- Comecemos pelo porquê – salientou ele num tom mais suave, e Bella sentiu de imediato uma enorme vontade de chorar.
Engoliu em seco. Não pensava dar-lhe a satisfação de a ver a chorar, mas tinha que ser sincera.
- Sentia-me presa – murmurou. – Sentia que tínhamos perdido o encantamento. Era como se já não te conhecesse, nunca estavas em casa e quendo estavas, só querias era deixar-me grávida.
- É esse o problema? O facto de não conseguires engravidar? Ou será que não queres? – Edward hesitou um instante e observou-a fixamente.- Fala comigo, Bella… andas a tomar a pílula?
- A pílula? Não sejas ridículo. Porque é que haveria de tomar a pílula?
Edward encolheu os ombros.
- Não sei. Diz-me tu. Que r dizer que não consegues engravidar, não é? – ele olhou para o lado; a tensão reflectia-se bem no seu rosto. – Andas com alguém, Bella? É isso?
Ela quase deixou cair a chávena no chão. Depositou-a cuidadosamente sobre a mesa e rodeou os joelhos com os braços. Como é que Edward podia pensar isso dela?
- Não acredito que penses semelhante coisa. Porque é que haveria de fazer isso?
- Porque andas aborrecida? Porque eu nunca estou em casa? Porque só queres o meu dinheiro… claro que agora já não precisas do meu dinheiro…
- Basta! Edward, isso é tudo um grande disparate! Eu nunca faria isso! – sentia-se magoada, afectada com a dúvida expressa naquelas palavras e naquelas amargas acusações, apesar de lhe ter dado motivos suficientes para lhe colocar semelhantes perguntas. Mas, mesmo assim, não a conhecia melhor do que isso? – Eu não o faria – continuou com incredulidade. – Eu nunca teria uma aventura! O sexo não é nada assim tão importante…
- Ah, não? Costumava ser… para nós.
Edward olhou-a nos olhos. Bella recordou que no início, eram insaciáveis e não conseguiam manter as mãos e as bocas afastadas. E sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo.
Que distante que lhe parecia tudo aquilo e que caminho mais triste e solitário percorrera desde então!
- De todos os modos, não falei sobre o sexo… continuou ele. – Talvez te tenhas apaixonado por outra pessoa. Por alguém que tenha tempo para ti… e que esteja contigo quando eu não posso estar – o tom de voz era tenso, mas Bella não sentia dor naquelas palavras.
- Que tentador – adiantou com amargura. – E tens razão. Estava muito só. Tão só que pensei: se vou estar sozinha, mais vale estar realmente sozinha… e por isso é que me vim embora. Embora não esteja mais sozinha aqui do que estava em Londres. Surpreende-me que tenhas dado pela falta de algo. Sou apenas uma extensão do mobiliário, algo que está sempre ali. Às vezes, acho que nem sequer sabes que tenho uma vida – adiantou com tristeza, e Edward soltou uma gargalhada irónica.
- Oh, Bella, não sejas estúpida! Claro que sei que estás viva. Estou sempre a pensar em ti.
- Não! Só pensas no trabalho, mesmo quando estás em casa. Andas completamente obcecado.
- Isso não quer dizer que não pense em ti noutros momentos.
- Mas nem sabes o que é que eu ando a fazer. Não sabes a que é que me dedico. Nunca lá estás para saber o que é que eu faço.
- E tu decidiste não me dizer nada. Sabes que podes estar sempre em contacto comigo… mas não me contas nada… ou, pelo menos, não me contas a verdade.
- Ia fazê-lo – sentia-se culpada por não o ter feito… - Não era minha intenção guardar segredo mas, no início, não te disse nada porque pensei que ias gozar comigo se eu falhasse.
- Como se nunca tivéssemos discutido as coisas.
Bella recordou as discussões que tinham na empresa e corou.
- Eu sei, devias odiar isso.
- Não tanto como quando deixaste de ir à empresa para ficares em casa. Talvez isso tenha sido um erro.
Ela encolheu os ombros.
- Não sei. Na altura era o que eu queria, mas depois… imagino que ambos pensámos que eu engravidaria de imediato… É o que costuma acontecer. Porque não a nós? Mas isso não aconteceu e agora questiono-me sobre se não foi o melhor.
- Já não queres ter um filho?
Edward falava com cautela, como se estivesse a caminhar sobre uma fina capa de gelo. Mas aquela era uma pergunta que Bella colocara a si mesma inúmeras vezes, e estava confusa.
- Não sei. Centrámo-nos tanto nisso que já não tenho perspectiva. Achas isto um disparate?
- Não, não é nenhum disparate, mas não explica porque é que não me contaste acerca do teu negócio quando se tornou um êxito, nem porque é que saíste de casa. Em concreto, porque é que saíste sem me dizer nada ou sem discutir as coisas comigo. Não achas que, após cinco anos, tenho o direito de saber?
A repreensão atingiu-a nas profundezas do seu ser.
- Não é uma questão de direitos! Só que… não estou preparada para ter esta conversa, Edward. Não sei o que sinto. Não sei o que penso. Não posso explicar-te nada, porque nem eu mesma o sei. Se soubesse, seríamos todos mais felizes. Só te posso adiantar que lamento tudo isto.
Conseguiu conter as lágrimas e agarrou na chávena de chá para evitar que os dedos tremessem.
Edward nada disse e Bella sabia que procurava as respostas que ela não lhe podia oferecer. Midas levantou a cabeça e alçou as orelhas.
- O que é que se passa, fofinho? Não anda para aí outro cão abandonado, pois não? – perguntou-lhe Bella.
- Estou a ouvir um barulho – disse Edward. – Parece um tractor.
Levantou-se, pousou a chávena sobre a lareira, aproximou-se da janela e tentou olhar para a estrada.
- Não vejo nada. Há alguma janela que dê para o outro lado?
- Na cozinha. Pode ser que o rapaz do alto da colina.
Foram ambos à cozinha e olharam pela janela, mas nada viram.
- Deve ser algum agricultor da o vento traz o ruído do motor – adiantou ela. – Anda, tenho frio. Vou ver se a cadelinha quer comer alguma coisa.
- Dá-lhe um pouco de pão e leite – sugeriu Edward, e Bella olhou-o como se estivesse em frente a um louco.
- Mal temos para nós.
- Podemos passar bem sem pão e leite.
- Mas tu detestas chá sem leite.
- Sobreviverei.
Foi então que Bella recordou a razão pela qual se apaixonara por aquele homem. Uma vez mais, sentiu-se invadida pelo arrependimento.
Regressou à sala com um pouco de pão. Em silêncio, preparou umas sopas de leite quente.
- Vá lá, lindinha – disse, colocando o prato sob o focinho do animal. A cadela começou a comer e quando terminou, olhou para Bella com agradecimento.
- Oh, meu Deus, parece o Oliver Twist – afirmou. – Está esfomeada, Edward.
- Sim, mas não lhe dês demasiada comida. Tem que ser pouca de cada vez.
Bella acariciou a cabeça da cadela e sentiu os ossos sob a pele. Estava desidratada. Ainda bem que a tinham encontrado!
Midas estava de pé junto dela a abanar o rabo. A jovem afagou-o e felicitou-o por ter encontrado a cadela. O cão lambeu-lhe a mão e depois subiu para o sofá com a sua nova amiga.
«Amor à primeira vista», pensou Bella, lembrando-se de Edward. Também tinha sido assim, pelo menos para ela, e quando Edward a contratou para trabalhar consigo, sentiu uma chama de felicidade plena.
Recordava a primeira vez que fizeram amor. Fora maravilhoso observar as luzes de Londres na escuridão da casa de Edward. De certo modo, a escassa distância que havia entre eles desapareceu e enterraram-se nos braços um do outro, encontrando a felicidade suprema.
Então, percebeu o quanto o amava e que continuava a amá-lo, mas as coisas tinham mudado e a felicidade era agora uma coisa do passado.
- É comovente, não é?
O tom de voz de Edward era profundo e Bella arrepiou-se.
- Nunca me passou pela cabeça que o Midas podia sentir-se sozinho – afirmou ela, feliz por mudar de rumo de pensamentos.
- Talvez nem ele soubesse que estava sozinho. Talvez todos nós apenas sintamos falta de algo quando não o temos… ou quando o perdemos.
Bella sentiu o coração acelerado. Estaria ele a dizer que se sentia sozinho? Que sentia a falta dela? Talvez, mas poderia isso alterar as coisas? Seria suficiente para altera os seus hábitos de trabalho? Provavelmente, não.
Midas voltou a levantar a cabeça e fez um ruído.
- Está-se a ouvir o tractor outra vez. Está mais perto – salientou Edward, e ela virou-se para segui-lo até à cozinha. O tractor encontrava-se perto da cerca, empurrando a neve para fora da estrada. Deteve-se e um homem saiu se cima do tractor, aproximando-se da casa.
- Vou mandá-lo entrar – disse Edward, mas ela olhou-o de forma cortante.
- Não, eu é que o mando entrar. A casa é minha.
Edward arqueou as sobrancelhas, mas Bella ignorou-o e dirigiu-se à porta.
- Bom dia!
- Vi o fumo… não sabia que estava cá alguém. Quis saber se estava tudo bem.
- É muito amável, obrigada. Tenha cuidado com os carros. Devem estar para aí, algures.
- Vá para dentro. Não deixe que o calor saia.
Calor? Devia estar a gozar. Ainda assim, Bella fechou a porta até o ouvir mais perto. Então, voltou a abri-la.
- Entre. Não estava à espera de visitas – adiantou com um sorriso, estendendo-lhe a mão.
O homem não sorriu. Apesar de tudo, cumprimentou-a.
- Chamo-me Carlisle.
- Sou a Bella Swan – disse ela, seguindo o olhar dele. – Este é o Edward Cullen. É de Londres. Chegou ontem à noite e ficou detido pela neve.
- Olá – e cumprimentou-o.
Midas ladrava do outro lado da porta e Bella deixou-o sair.
- Pronto, Midas – acalmou o animal e este foi cheirar o homem, regressando logo de seguida para ir cuidar da sua namorada. Convidaram Carlisle a entrar na sala e ofereceram-lhe uma chávena de chá.
- Aceitava um copo – disse o homem, e Bella lembrou-se da garrafa de vinho que tinha guardada…
Edward sorriu.
- Tenho exactamente aquilo que necessitamos – disse, saindo da sala e fechando a porta.
- Parece que tive uma recepção estranha na Escócia – adiantou com um sorriso.
- O pior é quando a neve se amontoa. Precisamos de um dia quente para derreter a capa superior – informou o homem, olhando para os cães. – Vejo que a collie arranjou uma cama.
Bella olhou para a cadela e assentiu.
- Foi o meu cão que a encontrou esta manhã na neve. Estava meio morta.
- Foi abandonada. Costumava ir a nossa casa roubar comida. A minha mulher dava-lhe os restos, mas uns meses atrás trouxe uma cadela nova e odeiam-se… a minha anda sempre a persegui-la.
- Deu-lhe um nome?
- Não. Já me bastam os meus cães, mas parece que agora encontrou uma casa.
- Acho que sim. Parece que o Midas a adora.
- Vai acabar por emprenhá-la.
- Não. O Midas é capado… fui busca-lo ao canil e já tinha sido operado – ouviu a porta da rua e viu Edward entrar com o casaco coberto de neve e uma garrafa de uísque na mão.
- Bella onde estão os copos? – perguntou ele.
Beberam meia garrafa de uísque. O homem bebeu grande parte e, sob o efeito do álcool, começou a contar-lhes as coisas sobre a história da zona, incluindo o significado de alguns nomes.
- O que é que significa Little Gluich? – perguntou Bella.
- Significa um lugar pequeno e lamacento e quando a neve derrete vais entender porquê, ou pranto de mulheres. A minha esposa diz que as mulheres choravam porque a casa ficava muito afastada e sentiam-se sós. Eu acho que o verdadeiro significado é o primeiro. Já aqui fiquei com o tractor atulhado inúmeras vezes.
Bella riu-se.
- Só darei a minha opinião quando conhecer melhor a zona.
O homem assentiu e olhou para o copo vazio.
- Queres mais? – ofereceu Edward.
- Não, tenho que ir para casa. A minha mulher já deve estar preocupada… o almoço já deve estar feito. Têm bastante combustível?
- De facto, não – confessou Bella. – Se a electricidade não voltar, não podemos usar o aquecimento central e só tenho um saco de lenha.
- Então, e o monte de lenha que está lá fora?
- O monte de lenha?
- Sim, ao lado da garagem.
- Não vi nada.
- Os donos devem tê-la usado toda antes de partirem. Eu trago-vos alguns troncos. Podemos ficar vários dias sem luz.
«Estupendo!», pensou Bella, e imaginou-se sentada com os cães em cima dela, enquanto Edward dormia no sofá.
Ou não. Os cães podiam dormir no chão.
Carlisle foi-se embora, caminhando com dificuldade. Bella abriu a porta aos animais para estes fazerem as suas necessidades.
Midas não levantou objecções, mas a pequena collie estava morta de medo, como se temesse ser deixada novamente na neve.
- Oh, querida! Não tenhas medo. Vem cá que eu dou-te comer.
E foi o que fez, enquanto Midas cheirava o local onde a tinha encontrado.
- Que nome lhe vais dar? –perguntou Edward quando regressou de junto do vizinho.
- Não sei. Algo bonito. Fofinha?
Edward agachou-se e acariciou a cadela. A collie abanou o rabo, mas estava a tremer. Ainda não sentia demasiada confiança.
- Vamos voltar para junto da lareira – sugeriu Bella, levando mais água para fazer chá.
- Quanto a ti não sei, mas eu estou com calor. Aquele uísque é potente!
Ambos se riram e, de repente, o ambiente mudou e encheu-se de tensão. Bella sentiu que ficava sem alento w olhou para outro lado. A água estava a ferver e ela preparou o chá com as mãos a tremer, tentando não pensar na expressão de Edward nem no desejo que ela sentia ao estar junto dele.
Não iria ceder… não! Tinha que pensar bem e sucumbir aos seus encantos não a ajudaria nada.
Edward estava cada vez mais perto do seu coração e sabia disso.
Sentou-se na esquina do sofá e bebeu o chá que ela lhe ofereceu. Não disse nada. Não lhe ia facilitar as coisas. Porque é que haveria de o fazer? Bella tinha-o abandonado, deixara-o a lutar sozinho contra o silêncio e com a intensa atracção que ardia entre ambos.
Bella sentou-se na outra ponta do sofá e inalou o aroma do chá. Edward olhou-a de lado e desejou poder abraçá-la. Era magra, mas a sua figura tinha as curvas adequadas. Existia algo no ângulo do seu queixo e na firmeza dos seus lábios que o fazia desejá-la cada vez mais.
Tinham compartilhado tantas coisas. Demasiadas para serem esquecidas levianamente. Não podia ceder. Não o faria. Bella regressaria a casa com ele, nem que tivesse que morrer a tentar!
Bella moveu-se um pouco e Edward fixou o olhar na camisola de lã que ela usava e que lhe realçava os seios, e teve que conter um gemido de desejo.
- Queres que tente limpar o caminho até à garagem para que possas ir até lá quando a electricidade voltar?
- Sim, isso seria óptimo – assentiu ela, e Edward arrependeu-se da sugestão que fizera. Era evidente que ela estava inquieta, e isso era bom. O pior era que ele também estava inquieto e necessitava de se acalmar se quisesse ganhar aquela batalha.
Vestiu outra camisola e o casaco e calçou as botas. Depois, calçou as luvas e agarrou na pá para abrir caminho por entre a neve.
Não era muito eficiente, mas bastava. Abriu alas até à garagem e encontrou a pá grande. Empreendeu o caminho de regresso e quando chegou a casa estava cansado e cheio de calor.
Carlisle levou-lhe lenha por volta das duas da tarde e deixou-a no alpendre. Passaram o resto da tarde a levar troncos para um sítio abrigado.
O vento soprava para norte e movia a neve como se fossem pequenas agulhas de gelo. Quando terminaram, entraram em casa e sacudiram a neve das botas. Edward sacudiu as costas da esposa e esse simples toque fê-la sentir vontade de chorar.
Bella devolveu o favor e torou-lhe a neve do casaco, contendo o desejo de se deter para explorar a forte musculatura de Edward.
- Tenho que ir à casa de banho – murmurou ela, pendurando o casaco no cabide. Depois, abriu a porta da casa de banho e lançou um grito.
- O que é que se passa?
- A gateira. Esqueci-me de a tapar.
- Gateira? – Edward olhou por cima do ombro de Bella. – Ah!
O vento tinha empurrado neve pela gateira e dentro e o chão da casa de banho estava coberto.
- Vou buscar a pá- disse ele.
Entretanto, Bella desviou a neve da abertura e fechou-a. «Que sítio mais estranho para colocar uma gateira», pensou. Enfiou uma toalha sob a entrada para evitar que o frio entrasse e viu como Edward colocava a neve na banheira.
- Mais tarde ou mais cedo, acaba por se derreter. Apetece-te uma chávena de chá agora que o teu vizinho nos trouxe mais leite? – sugeriu ele.
- Sim. Faz bastante para eu descongelar. Agora, sai daqui, que tenho de fazer as minhas necessidades – afirmou, empurrando-o para fora da casa de banho. Estava gelada e desejou que a electricidade voltasse rapidamente. Assim, podia enfiar-se na cama sozinha e fugir do encantador sorriso de Edward e dos seus atraentes olhos verdes.
Afastar-se dele estava a tornar-se uma prioridade, porque de contrário, transformar-se-ia numa vítima do seu sorriso e da sua forte atracção sexual.
Olá a todos.
Aqui está mais um capítulo, espero que gostem.
Posso dizer que a partir deste capítulo as coisas entre o Edward e a Bella vão começar a aquecer, espero que continuem a acompanhar.
Este capítulo vai ser dedicado à Ju Martinhão, obrigada pela sugestão que fizeste desta fic no final do capítulo da sua e pelos rewiens que me tens deixado.
Vai ser dedicado também à Aryna, gostei muito da tua rewien.
Continuem e até ao próximo capítulo.
Para quem me quiser contactar pessoalmente aqui vai o meu mail:
marta_
Beijinhos.
