Estava muito frio. Edward demorou cinco minutos a encontrar o carro, a ir buscar a mala e o telemóvel, e regressar a casa, depois de desligar o computador de Bella, fechar a porta da garagem e ligar o alarme.
Bella ia fazer isso, mas Edward insistiu que seria ele a fazê-lo. Não ia permitir que ela saísse de casa ano meio de uma tempestade.
Quando chegou junto da porta, girou a maçaneta e o vento abriu-a com brusquidão. Fechou-a com força e apoiou o seu peso sobre a mesma. Já no interior da casa e ao ouvir o rugido da tempestade, interrogou-se porque é que havia pessoas que partiam em expedições aos Pólos. «Devem ser doidos», pensou, sacudindo a neve.
- Dá-me o casaco – disse Bella. – Vai para a sala. A lareira está acesa e preparei-te uma bebida quente.
Edward não protestou. Adorava que ela cuidasse dele. Sentia-se como um daqueles caçadores que quando regressam da caça têm a esposa à espera.
Sentou-se em frente à lareira e suspirou com satisfação. Estava tranquilo, num local quente e cómodo.
Ao fim de uns segundos adormeceu.
Foi assim que Bella o encontrou, dois minutos mais tarde, quando regressou com duas canecas de chá e um pouco de bolo.
Sentou-se em silêncio, aconchegou-se junto à lareira e observou-o enquanto dormia. Parecia exausto. Exausto e mais magro. Trabalhava demasiado. Tinha trabalhado muito durante mais de um ano, mas não estava disposto a admiti-lo.
Dizia que fazia o que tinha que fazer. Nem mais, nem menos. Fim de discussão.
Era curioso: antes discutiam muito as coisas, mas desde há um tempo que Edward respondia sempre com evasivas. Talvez estivesse muito ocupado para falar e demasiado cansado.
Demasiado cansado para fazer qualquer coisa… excepto para tentar engravida-la.
Bella tentou conter as lágrimas. Tinham perdido muito. No início, foram bastante felizes, ambos cheios de energia e entusiasmo.
Falavam, discutiam e reconciliavam-se. Riam e choravam juntos, compartilhavam tudo.
Mas, contudo, já nada lhes restava excepto o fantasma do fracasso na vida pessoal e o fuso horário.
Apoiou a cabeça nas costas da cadeira e suspirou. Necessitava de passar algum tempo sozinha. E só se apercebera disso quando decidira alugar aquela casa na Escócia e sentira que tirara um enorme peso de cima.
Era livre. Não estava sujeita às críticas de Edward nem às expectativas que tinha dela como anfitriã, nem às suas amigas para que fosse a companheira de compras ou a assessora matrimonial perfeita. «Isto é o mais engraçado», pensou
Tânia pedia-lhe conselhos para solucionar o seu casamento quando o dela corria perigo.
Sentiu uma lágrima cair-lhe sobre a mão e depois outra. Permaneceu ali durante um bom bocado, chorando em silêncio. Costumava chorar enquanto Edward dormia, não era nada novo para ela, mas nunca o fizera com as luzes acesas.
Fechou os olhos e apoiou a mão sobre a cabeça do cão e esperou que as lágrimas deixassem de correr.
Tinha estado a chorar. Edward permaneceu recostado no sofá e observou-a sem se mexer. Bella tinha a marca das lágrimas no rosto. Edward sentiu um aperto no coração.
Oh, Bella! Queria abraçá-la, consola-la, mas não sabia como. Que poderia dizer para alterar as coisas?
Nada. O mais provável era que ela estivesse a chorar por sua causa… ou por ambos. Edward sentia-se mal. Há quanto tempo é que ela se sentia assim, tão triste ao ponto de se sentar e chorar em silêncio, enquanto ele dormia?
Tê-lo-ia feito mais vezes? Talvez até o tivesse feito na cama grande que ele julgava pertencer ao lar de ambos? Teria dormido junto a ela, ignorando a sua tristeza?
E nem sequer sabia que mal é que tinha feito. Até esse dia, teria pensado que Bella chorava por não conseguir engravidar, mas já não estava tão certo disso.
Teria um romance com outro homem? Era possível. Talvez não engravidasse de propósito. Talvez estivesse a tomar a pílula ou talvez não quisesse fazer exames porque era feliz como estava e não queria ter filhos.
Sim… talvez não quisesse ter filhos… ou, pelo menos, ter filhos dele.
Ficou pensativo. Pelos vistos, aquela fuga era motivada por algo mais do que uma simples chamada de atenção. Bella parecia ter verdadeiras dúvidas acerca do seu casamento e Edward percebeu que teria que ouvi-la e conversar com ela, em vez de simplesmente tentar convencê-la a regressar a casa. Pela primeira vez, sentiu que corria o risco de não recuperar a sua esposa e algo no seu interior se retraiu de medo.
Observou-a enquanto dormia. Reparou na forma como as lágrimas secavam lentamente nas suas faces, na mão que envolvia a cabeça do cão Midas. Este estava deitado com a cabeça apoiada numa pata. Tinha os olhos fechados, mas Edward sabia que se encontrava em constante alerta. Assim que Bella se mexesse, Midas colocar-se-ia de pé.
Era o ser devoto escravo e, de repente, Edward sentiu ciúmes do anila. Não que quisesse ser escravo da esposa, mas adorava recuperar a cumplicidade enérgica que antes tinham na sua relação.
Bella fora uma mulher vital, linda e engenhosa. Edward supunha que continuava a sê-lo, mas parecia que a faísca da vitalidade se extinguira e ele não compreendia qual fora o motivo.
Lembrava-se do primeiro dia em que a conheceu, no casamento de Rosalie e Emmett. Ele era o padrinho de Emmett e Bella era uma das damas de honor. Edward sentiu o coração acelerar-se ao vê-la atrás de Rosalie e depois, durante o banquete, aproximou-se para falar com ela e descobriu que não só era muito linda, como também era inteligente.
Mantinha uma conversa interessante e nesse dia conversaram sobre diversas coisas, desde moda até ao estado financeiro do país.
- Em que é que trabalhas? – perguntou-lhe, e Bella riu-se.
- Presentemente, tenho um trabalho temporário num escritório, mas não possuo grande talento para secretária e isso é um problema, por isso acho que não vou durar muito naquela empresa, mas tenho que comer e pagar o crédito da universidade, pelo que não me posso dar ao luxo de ser muito exigente. Estou à espera da oportunidade perfeita. Gostaria de ter um trabalho com alguma responsabilidade. Aborreço-me bastante com aquilo que faço.
Edward meteu a mão no bolso e tirou a certeira. Depois entregou-lhe um dos seus cartões.
- Toma. Telefona-me. Talvez possamos arranjar alguma coisa, não sei o quê, mas temos sempre lugar para bons profissionais. Vou falar com o departamento de recursos humanos. Vem visitar-me um dia destes.
Ela olhou para o cartão e, como o vestido de dama de honor não tinha bolsos, enfiou os dedos no decote e guardou-o no soutien. Edward fixou o olhar no tecido cor de marfim que cobria os peitos esbranquiçados e sentiu o sangue a ferver nas veias.
- Sabia que ter peitos me seria útil um dia – disse ela entre risos, e ele teve que fechar os olhos e contar até dez. Ocorreram-lhe múltiplas utilidades para aqueles grandes peitos e guardar cartões-de-visita não figurava na lista.
A menos que fosse ele a guardá-los… Uma semana depois, voltaram a ver-se. Bella ia vestida com um recatado fato de negócios e uma blusa de gola alta, mas Edward ainda se lembrava dos seios turgentes e teve que se concentrar para poder entrevistá-la.
Ao cabo de poucos minutos, esqueceu o corpo feminino e sentiu-se fascinado pela sua forma de pensar. Falaram de negócios, sobre a Bolsa e sobre análises financeiras. A maioria das mulheres que ele conhecia não sabia nada sobre esses temas e aborrecia-se facilmente.
Mas Isabella Swan não. Tinha interessantes pontos de vista e opiniões, e não receava expô-los. Conversaram, aceitando as diferenças de opinião um do outro.
Durante um momento parecia que Bella tinha perdido a confiança em si mesma, como se o facto de não concordar com ele tivesse estragado toda a entrevista, mas foi então que Edward sorriu e lhe estendeu a mão.
- Bem-vinda à equipa, se é que queres unir-te a nós.
- Queres dizer que, depois e tudo, queres-me como tua colaboradora?
«Oh, sim, quero-te bastante», pensou ele, «desejo-te!»
- És demasiado boa para te deixar fugir. Gosto da tua maneira de pensar.
- Mas não concordas comigo.
Edward sorriu.
- Mas posso discutir contigo, e não te ofendes. Isso é muito útil, ajuda-me a manter uma perspectiva mais ampla das coisas. Acho que necessitamos de um novo posto de trabalho. Vou ter uma assistente… acho que já está na altura. Quanto é que queres ganhar?
Ela riu-se.
- Quanto é que achas que mereço?
Edward pensou num número e ofereceu-lhe o dobro. Bella pestanejou.
- Isso é um sim?
- Claro! – ela engoliu em seco e assentiu.
No final da primeira semana, Edward interrogava-se sobre como é que conseguira sobreviver sem ela. No final do primeiro mês, a relação de ambos transformou-se em algo mais pessoal. As discussões sobre os assuntos de negócios tinham-se transformado num desafio, quase num jogo.
Um dia, após uma longa discussão na qual Bella resultou ter razão, observou-a enquanto caminhava pelo escritório e sentiu uma enorme excitação ao vê-la.
- Está bem – disse Edward. – Eu cedo…
- Ceder? Estás louco! Ganhei…
- Eu cedo – repetiu ele com um sorriso, - mas desde que aceites ir jantar comigo. A modo de prenda.
Bella abanou a cabeça e colocou as mãos nas ancas.
- Pensava que a prenda cabia a quem perdia.
- Sim. Eu perdi, eu pago o jantar.
- Quero um bom jantar, num bom restaurante.
Edward riu-se.
- Não duvido. Aceitas?
Ela ficou pensativa por um momento e depois adiantou:
- Está bem – e sentou-se na secretária, deixando ver as suas longas pernas. – E aonde é que vamos?
- Ainda não sei.
- Vestido longo ou curto?
- Longo – retorquiu Edward. Sabia que não sobreviveria se tivesse que passar a noite toda a contemplar as suas bonitas pernas.
Mas a sua estratégia não funcionou, porque Bella escolheu um vestido com uma abertura que quase lhe chegava à anca e umas provocantes meias brilhantes que não passavam despercebidas.
- Faz-me um favor – pediu Edward, depois de o empregado lhes levar a ementa. – Não vamos falar de trabalho, esta noite não quero discutir.
Ela sorriu.
- Está bem, falemos de ti. De onde é que conheces o Emmett? – perguntou e, desse modo, Edward contou-lhe coisas acerca da sua infância e do colégio interno. Depois, foi a vez de Bella.
Edward levou-a a casa quando terminaram de jantar e, ao chegar à porta, a jovem lançou-lhe um dos seus melhores sorrisos.
- Tenho a casa num desastre, mas convido-te a entrar.
A casa estava pior do que ela imaginava, pois a sua colega tinha decidido dar uma festa e estava tudo cheio de gente.
- Ah! – exclamou ela, ao ver que o seu quarto também estava ocupado e que não tinha escapatória.
- Vamos para a minha casa – sugeriu Edward, interrogando-se sobre como ia conseguir conter-se para não fazer amor com ela.
Entraram e Edward não acendeu a luz de propósito para que ela pudesse contemplar a vista nocturna de Londres.
- Uau! É lindo! É a melhor vista de Londres… Ele riu-se e aproximou-se dela. Desejava abraçá-la. Conseguiu sentir o seu perfume e o calor que irradiava do corpo feminino.
- É uma vista muito bonita. Às vezes, fico aqui sentado, a contemplá-la na escuridão durante horas… recarrega-me as baterias.
Bella virou-se e olhou-o nos olhos.
- Tens algum problema com isso, não é? Em recarregar as pilhas? Devias fazer mais coisas divertidas… ir ao Jardim Zoológico, ir ao parque… qualquer coisa. Tens de aprender a descontrair-te.
Edward sorriu com um pouco de tristeza.
- Contigo? – murmurou. – És a pessoa menos descontraída que eu conheço.
- Não tenho porque não o ser. Posso estar tranquila, e estou, muitas das vezes. Só quando estou contigo é que fico assim… tão alegre.
- És linda… - proferiu Edward sem pensar. – Quero fazer amor contigo, Bella.
O sorriso dela era amável e estava cheio de promessas.
- Sim… - sussurrou.
Ele fechou os olhos e contou até dez. Ia morrer. O seu coração ia deter-se ou partir-se. Ou isso, ou tudo aquilo não passava de um sonho. Abriu os olhos e viu que ela ainda estava ali.
- És encantadora – sussurrou Edward, acariciando-lhe o rosto, o queixo e os lábios. Bella acariciou-lhe o polegar com a língua e ele gemeu de prazer.
Depois, colocou as mãos sobre o peito de Edward, acariciou-lhe os ombros e o cabelo. Aproximaram os seus rostos e beijaram-se apaixonadamente, como se uma chama se tivesse acendido entre eles, destruindo tudo o que se interpunha no seu caminho.
Quando a paixão diminuiu, aperceberam-se de que estavam no quarto e de que não sabiam como é que tinham chegado ali.
Edward acariciou-lhe o rosto com as mãos a tremer.
- Uau… Foi…
- Impressionante – completou Bella, beijando-o suavemente. – Foi maravilhoso.
Ele riu-se.
- Vês, estamos de acordo em algo – gracejou, e ela sorriu, beijando-o uma vez mais… e outra… e outra.
O começo da sua vida pessoal tinha sido tão selvagem como o da sua vida laboral, embora bem mais satisfatório. Casaram-se ao fim de poucas semanas, e os três ou quatro anos seguintes foram plenos de felicidade.
Contudo, o bom humor e a faísca de felicidade tinham desaparecido e agora, Bella nem queria falar com ele. Queria apenas fugir.
E chorar. Essa era a pior parte, vê-la chorar.
Sentiu um nó na garganta. «Oh, Bella, onde é que erramos? Quando é que deixaste de conversar comigo? E porquê? Nunca tiveste medo de me dizer se algo te desagradava. Porque é que deixaste de me dizer o que sentias?»
Necessitava de se mover. Tinha o pescoço numa má posição, mas não queria levantar-se sem dar tempo a Bella para que se recompusesse. Observou-a com os olhos entreabertos e quando ela acordou, sentou-se a esfregou o rosto. Depois com o cão a seu lado, saiu da sala lentamente e fechou a porta.
Edward suspirou e levantou-se. Espreguiçou-se e olhou em seu redor.
A sala era agradável e acolhedora. Pensou na casa de Londres e desejou ter uma sala tão acolhedora como aquela para poder descontrair. Mas quando? Nunca tinha tempo. Mal se lembrava da cor das paredes!
Deitou mais lenha no fogo. Colocou-se à frente da lareira e esfregou as mãos. Sentiu algo especial quando olhava para o fogo. Deviam acender a lareira mais vezes na casa de Londres, se é que continuariam a compartilhar aquela casa, claro.
Não estava disposto a aceitar uma derrota. Muito menos depois de a ver chorar. Ouviu ruídos na casa de banho e depois na cozinha. Daí a pouco, Bella apareceu com duas chávenas de chá.
- Olá – disse com um sorriso. – Fiz outro chá.
- Devias ter-me acordado.
- Parecias cansado. Pensei que era melhor deixar-te dormir. Sabia que acordarias ao fim de pouco tempo, é o que sempre acontece. Toma, trouxe um pouco de bolo no caso de te apetecer. Não sei como está, comprei-o ontem numa loja da aldeia.
- Tenho a certeza que está bom. Espero que tenhas comida suficiente. Não temos que racioná-la, pois não?
- Comprei o suficiente para alguns dias.
- Espero que deixe de nevar. Não gostaria de morrer de fome se ficarmos aqui isolados durante muitos dias.
Durante um instante, Bella mostrou um ar de pânico. Dever-se-ia à ideia de ter que ficar ali presa com ele? Há muito tempo atrás ter-se-ia deleitado com a ideia.
Não que Edward tivesse muito tempo disponível. Na segunda-feira tinha de estar em Nova Iorque e já era sexta.
Bella olhou pela janela e arrepiou-se ao sentir o frio do vidro. Correu o cortinado e virou-se com ar de desafio:
- Tenho a certeza de que a tempestade não vai durar muito tempo. Além do mais, estamos na Escócia. É habitual. As máquinas de limpeza passam por aqui durante a noite e suponho que amanhã já estará tudo limpo.
- Podemos sempre comer o cão – gracejou Edward.
- Não tem graça nenhuma… além disso, tenho que trabalhar.
- Podes trabalhar. Enquanto houver luz, podes trabalhar, e eu também. Tenho que verificar o meu e-mail.
Tirou o telemóvel do bolso e olhou-o.
- Não há rede!
- Eu sei. Vais ter que usar o meu computador… aproveita que me sinto generosa.
- Não me apetece ir até lá.
Na realidade, havia certas coisas que o preocupavam, mas não tanto ao ponto de ter que sair de casa e arriscar a vida por elas. O mais provável era que perdesse um monte de dinheiro por não realizar as operações a tempo, mas estava quase na hora de fecho da bolsa de Nova Iorque e não aconteceria nada até segunda-feira de manhã. Talvez fosse tempo de salvar a situação. Senão, bom, por vezes ganhava-se, outras vezes perdia-se.
E não perder Bella era muito mais importante do que o preço das acções.
Ela acendeu a televisão e mudou para o canal das notícias. Viram o boletim meteorológico, mas não acreditaram muito nas previsões da melhoria do tempo.
- Vamos jantar? – inquiriu Bella, desligando o televisor.
- Sim, mas deixa-me ajudar-te.
- Não é necessário – retorquiu ela, dirigindo-se à porta com a bandeja do chá na mão e o cão também. Edward não estava disposto a perder um instante sequer e não ia ficar na sala, enquanto ela deambulava pela cozinha, mal-humorada por ter que lhe preparar o jantar.
Não! Já tinha motivos suficientes e Edward não lhe queria dar mais.
Insistiu em acompanhá-la. Bella queria ir sozinha para a cozinha e assimilar o facto de que iam ficar ali juntos durante muito tempo; assim podia preparar-se para a batalha e traçar uma estratégia.
Não fazia muito sentido. Era provável que Edward fizesse justamente o contrário. Retirou-lhe a bandeja das mãos e lavou as chávenas e os pires. Bella observou-o. Não estava acostumado a vê-lo com as mãos no lava-loiça.
Que pena não ter ali uma máquina fotográfica.
- Bom, e o que é que vamos jantar? – perguntou Edward.
Bella suspirou e abriu o frigorífico.
- Massa com molho de tomate no forno?
Ele olhou-a horrorizado.
- A sério?
- A sério. Qual é o problema? Não ter carne? Há uma lata de comida para cães na despensa, se estás assim tão desesperado. Eu já não como carne.
- Não?
- Não. Há meses. Como apenas um pouco de peixe, mas muito de vez em quando – aquilo muito acerca do estado em que se encontrava a relação de ambos: Edward nem sequer se apercebera, nem sequer estivera presente para reparar nas mudanças gastronómicas da esposa.
Bella acendeu o forno e procurou um recipiente. Edward observou-a, enquanto ela misturava a massa com o molho, espalhava queijo ralado por cima e introduzia tudo no forno. Tinham meia hora de espera, pelo que colocou água ao lume.
- Acho que há roupa de cama no armário do corredor – afirmou Bella. – E um edredão. Podes usá-lo. Podemos fazer a cama, enquanto o jantar está a fazer.
Dirigiram-se ao piso de cima e procuraram o edredão. Era um pouco fino, mas com a lareira e o aquecimento central, ninguém passava frio.
«Sobreviverá», pensou ela.
- Toma uma almofada.
Edward arqueou as sobrancelhas. Depois, já com tudo na mão, desceu as escadas e colocou as coisas no sofá antes de regressar com Bella à cozinha sem dizer uma única palavra. O local parecia mais pequeno e sentia-se mais a presença de Bella.
Ela sentou-se e esperou que a água fervesse.
- Chá ou café? – perguntou Edward e ela olhou-o com assombro.
- Café, por favor. Sem açúcar.
- Eu sei qual a forma como gostas do café, a menos que tenhas mudado de gosto nisso, assim como em tudo o resto.
- Nada mudou – respondeu Bella na defensiva.
- Excepto o facto de agora seres vegetariana e de viveres na Escócia.
Bella não tinha resposta, pelo que nada disse. Esperou que ele lhe servisse o café e permaneceu em silêncio.
Ao fim de um bocado, levantou-se para retirar os pratos do armário. Abriu a porta do forno e um delicioso aroma invadiu toda a cozinha.
- Cheira bem – elogiou Edward, quebrando o silêncio.
- Surpresa!
- Estou surpreendido. Também tem um aroma familiar. Suponho que é um desses pratos que me preparavas e que eu pensava que tinha levado horas a fazer.
Bella sentiu que corava.
- Fi-lo umas quantas vezes – confessou. – Com atum e frango. Cheguei a colocar-lhe natas e especiarias, em vez de queijo. Dá-lhe um toque especial – esboçou um sorriso. – É um prato muito versátil.
- Muito inteligente… aliás sempre o foste. Devia ter percebido que jamais te contentarias em realizar tarefas domésticas.
- Nunca estavas em casa para ver o que é que eu fazia – encolheu os ombros. – Porque é que havias de pensar nisso?
- Porque, quer gostes ou não, sou teu marido – afirmou ele suavemente. Bella brincou com a chávena. Não estava preparada para manter aquela conversa. Pelo menos, não antes de esclarecer os seus sentimentos. Edward, contudo, não queria abandonar aquele assunto. – Devia saber o que é que andavas a fazer. Surpreende-me que, durante um ano, me tenhas mentido sobre o que fazias durante o dia inteiro e que eu não te tenha perguntado.
- Quando me perguntavas nunca te dizia toda a verdade.
Edward suspirou, levantou-se e levou a chávena até ao lava-loiça. Virou-se para ir buscar a de Bella, mas foi precisamente nesse momento que ela se levantou e ambos chocaram. A jovem afastou-se com o golpe. Quanto tempo tinham passado juntos? Anos. E quantas vezes tinham chocado acidentalmente? No entanto, nesse dia, bella sentia as pernas a tremer.
Olhou para a mesa e comprovou que estava pronta. Ainda bem. Isso significava que podiam jantar e depois iam dormir… em camas separadas! Assim, teria umas horas de paz e tranquilidade para colocar em ordem os seus sentimentos.
- Não tens uma garrafa de vinho por aí, algures? – perguntou Edward, mas ela não respondeu. Tinha uma garrafa guardada, mas não tencionava ir lá busca-la.
Tinha de se manter sóbria, pois sabia que quando chegasse a hora de se deitar, Edward usaria todos os seus encantos para a convencer a dormir com ele. Por isso, nada de vinho!
- Há água na torneira.
Edward riu-se e encheu os dois copos com água. A seguir, sentou-se.
- Vamos jantar. Estou morto de fome.
Edward terminou antes dela e parecia ter ficado com fome.
«Meu Deus, já me tinha esquecido do quanto este homem come!», pensou Bella. Reflectiu sobre a quantidade de comida que tinha e interrogou-se se seria suficiente.
- Tenho uma lata de arroz doce. – ofereceu-lhe, e Edward franziu o nariz.
- Prefiro a versão caseira. Imagino que o café também é instantâneo.
Bella soltou uma gargalhada.
- Não o café é a sério.
- Ainda bem – afirmou, aliviado.
Ela introduziu o arroz doce no forno durante uns instantes e depois servi-o.
- Tal e qual como a minha mãe fazia – afirmou, e Bella olhou para aquele sorriso que quase lhe provocou um desmaio.
«Não», pensou. «Não sucumbas aos encantos dele.»
Sentou-se e comeu a sobremesa sem olhar para Edward. Não queria contemplar os seus olhos de um tom de verde esmeralda. Sabia que, de contrário, estaria perdida.
Juntos, levantaram a mesa e depois saíram no meio da tempestade para irem buscar um saco de lenha.
- Só tens isto? – inquiriu Edward, e Bella assentiu.
- Há isto e meio depósito de gasóleo para o aquecimento. Bom, também há um radiador eléctrico que podemos utilizar, mas sai mais caro.
- Acho que me posso dar ao luxo de pagar um pouco de electricidade.
- A casa é minha… pelo que as despesas são pagas por mim, lembras-te?
- Como é que podia esquecer?
Voltaram juntos e Bella ficou junto da porta da sala.
- Boa noite. Podes ir à casa de banho quando eu terminar.
- És muito amável.
Ela ignorou o comentário e fechou a porta. Preferia o seu sarcasmo aos seus encantos. Pelo menos, conseguia resistir ao sarcasmo!
Mas, em parte, estava um pouco decepcionada por Edward não ter tentado convencê-la a deixá-lo partilhar a sua cama.
Olá
Aqui está mais um capítulo.
Peço desculpa pela demora, mas para compensar coloquei um capítulo maior.
Espero que gostem e deixem rewiens.
