Quando o carro atingiu a parte rochosa onde passava o ribeiro, a atmosfera era diferente e Edward tinha começado a sentir-se no seu elemento natural, respirando com mais facilidade. bella estava inquieta; quanto mais subiam, mais a paisagem lhe parecia hostil. Edward baixou o vidro e inspirou aquele ar fresco, com um enorme sorriso nos lábios.
- Neste momento, acabo de ganhar uma nova vitalidade – exclamou, sorrindo para Bella, enquanto parava.
- Aqui está o lugar ideal para acampar.
Pera Bella, aquela escolha não tinha nada de hospitaleiro nem diferia do resto da floresta. Enquanto estava nestes pensamentos, já as duas gerações de Cullen tinham descarregado o porta-bagagens com entusiasmo.
Quando regressou de apanhar madeira para a fogueira, já os dois Cullen tinham montado a tenda e as provisões já tinham sido desembaladas.
- Não se esqueçam de guardar a comida nos sítios mais altos. É que pode haver por aí raposas.
Edward e Daniel olharam para ela espantados.
- É curioso, cada vez que tenta dar-me mais segurança, em vez de me sentir mais seguro, fico meio louco.
Bella corou. Apesar do tom trocista, toda a atitude mostrava que as palavras tinham outro sentido. Pela primeira vez, pensou que talvez Edward se sentisse atraído por ela, pelo menos tanto quanto ela se sentia por ele.
- Seja como for, vamos seguir os seus conselhos. Vamos colocar na parte de cima todas as provisões e também os outros artigos indicados para as partes mais íntimas.
Com esta observação, Bella lembrou-se de que ia ter de lavar-se em água corrente.
- Aliás, acho mesmo que o melhor será deixar o sabonete dentro do carro, para não poluirmos as águas do rio.
Este homem que, há cinco minutos, preenchia de forma tão romântica os seus pensamentos mais luxuriantes, estava a revelar-se num ser perigoso, num maníaco, foi o que lhe ocorreu. E foi com estes pensamentos que se deixou cair aos pés de uma árvore, com a intenção de se sentar. Mas, mal aquela parte do seu corpo tocou no chão, deu um grito lancinante. Tinha acabado de ser picada por uns objectos de origem desconhecida.
- Estou com frio – murmurou Bella.
- Vou fazer uma fogueira – disse Edward.
Bella parecia tão abatida, que Edward não teve coragem para dizer-lhe que mais de três quartos de madeira que tinha trazido não se podia aproveitar: uma porque estava húmida, outra porque estava demasiado verde e, por fim, a outra era muito grossa. No exercício da sua profissão, Edward tinha encontrado muitas raparigas da cidade, que se preocupavam, sobretudo, com as suas roupas desportivas, porque tinham medo de rasga-las. "Bella não tinha nada que ver com elas. Ela era apenas vulnerável, quando se encontrava em terreno desconhecido", pensou com ternura. Tanto no campo como no amor… Enquanto Edward se esforçava para fazer uma fogueira, Bella olhava para ele com ternura. Nunca tinha tido tanto frio e nunca desejara tanto o conforto da sua casa e, no entanto, não trocaria o seu lugar por nada deste mundo, porque nunca se tinha sentido tão bem em toda a sua vida.
- Vale mais a pena morrer de frio ou de asfixia? – perguntou Bella, rindo?
- Começo a sentir-me em casa – murmurou Edward. – A natureza estava a fazer-me falta.
- Papá, quando voltarmos para França, vamos subir àquelas montanhas muito grandes?
Edward agarrou no filho e cobriu-o de beijos.
- Está prometido.
- Você nunca subiu uma montanha?
- Não.
Bella não quis confessar-lhe que tinha vertigens.
- Quando se encontra a três mil metros de altitude, sente-se noutro universo. É ali que compreende que o ser humano não é mais do que uma malha no universo.
- Deve ser medonho!
- Medonho, mas ao mesmo tempo excitante! Ali não se pode fazer batota; ali, descobre-se que temos de ser nós mesmos. Nunca poderei viver sem essa sensação.
- Então é como se fosse uma droga?
- A droga mata. A embriaguez das alturas dá-lhe vida.
- Talvez um dia venha a experimentar.
Daniel reclamou:
- Estou com fome!
- Já estava admirado por não ouvir essa frase.
Surpreendida, Bella viu-o preparar o jantar. Quando reparou do que se tratava, pensou que iria ser uma grande porcaria. No entanto, enganou-se: estava muito bom. Daniel nem falava, só comia. Acabou, meteu-se dentro do saco – cama e encostou a cabeça no colo de Bella. Emocionada, ela afagou-lhe os cabelos e deu-lhe um beijo de boa – noite na testa.
- Sabes, quando te disse que não tinhas nada que opinar, porque não eras minha mãe, estava a brincar.
- Não se fala mais nisso. Anda, tenta dormir.
Dez minutos depois, Daniel dormia a sono solto.
Edward pegou no filho com todo o cuidado e foi metê-lo dentro da tenda, voltando para junto de Bella.
Ela aproveitou a penumbra para contemplar aquele desconhecido que, afinal, já não o era.
- Você é a primeira pessoa a quem ele pede um carinho, desde que a mãe morreu. Levei tanto tempo a reconstruir o equilíbrio do meu filho! Se Jacob ficasse com ele, iria, com certeza, destruir tudo…
Bella, reparou que Edward, ao pronunciar aquelas palavras, o fazia com os punhos fechados.
- Ele adorava a mãe!
- E você?
- Eu amava-a como um louco…
Subitamente, Bella sentiu ciúmes.
- Amei-a como um louco nos primeiros meses que estivemos juntos. Foi amor à primeira vista, mas dos verdadeiros. Eu tinha acabado os meus estudos em Paris… Era o princípio do verão e voltava para a minha casa, que ficava nos Alpes. Para economizar um dinheirinho, fui para a estrada pedir boleia; cansado de esperar que alguém parasse, ia desistir, quando uma linda mulher parou mesmo ao meu lado num descapotável vermelho. Ela voltou-se para mim e disse que invejava a minha liberdade. No caminho, começou a contar-me a sua vida. Totalmente controlada pela família, nunca tinha tido a coragem de dizer não aos pais, mesmo quando eles lhe anunciaram que iria casar com o seu primo Jacob, de quem ela não gostava absolutamente nada. Depois de se casarem, andou de depressão em depressão, até que o marido resolveu oferecer-lhe uma viagem pela Europa, para ver se ela se distraía e ficava melhor. Londres, Veneza, Paris… Em Paris, mostrou ao marido de ir visitar uma igreja que ficava perto do local onde se encontrava, hospedados, mas Jacob, em vez de acompanhá-la, preferiu ficar a descansar no hotel…mas ela nunca mais voltou. Entrei no seu carro e apaixonámo-nos. Pelo menos acreditámos que sim.
Com os olhos postos no céu, Bella ouvia com alguma dor as lembranças do passado de Edward, mas compreendia.
- Aliás, na minha opinião, a minha liberdade deu-lhe volta à cabeça e o seu desespero emocionou-me. Deixei de estudar. Sentia muito a falta da montanha…e, depois, vim a saber que ia ser pai…
- Você nunca duvidou da sua paternidade. Outros homens teriam desconfiado.
Nesse momento um sorriso enternecedor apareceu nos lábios de Edward.
- Apesar de ser a grande herdeira de uma fortuna, Tânia nunca tinha tido um amante e o seu casamento com Jacob nunca foi consumado. Fui o primeiro e o único homem da sua vida. Pelo menos assim o creio. Nós éramos felizes, mas ela não tinha coragem de enfrentar a família e recusava-se a ter contacto com ela. Cheguei a ter medo de que aquele tipo de vida fosse prejudicá-la. Não é fácil viver uma existência sempre incógnita, mas ela dizia que não; pelo contrário, sentia-se muito feliz a viver assim com ele. De vez em quando, lá tinha as suas depressões e era capaz de passar dias sem dizer uma palavra.
Edward suspirou, perdido nos seus pensamentos.
- Mas que importância tinha isso? Era uma mulher formidável e, além disso, tinha-me dado o mais belo presente da vida: Daniel. Mas não tenho a certeza se…
- Não tinha a certeza de quê?
- Não tenho a certeza de que, se Tânia tivesse sobrevivido, ainda estivéssemos juntos.
Naquele momento, Edward olhava bem nos olhos de Bella.
- Tânia representa, para mim uma lembrança magnífica, mas, neste momento, sei que o amor é outra coisa.
Edward continuava a olhá-la nos olhos, à espera que Bella fizesse um movimento ou dissesse qualquer coisa.
Bella levantou-se de maneira muito apressada, até mais depressa do que teria desejado, e disse:
- Estou com frio.
Mal acabou de dizer aquelas palavras, ficou imediatamente arrependida. Por que motivo tinha acabado de estragar aquele momento tão maravilhoso e pelo o qual há quanto tempo esperava?
- Então, vamos para dentro.
Edward ficou triste. Bella meteu-se dentro do saco-cama e, embalada pela respiração de Daniel, esperou que o sono chegasse. Quando Edward entrou e também se meteu no saco-cama, Bella sentiu-se reconfortada e pensou: afinal, o campismo sempre tinha coisas boas.
Os barulhos insólitos da noite tinham desaparecido. Agora já se podia ouvir os ruídos dos animais, que se manifestavam de dia, o que a deixava muito mais descansada. Olhou à sua volta e Edward dormia, todo enroscado no saco-cama, mas Daniel não. Subitamente, ouviu-se um grito enorme – era a voz de uma criança. Bella abriu a tenda de deu um grito. A poucos metros dela, encontrava-se Daniel, petrificado, a olhar para uma raposa.
Lentamente, o animal ia-se aproximando da criança. O momento não era para pensar.
Bella saltou e pôs-se entre Daniel e o animal, protegendo-o com o seu corpo. Edward apareceu à porta da tenda e, ao ver aquela cena, também não reflectiu e começou a arremessar, contra a raposa, desde pedras até utensílios da cozinha. Surpreendido, o animal achou que não valia a pena entrar numa batalha e resolveu bater em retirada.
Bella não aguentou e deixou-se cair no chão e Daniel correu para refugiar-se nos braços do pai.
- Por que motivo resolveste sair da tenda?
- Tive vontade de fazer chichi.
- A culpa não foi dele – interveio Bella.
- E você!... Porque foi meter-se na boca do lobo?
- Da raposa…
- Bella, você está a gozar comigo?
Lívido, Edward agarrava Daniel pelos ombros com uma tal força, que parecia querer esmaga-lo. Ela compreendeu que tudo aquilo era o resultado do medo que teve pelo filho…e por ela.
- No que a mim me diz respeito, o acampamento selvagem acabou! – disse Bella. – Com vocês ou sem vocês, volto para a civilização e vou para o hotel mais próximo.
De comum acordo, lá voltaram a fazer o caminho em ziguezague para despistar James. Após algumas horas de estrada, resolveram parar.
- Amanhã já estaremos em Faro. Entretanto, vamos ficar aqui a passar a noite.
Percorreram a vila e decidiram que iriam pernoitar naquela pensão, que estava bem escondida da estrada. As instalações não eram grande coisa, mas para passar uma noite servia. Tomaram um duche e descansaram um pouco das últimas emoções…
Subitamente, Edward lembrou-se de que, a caminho da pensão, tinha visto anunciado no cinema da vila o filme Harry Potter.
Daniel, pelos vistos, não tinha reparado. Com um pouco de sorte…
- Queres ir ao cinema esta noite? – disse Bella.
Duas horas mais tarde, Daniel encontrava-se refastelado na cadeira do cinema, com um enorme copo de pipocas no colo. Ao seu lado, Edward, abria a boca de tédio.
- Obrigado por ter vindo – murmurou ao ouvido de Bella. – Não ia conseguir aguentar isto sozinho.
As mãos deles aproximaram-se sem, no entanto, se tocarem verdadeiramente… Sentiram-se novamente como se tivessem 15 anos e, como qualquer adolescente, parecia que já nem sequer sabiam como é que se procedia quando se sentiam tão atraídos por alguém de uma maneira assim tão forte.
"Isto é que deve ser o amor…", pensava Edward, "quando nos comportamos como adolescentes, quando um simples roçar de dedos nos provoca este subir de sangue à cabeça, a ponto de as têmporas nos latejarem…"
Bella fazia o possível por fixar a atenção no ecrã. Sabia que, se virasse o rosto para Edward, iria trair-se.
- Quando esta manhã a vi diante daquela raposa – murmurou Edward – pensei que ia dar em louco. Naquele momento, compreendi que não ia suportar perdê-la.
A sua boca aproximou-se da boca de Bella e a sua respiração, quente e acelerada, roçou o rosto dela… Ela virou-o ao encontro dele e os seus lábios uniram-se num beijo que tanto um como outro há tanto tempo desejavam, mas que não ousavam tomar a inociativa.
No sétimo céu, Daniel seguia as aventuras que desfilavam no ecrã, mas não perdia pitada do que se estava a passar ao seu lado. Sentia-se feliz com a maneira como a sua noite estava a decorrer. Não só assistia às aventuras de Harry Potter, como, ainda por cima, via que finalmente as suas subtis manobras tinham dado os seus frutos. Pelo canto do olho, podia verificar que o pai e a amiga estavam completamente abraçados e que se beijavam de tal forma, esquecendo-se que se encontravam no cinema e que ele estava ali. Daniel suspirou. Sempre tinha sonhado em assistir ao vivo a um verdadeiri beijo como se dava no cinema.
Continua.
Olá a todos, aqui está mais um capítulo.
Espero que gostem, pois ele está repleto de acção e romance.
Dedico este capítulo a todos aqueles que estão a acompanhar a fic especialmente à Ju Martinhão pelas rewiens que tem deixado.
Beijinhos até ao próximo capítulo.
