintivo, complementando:

- Você esta falando com a justiça. Se a policia esta a investigar o seu cliente, obvio que ele deve ter culpa em alguma coisa. Não dificulte as coisas.

Bufei. Céus, eu merecia aquilo? Justiça, quem era ele pra falar sobre aquilo? Ignorante.

- Justiça? Não ouse a se referir a ela assim, sem ao menos saber o que significa.

Ele franziu a testa e descruzou as pernas, levando uma das mãos até o queixo.

- Então, o senhor acha que pode me lição de justiça, foi isso que eu entendi?

Respirei fundo. Aquele policial estava a fim de ouvir, certo? Não economizei fôlego para começar meu 'grande' discurso.

- Não acho, tenho certeza. O mundo esta podre, e principalmente vocês policiais fazem-no feder mais...

O telefone tocou. Maldita hora. Atendi, eram problemas. Brevemente voltei a falar com Yagami, que se manteve na mesma posição, apenas me analisando. Levantei da cadeira.

- Desculpe Yagami. Já que não poderei ajudá-lo na sua investigação, acho que não temos mais o que conversar. Por gentileza, poderia me dar licença?

Ele sorriu e levantou-se também. Fitei sua mão estendida. Queria um cumprimento?

- Oh, Desculpe o incomodo, Mikami... Mas gostaria de acabar essa nossa conversa mais tarde então. O senhor tem tempo para um almoço de negócios?

Seus dentes eram brancos, e seu perfume era um clássico pouco usado ultimamente. Cedi e apertei sua mão com força, confirmando com a cabeça – se eu não aceitasse, talvez isso me faria um suspeito... E policia era a ultima coisa que gostaria de ter no meu pé. Ele falou que passaria as duas para me buscar, no saguão do prédio da empresa.

Ele era pontual.

Surpreendeu-me. Estava no hall do hotel quando o avistei. Acenou e fui até ele, rapidamente nos cumprimentamos. Aquilo estava estranho demais, afinal, estávamos completamente opostos em pensamentos. Entrei no carro, era bem básico: um Audi 3, preto. Ele era severamente organizado, o carro estava limpo e sua maleta se encontrava no banco de trás, junto com um casaco. Aqui fazia frio severamente, andar com casacos de reservas era essencial. Sorriu para mim antes de dar partida no carro. O silencio era estonteante, me perguntei diversas vezes o porquê de estar ali.

- Então, já fiz nossa reserva em um restaurante que aprecio muito. Tomara que lhe agrade, me recuso a almoçar em outro lugar a não ser aquele.

Fiz que sim com a cabeça, não me arrisquei a falar nada – estava tentando analisar a situação e não esquecer o objetivo daquele almoço – até que chegássemos ao restaurante. Mas ele não ficou satisfeito com meu silencio.

- Vamos lá, esse silencio esta sendo cruel, fale alguma coisa.

Fitei o policial, com um meio sorriso no rosto.

- Estou com fome.

Rimos. Ele fez um comentário qualquer sobre o restaurante e eu apenas acenei com a cabeça novamente. Parou o carro, e descemos. Deu a chave para o manobrista. Quando avistei o nome do restaurante, fiquei surpreso: era o meu preferido. Sorri, mas deixei comentários banais para a talvez conversa que teríamos – se é que íamos conversar – após a discussão.

O atendente nos levou até a mesa. Não havia janelas, as paredes eram de vidro. As poltronas eram aconchegantes e reservadas. Brevemente para almoços ou jantas de negócios. Era um dos últimos andares do restaurante e dava para avistar todo o lado norte da cidade. Ele sentou-se de frente a mim, recebemos o cardápio. Fizemos os pedidos. Logo, o vinho chegou.

- Aonde paramos Mikami-san?

- Na parte em que eu dizia que você não tem tanta mora...

Fui interrompido.

- Não estou falando disso. Gostei de conversar com você, do seu autoritarismo. Acho que notou que não te chamei a toa.

Encarei com desdém. O que ele tinha em mente? Eu mal tinha o ouvido falar algo e já vem com essa. Senti-me um idiota. Ele me achava com cara de palhaço?


Be continued..