Chapter XI

Já havia cinco dias que estávamos ali, com os Cullens. Alice se esforçava para prever a decisão de Aro, quando ele viria atrás de nós, mas ela não conseguia chegar a nenhum lugar fixo. Expliquei a ela que deveria ser por causa dos principais membros da guarda já estarem em missão na Rússia, ele devia estar esperando eles retornarem para agir. Eu tentava me manter focada e não ficar tão perto de momentos íntimos da família, eu já havia tido minha cota. Não que eu não os suportasse, eles eram ótimas pessoas e eram muito bons comigo, até mais do que eu merecia.

No dia em que cheguei aqui e tive que assistir aquela cena, eu tirei forças do canto mais esquecido da minha alma para não chorar ali, na frente de todos. Ver eles a abraçando como se ela fosse tudo, como se ela fosse o mundo deles, doeu. Pela primeira vez eu senti inveja de Nez, senti porque ela tinha uma família, porque ela havia crescido em um lar cheio de amor e carinho, porque ela tinha uma mãe, porque ela tinha um pai que a amava, mas aquilo passou depois que eu tive tempo de colocar minha cabeça no lugar. Ela só teve mais sorte que eu, eu que era a azarenta da historia e ponto final.

Depois daquela enorme briga, Nez ainda não havia dirigido uma palavra ao cachorro e sequer havia dado algum indicio de que tinha um relacionamento com Alec. Ela estava com medo, mas aquilo não podia durar, daqui á uns dias Alec chegaria aqui e ela não teria contado nada. Então do que adiantou fugirmos para cá primeiro?

Daqui a uns dias Karl também chegaria aqui e era nisso que eu estava focando, me manter inteira até lá, não desabar pelo meio do caminho. Então tratei de me manter ocupada. Carlisle se interessou muito sobre meu talento e minha vida, não que eu gostasse desse tipo de atenção, mas assim eu não pensava em como eu agüentaria até Karl chegar.

Rosalie andava me ensinando alguns truques de mecânica, a Land Rover Range Rover preta que eu havia roubado no aeroporto para chegar até aqui era nosso laboratório, ele era tão lindo que me deu pena, mas prometi a mim mesma que teria um carro do mesmo modelo. Rose havia me indicado o Jeep Commander e eu estava de olho nele, ele seria meu.

Emmet e Jasper estavam entusiasmados com uma batalha agendada, estavam treinando feito loucos, eu e Nez entramos na zona de batalha também. Eles se surpreenderam com as nossas técnicas, "Ness não sabia sequer se defender quando foi para Volterra e voltou com capacidade para me ensinar alguns truques", foi o que Jasper comentou. Era esse o resultado dos treinos com Felix, afinal ele era o melhor no que fazia.

Nez estava na cozinha com Esme, aprendendo a cozinhar, acredito que ela estava fazendo o mesmo que eu, se mantendo ocupada para não pensar em Alec. Eu estava no sofá da sala assistindo TV com Rose, quando Jacob invadiu a casa.

- Ness, eu sei que você está aqui. Precisamos conversar. – Ele disse devastado, não conseguia compor esse teu lado humano.

- Diga. – Ela veio da cozinha para a sala e disse com a voz dura, sem emoção.

- Eu pedi para não lhe contarem nada, porque você era só uma criança inocente... – Ele disse de uma vez, talvez tenha percebido que Nez não ficaria a sós com ele. Assim que começou a falar, Nez o cortou.

- Eu era só uma criança inocente? – Fingiu pensar no assunto. – Pelos primeiros quatro anos talvez, porque depois... Depois... Me desculpe, mas eu não sou tão inocente quanto pensa. – Ela parecia ter as respostas na ponta da língua como se tivesse ensaiado muito para esse momento. Ela ainda estava magoada com ele, agia como se permanecer ao seu lado fosse um castigo. Ele percebeu isso

- Okey, perdão por não enxergar que você cresceu. Mais me diga aqui e agora que não sente nada por mim, olhando nos meus olhos. - Ele forçou.

Eu e Rose entendemos nossa deixa e nos levantamos, ela foi para a cozinha, eu resolvi ir para o quarto de Nez. O problema é que eu teria que atravessar a sala e passar pelos dois.

- Eu não te desejo da forma que você queria Jacob. – Ela disse firme e levantei o olhar rapidamente, para confirmar que ela o fez o olhando dentro dos olhos.

- Isso não é possível, você já viu alguma imprinting falhar? – Ele jogou baixo.

- Talvez seja porque as outras meninas nunca tiveram escolha, vocês não a deixam viver, praticamente as privatizam. - Sua voz falhou, eu já estava no meio das escadas. O que aconteceu a seguir foi muito rápido.

- O que foi isso? – O pai dela perguntou do andar de cima.

- Nada. – Nez disse meio desesperada.

- Ele? – Sua voz soou furiosa. Eu fiquei paralisada enquanto compreendia o que estava acontecendo. – Não me diga que isso realmente aconteceu? – Ele já havia passado por mim em uma velocidade irreal e segurava Nez pelos ombros.

- O que você viu? – Jacob perguntou para Edward, eu já sabia do que se tratava.

Bella já havia descido, Rose, Emmet e Esme também haviam se juntado rapidamente na sala para assistir aquela cena. Edward a soltou lentamente e fechou as mãos em punhos, não havia gostado do que havia visto.

- Alguém te machucou Ness? – Jacob pegou o rosto de Nez nas mãos e disse de uma forma protetora.

- Ninguém me machucou. – Respondeu, enquanto tirava as mãos de Jacob de seu rosto.

- Então o que Edward viu em sua mente para ter essa reação? – Ele pareceu confuso.

- Ele viu um beijo Jacob, um beijo entre mim e... – Ela explodiu, jogando tudo pro alto, pouco se importando com quem estava ouvindo. O rosto de Jacob desabou de vez, foi como se ele entrasse em estado de choque.

- Entre você e quem? – Sua mãe perguntou chocada.

- Quem é ele? – Emmet perguntou, controlando o ciúme. Edward olhou fixamente para Nez, esperando ela confessar em voz alta.

- Entre mim e... Alec Volturi. – Ela os encarou, esperando pelas diversas reações.

- Alec? – Esme repetiu, não acreditando.

- Aquele Alec? – Rose quis ter certeza.

- Um Volturi? – Emmet caçoou.

- Aquele Alec. – Ela confirmou.

- Você não pode fazer isso, ele nos atacou lembra? – Bella jogou as palavras em cima dela.

- Ele te atacou. – Edward corrigiu.

- Vão mesmo tornar esse evento importante? Ele só estava cumprindo ordens, ele não é como vocês pensam. – Ela começou a se explicar.

- Ele não é uma boa escolha Ness. – Bella a advertiu.

- Como se eu pudesse escolher, você mais do que ninguém deveria me entender. – Ela respondeu, controlando a raiva que estava quase emergindo em sua voz.

- Não compare seu pai a ele. Seu pai não mata pessoas. Seu pai nunca atacou minha família. Seu pai não faz coisas terríveis só porque alguém mandou. – Elas começaram a discutir. Me pergunto se essa seria a primeira discussão das duas, porque todos estavam olhando aterrorizados para a cena.

- Isso não importa para mim, porque deveria importar para vocês? Eu o amo, ele me ama, é isso que deve valer, não seu passado. – Ela disse de queixo erguido.

- Eu não me importo, Eu não vou desistir de você. – Jacob suspirou, com aquela declaração toda a raiva do cômodo se foi e só restou pena.

- Não desista, se quer voltar 12 anos e sofrer tudo novamente, lute. – Ela jogou na cara dele. Aquela frase deve ter doído mais que todas as outras, por que ele simplesmente se virou e foi embora, quebrado demais para permanecer ali.

- Ness, viu o que fez? Você não é mais a mesma. – Bella choramingou.

- Não mãe, agora eu sou aquilo que se encontrava adormecido em meu intimo. Eu não tenho mais medo de dizer o que penso, não tenho mais medo de ser eu mesma. – Ela se virou e subiu as escadas me direcionando um olhar, um olhar que deixou vir á tona tudo o que estava passando por dentro dela.

Logo em seguida percebi que todos os olhos daquele cômodo me encaravam como se eu fosse culpada por tudo, talvez estivessem me considerando uma má influencia. Me virei, não consegui sustentar aqueles olhares. Subi até o quarto de Nez, A porta do banheiro estava fechada.

- Entra e fecha a porta. – Sua voz saiu entre soluços, ela estava chorando. Passei pela porta e fechei em seguida. Ela se encontrava sentada ao lado da banheira, abraçando seus joelhos. Sentei ao seu lado e a abracei fortemente.

Não dissemos nada, não era necessário, eu sabia o porquê dela estar assim. Doeu para ela ver Jacob magoado, doeu para ela dizer tudo o que disse e ela só estava chorando por que não se arrependia. Fiquei ao seu lado até minha camisa estar ensopada por lágrimas, até o choro inconstante se tornar soluços, até suas pálpebras começarem a se fechar, até o sono chegar porque sua mente já estava cansada de pensar.

A ajudei a chegar à cama, onde ela dormiu quase que instantaneamente. Eu estava me sentindo mal pelo estado em que ela se encontrava, mas também feliz por finalmente ter aberto o jogo e fazer valer a pena essa viagem. Tirei a camisa branca que estava molhada e fiquei somente com a blusa verde que estava por baixo, me joguei na floresta pela sacada, precisava caçar. O centro da cidade não ficava tão distante da casa dos Cullen, não iria demorar chegar lá. Corri uns 15 minutos antes de perceber que estava sendo seguida. Parei e esperei, quem quer que seja, me alcançar.

- Desculpe, eu só não quero ficar em casa. Todos estão nervosos demais com o ultimo episódio. – Era o pai da Nez.

- E preferi ficar comigo? – Minha voz saiu irônica. Nunca havíamos passado mais de 30 minutos no mesmo cômodo, era óbvio que ele não me suportava.

- Sinceramente, tenho algumas perguntas para lhe fazer. Não poder entrar na sua mente e realmente frustrante, você me parece ter uma mente fascinante. – Ele me olhava dá mesma forma que costumava olhar para Nez. O que me envergonhou, ele devia estar com ódio de mim, não?

- Eu vou caçar agora, você não pode me acompanhar, ou pode? – Perguntei realmente interessada na resposta, Nez não ousava ir caçar comigo, era tentação de mais, ela dizia. Mas o pai dela parecia não se importar com a informação.

- Acho que consigo me segurar. Consegui por dois anos, não? – Ele sorriu com o próprio comentário. Éh, talvez ele seja capaz de me ver caçar sem cair em tentação, ele era forte. Corremos para a cidade, ele rapidamente tomou o posto a minha frente. Todos nessa família tinham que ser tão rápidos? Ele esperou eu estar alimentada para começar com as suas perguntas.

- E então, como ela está? – Sua voz estava dolorida quando me fez a pergunta.

- Triste, ela também está sofrendo com isso. – Confessei, será que Nez se importaria se eu contasse isso para ele?

- É só que, Alec? Ele não me parece ser a melhor opção. – Pais, sempre pais.

- E não é. – Confirmei, ele ficou meio confuso, talvez estivesse esperando que defendesse Alec com unhas e dentes. – Mas quem terá que escolher será ela, não a sua família ou esse Jacob. Dêem um pouco de crédito a garota, ela já sabe o que é melhor para si.

- Sabe? – Ele arqueou uma sombracelha, como se duvidasse disso. – Mas não vamos falar sobre isso. Teremos tempo para esse assunto, e primeiramente, eu tenho que conhecê-lo de verdade, só mais alguns dias e ele chegará por aqui. – Ele me olhou para ter certeza, confirmei. Ao menos é isso que eu espero. – Agora eu quero saber sobre você. Herdeira Volturi, deve ser muito bem tratada, uma princesa não? – Ele perguntou realmente curioso, como se essa pergunta fosse dizer muito de minha personalidade.

- Não, na verdade eu sou só a bastarda, a filha indesejada de Caius com uma simples mortal. Criada como nada mais que uma arma. – Deixei minha voz soar indiferente, mas esse assunto sempre mexia comigo.

- Sinto muito. – Ele pareceu me entender e rapidamente trocou de assunto. – Amigos? – Ele tentou recolher mais informações sobre mim.

- Karl, Alec, Nez... Só? – Eles eram meus amigos, meus únicos.

- Você me parece uma garota forte, forte demais para ter sentimentos verdadeiros. Deve adorar brincar com os rapazes, não? – Eu não contive a risada com a pergunta.

- Os rapazes gostam mais de brincar comigo, não sou tão esperta quanto imagina. – Eu ainda estava rindo quando respondi.

- Deixe-me ver, aquele tipo certo de cara errado apareceu em sua vida? – Ele chutou.

- É por aí. – Concordei vagamente. Não me forçando a pensar em Karl.

- Vou ter a oportunidade de conhecer o sortudo? – Ele falava como se me conhecesse há séculos, como se tivesse toda a intimidade do mundo comigo.

- Quando Alec aparecer. – Era fácil falar com ele, ele era um cara bem legal.

- Então "ele" é o Karl. – Assenti. – Esse cara está despertando cada vez mais minha curiosidade. – Ele pensou alto. No caminho de volta a casa dos Cullen, viemos quase caminhando. Quando chegamos já estava escuro. Nez nos esperava ao pé da escada da varanda da antiga casa. Seu pai contornou a casa e entrou pelos fundos, fugindo de um dialogo com sua filha.

- Você foi caçar? – Sua voz estava fina, ela estava muito mal. Concordei levemente, enquanto me sentava ao seu lado.

- Meu pai me odeia. – Ela suspirou. – Eu não consigo mais controlar meus pensamentos, eu escorreguei, agora ele está em cada canto da minha mente. Isso deve ter o irritado tanto que ele preferiu ir te assistir caçar humanos a ser forçado a assistir meus sonhos. – Ela era a rainha do drama.

- Não é pra tanto, ele só não acha Alec bom o suficiente para você. Como também não devia achar Jacob bom o suficiente, mas ele suportava Jacob porque era seu destino. Alec não é seu destino, ele é sua escolha. – Tentei fazê-la se sentir melhor.

- O que foi Alice? O que você está vendo? – Era Jasper, aparentemente Alice estava tendo uma visão. Escutamos atentamente.

- Aro. Ele se decidiu. Provavelmente uma semana e meia, é tudo o que temos. – Alice e Edward disseram juntos.

Gelo percorreu a minha espinha. "Uma semana e meia, é tudo o que temos." As palavras ecoaram na minha mente, me provocando tonturas. Se Aro já havia se decidido era porque, provavelmente, Alec, Karl e os outros já haviam voltado. Quanto tempo levaria para eles nos encontrarem? Chegariam antes? Eu espero que sim. Estou contando com isso.

Em uma semana e meia eu iria enfrentar a coisa mais próxima de uma família que eu já tive. Demetri, eu finalmente iria me acertar com ele. Jane, imagino o que Alec fará, afinal ela ainda é sua irmã. Caius, eu não pretendo ficar ao seu redor para assistir seu fim, ele pode ter me deixado nos fundos todo esse tempo, mas ainda era meu pai, eu não sou esse tipo de monstro. Marcus, Karl era muito próximo de Marcus, mas um dia Karl me confessou que fora Marcus quem lhe dera a idéia que acabei usurpando, desertar o clã, de que lado Marcus ficaria afinal? Perguntas e mais perguntas quicaram em minha mente, mas a que mais me deixava preocupada era: Sairíamos dessa?