Estava muito frio. O vento soprava contra a janela e Bella estava aconchegada sob o edredão e tiritava.

Claro que se não tivesse sido tão orgulhosa, podia estar agora deitada ao lado de Edward, tal como estivera durante os últimos cinco anos, pelo que se estava morta de frio a culpa era inteiramente sua.

Procurou umas meias, umas calças de malha e uma camisola na cómoda. Vestiu-se e voltou a enfiar-se na cama. Estava gelada e sentia cada vez mais frio. Talvez fosse boa ideia ligar o aquecedor.

Ergueu-se para acender a luz, mas nada aconteceu. Voltou a ligar o interruptor, mas continuou às escuras. Depois, foi até junto do interruptor do corredor e nada.

«Não há luz», pensou, desesperada. «Logo hoje!»

Nem sequer podia abraçar-se a Midas, pois o animal fugira para a sala, enquanto ela estava na casa de banho, e acomodara-se ao lado da lareira, voltou a metre-se na cama e deixou a porta aberta para ver se entrava algum do calor que escapava da sala, mas sentia somente um gélida corrente de ar, pelo que voltou a fechar a porta.

Sentiu-se só e isolada, pensando na óptima temperatura da sala. Na realidade, podia agarrar no edredão, descer as escadas e deitar-se no chão ou no sofá. Além do mais, era ela quem pagava a renda daquela casa!

Tinha as mãos e os pés como blocos de gelo, mas o orgulho fê-la permanecer na cama a tiritar até as quatro da madrugada. Então, ao sentir tanto frio, respirou fundo e desceu até à sala.

Abriu a porta e sentiu uma onda de calor. «Não devia ter esperado tanto», pensou. Midas abanou o rabo, e entre o ruído e a luz ténue que provinha das chamas, Bella encontrou o caminho até ao sofá e ordenou ao cão que saísse d cima do mesmo. Deitou mais lenha na lareira e aconchegou-se, tapando-se com o edredão.

Pouco a pouco, foi sentindo o calor e descontraiu-se. Bastava-lhe acordar mais cedo para sair dali antes de Edward se levantar. Este dormia profundamente devido ao cansaço.

Felizmente, Bella não teria que suportar os comentários sobre ter ido em busca da companhia do marido.

Ao fim de segundos, adormeceu.

Edward estava deitado a escutar a respiração dela. Não sadia porque é que Bella tinha ido para a sala, mas como não ouvia o ruído da caldeira supôs que não havia electricidade. Isso significava que também não havia televisão, rádio, computador, e-mail… bastavam-lhe as brasas para combater a hipotermia e, como deviam poupar combustível, talvez pudessem compartilhar de uma intimidade corporal.

Esboçou um sorriso e colocou-se de lado, tentando não pensar nas consequências. Sabia que conseguiria convencer Bella, mas como andava com algum azar, decerto que na manhã seguinte já havia luz.

Ainda assim, podia sempre sonhar…

Bella dormiu mais do que o previsto. Acordou com um barulho vindo da lareira.

«Diabos me levem», pensou, «o Edward já acordou». Identificou o som da água a ferver e depois o ruído da mesma a ser servida numa chávena. Duas vezes. O que significava que uma chávena era para ela.

Abriu os olhos e viu Edward agachado, diante da lareira. Estava a observá-la.

- Preparei um chá – anunciou ele. – Ainda não há luz. Onde é que fica o depósito da água fria. Temos que evitar que congele.

Ela encolheu os ombros.

- Não sei. Talvez seja ali ao lado, mas não tenho a chave.

- Está tanto frio que os canos podem congelar, mas pode ser que o tecto os proteja. Espero que a lenha não acabe antes da electricidade voltar.

Bella estremeceu perante aquela ideia.

- Não te assustes – Edward sorriu. – Eu posso aquecer-te.

A jovem soltou uma gargalhada e ele encolheu os ombros, para depois se rir.

- Bom, não perco nada em tentar. De todos os modos, se ficarmos sem lenha posso ir buscar mais.

- Vais buscar lenha à montanha e trazê-la às costas? Não te armes em herói. Morrerias… e mesmo que conseguisses, trazias lenha para apenas um dia. Seria melhor queimar a mesa da cozinha.

- Gostaria de ver como é que explicarias isso aos donos da casa. Acho que o seguro não cobre incêndios provocados. Bom, mas pensei que se os agricultores da zona tiverem tractor, talvez possamos convencê-los a levar-me até ao local mais próximo onde vendam lenha…

Bella riu-se.

- Sabes onde estás? Nesta zona da Escócia não há vendedores de lenha como nas cidades. De qualquer das formas, não conheço os vizinhos e duvido que saibam que eu cá estou. Além disso, somos forasteiros.

- talvez eu consiga convencer alguém a vender-nos alguns troncos.

Bella não acreditava naquilo. Desde que se mudara para ali que nunca vira ninguém, mas também só ali estava há dois dias. Talvez Edward tivesse razão.

Observou-o e interrogou-se porque é que se sentia tão mal. Normalmente, era uma pessoa muito animada logo pela manhã. Talvez fosse do frio e do facto de ter dormido pouco. Não disse nada e bebeu um pouco de chá.

Ergueu-se e, de repente, sentiu uma forte dor no tornozelo da perna direita. Tentou não gritar de dor. Decerto que a dor lhe passaria logo de seguida.

- O que é que se passa?

- É uma cãibra – murmurou, deixando cair o chá no chão ao tentar esticar a perna.

Edward aproximou-se e destapou-a. Agarrou-lhe a perna e apoiou-a na sua. Moveu-lhe o pé para lhe esticar o músculo. Bella sentiu que a dor desaparecia e suspirou de alívio. Era maravilhoso, não apenas o facto de sentir o toque de Edward, que era o que necessitava, como também a fricção dos seus dedos sobre o tornozelo.

- Estás melhor? – perguntou ele, e Bella assentiu. Depois, afastou a perna e tentou não pensar no contacto de ambos os corpos. Era melhor assim… mais seguro. Voltou a cobrir-se com o edredão, antes de ceder ao desejo de continuar apoiada ao marido e sentir o seu calor.

Edward regressou ao sofá depois de a observar. Pegou no chá e permaneceu pensativo.

Bella ansiava conhecer os pensamentos dele, mas tinha a sensação de que era melhor manter-se na ignorância.

- Se quiseres tomar banho, acho melhor fazê-lo agora que o deposito ainda tem água quente – disse Edward para espanto de Bella.

- Não há deposito – afirmou. – A caldeira aquece a água no momento, mas não a armazena. Gasta menos combustível, pelo menos foi isso que me disseram na agência.

- Bom, podemos sempre tomar um duche de água fria – gracejou ele, e ela riu-se.

- Acho que essa é mais a tua especialidade, não achas?

Edward arqueou as sobrancelhas e voltou a concentrar-se no chá.

- Quando é que será que voltamos a ter electricidade? – murmurou Bella. – Preciso de trabalhar.

- Suponho que o mundo pode viver sem nós durante uns dias. Queres que ponha mais água a aquecer?

- Um bom chá sabe sempre bem.

- E porque não? Não temos que sair.

- Falando nisso, imagino que não haja forma de levar o cão à rua, pois não?

Olharam para Midas. Este estava a gemer diante da porta.

- Humm. Posso tentar. Tens um tabuleiro no forno? Posso utilizá-lo para afastar a neve do caminho… a menos que tenhas uma ideia melhor.

Bella negou com a cabeça. Lembrou-se de o deixar sair pela janela, mas o animal enterrar-se-ia na neve e jamais conseguiria voltar a entrar. Levantou-se e dirigiu-se até à cozinha. Ao sair, sentiu um calafrio e recordou as palavras da agência.

- Não é muito caro, já que fica muito a norte.

A norte? Aquilo parecia o Árctico. Procurou na cozinha e encontrou uma pá. Deu-a a Edward e depois foi à casa de banho.

Quando regressou, viu-o junto à porta aberta a afastar a neve do alpendre.

- Ui! – exclamou.

- Estas casas deviam estar concebidas de forma a que o vento não entrasse desta maneira.

- Fala com o arquitecto – disse Bella. – Onde está o cão?

- Anda aos saltos de um lado para o outro. Não tem outro remédio; senão saltar não se consegue mexer. Deve estar de volta não tarda nada. Nem sequer o Midas aguenta muito tempo ali fora.

Agarrou no tapete e sacudiu-o.

- Meu Deus, que frio! Acho que vou tomar outro chá e vestir mais roupa antes de ir buscar uma pá maior à garagem… se é que vou.

Ouviram um ruído na porta e abriram-na para deixar entrar o animal, mas este saltava de um lado para o outro e começou a escavar na neve.

- Que diabo está ele a fazer? – perguntou Edward. – Midas! Vem cá antes que congeles!

O cão não obedeceu e Bella espreitou para a rua para ver o que se passava.

- Parece que encontrou alguma coisa.

- Bom, vou vestir o casaco.

Bella regressou à sala com ele e observou Midas pela janela, enquanto Edward tirava alguma roupa da sua mala.

- Encontrou alguma coisa… olha! Está a escavar e a cheirar o chão. Estás a ouvi-lo gemer? O que será?

- Pode ser um coelho congelado.

- Acho que não há coelhos por aqui. Está muito frio e o clima é muito húmido.

- Talvez seja um veado.

- Talvez.

- Imagino que não queiras ir comigo.

Ela sorriu.

- Acho que vou deixar-te ser o herói do dia. Não quero tirar-te o mérito.

Edward respirou fundo e dirigiu-se até à porta. Levava o casaco abotoado até ao pescoço.

- Não levas botas?

- Estão no carro… Ontem à noite não consegui trazer tudo. Vou busca-las.

- Boa ideia.

Bella conteve um sorriso e quando Edward saiu de casa foi até ao quarto vestir-se. A roupa estava gelada, mas não queria vesti-la por cima da camisa de dormir. Baixou novamente à sala e ficou a olhar pela janela.

Edward já tinha chegado junto do cão e continuava a afastar a neve com a pá quando, de repente, se deteve, e começou a retirar a neve com as mãos, cuidadosamente.

Midas mantinha-se ao lado, ladrando e correndo. Que diabo tinham eles encontrado? De súbito, Bella viu que Edward segurava nos braços algo negro e peludo.

Seria uma ovelha? Ou seria um cão?

Correu até à porta e abriu-a justamente a tempo de ver Edward.

- É um collie! – exclamou. – Oh, meu Deus! Está vivo?

- Acho que sim… está muito frio, mas acho que deve estar vivo. A neve protegeu-o do vento. Temos que aquecê-lo.

A jovem fechou a porta e depois levaram o animal até à sala, colocando-o em frente à lareira.

- Não… deita-o no sofá. No chão fica demasiado perto do lume.

Bella foi de imediato buscar a manta que utilizava para tapar Midas. Colocou-a sobre o sofá e Edward deitou o collie por cima dela.

Estava bastante débil, mas ainda teve forças para lhe lamber as mãos.

- Diabos me levem! – sussurrou, e virou-se para que Bella não visse o seu rosto, que demonstrava uma enorme compaixão. Mas era demasiado tarde, e Bella sentiu um aperto no peito. Esquecera que Edward era incapaz de suportar o sofrimento. Há tanto tempo que não via essa sua faceta…

- Pobrezinho – murmurou, acariciando-lhe a cabeça. – Mais parece um cubo de gelo. Deve ter-se perdido.

- Os cães das quintas não costumas estar tão fracos.

- Vou buscar água. É cão ou cadela?

- Não sei. Acho que é cadela. Sim… pobrezinha – Edward voltou a acariciar o animal e este voltou a lamber-lhe as mãos.

- Água morna – murmurou Bella. Esperava que Midas não se importasse que a intrusa utilizasse a sua manta e tigela. Mas parecia que não; estava muito interessado em lambê-la continuamente. E, a pouco e pouco, a cadela foi recuperando, como se a massagem de Midas a ressuscitasse. Levantou a cabeça e, desta vez foi ela quem lambeu o cão; e este continuou o seu exercício de salvamento.

Ao ver aquele gesto de ternura, Bella sentiu um nó na garganta.

- Acho que podemos deixá-la aos cuidados do Midas – salientou Edward. – Parece que sabe o que tem que fazer. Que tal se preparasses outro chá, enquanto eu vou buscar a pá?

Ela assentiu e foi encher a chaleira de água. Também levou pão e manteiga.

- Vamos tomar o pequeno-almoço? – sugeriu.

- Então, e o verdadeiro pequeno-almoço inglês? – gracejou ele, mas Bella ignorou-o.

- Podemos fazer torradas na lareira.

- Estás preparada para as virares? – inquiriu Edward entre risos.

- Homens! – pegou num garfo de carne e depois de colocar a chaleira ao lume, pôs uma fatia de pão sobre o fogo.

- Ah, sim… pão fumado – murmurou Edward, mas ela virou a fatia e esta depressa ficou torrada. Ele ficou em silêncio e quando o pão terminou de torrar, estendeu a mão para lhe pegar.

Edward franziu o sobrolho.

- Não era isto que eu tinha em mente.

Os seus olhos brilhavam de humor. Sentou-se em frente à lareira e espalhou manteiga pela fatia de pão. Bella serviu duas chávenas de chá e deu-lhe uma. Ao fazê-lo, apercebeu-se de que tinha as mãos geladas. Sentiu remorsos e teve que se esforçar para se lembrar que Edward tinha trinta e um anos e era capaz de cuidar de si mesmo.

Sentou-se no sofá e observou como Midas cuidava da cadelinha. Após lamber-lhe todo o corpo, colocou-se atrás dela e aconchegou-a de forma a dar-lhe calor.

A cadelinha continuava a estremecer de frio de vez em quando, mas ao fim de pouco tempo, apoiou a cabeça sobre as patas e adormeceu.

- O que diriam os donos da casa se soubessem o uso que estamos a fazer dos seus móveis? – murmurou Bella. – Apesar de não se importarem com a presença de animais cá em casa, pelo menos foi isso que me disseram na agência.

- Queres mais chá?

Bella assentiu.

- Vou à cozinha buscar mais água. Podes fazer mais torradas.

Levantou-se e saiu. Midas olhou-o de lado.

- És um belo menino – disse ela, acariciando-lhe o rabo. E pensou que tinha ração suficiente para os dois animais. Aliás, lembrou-se que havia mais comida para eles do que para ela!

Mas tinha parado de nevar e decerto que o tempo ia melhorar.

Até já achava que estar ali com Edward não era tão duro como pensara no início. Parecia que tinham feito uma trégua e talvez conseguissem sobreviver sem se matar um ao outro!

Edward regressou e ela sentou-se numa esquina do sofá, enquanto ele colocava água ao lume. Demorou muito tempo a aquecer e o silêncio parecia cada vez mais tenso. Seria imaginação sua?

Ou sentia remorsos?

Não tinha porque sentir semelhante coisa. Era uma mulher livre e não uma escrava. Ainda assim, não gostava daquela sensação.

Edward sentou-se no outro lado do sofá.

- Parece que a cadelinha está bem – afirmou Bella. – E já parou de tremer. Como é que se chamará? Não tem coleira.

- Pode ter sido abandonada.

- Pobrezinha. É verdade, tens aí uma torrada.

Edward olhou-a nos olhos e Bella sentiu um aperto no coração.

- Pára de evitar o assunto – adiantou ele com firmeza. – Acho que está na altura de termos uma conversa, não achas? Podias começar por me dizer porque é que saíste de casa a correr.

- Eu não saí a correr…

- Não, vieste de carro… o carro que compraste com o dinheiro da tua empresa e cuja existência eu desconhecia. Acho que mereço uma explicação. Bella, e não vou sair daqui enquanto não ma deres.

«Acabaram-se as tréguas!», concluiu.

- Não.

Olá a todos.

Aqui está mais um capítulo.

Espero que estejam a gostar desta fic.

Por favor deixem rewiens, pois gosto de saber a vossa opinião.

Até ao próximo capítulo.

Beijinhos.