Série Alouette
por Nimori
tradução: Rebecca Mae
betagem da tradução: Ivich Sartre
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Sinopse: Somente Lucius sabe até onde o dano vai.
Nota do Traducious: Alouette é uma série composta de três one-shots chamadas "Je Te Plumerais", "A Exaltação da Cotovia" e "O Olhar do Pássaro" (ou, no idioma original, "Je Te Plumerais", "The Exaltation of the Lark" e "Birdseye". Esta tradução, bem como todas as outras que o grupo apresenta, foram realizadas com consentimento de suas respectivas autoras.
Nomes de personagens seguem o idioma original de Harry Potter, enquanto lugares, objetos e animais seguem a tradução oficial dos livros.
A Exaltação da Cotovia
Harry Potter acabou comigo.
Deve ter acabado, porque se resisti às irrisórias tentativas de Voldemort por duas décadas, haveria alguma razão para sua tentativa final surtir efeito? Uma experiência tão patética, de verdade, me trancar numa cela com um garoto de dezesseis anos. Não foi ele, deve ter sido Potter. Harry. Assim como Harry deve ter matado o Lorde das Trevas, não importa o que o Profeta Diário diga. É tão ridículo pensar que Dumbledore, Snape, Black e o pequeno exército de crias ruivas dos Weasley pudessem depor Voldemort.
Foi Harry. Deve ter sido, porque se Harry Potter matou o grande Lord Voldemort, Lucius Malfoy não teria uma única chance.
Tenho de acreditar nisso, porque Harry Potter acabou comigo.
Uma grande junta de advogados, uma porção de jurados, juízes sentenciadores. Todos me encaram e muitos dele me devem, seja dinheiro, favores ou sangue. Em outras circunstâncias, gaguejariam uns após os outros tentando se desvincular do débito, tentando me agradar, ganhar a minha graça, mas agora...
Línguas lambendo os beiços nervosamente; gananciosos, sentem minha fraqueza e farejam suas próprias oportunidades. Sonserinos, todos eles, mesmo aqueles sorteados para outras casas. Se eu for para Azkaban pelos meus crimes – póstumos e queridos crimes de Narcisa –, todas as dívidas se dissolvem, e os chacais vestidos em uniformes do Ministério podem devorar minha carniça avantajada.
E encaram, os lobos, as najas, as hienas e abutres, e me contenho como o homem que fui, como um Malfoy, recusando-me a deixá-los saber que a luz machuca meus olhos. Recuso-me a tirar as vestes elegantes que meu filho me trouxe, embora não sentir aquele frio me deixe nauseado. Recuso-me a deixar que toda essa gente me veja tremer. Recuso-me a me debilitar por todos os olhos que não são verdes, o cabelo que não é escuro e desalinhado, os corpos altos demais ou baixos demais ou gordos demais ou magros demais... Todos os rostos que não são o dele.
Penso em minha querida esposa ao invés disso. Não estou certo de sentir orgulho dela por se adiantar, ou nojo por uma traição planejada tão doentia e precipitadamente. Não posso culpar Narcisa por sua ambição, mas sua impaciência nos custou a guerra. Voldemort, tanto quanto odiava admitir, precisava de mim e nunca vou saber por que ele escolheu contentar minha esposa quando bem sabia que eu nunca o traíra.
Alguém me fez uma pergunta. Pinto sobre mim uma capa de dignidade confusa e ferida antes de responder, desestimulado ao ver o ato menos verdadeiro do que pretendi. Sim, eu era um Comensal da Morte. Não, não recebi a marca voluntariamente. Por quê? Imperius, é claro. Sim, conjurado por Narcisa... Certamente você sabe que ela era a serva de Voldemort mais confiável, não? Minhas desculpas por ofender a corte, sua excelência. Quis dizer Você-Sabe-Quem.
Conforme vai, calculo a linha que devo seguir em cada resposta. Não estou preocupado; sei que saio daqui como um homem livre ao fim. Afinal, já fiz isso antes.
Draco é a varinha sob minha manga. Fez dezoito anos ao longo do julgamento e ganhou acesso aos fundos de poupança que meu pai o deixou. Dinheiro limpo. Seu próprio dinheiro. Aqueles pensando em se virar contra mim agora devem acrescentar o fator da vingança de Draco no preço da minha condenação. Sua lealdade a mim já o despachou em tolos caminhos anteriormente e eles sabem disso.
Não sei de onde surgiu essa lealdade tão grifinória em Draco para comigo, nem eu mesmo tenho ganas de explicar a ele que correr para Dumbledore por minha causa foi uma repugnante traição da nossa causa. Ainda é uma criança e ainda há de aprender a separar seu amor por mim do amor-próprio. Talvez um dia eu explique a ele, mas não até que eu esteja certo de meus motivos.
O rapaz vem me visitar tão freqüentemente quanto seus estudos permitem, subornando os guardas para me permitirem confortos que não quero e me trazendo artefatos uma vez familiares, mas que agora não reconheço mais. A mesinha baixa do Japão e o carpete marroquino parecem obscenos na minha cela fria de pedra e eu gostaria muito de ter um pouco de areia na qual eu pudesse desenhar. Não estou certo do que fazer com uma pena.
Ele também traz um tabuleiro de xadrez e me olha como se eu fosse louco quando sugiro damas.
É através do meu filho que descubro que Harry está em Hogwarts também, terminando sua educação. Draco diz parecer rebaixado – ou, ao menos, posso inferir "rebaixado" de "meus supostos amigos roubaram toda minha glória" -, mas meu filho está bem mais interessado em sua reavivada amizade com Severus Snape do que em qualquer coisa que Harry faça.
Snape. A serpente ardilosa roubou meu filho quando eu estava afastado, convencendo-o de como era correta sua traição, vendendo-o aos princípios da vitória. Draco toma meu silêncio no assunto como aprovação e encena uma obra-prima sobre a perfídia de Severus, enquanto eu tento não perguntar como Snape está lidando com o retorno de Harry.
O resmungo irado de Draco me informa que meus esforços falharam; perguntei. Ele solta uma resposta breve e nada satisfatória, então retorna à sua arrebatadora admiração de um homem que odeio.
Não posso corrigi-lo, estou ocupado demais tentando evitar cair numa armadilha.
O julgamento termina com uma horda de membros da imprensa quase se urinando de ansiedade para conseguir uma palavra minha. Faço uma declaração aqui e ali, meu braço em torno dos ombros de Draco, ambos bancando as vítimas.
De certa forma, eu sou, só que meu tormento não era Narcisa e tampouco terminou minha provação.
A primeira coisa que faço com minha nova liberdade é comprar um disco de músicas infantis. "Alouette" é cantada por uma bruxa com uma voz irritantemente anasalada. Jogo fora.
Pude ignorar o dano ao meu ser até que me atiraram de volta ao mundo. Estou agradecido pelo julgamento, pela casa pequena que me foi providenciada quando me empurravam de uma cela não muito boa e uma corte cheia de gente. Tremo ao imaginar como eu teria me desfeito aos pedaços mais rapidamente se não fossem aqueles meses intermediários.
Sento-me a minha escrivaninha, em minha nova casa, ambos intocados pelo auror raivoso ou a esposa tola. Há coisas que precisam ser feitas e não posso me permitir caprichos. O ministro tomou quase toda minha fortuna, deixando-me apenas com alguns poucos atributos que se provaram livres das maquinações de Narcisa e o montante que escondi para casos desastrosos como esse.
Ainda estou remediado.
Isso não é bom o bastante para um Malfoy.
Não deveria ser bom o bastante.
Assisto à luz que se espalha sobre minha escrivaninha e percebo que estou cantarolando.
Harry Potter acabou comigo.
Como um traficante na Travessa do Tranco, ele me deu amostras de substâncias tóxicas, drogou-me com seu corpo, instigou essa necessidade de carne jovem, viciou-me nos olhos verdes.
A pele dele. Os olhos dele.
Percebo que a deliciosa e mortífera queimação nunca deixará meu sangue. Merlin, eu o odeio.
O jovem sem nome não questiona o ambiente, mas treme de frio. Seus olhos prestam honrarias ao meu corpo ainda admirável, mas sua admiração é muito submissa para me satisfazer. Esse garoto não tem os colhões de enfrentar meu olhar, de olhar de cima, certo de ser melhor, mais justo e honesto que eu.
Esse garoto não se acha melhor que eu e não escolhe me tocar apesar de sua arrogância.
Levo uma hora para gozar e o deixo dolorido e pouca coisa mais rico.
Tenho agora uma pequena coleção de discos, dezenas de versões de "Alouette". Nenhum dos cantores diz "cotovia" daquele jeito gentil.
Draco, meu garoto brilhante e querido, mais uma vez aparece para mim e me traz um único fio de cabelo. Pergunta o que planejo com ele e posso ver o rosnar de Severus perpassar o rosto que um dia pertenceu unicamente a mim e sinto o sermão se formando sob a pele como a luz da lua, prestes a explodir com broncas no estilo do traidor sobre quão errado é colocar uma pessoa no lugar de outra. Todo o fanatismo dos convertidos.
Então conto a ele e seu nojo e horror me deliciam.
A experiência com o polissuco vai muito, muito mal e quase mato o prostituto com minha frustração. "Avada" escapa dos meus lábios antes que os arregalados, amedrontados olhos verdes, que um dia refletiram a maldição da morte, detenham-me. Apago sua memória e deixo meus galeões sobre a mesa.
Harry Potter acabou comigo como uma criança quebra um brinquedo, sem nenhum cuidado, curiosa, inocente em sua devastadora exploração. Sem compreender o que fez, o dano que me trouxe, sem entender a natureza irreversível da destruição. Ele me arrebentou, pedaço por pedaço; arrancou meus olhos, minha língua, minha mente, meu coração e me deixou estripado.
Eu me excito só de pensar nisso.
Um dia em junho, uma cotovia pousa no parapeito da janela.
Eu a petrifico, sentindo apenas seu coração pulsando loucamente contra minha palma. "Alouette", eu sussurro. "Je suis desolé. Vous devez mourir, parce qu'il m'a plume. Je suis desolé. Je suis desolé".¹
E eu sinto.
Draco volta para casa conforme junho cede espaço a julho. Ele não fica muito aqui e eu entendo que esse lugar estranho é apenas um lar temporário, antes que ele alce vôo por conta própria. Sua própria carreira. Sua própria vida. Deixo-o partir, sabendo que o perdi mais ainda que um ano atrás e tento segurar a língua sempre que ele traz Severus para casa.
Pergunto-me se Harry terá gostado de seu presente e ignoro todas as vezes que Severus segura a mão do meu filho.
Cacete. Aquele desgraçado acabou comigo.
"Como eu amo essa luz".
Merlin, eu também. Faz com que ele pareça menos que uma criatura selvagem, amacia seus anjos e acalma os olhos flamejantes. As pobres aves decoram seu apartamento agora: belos, selvagens, refinados, desolados. Como ele é, como eu sou. Ele fica maravilhoso ao se recusar a me reconhecer.
Faça eu me arrastar até você.
Tento novamente. "Adoro como colore seus olhos, como os aprofunda e acalma sua ansiedade".
Faça-me implorar.
Ele faz, com uma única pena nos lábios, e eu imploro. "Não me deixe. Estou tão perdido". As palavras caem como um sonho emergindo do subconsciente, catarse, só eu conheço essa confissão. Vivo-a todos os dias. Confesso-a para sempre nesse universo cavernoso, embora preferisse derramá-la em seu corpo, meu altar, nossa dança sacramental despida até a essência.
Deus, como quero o corpo dele dentro de mim.
Beijo sua nuca e ele fala, afinal, sua própria confissão vindo de encontro à minha, como recompensa. Seu sotaque melhorou, andou praticando e o embalo devastador de sua voz me alquebra completamente e eu gemo e obedeço como posso. Beijo-o e o toco como ele ordena.
"Case comigo".
As palavras estão suspensas no ar e, por um momento, fico aterrorizado que ele as tenha dito, mas então ele responde e noto que fui eu quem pedi; eu estava acabado, não Harry. Nunca Harry.
Sim.
Sim.
Sim.
Harry Potter acabou comigo e por isso eu o amo, embora não saiba dizer como. Ele me captura e meu coração bate tão rápido como bateu o da cotovia antes que eu a matasse, quando ele traz seus lábios até os meus.
¹ "Alouette," eu sussurro."Je suis desolé. Vous devez mourir, parce qu'il m'a plume. Je suis desolé. Je suis desolé".
"Cotovia", eu sussurro. "Sinto muito. Você deve morrer, porque ele arrancou minhas penas. Sinto muito. Sinto muito".
N/T: E eu sinto muito por ter levado tanto tempo nessa tradução! Mas não se preocupem, as fanfics vão sendo traduzidas, betadas e publicadas aos pouquinhos. Espero que tenham gostado. A terceira e última parte da trilogia deverá vir em menos tempo. Agradecemos enormemente os comentários positivos que recebemos e ficamos muitos felizes que vocês estejam aprovando nossas recentes escolhas para traduções.
Um grande beijo.
Rebecca.
N/B: Tocante.
Ivich.
