Bella ouviu o ruído do motor antes de ver o carro.

Seria um vizinho que lhe ia dar as boas-vindas? Ou o carteiro?

Olhou pela janela do escritório, situado na garagem.

- Quem vem aí, Midas? – perguntou ao cão. O animal colocou-se de pé e olhou pela janela com ela.

Ao ver que o Mercedes de Edward se detinha junto ao seu Ford, sentiu um aperto no peito.

Como é que ele a tinha encontrado? Fora bastante cuidadosa para não deixar nenhuma pista ou, pelo menos, pensava que sim. Até tinha limpo o caixote do lixo, ou não? Devia ter deixado alguma coisa que a denunciou. Sabia que ele a encontraria mais tarde ou mais cedo, mas pensou que levaria alguns dias, semanas até, de forma a conseguir esclarecer os seus pensamentos.

Contudo, ali estava ele. Talvez se não abrisse a porta, Edward voltasse para casa. Com o coração acelerado, retirou-se de junto da janela e agarrou o cão pela coleira para que este se deitasse a seu lado. O animal tentou levantar-se.

- Midas, não. Sê um bom menino e mantém-te sossegado.

O cão gemeu como forma de protesto. Tinha reconhecido o ruído do motor. Bella acariciou-o para o acalmar.

- Lindo menino. Cala-te, talvez assim ele se vá embora.

Sabia que não ia ser assim, mas continuou a afagar o pêlo do seu cão para que este não ladrasse. Pelo menos, não tinha deixado as luzes acesas.

Olhou pela janela e observou-o.

Edward estava a sair do carro e olhava em redor. Primeiro, aproximou-se do carro de Bella e depois da casa. Bateu à porta e, como não obteve resposta, entrou.

«Que lata!», pensou zangada. «Como é que se atreve a entrar em minha casa?». Podia vê-lo ir de sala em sala, acendendo todas as luzes. Imaginava-o a estudar todas as coisas deixadas pelos donos da casa, coisas que ele nunca vira antes. Ali estava Edward, tocando em tudo, fazendo-a sentir que a situação já não lhe pertencia apenas a ela, que aquele não era o lugar seguro que ela quisera que fosse.

Lugar seguro? Mas em que é que estava a pensar? Edward não era perigoso! Não era nenhum assassino e sim o homem com quem casara há cinco anos atrás. Devia estar a enlouquecer. Mas, mesmo assim, sentia que ele estava a violar a sua privacidade.

Não. Isso era demasiado forte. Sentia-se invadida.

Observou-o até Edward terminar de inspeccionar a casa.

«Não vai levar muito tempo», pensou ela com o coração acelerado.

Edward saiu de casa, protegendo-se do vento com o casaco. Bella afastou-se um pouco da janela. «Talvez pense que se enganou e se vá embora.»

Ou não.

Edward olhou pela janela e, apesar da distância, Bella podia ver o verde penetrante dos seus olhos. Resguardou-se na sombra e agarrou o cão inquieto com mais força.

O animal ouvia o dono a aproximar-se. Uma onda de ar gelado invadiu o esconderijo quando Edward abriu a porta e Midas retorceu-se entre as mãos de Bella.

- Olá, Bella – disse ele, e o animal soltou-se das mãos da dona para se lançar sobre o dono.

Edward recuou um passo e apoiou-se na parede. Depois, acariciou a cabeça de Midas, enquanto Bella tentava acalmar-se e recuperar a compostura para falar com ele sem nervosismo.

- Olá, cãozinho – disse ele, afastando depois, o animal. Olhou em seu redor e fixou-se no computador, nos papéis amontoados e na colecção de chávenas que estava junto ao teclado. – Tens aqui um belo sítio – disse com doçura. Bella interrogou-se sobre quais seriam as possibilidades que tinha para o afastar dali antes que fosse demasiado tarde.

Já era demasiado tarde. Sentou-se em frente ao computador, tentando fazer com que Edward não visse mais nada.

- O que é que estás aqui a fazer? – perguntou, tentando manter a calma. Porque é que não podia deixá-la em paz? Ele sabia que estava bem, tinha falado com ela no dia anterior! Porque é que a perseguia?

- Interessante – continuou Edward, ignorando a sua pergunta e continuando a inspecção ao escritório. – A que é que te dedicas?

- Isso é problema meu. É o meu trabalho e é privado. O que é que estás aqui a fazer Edward?

Este olhou-a nos olhos com decisão.

- Pensava que era evidente. Vim buscar-te.

- Já te disse que quero pensar.

- Podes pensar em casa.

- Não, não posso. Quero ter tempo para mim. Devias ter-me telefonado, estás a perder tempo. Por enquanto, não tenho nada para te dizer e quero que te vás embora. Esta é a minha casa, a minha vida.

- E tu és minha esposa.

- Sou? – inquiriu Bella, retrocedendo, como se tivesse sofrido um golpe.

Levantou-se e recolheu as chávenas. Depois, fez um gesto a Edward para que este saísse, mas ele sorriu, sentou-se em frente ao computador e começou a abrir arquivos sem se importar em absoluto com a privacidade que ela tanto defendia.

- Deixa isso! – exclamou, indignada. Ele virou-se e olhou-a fixamente.

- És desenhadora de páginas de Internet – proferiu lentamente.

- Acertaste. Sai daí.

Edward ergueu-se e aproximou-se dela.

- Não precisavas de te vires embora. Podias ter-me dito que querias trabalhar – disse ele num tom sedutor.

- Queria que fosse algo meu.

- Outra vez a palavra meu. Parece-me que a utilizas demasiado. O que é que aconteceu ao nosso?

- Queres dizer, teu.

Ele encolheu os ombros.

- Não sei o que se passa, Bella, mas falaremos quando regressares a casa.

- Não vou regressar a casa – repetiu, mas Edward apenas sorriu.

- Acho que vais.

Sem pensar duas vezes, Bella derramou o conteúdo das chávenas sobre a cabeça dele e saiu do escritório. Edward vociferou, sacudindo o líquido da roupa. Bella teve que conter o riso. Acabara de fazer uma infantilidade, mas fora ele que a provocara.

Edward seguiu-a. Mal conseguia controlar a sua raiva. Há anos que Bella não via tão zangado, mas sabia que ele jamais lhe tocaria com um dedo.

- Isto não vai funcionar, Bella – disse, entrando na cozinha, seguido pelo cão. – Não me vou embora sem ti.

- Bom, pois eu daqui não saio e tu não vais cá ficar, pelo que se torna tudo um pouco complicado, não achas?

- Estou a falar a sério. Não me vou embora sem solucionar isto. És minha mulher e se achas que podes fugir sem falar no assunto, estás muito enganada.

- Não fugi.

- Não? Então, porque é que não me disseste para onde vinhas, nem o que estavas a fazer? E que diabo é esse negócio em que te meteste sem que eu soubesse de nada? Há quanto tempo é que estás a trabalhar?

- Não tenho de te pedir autorização, pois não? Ou será que tenho que me esconder de ti para ter a minha própria vida?

- Não sejas ridícula. Claro que podes ter a tua própria vida.

- Desde que isso inclua fazer de anfitriã nas tuas aborrecidas reuniões de negócios e que me vista com elegância para ir a eventos sociais. Mal podia vestir calças de ganga!

- Claro que podias vestir calças de ganga.

- Mas só da marca Versace – Bella virou-se para deixar as chávenas no lava-loiça.

- Nem sequer gostas de calças de ganga! – protestou Edward. Bella sentiu-se culpada. Era verdade, nunca comprara roupa barata nem desejava comprar. Mas queria apenas ter o direito de o fazer.

Decidiu lavar as chávenas para não gritar de frustração.

Edward suspirou e sentou-se numa cadeira. Bella olhou-o. Tinha os olhos avermelhados e parecia cansado.

«Não tinha nada que me vir buscar», recordou. «Foi ele que quis». Então, viu como uma gota de café caía do cabelo de Edward sobre o seu rosto e depois sobre o casaco, e sentiu alguns remorsos. Era um belo casaco de cachemira, novo e caro.

- Vou preparar-te um chá e depois vais-te embora.

Esperou uns instantes, mas ele nada disse, apoiando-se nas costas da cadeira, cruzando os braços e sorrindo.

Maldição! Ele estava muito sexy. O suficiente para a distrair… mas pouco. Bella recordou o motivo pelo qual Edward ali estava, o seu comportamento autoritário, o tempo que passava fora de casa e como pretendia que ela ficasse em casa.

A cuidar do bebé? Arrepiou-se ao pensar na vida que teria se tivesse engravidado. Voltaria ele para casa não tendo já a necessidade de a fecundar?

Não, não queria regressar para junto de Edward. Pelo menos, por enquanto, e talvez nunca mais.

Nem mesmo pelos olhos sensuais… Apaixonara-se por aquele olhar anos antes, mas não voltaria a cair na mesma armadilha…

Oh, não…

Era desenhadora de páginas Web. Edward estava espantado, apesar de isso ser desnecessário. Se tivesse pensado bem, sabia que Bella não se contentaria com ficar sentada em casa com um cão como companhia, à espera de engravidar. Era uma mulher demasiado brilhante, inquieta e com muita imaginação.

Durante os dois últimos anos, depois de Bella ter deixado o seu trabalho para engravidar, tinha remodelado a casa de cima a baixo, tinha salvo Midas de um canil, transformando-o num cão de confiança que era a sua melhor companhia, e tinha arranjado o jardim sem a ajuda de ninguém.

Com tudo aquilo, como é que Edward pudera imaginar que a sua esposa ficaria em casa, tranquilamente, à espera de ser mãe?

Bella não era assim. Necessitava de ter algo para fazer. Mas que o tivesse feito em segredo, sem compartilhar nada com ele… Isso magoava-o. Quando é que as coisas começaram a correr mal? De repente, soube que nem sequer se apercebera de que algo corria mal.

Decidiu não sair dali até as coisas se solucionarem e parecia que o clima estava a jogar a seu favor.

Olhou pela janela e viu que já tinha escurecido. Levantou-se e fechou o cortinado, depois de constatar que estava a nevar. Com um pouco de sorte, em menos de uma hora já não poderia sair dali.

Talvez até nevasse durante dias…

Sentiu algo estranho. Tinha sentido a falta de Bella. Já não se viam há algumas semanas e seria divertido reconciliar-se com ela. Conteve um sorriso de satisfação, voltando a sentar-se. Agarrou a chávena do chá que ela lhe ofereceu e esperou que a esposa se desse por vencida.

Bella ficava furiosa quando o via assim, sentado diante dela, com a chávena na mão, olhando-a pacientemente e em silêncio.

Odiava o silêncio. De todas as coisas que mais a incomodavam, aquela era a pior.

Bella prometera a si mesma que não se levantaria.

- Como é que estava Nova Iorque? – perguntou, como se estivessem agora na cozinha da casa de Londres.

- Fria e aborrecida. Senti saudades tuas.

«Se isso fosse verdade…», pensou ela com tristeza, e recordou como, no inicio, quando ele partia em viagem, ficava sempre muito feliz aquando do regresso do marido.

Mas ultimamente…

- Como está o Jasper? – Jasper era o sócio de Edward qua passava a maior parte do tempo na América do Norte.

- Está bem. Perguntou-me por ti.

- E o que é que lhe disseste?

Edward esboçou um sorriso.

- Disse-lhe que estavas bem.

Bella olhou para outro lado. Não conseguia enfrentar aquele olhar penetrante. Suspirou e bebeu um pouco de chá. Desejava vê-lo partir, mas sabia que não ia ser tão fácil a menos que lhe prometesse que voltaria para casa… mas não podia fazer semelhante promessa.

- Quando é que regressaste?

- Ontem à tarde. Cheguei a casa por volta das quatro.

- Não sabia que regressavas ontem.

- Não, claro que não. Também não estavas em casa para receber o meu telefonema – lançou com tom de reprovação.

- Não tenho que estar em casa vinte e quatro horas por dia – recordou ela, e Edward arqueou as sobrancelhas.

- Claro que não. Mas tens o número do meu telemóvel e acho que podias ter feito algo mais antes de abandonares a nossa relação.

Era a primeira vez que mostrava os seus sentimentos. Estava zangado e Bella conseguia lidar com isso. Se estava zangado, talvez isso se devesse ao facto de se importar com ela…

- Não abandonei a relação, preciso apenas de um pouco de espaço.

- Ter-te-ia dado um pouco de espaço se mo tivesses pedido. Podias ter falado comigo. Sabes que me podes pedir qualquer coisa.

- Talvez não quisesse pedir-te. Talvez esteja farta de ter que te pedir tudo.

- Quer dizer que estás farta de compartilhar?

- Nós não compartilhamos quase nada. Até me surpreende que te tenhas apercebido que eu não estava…

- Não sejas ridícula. Claro que me apercebi.

- Sim, tiveste que ir à cozinha fazer o jantar. Coitadinho!

- Podias ter falado comigo.

- Para não me dares importância? Para me tratares com condescendência? Não era isso que eu queria, Edward. Queria pensar… ter tempo para definir os meus sentimentos antes que seja demasiado tarde.

- Demasiado tarde?

- Sim, demasiado tarde. Antes de termos um filho. Queria ter a certeza de que quero ter um filho contigo e, de momento, não tenho a certeza.

- Deduzo que não estás grávida – disse ele com cuidado.

- Não, não estou grávida. Não engravido, lembras-te? Pelo que tudo isto é pura teoria…

- E o negócio? Há quanto tempo é que estás a trabalhar? Há um ano?

- Há quase um ano.

- Um ano. Estás a trabalhar há um ano e com êxito, segundo me parece… e nem sequer pensaste em dizer-me nada.

Sim, pensara. Consecutivamente. Até quase lho dissera, mas não encontrara p momento mais adequado.

- Estás sempre tão ocupado, ou estás fora, ou estamos a dar um jantar… Nunca temos tempo para falar.

- Um ano?

Bella suspirou.

- Edward, passas muito tempo fora… e quando regressavas a casa… - apenas queria que ela engravidasse. Mas não podia dizer-lhe isso, pelo que encolheu os ombros.

Edward cruzou os braços.

- Agora não estou ocupado. Podes contar-me. Não tenho mais nada para fazer.

- Tens que te ir embora.

Bella colocou-se de pé e retirou-lhe a chávena das mãos.

- Acho que não. Já olhaste pela janela? Acho que não vou a lado nenhum.

A jovem correu até junto do cortinado e apoiou a testa na janela. Estava tudo coberto de neve.

«Era só o que me faltava», pensou.

- Deve estar a passar – disse ela. – Podes chegar facilmente à aldeia. Há lá uma pensão. Podes lá passar a noite e amanhã regressas a Londres.

Acendeu a luz do jardim. Abriu a porta e uma onda de ar gélido invadiu a cozinha. Fechou a porta e apoiou-se nela com frustração. Não existia maneira de conduzir com aquele tempo. Não se via nada.

«Diabos!», pensou. Não tinha outra escolha… Edward podia morrer ali fora e, por muito que algo não funcionasse na sua relação, não o odiava assim tanto.

- Muito bem, podes cá ficar, mas dormes na sala. Não vais dormir comigo.

Edward soltou uma gargalhada.

- Não sejas ridícula! Estamos casados. Dormimos juntos há cinco anos. Que diferença faz dormirmos juntos esta noite?

«Para mim, muita», pensou ela, consciente da facilidade com que sucumbia aos encantos do marido e de que ele faria o impossível para a conquistar. Não, era demasiado perigoso permitir que Edward se aproximasse demasiado.

- Ou dormes na sala ou vais-te embora!

- Está bem – Bella ficou desconcertada. Não era o seu estilo dar-se por vencido tão rapidamente. Edward cruzou os braços e adiantou: - Há mais chá?

O seu olhar era inocente, mas ela conhecia-o bem. Edward não tinha nada de inocente. Sabia que ia necessitar de muita força para não sucumbir aos seus encantos.

Mas ia conseguir.

Olá a todos.

Aqui está o 2º capítulo, espero que gostem.

Agradeço a todos os comentários que estão a deixar.

Beijinhos e até ao próximo capítulo.