Chapter VIII
- Elle? Acorda... – Suas mãos passeavam pelas minhas costas, subindo e descendo, da minha nuca ao meu quadril. Eu tinha mesmo que acordar? Segurei seu braço e me enrosquei em seu peito. Não, eu não queria mesmo acordar.
- Bom dia dorminhoca, ou seria mais correto dizer boa tarde? – Ele estava rindo deliciosamente em meu ouvido.
- Você não me deixa dormir a noite. – Confessei. Abri meus olhos e lhe dei um beijo que começou em seu peito e foi subindo, pescoço, queixo, boca.
- Como se você quisesse ter uma noite de sono tranqüila. – Ele apertou meu nariz entre seu polegar e indicador, fazendo meu rosto se contorcer em uma careta que ele deve ter julgado engraçada, porque ele quase se dobrou em risos.
- Você me acordou para tirar sarro da minha cara? – Fingi estar insultada com tal reação.
- Não... Na verdade, eu te acordei para te dizer que temos 30 minutos para estar no salão principal, reunião da guarda. – Ele piscou o olho esquerdo para mim. As duas ultimas palavras me trouxeram de volta a terra. Levantei-me e vesti a camisa xadrez que ele estava vestindo ontem e que agora se encontrava no chão, perto do banheiro.
Deixei que a água gelada lavasse meu rosto e minha mente. Ontem eu havia tomado uma decisão e me peguei um pouco aérea o resto do tempo. Eu ia resolver tudo do meu jeito e ninguém além de Nez poderia me ajudar, ninguém. Mas ainda não tive tempo de pensar em como eu faria tudo isso, por onde começaria. Estava tão absorta em meus pensamentos que sequer notei o reflexo de Karl encostado ao portal da porta do banheiro.
Ele sabia que tinha algo errado comigo, eu vi estampado em seu rosto. Karl estava adquirindo o dom de Alec, o de ler minha mente. Ele abriu os lábios para me fazer a pergunta que eu não queria ouvir "Qual o problema?", mas acabou desistindo no meio do caminho. Passei por e ele e fui direto para o closet, vesti uma calça jeans preta, coturnos de couro e uma blusa branca, nada demais.
- Ver você se vestindo chega a ser mais excitante do que ver você se despindo. – Levantei as sobrancelhas, surpresa com a declaração. – É que, assistir você escondendo todo esse corpo debaixo de roupas, me dá uma vontade louca de atrapalhar o processo.
- Isso é porque eu nunca fiz um strip para você. – Rebati.
- Verdade, mas nós podemos mudar essa realidade. – Ele disse, ponderando a idéia.
- Pega, eu amo essa camisa jeans em você. – Joguei uma camisa jeans dele que estava no meio das minhas roupas há séculos.
- Pronta? – Ele me perguntou.
- Pronta. – Respondi automaticamente.
Ele me segurou pelo quadril e me conduziu até o salão, que já se encontrava lotado. O burburinho que corria entre os membros era que o motivo da reunião era uma denuncia. Do que? Isso ninguém parecia saber. Nos sentamos nas escadas, aos pés dos tronos, esperando os anciões chegarem. Alec e Nez chegaram após alguns minutos, acredito que Nez era única pessoa que não estava usando preto naquele salão.
- Eles já estão vindo. – Alec falou depois de deixar Nez ao lado de Heidi. Subimos as escadas para nossos lugares, Jane já estava lá, encarando o chão. Eu nunca a havia visto com o olhar baixo, algo estava muito errado nela.
- Buon Pomeriggio! – Aro entrou, a voz mais dura e menos polida que o normal, seguido por Caius e Marcus. Dei um passo para trás e espiei Karl pelo canto do olho, ele estava praticamente do outro lado do salão, me devolvendo o olhar. Aro e os outros vieram diretamente para seus tronos.
- Mande-o entrar. – Ele ordenou.
Um vampiro ruivo, aparentando uns vinte e poucos anos, entrou pelo salão sendo conduzido por Afton. Ele tinha passos firmes e confiantes, parecia ter certeza do que iria dizer.
- Como devo chamá-lo? – Aro perguntou
- Trevor. – O homem respondeu automaticamente.
- Então, Trevor, o que me tem a dizer? – A mesma pergunta que eu queria fazer.
- Eu vim aqui denunciar dois clãs, que se encontram na Rússia européia, arredores de Moscow. Eles estão organizando exércitos de recém-nascidos, luta por território, e a situação está ficando fora controle, muitas mortes na região. Já devem ter visto noticias na TV ou jornais. – Exércitos de recém-nascidos, era incrível como ainda existiam clãs que tentavam montar um, completa perda de tempo e esforço. Eles sempre acabavam morrendo, se não fosse por nós, era por eles próprios.
- E qual a prova que pode nos oferecer, Trevor? – Marcus indagou.
O homem estendeu a mão esquerda na direção de Aro, que por sua vez desceu de uma forma pretensiosa as escadas e apertou com as duas mãos a de Trevor. Bebendo sua mente.
- Posso ver que se trata da verdade. Os O'Brien e os Mc'Dillan envolvidos em brigas por território. Completamente imperdoável. – Aro declarou de olhos fechados, vendo.
- Eu lhe disse. – O homem rebateu.
- Agradeço-lhe por nos dar a certeza do que desconfiávamos. Eu já estava acompanhando o caso há algum tempo, estávamos prestes a agir por conta própria. Mesmo assim, obrigado. – Aro lhe agradeceu e voltou para seu trono, seu lugar. – Pode seguir em sua viagem, o problema agora é nosso. – Ele finalizou.
Trevor entendeu a deixa e se foi, acompanhado por Afton. Depois de uns dois minutos Aro apresentou o plano a guarda.
- Alec, Jane, Karl, Demetri, Felix acreditam que podem cuidar disso sozinhos? – Todos os convocados se apresentaram rapidamente aos pés da escada.
- Com certeza. – Jane disse presunçosa. Agora sim parecia a Jane de sempre.
Eu só conseguia olhar para Karl e Alec, eles iam ter que viajar e quando se tratava de exércitos de recém nascidos às viagens sempre demoravam mais do que o normal. Cerca de três semanas.
É isso, eu tinha que agir agora, esse era o momento. Enquanto eles gastavam tempo, observando, avaliando, estudando, eu e Nez poderíamos fazer o que tínhamos que fazer sem grandes problemas. Com o castelo limpo, eu poderia sair daqui com mais facilidade que nunca. Eu já estava me preparando para isso, eu sabia que os dois não poderiam ir conosco, ao menos não nos primeiros dias. Eles nunca os entenderiam, tínhamos que prepará-los primeiro, aí sim eles poderiam nos encontrar.
- Então se preparem, quanto antes resolvermos isso melhor. Devem partir ainda hoje. – E com isso Aro se foi. Eu nunca entendi como ele podia ser tão ocupado, ele só sabia mandar.
A guarda oficial, como a maioria chamava os que sempre iam às missões mais importantes, se retirou para uma sala deles nos fundos do salão, o resto da guarda foi se dissipando aos poucos. Nez estava com o rosto triste encostada em uma pilastra no canto direito do salão.
- Electra. – Há muito tempo eu não ouvia aquela voz dizendo meu nome. Andei até ficar de frente para o trono de Caius, o que ele queria comigo?
- Acompanhe-me. – Ele disse antes de se levantar e passar por mim, o segui. Quando passei por Nez ela me olhou tristonha. Ela queria falar comigo, eu também queria falar com ela. Segui Caius até os seus aposentos, eu nunca entrei ali.
- Athenodora? – Perguntei. A minha madrasta simplesmente me odiava, me considerava fruto de uma traição, uma bastarda. Se bem que essa é a verdade, eu não passo de uma filha bastarda.
- Ela não está. – Ele me respondeu secamente, enquanto abria a porta e me convidava para entrar. Passei pela porta e fiquei em pé no meio do cômodo, não estava me sentindo a vontade ali.
- Sua mãe, Stella, antes da morte me deixou um objeto de significante importância para ela. Eu disse que não te entregaria, mas nunca tive coragem para destruí-lo. – Eu não sabia o que dizer, ele estava falando da minha mãe?
Ele abriu uma gaveta e tirou de dentro de uma caixa fechada a chave, uma corrente de prata, com um pingente. Era uma estrela, no formato da rosa-dos-ventos, era lindo.
- Eu só quero me livrar disso. – Ele confessou. Ele pegou minha mão esquerda e depositou a corrente ali.
- Você é a cópia aperfeiçoada de Stella. – Seus olhos vagavam entre o passado e o presente.
- Eu preciso ir. – Joguei as palavras em cima dele e sai correndo dali. O que foi aquilo? Nunca em toda minha curta vida eu tive uma conversa com Caius, mas eu estava agradecida por ele ter me entregado aquela corrente. A guardei segura em meu bolso.
Segui em direção ao meu quarto. Nez estava lá, me esperando. Não perdi tempo, fui direto para o closet, juntar algumas peças de roupas em uma mochila.
- Eles vão demorar muito? – Ela finalmente perguntou.
- Vão e isso é perfeito. – Sai do closet e fui para a cômoda, pegar alguns documentos e dinheiro.
- Perfeito? Você está doida? Afinal, o que você está fazendo? – Ela explodiu.
- Arrumando minhas coisas. Devia ir arrumar as suas também. – Respondi calmamente, agora eu teria que fazê-la entender que o que eu estava preste a fazer era o correto.
- Por quê? – Sua voz falhou.
- Porque nós estamos indo embora daqui, estamos indo para a sua casa. – Revelei.
- Karl e Alec? – Ela perguntou se eles também iriam conosco.
- Não podem ir. - Ela me perguntou por que de novo, só com o olhar.
- Se Karl chegar uns cem metros perto da sua família está morto. – Ela pareceu não entender. - Olha, quando você sumiu eles devem ter te procurado em todo o território americano e o seu cheiro Nez estava misturado ao dele, com certeza eles gravaram o cheiro dele na mente.
- Ele foi ao meu quarto. – Ela sussurrou.
- Grande erro. É claro que eles sabem que Karl está envolvido nisso. Se você aparecer lá com Karl do lado aquele lobo vai pular no pescoço dele sem sequer perguntar o seu nome. – Minha voz foi morrendo aos poucos ao imaginar a cena.
- Mas e Alec? – Ela entendeu que para Karl não tinha jeito.
- Alec? Você está de brincadeira? Ele tentou matar sua família há alguns anos, você acha que vão acreditar nele? Imagine você chegando lá segurando a mão de um Volturi tão poderoso como Alec? E você tem que arrumar as coisas antes, com o lobo. – A lembrei.
- Verdade. – Concordou. - Então eu vou arrumar minhas coisas. – Ela se levantou.
- Nez eu quero que você entenda uma coisa: A partir do momento que você sair dessa cidade sem consentimento de Aro, você estará desertando o clã. Para isso não há perdão e quem ousar te proteger da punição, também será punido. – Fui rápida, sem rodeios. Ela tinha que entender no que estaria metendo sua família. - Não me sinto bem por estar fazendo isso, mas não existe outra maneira.
- Minha família não irá mais adiar essa luta, tenho certeza. – Sua voz soou convicta.
- Provavelmente Karl e Alec irão atrás de nós de qualquer jeito. Mas só quando chegarem, o que pode ser daqui a umas três semanas. Teremos tempo para preparar as coisas por lá, para quando eles nos acharem. – A informei em enquanto escondia minha mochila debaixo da cama.
- Então depois que eles irem, nos encontramos aqui? – Ela me perguntou, sua face havia tomado uma expressão concentrada. Ela estava focada no plano.
- Essa é a idéia. – Declarei e com isso ela se foi.
Me deitei na minha cama, eu havia passado toda a minha vidinha ali naquele lugar, naquele quarto.
Tantas boas lembranças.
- Flashback On -
- Amigos então? - Alec estendeu a mão para mim, pedindo um acordo.
- Hum... Amigos. – Minha mão era minúscula dentro da palma da mão dele.
Ele me puxou, para uma longa sessão de cócegas, a primeira vez que eu ri com ele. Meu primeiro amigo.
- Porque você terminou com a Demmy? Verdade ou consequência? – Jogos, minha curta pré-adolescência foi cheia de jogos.
- Consequência. – Alec me respondeu, ele nunca iria me contar o motivo.
- Me beija. – Aquelas palavras simplesmente saíram, incontrolavelmente.
E foi o que ele fez, veio na minha direção e tocou meus lábios com os seus. Meu primeiro beijo.
- Nada se compara a você. – Karl sussurrou em meu ouvido, enquanto abria meu corpet. Meu vestido já estava no chão, junto com minhas meias. Ele me pegou no colo e me levou até a cama, nunca largando os meus lábios.
Suas mãos percorreram lugares intactos, me provocando sensações novas, mas já consideradas as melhores. Ele acabou de tirar sua calça e rapidamente me puxou para sua boca. Desta vez eram seus lábios os curiosos, beijando cada parte do meu corpo. Ele estava fazendo tudo praticamente em slow-motion, me fazendo perder a coerência dos pensamentos. Tornando aquele momento, único. Minha primeira vez.
- Flashback Off -
E agora eu iria dar adeus para aquele lugar, tão meu.
O barulho que o vento fez quando a porta foi aberta com força, me tirou de meus devaneios. Karl entrou com tudo no meu quarto, fechando a porta atrás de si.
- Eu vim me despedir de você. – Sua voz estava falhando, distância, ele não a queria tanto quanto eu.
- Eu sei. – Disse, antes de voar para seus braços e tomar seus lábios nos meus. Eu sentiria falta dele como nunca. - Eu sei.
- Nunca esqueça que eu te amo. – O abracei o mais forte que podia. Ele me beijou novamente, com desejo.
- Eu sempre te amarei! – Ele sussurrou, seu hálito gelado contra a pele do meu pescoço me provocou um arrepio que se espalhou por todo meu corpo.
Seria nessas palavras que eu me agarraria nos próximos dias. Seriam essas palavras que eu me forçaria a pensar todos os dias antes de cair no sono. Porque não fazia diferença saber que depois ele voltaria para os meus braços, ficar longe dele sempre seria uma tortura insuportável.
